Mordecai — Enciclopédia Bíblica e Teológica
MORDECAI
(Heb. מָרְדֳּכַי (Mordŏkay); gr. Μαρδοχαῖος (Mardochaios); Vg Mardocheus.)
Mordecai é o nome de dois personagens no corpus bíblico. O mais proeminente é o judeu benjamita residente em Susa que criou sua prima órfã Hadassa, posteriormente rainha Ester, descobriu uma conspiração contra Assuero, entrou em conflito com Hamã, participou decisivamente da reação ao decreto de extermínio dos judeus e, após a queda de Hamã, foi elevado a uma posição de extraordinária autoridade na administração imperial (Et 2.5–7, 21–23; 3.1–6; 4.1–17; 8.1–17; 9.20–32; 10.1–3). Outro Mordecai aparece entre os chefes da comunidade que regressou com Zorobabel (Ed 2.2; Ne 7.7). A identidade entre esses dois indivíduos não pode ser estabelecida pelas fontes disponíveis e, portanto, não deve ser pressuposta. As tradições lexicográficas modernas normalmente os registram separadamente.
I. Nome e etimologia
O nome de Mordecai constitui um dos elementos mais claramente vinculados ao ambiente mesopotâmico e persa da narrativa de Ester. Sua análise, contudo, exige a separação de três questões que frequentemente foram confundidas na história da interpretação: a forma do nome nas diferentes tradições textuais, sua provável origem onomástica na esfera do deus babilônico Marduk e as teorias segundo as quais o próprio personagem seria uma adaptação literária ou mitológica de Marduk. A primeira questão é textual, a segunda é etimológica e histórica, enquanto a terceira pertence à interpretação literária comparada; nenhuma delas, isoladamente, resolve as demais.
A. Formas do nome nas tradições textuais
O Texto Massorético apresenta o nome como מָרְדֳּכַי (Mordŏkay), forma encontrada na apresentação do personagem em Ester 2.5 e igualmente no nome do repatriado de Esdras 2.2 e Neemias 7.7. A Septuaginta translitera o nome como Μαρδοχαῖος (Mardochaios), como se observa em Ester 2.5. A correspondência fonológica deixa claro que a tradição grega não traduziu o nome, mas o adaptou às convenções morfológicas do grego, acrescentando a terminação masculina -ος. A forma Μαρδοχαῖος permanece também característica das expansões gregas nas quais Mordecai assume papel ainda mais destacado.
A tradição latina não é inteiramente uniforme na grafia. A Vulgata antiga registra Mardocheus em Ester 2.5, ao passo que a Nova Vulgata emprega Mardochaeus. A diferença é ortográfica e não corresponde a personagens ou tradições onomásticas distintas. Na Nova Vulgata, por exemplo, a forma reaparece regularmente nos casos oblíquos, como Mardochaeo e Mardochaeum (Et 8.1–9). (Biblindex)
As formas hebraica, grega e latina devem, portanto, ser entendidas como transmissões de um mesmo nome próprio. A divergência mais importante para o estudo de Mordecai nas versões antigas não está propriamente na grafia de seu nome, mas na ampliação de seu papel nas formas gregas e latinas de Ester, questão que se torna particularmente visível no sonho de Mordecai e em sua interpretação e que requer tratamento separado na história textual do personagem.
B. Origem e significado de “Mordecai”
A explicação onomástica mais amplamente aceita relaciona מָרְדֳּכַי (Mordŏkay) ao nome divino babilônico Marduk. O dado fundamental não é uma suposta semelhança casual entre os dois nomes, mas a existência, no primeiro milênio a.C., de nomes pessoais mesopotâmicos formados a partir do teônimo Marduk e de formas próximas ao nome bíblico. O próprio material lexicográfico especializado descreve Mordecai como uma forma hebraica de nome babilônico baseado em Marduk e registra paralelos como o aramaico mrdk e formas documentadas em arquivos administrativos do período persa.
A presença de um nome derivado de Marduk em uma personagem judaica não é, por si mesma, excepcional. O judaísmo exílico e pós-exílico oferece numerosos exemplos de indivíduos judeus que portavam nomes provenientes das culturas entre as quais viviam. No caso de Mordecai, a narrativa não fornece outro nome hebraico correspondente, como faz explicitamente com Hadassa/Ester. Por isso, não há base textual para reconstruir um hipotético “nome hebraico original” de Mordecai. A designação estrangeira faz parte da única identidade nominal que o texto preservou para ele.
