Moloque — Enciclopédia Bíblica e Teológica
Moloque
(Heb. מֹלֶךְ, mōlek; gr. Μολόχ, Moloch; termo de etimologia e função cultual discutidas, relacionado à raiz semítica mlk, “reinar; rei”.)
Moloque é a designação tradicional de uma figura ou instituição cultual mencionada sobretudo em textos que condenam a entrega de filhos por meio do fogo (Lv 18.21; 20.2–5; 2Rs 23.10; Jr 32.35). A interpretação clássica compreende mōlek como nome ou título de uma divindade à qual crianças eram sacrificadas, particularmente no Tofete do vale de Ben-Hinom, ao sul de Jerusalém. Essa leitura encontra algum apoio comparativo na existência, ao longo do antigo Oriente Próximo, de divindades chamadas Malik, Milku ou formas correlatas; contudo, a identidade precisa da figura bíblica e sua relação com esses deuses permanecem incertas (Heider, 1992: 4.895–896).
Também é incerta a explicação tradicional da vocalização do nome. Desde o séc. XIX propôs-se que as consoantes de melek, “rei”, teriam sido deliberadamente vocalizadas segundo bōšet, “vergonha”, produzindo uma forma depreciativa para a divindade. Embora essa interpretação tenha ampla história, ela não pode ser considerada demonstrada. Outra possibilidade entende mōlek como um título derivado de mlk, “governante”; uma corrente diferente, desenvolvida especialmente a partir de Otto Eissfeldt, relaciona o termo ao púnico mlk/molk e interpreta-o não como nome divino, mas como designação técnica de um tipo de sacrifício. A documentação disponível permite sustentar a discussão, mas não resolve definitivamente a questão filológica (Heider, 1992: 4.896). The Anchor Bible dictionary (Fr…
A associação direta de Moloque com o deus nacional dos amonitas exige particular cautela. Em 1Rs 11.5, 33, a divindade amonita é Milcom, enquanto 1Rs 11.7 apresenta Moloque; muitos estudiosos consideram esta última ocorrência resultado de confusão textual ou tradicional entre Moloque e Milcom, sobretudo porque 2Rs 23.10, 13 parece distinguir seus respectivos locais de culto. Assim, “Moloque” e “Milcom” não devem ser simplesmente tratados como nomes intercambiáveis. Do mesmo modo, passagens como 2Sm 12.30 e 1Cr 20.2, nas quais o hebraico pode significar simplesmente “seu rei”, não fornecem evidência segura para ampliar o número de referências a Moloque (Heider, 1992: 4.897).
Quanto à prática cultual, os textos bíblicos associam repetidamente a oferta de filhos ao fogo com formas de apostasia severamente condenadas. A legislação de Levítico proíbe entregar descendentes a Moloque (Lv 18.21; 20.2–5), enquanto a historiografia e os profetas relacionam práticas de sacrifício infantil a Acaz, Manassés, ao vale de Ben-Hinom e ao Tofete (2Rs 16.3; 21.6; 23.10; Jr 7.31; 19.5; 32.35; Ez 16.20–21; 20.31). A hipótese de que “fazer passar pelo fogo” designasse apenas uma cerimônia não letal de dedicação foi defendida, mas enfrenta a dificuldade de textos que falam explicitamente em queimar, sacrificar ou matar crianças; por isso, a realidade do sacrifício infantil em determinados contextos israelitas e cananeus não depende da solução dada à identidade de Moloque (Heider, 1992: 4.896–897).
As comparações com os tophets púnicos de Cartago e de outras colônias do Mediterrâneo ocidental são relevantes, mas devem ser usadas com controle histórico. Inscrições contendo mlk e depósitos de urnas com restos cremados de crianças e animais demonstram uma prática sacrificial púnica comparável em aspectos importantes ao material bíblico; não foi, entretanto, estabelecido um elo arqueológico ou epigráfico seguro que permita transferir diretamente essa terminologia e esse sistema ritual para Israel ou para a Fenícia da Idade do Ferro (Heider, 1992: 4.896, 897–898). Assim, a existência de sacrifício infantil é historicamente mais bem atestada do que a reconstrução da personalidade, iconografia e funções específicas de uma divindade chamada Moloque.
