Jonas (Profeta) — Enciclopédia Bíblica e Teológica
JONAS
(Heb. יוֹנָה [yônâ]; Gr. Ἰωνᾶς [Iōnas]; Ár. يُونُس [Yūnus]; Lat. Ionas.)
Jonas, filho de Amitai, foi um profeta israelita associado ao reino do Norte durante o reinado de Jeroboão II, no século VIII a.C. A atestação bíblica mais direta a seu respeito encontra-se em 2Rs 14.25, que o identifica como natural de Gate-Hefer e relaciona sua atividade profética à restauração territorial de Israel. No livro bíblico que leva seu nome, Jonas é apresentado como o profeta enviado por Deus a Nínive, cuja resistência à missão e reação à misericórdia concedida à cidade constituem o centro da narrativa. A convergência de nome e patronímico estabelece uma vinculação deliberada com o profeta mencionado em 2Rs, embora essa identificação, por si só, não resolva as questões relativas à data, ao gênero e à historicidade da narrativa. Sua figura adquiriu ampla relevância nas tradições judaica e cristã e, como Yūnus, na tradição islâmica.
Índice
- I. Nome e identificação
- II. Jonas no reinado de Jeroboão II
- III. O Jonas de 2Rs e o Jonas do livro
- IV. Jonas como personagem profética
- V. Jonas e a identidade do profeta
- VI. Perfil teológico de Jonas
- VII. Jonas no Livro dos Doze
- VIII. Historicidade, gênero e limites biográficos
- IX. Jonas nas tradições posteriores
I. Nome e identificação
A identificação de Jonas repousa em três elementos preservados nas tradições bíblicas: o nome, a filiação a Amitai e a procedência de Gate-Hefer. Esses dados oferecem o núcleo onomástico e geográfico pelo qual o profeta é reconhecido.
A. O nome Jonas
O nome hebraico יוֹנָה (yônâ) significa “pomba”. A LXX transmite Ἰωνᾶς (Iōnas) e a Vulgata, Ionas. Sasson observa que derivações alternativas ou tentativas de fazer do nome, desde o início, uma chave simbólica da narrativa são filologicamente desnecessárias, pois o substantivo hebraico possui por si mesmo o sentido comum de “pomba” (Sasson, 1990: 67–68, Jonah, ed. Doubleday).
A associação do nome com as imagens de Efraim como pomba em Os 7.11 e 11.11 pertence ao nível da interpretação literária, não da etimologia. O possível valor simbólico do nome não determina sua atribuição histórica ao profeta (cf. § III.C; Sasson, 1990: 68).
B. Jonas, filho de Amitai
2Rs 14.25 e Jn 1.1 apresentam a mesma combinação de nome e patronímico. Em Jn, a fórmula “E veio a palavra do Senhor a Jonas, filho de Amitai, dizendo” (Jn 1.1, ACF) estabelece uma conexão explícita com o profeta conhecido em 2Rs. A correspondência é significativa porque 2Rs 14.25 constitui o único testemunho bíblico independente que fornece informações biográficas concretas sobre Jonas.
A notícia de 2Rs situa-o no horizonte de Jeroboão II e associa sua palavra à recuperação territorial de Israel. Para além dessa referência e da mensagem nela preservada, não há documentação segura para reconstruir sua idade, duração do ministério, posição institucional ou outras circunstâncias de sua vida (Cogan; Tadmor, 1988: 160–161, II Kings, ed. Doubleday). A missão a Nínive pertence ao retrato narrativo de Jn (cf. §§ III.A–B).
C. Gate-Hefer
Jonas é identificado em 2Rs 14.25 como natural de Gate-Hefer (Heb. גַּת־הַחֵפֶר, gat-haḥēper), localidade mencionada também nos limites de Zebulom (Js 19.13). O dado situa sua origem na Galileia e o ancora geograficamente no reino do Norte (cf. § II).
Cogan e Tadmor registram a tradição de Jerônimo que localizava Gate-Hefer nas proximidades da atual Mashhad, a cerca de duas milhas de Séforis na direção de Tiberíades. A tradição antiga deve ser distinguida da identificação arqueogeográfica moderna (Cogan; Tadmor, 1988: 161).
Veja também: Gate-Hefer; Amitai; Jeroboão II.
II. Jonas no reinado de Jeroboão II
2Rs 14.25 constitui a principal base documental para situar historicamente Jonas. A notícia o associa à recuperação política de Israel sob Jeroboão II e preserva a única profecia atribuída a ele fora do livro homônimo.
A. O testemunho de 2Rs 14.25
Segundo 2Rs 14.25, Jeroboão II “restituiu os termos de Israel, desde a entrada de Hamate, até ao mar da planície”, conforme a palavra do Senhor transmitida pelo ministério de Jonas (2Rs 14.25, ACF). No MT (BHS), ele é designado servo de YHWH e profeta. Sua mensagem conhecida estava vinculada à restauração territorial israelita (Cogan; Tadmor, 1988: 160–161).
