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Jessé — Enciclopédia Bíblica e Teológica

Jessé

(Heb. yišay)

Pai de Davi e membro de uma família de Belém, em Judá, Jessé ocupa posição decisiva nas tradições genealógicas da dinastia davídica. Era filho de Obed e neto de Boaz e Rute, conforme Rt 4.17, 22 e 1Cr 2.12, e sua descendência é posteriormente incorporada às genealogias de Jesus em Mt 1.5–6 e Lc 3.32. A etimologia de seu nome não é segura, de modo que propostas que o explicam como abreviação de outro nome devem permanecer hipotéticas. As fontes bíblicas também divergem na enumeração de seus filhos: 1Sm 16.10–11 e 17.12 pressupõem oito filhos, sendo Davi o mais novo, enquanto 1Cr 2.13–16 registra sete filhos e acrescenta Zeruia e Abigail. A tentativa de explicar essa diferença pela morte de um filho sem descendência é possível, mas não é afirmada pelo texto (Whitelam, 1992: 3.772).

Nas narrativas de Samuel, Jessé aparece sobretudo em função da ascensão de Davi. Quando Samuel é enviado a Belém para ungir o futuro rei, os filhos mais velhos de Jessé são apresentados sucessivamente até que Davi, então ocupado com o rebanho, seja chamado e escolhido (1Sm 16.1–13). Posteriormente, Jessé envia Davi à corte de Saul com provisões (1Sm 16.19–22) e, no episódio da campanha contra os filisteus, manda-o levar alimento aos três irmãos mais velhos que serviam no exército (1Sm 17.12–18). Durante a perseguição de Saul, Davi conduz seu pai e sua mãe para Moabe, buscando proteção para eles enquanto permanecia em situação de risco (1Sm 22.3–4). A conexão moabita é particularmente significativa no quadro literário mais amplo, pois Rute, bisavó de Davi segundo a genealogia do livro que leva seu nome, era moabita (Whitelam, 1992: 3.772).

A expressão “filho de Jessé” adquire diferentes valores dentro da tradição bíblica. Na boca de Saul pode funcionar depreciativamente, evitando inclusive nomear Davi diretamente (1Sm 20.27, 30–31; 22.7–8); aparece também em contextos de rejeição ou conflito, como em 1Sm 25.10 e 1Rs 12.16. Em outros textos, porém, a filiação a Jessé integra positivamente a identidade de Davi e de sua dinastia (1Cr 10.14; 29.26; At 13.22). Essa função alcança sua maior importância teológica em Is 11.1, onde um rebento surge do tronco de Jessé, imagem de renovação da realeza davídica, e em Is 11.10, onde a “raiz de Jessé” se torna sinal para os povos. A tradição cristã recebeu esta última passagem em sentido messiânico: Paulo cita Is 11.10 em Rm 15.12 para interpretar a esperança das nações em relação a Cristo. Assim, Jessé, figura relativamente discreta nas narrativas históricas, torna-se um ponto genealógico e simbólico fundamental para a esperança vinculada à casa de Davi (Whitelam, 1992: 3.772–773).

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