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Alicerce — Enciclopédia Bíblica e Teológica

Alicerce

(Heb. יָסַד, yāsad, “fundar”, “estabelecer”, “lançar fundamento”; gr. θεμέλιος, themelios, “alicerce”, “fundamento”.)

O alicerce é a parte estrutural sobre a qual uma construção se apoia e da qual depende, em grande medida, sua estabilidade. Essa realidade arquitetônica fornece à linguagem bíblica uma imagem particularmente expressiva: aquilo que está na base de uma construção determina sua capacidade de permanecer quando submetida a peso, movimento ou forças externas. O sentido concreto permanece claramente perceptível em textos como At 16.26, onde um terremoto abala os alicerces da prisão, e Lc 6.48–49, no qual a estabilidade ou ruína de uma casa depende da maneira como foi estabelecida sua base. O subs. θεμέλιος, themelios (“alicerce”, “fundamento”), designa precisamente essa base de sustentação e, a partir dela, desenvolve ampla utilização metafórica no NT (Mounce, 2006: 259–260).

No AT, a linguagem de fundação aparece tanto em descrições de construções quanto em representações cosmológicas, políticas e teológicas. Jó 38.4–6 descreve poeticamente a criação da terra por meio da linguagem de um edifício cujas medidas são determinadas e cujo fundamento e pedra angular são estabelecidos. Em outros contextos, a imagem pode expressar estabilidade social ou institucional (Sl 11.3), a fundação do templo (1Rs 5.31–32; Esd 3.10–11) ou a promessa de uma pedra firmemente estabelecida em Sião (Is 28.16). A imagem arquitetônica conserva sua força precisamente porque o fundamento é concebido como elemento oculto ou inferior da construção, mas indispensável à permanência do conjunto.

O NT recebe e amplia esse campo imagético. Jesus emprega a oposição entre fundação segura e construção instável para representar a diferença entre ouvir suas palavras e praticá-las ou ouvi-las sem obedecer (Mt 7.24–27; Lc 6.46–49). Paulo aplica a linguagem da construção à formação da comunidade cristã, identificando Jesus Cristo como o fundamento que não pode ser substituído em 1Co 3.10–11; Ef 2.20 combina a imagem do fundamento dos apóstolos e profetas com Cristo como pedra angular; Heb 6.1 utiliza “fundamento” para os elementos iniciais da instrução cristã; e Ap 21.14, 19 apresenta os fundamentos da muralha da Nova Jerusalém como componentes da arquitetura simbólica da cidade escatológica (Mounce, 2006: 259–260).

A imagem do alicerce, portanto, percorre diferentes níveis do discurso bíblico: construção literal, criação, estabilidade, revelação, obediência, comunidade e esperança escatológica. Esses níveis não devem ser fundidos indiscriminadamente. A linguagem arquitetônica fornece a imagem básica; seus significados teológicos resultam dos contextos particulares em que essa imagem é reutilizada.

I. Terminologia e realidade arquitetônica

O campo semântico de “alicerce” é expresso por mais de uma família lexical, e uma distinção inicial é particularmente necessária. O vocabulário que descreve a colocação ou existência de um fundamento arquitetônico não é idêntico à expressão convencional “fundação do mundo”. No primeiro caso, os textos recorrem especialmente à família hebraica de יָסַד, yāsad (“fundar”, “estabelecer”), e ao grego θεμέλιος, themelios (“alicerce”, “fundamento”); no segundo, o NT emprega καταβολή, katabolē (“fundação”, “estabelecimento”), sobretudo na expressão καταβολὴ κόσμου, katabolē kosmou (“fundação do mundo”). A proximidade das traduções portuguesas não elimina a diferença lexical e contextual entre essas construções.

A palavra heb. יָסַד, yāsad (“fundar”, “estabelecer”), pode descrever o ato concreto de lançar os fundamentos de uma estrutura. A mesma família lexical, entretanto, é empregada poeticamente para apresentar a criação como empreendimento construtivo. Em Jó 38.4, Yahweh pergunta a Jó onde ele estava quando a terra foi fundada; a sequência prossegue com medidas, bases e pedra angular (Jó 38.5–6). O emprego não pretende fornecer uma descrição técnica da estrutura física do planeta, mas transfere para a criação a linguagem conhecida do construtor que planeja, mede e estabelece uma edificação. O valor da metáfora reside na ordem e na competência atribuídas ao Criador, não na postulação de uma arquitetura subterrânea literal da terra.

A mesma linguagem pode referir-se a edifícios históricos. O templo salomônico foi erguido sobre grandes pedras preparadas para sua infraestrutura (1Rs 5.31–32), enquanto Esd 3.10–13 apresenta o lançamento dos fundamentos do segundo templo como acontecimento público de grande intensidade ritual e emocional. Nesses textos, o fundamento não funciona apenas como imagem abstrata: ele pertence ao processo efetivo de construção e assinala o momento em que o projeto começa a adquirir permanência material.

No gr. do NT, θεμέλιος, themelios (“alicerce”, “fundamento”), conserva esse sentido estrutural. At 16.26 fala dos fundamentos da prisão abalados pelo terremoto, enquanto Lc 6.48 descreve o construtor que escava profundamente e estabelece o fundamento sobre a rocha. O valor metafórico posterior depende desse sentido físico básico: um fundamento sustenta aquilo que se ergue sobre ele e confere estabilidade ao conjunto (Mounce, 2006: 259). A própria linguagem da pedra angular pressupõe essa realidade arquitetônica, pois uma pedra estrutural cuidadosamente escolhida podia participar da orientação e estabilidade das paredes que se elevavam a partir da base (Beck, 2011: 54–55).

Καταβολή, katabolē (“fundação”, “estabelecimento”), requer tratamento separado. Na expressão “fundação do mundo” (p. ex., Mt 25.34; Jo 17.24; Ef 1.4; Hb 4.3; 1Pe 1.20), o termo funciona como designação do princípio ou estabelecimento da ordem criada, não como nome de um componente arquitetônico equivalente aos θεμέλια, themelia (“alicerces”), de uma construção. Consequentemente, textos sobre os “alicerces da terra” e textos sobre a “fundação do mundo” podem participar de um campo conceitual relacionado à origem e estabelecimento, mas não devem ser tratados como se empregassem o mesmo vocabulário ou exprimissem necessariamente a mesma imagem.

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