O alcance descrito, de Lebo-Hamate ao mar da Arabá, representa uma expansão expressiva para o reino setentrional. O relato de 2Rs interpreta essa recuperação não apenas como êxito militar de Jeroboão, mas como resposta divina à extrema aflição de Israel (2Rs 14.26–27). A profecia de Jonas integra essa leitura teológica da restauração nacional (Cogan; Tadmor, 1988: 161–163).
Esse testemunho possui valor próprio e não depende da narrativa de Jn. 2Rs nada informa sobre Nínive, o grande peixe ou a fuga do profeta; preserva Jonas como mediador de uma palavra favorável a Israel. A diferença entre os dois retratos torna-se relevante para a relação literária entre 2Rs e Jn (cf. § III).
B. Contexto político
O reinado de Jeroboão II correspondeu a uma fase de recuperação israelita depois das perdas impostas por Aram-Damasco. O enfraquecimento de Damasco diante da Assíria e as condições internas assírias durante parte da primeira metade do século VIII ampliaram a margem de ação dos Estados ocidentais (Cogan; Tadmor, 1988: 161–163).
A recuperação política não elimina o quadro de crise interna testemunhado por Amós. A coexistência de prosperidade, expansão territorial e denúncia profética situa a notícia sobre Jonas em um ambiente no qual êxito nacional e avaliação teológica do reino não coincidiam necessariamente.
Lawrence situa a atividade anunciadora de Jonas imediatamente antes ou nos primeiros anos do reinado de Jeroboão II e propõe, como reconstrução histórica, aproximadamente 800–770 a.C. (Lawrence, 1986: 122–123, “Assyrian Nobles and the Book of Jonah”, ed. Tyndale House). A prosperidade do período coexistiu com as desigualdades denunciadas por Amós (Am 4.1; 5.11–12; 6.4–7). Nesse contexto, Cogan e Tadmor contrapõem a proclamação nacional favorável atribuída a Jonas à crítica de Amós contra a autoconfiança política e social do reino (Cogan; Tadmor, 1988: 163).
C. Perfil histórico possível
O perfil recuperável permanece restrito: Jonas foi um profeta israelita, filho de Amitai, proveniente de Gate-Hefer, cuja atividade pode ser situada antes ou durante Jeroboão II. Não há registro independente de outras palavras suas ou da extensão de seu ministério (Cogan; Tadmor, 1988: 161; Sweeney, 2000: 304, The Twelve Prophets, ed. Liturgical Press).
A associação de Jonas com uma palavra de restauração nacional pode ter contribuído para sua escolha como protagonista de Jn. Scolnic propõe que esse dado acentua a tensão entre a misericórdia concedida a Israel e aquela posteriormente estendida a Nínive (Scolnic, 2021: 263–267, “The Prophet of Second Chances:...”, ed. Brill). Trata-se de interpretação literária, não de informação biográfica (cf. § III.C).
Veja também: Jeroboão II; Reino do Norte; Assíria; Amós.
III. O Jonas de 2Rs e o Jonas do livro
A relação entre 2Rs 14.25 e Jn exige distinguir identificação literária e reconstrução histórica. A combinação “Jonas, filho de Amitai” vincula as duas apresentações; essa correspondência, porém, não decide por si só autoria, datação ou historicidade da narrativa.
A. A identidade nominal
Jn 1.1 repete exatamente o nome e o patronímico conhecidos em 2Rs 14.25. A precisão torna improvável a leitura das duas figuras como personagens inteiramente independentes e incorpora à narrativa a memória do profeta associado a Jeroboão II (Scolnic, 2021: 264–265; Ben Zvi, 2003: 43–46, Signs of Jonah, ed. Sheffield Academic Press).
A identificação literária não implica que Jn tenha sido escrito pelo próprio profeta nem que todos os episódios narrados funcionem como documentação biográfica. Uma figura histórica pode ser reelaborada literariamente, com novos episódios e funções teológicas. Cho lê precisamente as duas apresentações em relação, preservando suas diferenças de perspectiva (Cho, 2024: 286–287, “Two Jonahs within the Reader’s Eyes:...”, ed. Korean Society of Old Testament Studies) (cf. § VIII.B).
B. Questão histórica e literária
2Rs preserva apenas uma palavra de restauração dirigida a Israel; não descreve personalidade, reações ou relações de Jonas com povos estrangeiros. Jn, ao contrário, constrói extensamente a personagem por meio da comissão, fuga, tempestade, oração, nova missão, pregação e protesto contra a clemência divina. As finalidades literárias dos dois testemunhos são distintas.