Koller chama atenção para a importância desse dado no retrato de uma identidade judaica formada na diáspora: o nome do personagem pode ser relacionado a Marduk sem que sua identidade judaica seja por isso diminuída. Na construção literária de Ester, a tensão entre inserção cultural e pertença judaica constitui precisamente um dos componentes da apresentação de Mordecai (Koller, 2014: 30, 45–53, *Esther in Ancient Jewish Thought*, ed. Cambridge University Press). A introdução de Mordecai como אִישׁ יְהוּדִי (ʾîš yĕhûdî, “homem judeu”) em Ester 2.5 torna particularmente significativo que um personagem de nome mesopotâmico seja simultaneamente caracterizado por uma identidade judaica inequívoca.
A documentação extrabíblica reforça a plausibilidade onomástica do nome, mas deve ser manejada com precisão. Desde o século XX, um indivíduo chamado Marduka mencionado em documentação cuneiforme do período persa foi repetidamente relacionado ao Mordecai de Ester. Clines demonstrou, porém, que a existência de um funcionário chamado Marduka não autoriza sua identificação automática com o personagem bíblico. O documento conhecido como Amherst 258 não fornece os elementos necessários para estabelecer que seu Marduka era judeu, parente de Ester ou sequer residente permanente em Susa. A evidência demonstra antes que um nome desse tipo era efetivamente utilizado no ambiente administrativo persa (Clines, 1991: 129–136, “In Quest of the Historical Mordecai”, ed. Brill).
Essa distinção é metodologicamente essencial. A atestação de Marduka e de formas semelhantes constitui evidência para a autenticidade histórica do tipo de nome empregado pela narrativa, não evidência suficiente para identificar uma pessoa extrabíblica específica com Mordecai. O valor primário desses documentos, para a onomástica, consiste em mostrar que o nome se enquadra adequadamente no horizonte linguístico do período persa.
Uma questão diferente é a antiga tentativa de explicar Mordecai como representação literária do próprio deus Marduk. No final do século XIX e início do XX foram formuladas teorias que aproximavam Mordecai de Marduk, Ester de Ištar e outros personagens de divindades ou festividades mesopotâmicas. A simples derivação do nome, entretanto, não sustenta essa reconstrução. Um nome pessoal formado a partir de um teônimo não transforma seu portador em representação narrativa da divindade que está na origem do nome; nomes teofóricos eram comuns em todo o antigo Oriente Próximo. O Anchor Bible Dictionary, ao resumir a discussão, distingue expressamente a origem provável do nome na esfera de Marduk das antigas teorias que convertiam Mordecai e Ester em formas disfarçadas de divindades babilônicas.
A proposta de Silverstein é mais específica e não deve ser confundida com essas teorias antigas. Seu argumento não consiste simplesmente em afirmar que “Mordecai é Marduk”, mas em reconsiderar a possibilidade de que tradições relativas a Marduk, particularmente o Enūma Eliš, tenham contribuído para a configuração literária da narrativa de Ester. Para Silverstein, paralelos de enredo, motivos e linguagem poderiam indicar influência mesopotâmica, e a proeminência de Mordecai seria importante nessa comparação (Silverstein, 2006: 209–212, “The Book of Esther and the Enūma Eliš”, ed. Cambridge University Press). O próprio caráter comparativo da proposta exige, porém, que ela seja tratada como hipótese de dependência ou influência literária, e não como resultado da etimologia do nome.
Pode-se, assim, estabelecer uma conclusão em níveis distintos. A relação onomástica entre Mordecai e Marduk é altamente provável; nomes comparáveis são efetivamente atestados no ambiente do período persa; e esse dado torna o nome do personagem historicamente apropriado ao cenário da narrativa. Não se segue daí que o Marduka de qualquer documento cuneiforme seja o Mordecai bíblico, nem que o personagem constitua uma personificação de Marduk. Essas duas questões pertencem respectivamente ao problema da historicidade de Mordecai e ao debate sobre possíveis antecedentes literários mesopotâmicos de Ester.