2Rs 14.25 situa a atividade conhecida de Jonas no século VIII a.C., mas não fornece data para a composição de Jn. A existência do profeta e a formação do livro constituem problemas diferentes. Mesmo uma composição posterior poderia pressupor o conhecimento da personagem mencionada em 2Rs (Scolnic, 2021: 265–266). O dado histórico e a representação narrativa permanecem analiticamente distintos (cf. §§ IV–V; VIII).
C. Por que Jonas?
A escolha de Jonas ganha relevo porque a única profecia atribuída a ele em 2Rs esteve associada ao alívio e à restauração de Israel. Jn coloca o mesmo profeta diante de outra coletividade ameaçada e posteriormente poupada. A misericórdia concedida a Israel em 2Rs 14.26–27 forma, nessa leitura, contraponto à clemência concedida a Nínive em Jn 3–4.
Scolnic desenvolve essa relação em torno de sucessivas “segundas oportunidades” concedidas a Israel, a Jonas e a Nínive (Scolnic, 2021: 263–267). A notícia de 2Rs não autoriza atribuir ao Jonas histórico hostilidade pessoal a estrangeiros. Cogan e Tadmor apenas o situam no horizonte de uma proclamação nacional favorável a Israel, em contraste com a crítica de Amós (Cogan; Tadmor, 1988: 163). A força da associação é literária: o profeta ligado à restauração israelita torna-se o mensageiro por meio do qual uma cidade estrangeira escapa do juízo.
A tensão se torna ainda mais significativa diante da história posterior da Assíria, que viria a destruir o reino do Norte (2Rs 17.5–6). Jn, porém, não deve ser lido como simples retrojeção dessa catástrofe: a relação entre Jonas, Israel e Nínive funciona literariamente sem exigir que cada atitude do protagonista seja transferida ao profeta histórico.
Veja também: Livro de Jonas; Nínive; Assíria; Jeroboão II.
IV. Jonas como personagem profética
Jn desenvolve Jonas por meio de ações, deslocamentos, silêncios e reações, em contraste com a breve notícia de 2Rs. O profeta conhece a soberania de YHWH, resiste à comissão, cumpre posteriormente a ordem e contesta o resultado de sua própria pregação. Essa tensão organiza sua caracterização.
A. Chamado e fuga
A primeira comissão ordena: “Levanta-te, vai à grande cidade de Nínive, e clama contra ela” (Jn 1.2, ACF). Jonas se levanta, mas segue para Társis, “para longe da presença do Senhor” (Jn 1.3, ACF). A recusa é reforçada pelo motivo de descida a Jope, ao navio e ao interior da embarcação, que Magonet relaciona ao afastamento da missão (Magonet, 1983: 16–17, Form and Meaning, ed. Almond Press). A razão da fuga só é explicitada em Jn 4.2, depois que Nínive é poupada (Simon, 1999: xxii–xxiii, Jonah, ed. Jewish Publication Society).
B. Jonas no mar
Na tempestade, os marinheiros clamam, agem para salvar a embarcação e procuram preservar Jonas, enquanto o profeta dorme e depois propõe ser lançado ao mar (Jn 1.4–12). A inversão de papéis acentua a ironia narrativa. Interrogado, Jonas se identifica como hebreu e declara temer ao Senhor, “o Deus do céu, que fez o mar e a terra seca” (Jn 1.9, ACF), confessando precisamente a soberania que sua fuga parecia desafiar.
Depois que Jonas é lançado ao mar, os marinheiros temem ao Senhor, oferecem sacrifícios e fazem votos (Jn 1.10–16). Simon observa a progressão religiosa dos estrangeiros, enquanto Trible destaca a relação retórica entre sua tentativa de preservar o profeta e a disposição deste de desaparecer no mar (Simon, 1999: 7–14; Trible, 1994: 146–149, Rhetorical Criticism, ed. Fortress Press).
C. Oração, libertação e nova comissão
O grande peixe interrompe a descida de Jonas. Do interior do animal, o profeta ora e descreve sua experiência em linguagem de afundamento, morte iminente e restauração; o movimento culmina no reconhecimento de que Deus fez sua vida subir da perdição (Jn 2.1–10; 2.6, ACF). Magonet relaciona essa oposição entre descida e elevação ao padrão de movimentos da narrativa (Magonet, 1983: 39–40).
A oração demonstra dependência diante do livramento, mas não registra mudança de posição quanto a Nínive. Depois de ser depositado em terra, Jonas recebe a palavra “segunda vez” (Jn 3.1, ACF) e agora cumpre a comissão (Jn 3.2–3).
D. Pregação em Nínive
Jonas proclama: “Ainda quarenta dias, e Nínive será subvertida” (Jn 3.4, ACF). Embora o anúncio não contenha apelo explícito ao arrependimento nem promessa formal de perdão, os ninivitas alteram sua conduta, e Deus não executa a calamidade anunciada (Jn 3.5–10). A eficácia da proclamação contrasta com a resistência inicial do mensageiro (Simon, 1999: 25–33).
E. Ira diante da misericórdia divina
A preservação de Nínive provoca a indignação de Jonas. Em Jn 4.2, ele explica a fuga pelo conhecimento prévio do caráter compassivo e misericordioso de Deus (Jn 4.2, ACF). O conflito deixa de ser apenas resistência à comissão e passa a envolver rejeição de seu desfecho (Simon, 1999: 34–40).
As perguntas divinas e o episódio da planta deslocam a controvérsia para a legitimidade da compaixão por Nínive (Jn 4.4–11). A narrativa termina sem registrar resposta de Jonas, deixando sua transformação em aberto e mantendo abertas questões proféticas e teológicas relativas à identidade e ao perfil da personagem (cf. §§ V–VI).
Veja também: Livro de Jonas; Társis; Nínive; Grande Peixe; Misericórdia de Deus.
V. Jonas e a identidade do profeta
Jonas pertence à tradição profética, mas sua caracterização tensiona elementos centrais dessa identidade. Ele recebe a palavra divina, é comissionado e proclama uma mensagem eficaz, embora resista ao Deus cuja palavra comunica.
A. Profeta ou “antiprofeta”?
Jn não aplica explicitamente a Jonas o substantivo “profeta”, mas sua função é pressuposta pela fórmula de comissão e pela ligação com 2Rs 14.25. Schellenberg observa que a personagem é colocada em continuidade com figuras como Elias e Jeremias e, ao mesmo tempo, construída de modo tragicômico, frequentemente aquém dos modelos proféticos evocados pela narrativa (Schellenberg, 2015: 354–355, “An Anti-Prophet among the Prophets? On the Relationship of Jonah to Prophecy”, ed. SAGE).
“Antiprofeta” funciona apenas como categoria interpretativa. Jonas não é falso profeta: sua comissão provém de YHWH e sua proclamação produz efeito. O conflito reside na resistência do mensageiro às implicações da própria palavra que anuncia.
Jn 4.2 explicita a profundidade da resistência. Jonas conhece a tradição que descreve YHWH como compassivo e misericordioso, mas converte esse conhecimento em fundamento de sua queixa. Sua dificuldade não é falta de conhecimento teológico, mas oposição às consequências concretas desse conhecimento.
B. A relutância de Jonas
A resistência de Jonas difere das objeções de Moisés e Jeremias. Moisés contesta sua capacidade (Êx 3.11–4.17) e Jeremias invoca sua juventude (Jr 1.6); Jonas não argumenta, mas parte na direção oposta à missão (Schellenberg, 2015: 355). A comparação com a tradição intercessória também é significativa: Moisés e Amós suplicam diante do juízo (Êx 32.11–14; Am 7.2, 5), enquanto Jonas protesta quando Nínive é poupada.
A aproximação com Elias igualmente funciona por contraste. Ambos desejam morrer (1Rs 19.4; Jn 4.3, 8), mas Elias sofre sob ameaça decorrente de seu confronto profético, ao passo que Jonas reage à preservação da cidade contra a qual pregou (Schellenberg, 2015: 356–357).
C. A dimensão metaprofética
A narrativa transforma Jonas em veículo de reflexão sobre o cumprimento da profecia. A ameaça de Jn 3.4 não se realiza como destruição porque a cidade modifica sua conduta. Ben Zvi identifica nesse mecanismo uma dimensão metaprofética: a eficácia da palavra pode residir na transformação que provoca, e não apenas na correspondência mecânica entre anúncio e acontecimento (Ben Zvi, 2009: 13, “Jonah 4:11 and the Metaprophetic Character of the Book of Jonah”, ed. University of Alberta Library).
Schellenberg relaciona essa ambiguidade à reflexão dos transmissores da literatura profética sobre a própria tradição (Schellenberg, 2015: 364–366). A autoridade da palavra pertence a YHWH; o mensageiro não controla seus efeitos.
VI. Perfil teológico de Jonas
A teologia da personagem concentra-se na distância entre conhecimento e aceitação. Jonas conhece YHWH como soberano e misericordioso, mas resiste às consequências concretas desse conhecimento. Magonet inclui essa tensão entre as polaridades fundamentais do livro (Magonet, 1983: 89–90).
A. Jonas e a misericórdia divina
Jn 4.2 explicita o conflito: Jonas declara ter fugido porque sabia que o Senhor é “Deus compassivo e misericordioso, longânimo e grande em benignidade” (Jn 4.2, ACF). A formulação retoma Êx 34.6–7. Timmer observa que o profeta acentua os atributos de graça e compaixão, de modo que sua queixa nasce do fato de Deus agir conforme o caráter que ele próprio conhece (Timmer, 2011: 119–123, A Gracious and Compassionate God, ed. IVP Academic).
B. Israel e as nações
Marinheiros e ninivitas respondem positivamente à ação divina (Jn 1.16; 3.5–10), estabelecendo contraste com Jonas. Esse dado, porém, não autoriza reduzir o livro a uma oposição entre “universalismo” e “particularismo judaico”. Simon observa que o texto não apresenta Jonas simplesmente como representante de uma hostilidade coletiva aos gentios (Simon, 1999: viii–x), e Sasson igualmente rejeita explicações totalizantes desse tipo (Sasson, 1990: 24–26).
A eleição de Israel não é negada; o problema recai sobre a tentativa de restringir a soberania misericordiosa de Deus. O Jonas que confessa o Senhor como Criador do mar e da terra seca (Jn 1.9, ACF) é confrontado com o alcance universal dessa soberania (Magonet, 1983: 94–99).
C. Palavra profética e arrependimento
O anúncio de Jn 3.4 e a preservação de Nínive colocam em questão uma compreensão mecânica do cumprimento profético. Jr 18.7–10 oferece um paralelo no qual a resposta dos destinatários pode alterar a execução de uma palavra de juízo. Timmer relaciona os textos e ressalta que Jn 3 descreve abandono do “mau caminho” e desistência divina da calamidade, sem empregar vocabulário explícito de perdão (Timmer, 2011: 103, 111–114).
Essa dinâmica se conecta à dimensão metaprofética da narrativa, na qual a relação entre YHWH, o profeta e a palavra anunciada se torna objeto de reflexão; a não execução da catástrofe pode integrar a eficácia da própria advertência (cf. § V.C) (Ben Zvi, 2003: 84–85; Ben Zvi, 2009: 13).
D. Deus e o profeta
O episódio da planta concentra a controvérsia na desproporção entre a preocupação de Jonas com sua sombra e a compaixão de Deus por Nínive (Jn 4.6–11). Sasson destaca a oposição entre a pequena planta e a “grande cidade”, cuja multidão de vidas fundamenta a pergunta final (Sasson, 1990: 308–314).
O silêncio de Jonas impede uma resolução psicológica completa. Ben Zvi entende o encerramento como parte da reflexão sobre profecia, profeta e caráter de YHWH (Ben Zvi, 2003: 95). A última pergunta mantém aberta a tensão entre o conhecimento de Deus e a aceitação de sua liberdade misericordiosa.
VII. Jonas no Livro dos Doze
A posição de Jonas no Livro dos Doze o aproxima de temas presentes em Jl, Ob, Mq e Na, especialmente juízo, arrependimento e misericórdia divina.
A. Posição entre os Doze
No MT, Jn ocupa a quinta posição, depois de Ob e antes de Mq; na LXX, aparece em sexto lugar, imediatamente antes de Na. Sweeney observa o efeito temático da sequência massorética (Sweeney, 2000: 303). Além dessas sequências, 4QXIIa preserva vestígios de uma disposição na qual Jn seguia Ml. A diversidade textual recomenda cautela ao atribuir uma única intenção editorial à posição do livro (Sasson, 1990: 13–14).
B. Relações intertextuais
Jn 3.9 ecoa Jl 2.14 na pergunta sobre a possibilidade de Deus voltar atrás diante do juízo. Nogalski destaca que os ninivitas realizam narrativamente a mudança esperada dos destinatários da proclamação profética (Nogalski, 2011: 441, The Book of the Twelve, ed. Smyth & Helwys). A relação com Na introduz outra tensão: Nínive é poupada em Jn e julgada em Na, sem que a clemência anterior implique imunidade permanente.
Kim propõe que Jn e Na participem de uma tensão deliberada no arranjo dos Doze, articulando misericórdia diante do arrependimento e juízo diante da perversidade (Kim, 2007: 508–509, “Jonah Read Intertextually”, ed. Society of Biblical Literature).
C. Função de Jonas na coleção
Jonas distingue-se formalmente dos demais livros proféticos por concentrar a atenção na personagem do mensageiro. Ben Zvi associa essa diferença a seu caráter metaprofético: a relação entre YHWH, profeta e efeitos da palavra torna-se objeto da própria narrativa (Ben Zvi, 2003: 84–85). A presença de Jonas entre os Doze amplia a reflexão sobre advertência, cumprimento e liberdade divina.
Veja também: Livro dos Doze.
VIII. Historicidade, gênero e limites biográficos
2Rs 14.25 atesta Jonas, filho de Amitai, no reino do Norte e associa sua palavra à recuperação territorial de Israel; para Cogan e Tadmor, essa notícia delimita a reconstrução biográfica segura (Cogan; Tadmor, 1988: 161). Esse dado deve ser distinguido da avaliação histórica do livro homônimo.
A. O dado histórico seguro
Nome, patronímico, procedência e associação com Jeroboão II oferecem um núcleo textual para situar Jonas no século VIII a.C. A fórmula “Jonas, filho de Amitai” estabelece uma vinculação literária evidente entre 2Rs e Jn, sem determinar por si só a extensão histórica dessa relação, a data, o gênero ou a historicidade dos episódios narrados (cf. §§ III.A–B).
Os elementos extraordinários de Jn não invalidam a atestação de 2Rs; inversamente, essa atestação não converte automaticamente todos os episódios narrados em dados biográficos. Figura histórica e elaboração literária devem ser avaliadas em planos relacionados, mas distintos.
B. Historicidade e gênero da narrativa
A classificação de Jn permanece discutida. Wolff o descreve como narrativa didática próxima da novela (Wolff, 1986: 80–85, Obadiah and Jonah, ed. Augsburg Publishing House), enquanto Sasson considera insuficiente reduzir a questão ao binômio “história ou ficção”, dada a combinação de elementos historicizantes e recursos literários (Sasson, 1990: 326–327).
Stuart sustenta uma leitura amplamente histórica e entende a elaboração literária ou os elementos extraordinários como compatíveis com a factualidade dos acontecimentos (Stuart, 1987: 435–438, Hosea–Jonah, ed. Word Books). Simon, em direção distinta, ressalta a ausência de vários marcadores característicos da historiografia e atribui primazia ao interesse teológico-literário (Simon, 1999: xvii).
C. Limites de uma biografia de Jonas
Gate-Hefer, Amitai e a atividade relacionada à expansão de Israel pertencem aos dados de 2Rs 14.25. A fuga para Társis, a tempestade, o peixe, a missão em Nínive e a planta pertencem ao retrato narrativo de Jn e não constituem, sem argumentação adicional, documentação biográfica independente. A distinção entre o Jonas atestado por 2Rs e o Jonas literariamente desenvolvido em Jn preserva separados os problemas de biografia, composição, gênero e historicidade.
IX. Jonas nas tradições posteriores
A recepção de Jonas desenvolveu-se amplamente no judaísmo, cristianismo e islamismo, com ênfases distintas em arrependimento, misericórdia, libertação e vocação profética (Tiemeyer, 2022: 1–8, Jonah Through the Centuries, ed. Wiley Blackwell).
A. Na tradição judaica
Tradições judaicas antigas, rabínicas e medievais ampliaram a biografia de Jonas e reinterpretaram sua fuga, seu papel profético e o arrependimento de Nínive. Vorpahl acompanha esses eixos no discurso intrajudaico de recepção, especialmente na elaboração rabínica da penitência, da profecia e das tradições sobre Jonas ben Amitai (Vorpahl, 2021: 318–320, 358–360, 413–415, Aus dem Leben des Buches Jona, ed. De Gruyter).
A associação litúrgica mais duradoura é com o Yom Kippur, quando Jonas é lido como haftarah no serviço vespertino (Minḥah). O costume é explicitamente atestado em b. Meg. 31a, mas sua antiguidade e distribuição anterior permanecem incertas (Stökl Ben Ezra, 2003: 55–59, The Impact of Yom Kippur on Early Christianity, ed. Mohr Siebeck; Vorpahl, 2021: 355–357).
B. Jonas no NT
No NT, Jonas aparece sobretudo no “sinal de Jonas” (Mt 12.38–41; 16.1–4; Lc 11.29–32). Mt 12.40 associa sua permanência no ventre do peixe aos três dias e três noites do Filho do Homem no coração da terra, enquanto Mt e Lc empregam a resposta dos ninivitas como contraste judicial diante dos contemporâneos de Jesus. Esses textos fundamentaram a posterior tipologia cristã de Jonas como figura da morte e ressurreição de Cristo (Tiemeyer, 2022: 4–5).
C. No cristianismo antigo e posterior
Na recepção cristã antiga, a descida ao mar, a permanência no peixe e a saída de Jonas tornaram-se imagens de sofrimento, morte e ressurreição, inclusive na arte funerária (Tiemeyer, 2022: 83–84). Teodoro de Mopsuéstia combinou leitura sequencial da narrativa e interpretação tipológica cristológica (Köckert, 2011: 9–11, “Der Jona-Kommentar des Theodor von Mopsuestia:...”, ed. De Gruyter). Parte da tradição patrística empregou ainda os ninivitas arrependidos em polêmica antijudaica, linha posteriormente contestada por exegetas judeus (Tiemeyer, 2022: 5–6).
D. Yūnus na tradição islâmica
No islamismo, Jonas é conhecido como يُونُس (Yūnus) e também pelos epítetos ذو النون (Dhū al-Nūn, “o do peixe”) e صاحب الحوت (Ṣāḥib al-ḥūt, “o homem do peixe”). O Alcorão o menciona em 4.163; 6.86; 10.98; 21.87–88; 37.139–148; 68.48–50. A tradição islâmica preserva sua condição profética e relaciona sua experiência à perseverança diante da rejeição da mensagem (Tiemeyer, 2022: 7–8).
O tafsīr posterior desenvolveu uma recepção própria a partir das alusões corânicas, discutindo sobretudo a natureza da falta de Yūnus, sua ira e a ordem dos acontecimentos. Essas reelaborações não reproduzem simplesmente a sequência bíblica, mas integram Jonas ao repertório profético islâmico (Tiemeyer, 2022: 7–8).
Veja também: Sinal de Jonas.
Abreviaturas e siglas
Livros da Bíblia
Êx = Êxodo.
Js = Josué.
1Rs = Primeiro Livro dos Reis.
2Rs = Segundo Livro dos Reis.
Jr = Jeremias.
Os = Oseias.
Jl = Joel.
Am = Amós.
Ob = Obadias.
Jn = Jonas.
Mq = Miqueias.
Na = Naum.
Ml = Malaquias.
Mt = Mateus.
Lc = Lucas.
Fontes primárias e textos antigos
4QXIIa = manuscrito dos Doze Profetas de Qumran.
b. Meg. = Talmude Babilônico, tratado Megillah.
LXX = Septuaginta.
MT = Texto Massorético.
Vulgata = versão latina da Bíblia.
Versões e edições da Bíblia
ACF = Almeida Corrigida Fiel.
BHS = Biblia Hebraica Stuttgartensia.
Siglas e convenções gerais
a.C. = antes de Cristo.
Ár. = árabe.
cf. = compare.
Gr. = grego.
Heb. = hebraico.
Lat. = latim.
NT = Novo Testamento.
YHWH = tetragrama do nome divino.
Bibliografia
BÍBLIA SAGRADA. Almeida Corrigida Fiel. São Paulo: Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil, 2011.
BEN ZVI, Ehud. Signs of Jonah: Reading and Rereading in Ancient Yehud. Journal for the Study of the Old Testament Supplement Series 367. London; New York: Sheffield Academic Press, 2003.
BEN ZVI, Ehud. “Jonah 4:11 and the Metaprophetic Character of the Book of Jonah.” Journal of Hebrew Scriptures 9 (2009): art. 5. DOI: 10.5508/jhs.2009.v9.a5.
CHO, Nae-Youn. “Two Jonahs within the Reader’s Eyes: A Comparative Study of Jonah in 2 Kings 14 and the Book of Jonah.” Korean Journal of Old Testament Studies 30.3 (2024): 276–303. DOI: 10.24333/jkots.2024.30.3.276.
COGAN, Mordechai; TADMOR, Hayim. II Kings: A New Translation with Introduction and Commentary. Anchor Bible 11. Garden City, NY: Doubleday, 1988.
ELLIGER, Karl; RUDOLPH, Wilhelm, eds. Biblia Hebraica Stuttgartensia. 5th rev. ed. Edited by Adrian Schenker. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 1997.
KIM, Hyun Chul Paul. “Jonah Read Intertextually.” Journal of Biblical Literature 126.3 (2007): 497–528. DOI: 10.2307/27638450.
KÖCKERT, Charlotte. “Der Jona-Kommentar des Theodor von Mopsuestia: Eine christliche Jona-Auslegung an der Wende zum 5. Jahrhundert.” In Johann Anselm Steiger e Wilhelm Kühlmann, eds., Der problematische Prophet: Die biblische Jona-Figur in Exegese, Theologie, Literatur und Bildender Kunst, 1–38. Arbeiten zur Kirchengeschichte 118. Berlin; Boston: De Gruyter, 2011.
LAWRENCE, Paul J. N. “Assyrian Nobles and the Book of Jonah.” Tyndale Bulletin 37.1 (1986): 121–132. DOI: 10.53751/001c.30566.
MAGONET, Jonathan. Form and Meaning: Studies in Literary Techniques in the Book of Jonah. 2nd ed. Sheffield: Almond Press, 1983.
NOGALSKI, James D. The Book of the Twelve: Hosea–Jonah. Smyth & Helwys Bible Commentary. Macon, GA: Smyth & Helwys, 2011.
RAHLFS, Alfred, ed. Septuaginta: Id est Vetus Testamentum graece iuxta LXX interpretes. 2nd rev. ed. Revised by Robert Hanhart. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 2006.
SASSON, Jack M. Jonah: A New Translation with Introduction, Commentary, and Interpretation. Anchor Bible 24B. New York; London: Doubleday, 1990.
SCHELLENBERG, Annette. “An Anti-Prophet among the Prophets? On the Relationship of Jonah to Prophecy.” Journal for the Study of the Old Testament 39.3 (2015): 353–371. DOI: 10.1177/0309089215577593.
SCOLNIC, Benjamin Edidin. “The Prophet of Second Chances: Jonah, Israel and Assyria and their Missed Opportunities for Redemption.” Biblical Interpretation 29.3 (2021): 263–278. DOI: 10.1163/15685152-00284P25.
SIMON, Uriel. The JPS Bible Commentary: Jonah. Philadelphia: Jewish Publication Society, 1999.
STÖKL BEN EZRA, Daniel. The Impact of Yom Kippur on Early Christianity: The Day of Atonement from Second Temple Judaism to the Fifth Century. Wissenschaftliche Untersuchungen zum Neuen Testament 163. Tübingen: Mohr Siebeck, 2003.
STUART, Douglas. Hosea–Jonah. Word Biblical Commentary 31. Waco, TX: Word Books, 1987.
SWEENEY, Marvin A. The Twelve Prophets. Volume 1: Hosea, Joel, Amos, Obadiah, Jonah. Berit Olam: Studies in Hebrew Narrative and Poetry. Collegeville, MN: Liturgical Press, 2000.
TIEMEYER, Lena-Sofia. Jonah Through the Centuries. Wiley Blackwell Bible Commentaries. Hoboken, NJ: Wiley Blackwell, 2022.
TIMMER, Daniel C. A Gracious and Compassionate God: Mission, Salvation and Spirituality in the Book of Jonah. New Studies in Biblical Theology 26. Downers Grove, IL: IVP Academic, 2011.
TRIBLE, Phyllis. Rhetorical Criticism: Context, Method, and the Book of Jonah. Guides to Biblical Scholarship, Old Testament Series. Minneapolis: Fortress Press, 1994.
VORPAHL, Daniel. Aus dem Leben des Buches Jona: Rezeptionswissenschaftliche Methodik und innerjüdischer Rezeptionsdiskurs. Studies of the Bible and Its Reception 17. Berlin; Boston: De Gruyter, 2021.
WEBER, Robert; GRYSON, Roger, eds. Biblia Sacra iuxta Vulgatam versionem. 5th rev. ed. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 2007.
WOLFF, Hans Walter. Obadiah and Jonah: A Commentary. Trad. Margaret Kohl. Continental Commentaries. Minneapolis: Augsburg Publishing House, 1986.
Fontes cartográficas, cronológicas e visuais
AHARONI, Yohanan. The Land of the Bible: A Historical Geography. 2nd rev. and enl. ed. Translated from the Hebrew and edited por A. F. Rainey. Philadelphia: Westminster Press, 1979.
Esta é a edição revista e ampliada de 1979.AHARONI, Yohanan; AVI-YONAH, Michael; RAINEY, Anson F.; SAFRAI, Ze’ev. The Carta Bible Atlas. 4th ed. Jerusalem: Carta, 2002. A quarta edição de 2002 é a usada em nossos mapas neste verbete; a quinta edição só foi publicado em 2011.
BEITZEL, Barry J. The New Moody Atlas of the Bible. Chicago: Moody Publishers, 2009.
A edição de 2009 é a reformulação ampliada do atlas.CURTIS, Adrian, ed. Oxford Bible Atlas. 4th ed. Oxford; New York: Oxford University Press, 2007.
FREEDMAN, David Noel, ed. The Anchor Bible Dictionary. 6 vols. New York: Doubleday, 1992. Todos os volumes foram usados como controle histórico-geográfico para elementos como Gate-Hefer, Nínive e o contexto assírio.
KAISER, Walter C., Jr.; GARRETT, Duane A., eds. NIV Archaeological Study Bible: An Illustrated Walk Through Biblical History and Culture. Grand Rapids, MI: Zondervan, 2005.
O copyright e a publicação original são de 2005; algumas edições comerciais aparecem com 2006, mas para a edição-base que usamos o registro de 2005 é o mais adequado.RASMUSSEN, Carl G. Zondervan Atlas of the Bible. Rev. ed. Grand Rapids, MI: Zondervan, 2010. A edição revisada foi publicada em 2010.
TYNDale. NLT Chronological Life Application Study Bible. Carol Stream, IL: Tyndale House Publishers, 2012. Esta obra foi consultada como modelo conceitual para a organização cronológica e didática da imagem sobre Jonas no século VIII a.C.; a edição original é de 2012.
WRIGHT, Paul H. Holman Illustrated Guide to Biblical Geography: Reading the Land. Nashville, TN: B&H Publishing Group, 2020.
Cite este artigo
Müller, Arthur Gabriel. “Jonas”. In.: GALVÃO, Eduardo (ed.) et al. Enciclopédia Bíblica e Teológica. [S. l.], publicado originalmente em 22 jul. 2009. Disponível em: [inserir URL do artigo]. Acesso em: [data].








