Unidade do Evangelho de Marcos

Unidade do Evangelho de Marcos

Unidade do Evangelho de Marcos 


Mais estudos: Origem do Evangelho de Marcos - Escatologia do Evangelho de Marcos - Fundo Histórico do de Marcos - Gênero Literário de Marcos - Comentário de Marcos por Matthew Henry - Evangelho de Marcos - Teologia do Evangelho de Marcos - Interpretação do Livro de Marcos - Prioridade do Evangelho de Marcos - Explicação do Evangelho de Marcos - Estudo do Evangelho de Marcos - Data da Escrita do Evangelho de Marcos  - Onde Foi Escrito o Evangelho de Marcos - Destinatários do Evangelho de Marcos - Autoria do Evangelho de Marcos  - Cristologia do Evangelho de Marcos - Salvação no Evangelho de Marcos - Objetivo do Evangelho de Marcos - Caráter Linguístico do Evangelho de Marcos - Significado do Evangelho de Marcos


Em todas as versões alemãs modernas temos a indicação de que há dificuldades com os manuscritos em relação aos versículos 9-20 do capítulo 16. Elberfelder, por exemplo, coloca no rodapé: “Os versículos 9-20 não constam de alguns dos manuscritos mais antigos.”

Esta última observação, mesmo resumida, acerta em cheio a realidade dos fatos: Os versículos 9-20 não estão nos dois manuscritos completos mais antigos: o Sinaítico e o Vaticano. Mas outros manuscritos como o Alexandrino, o Códice Efraimita “rescriptus”, o Códice Beza Cantabrigiense, cuja forma textual vem do século II, contém esses versículos. Além disso, alguns manuscritos menos importantes trazem a versão que a Gute Nachricht (Bíblia na Linguagem de Hoje em alemão) cita nas notas. Como explicar as conclusões tiradas dos manuscritos?

Alguns teólogos estão falando de um “final falsificado” do evangelho de Marcos, o que está fora de questão. Essa forma de tratar o assunto parece indicar que nesse texto são transmitidos fatos inverossímeis. Basta olhar para o texto e verificar que esse não é o caso. O que está nesse texto é descrito em detalhes nos outros evangelhos.

Mesmo assim permanece a questão, se os versículos 9-20 de fato pertenceram ao evangelho original de Marcos. Isso é questionável porque os dois manuscritos citados não contém esses versículos. Em outras palavras, deve ter havido um evangelho de Marcos que terminava com o versículo 8, que não é exatamente um final de livro muito marcante: “E de medo nada disseram a ninguém.” O que segue é um resumo das histórias da ressurreição encontradas nos outros evangelhos. O objetivo com isso era dar um final adequado ao evangelho de Marcos? Quem teria acrescentado esse final?

A maioria dos estudiosos atuais concorda que um revisor anônimo que trabalhava com os evangelhos no século II tenha acrescentado os versículos 9-20. A essa altura ele tinha acesso aos outros evangelhos e por isso pôde fazer um resumo dos seus capítulos finais. É possível reconhecer esse tipo de influência em várias versões atuais.

Mesmo assim, seria interessante refletir sobre as alternativas que F. Godet sugeriu.3 Ele apresenta as conclusões da crítica textual que mostram, segundo ele, que esse final não fazia parte do texto original do evangelho:

1) Entre os versículos 8 e 9 há uma ruptura evidente.
2) O versículo 1 é repetido no versículo 9.
3) O conteúdo dos versículos 9-20 consiste, em grande parte, de um resumo breve dos acontecimentos da páscoa, que, nos outros evangelhos, são descritos em detalhes.

O final breve de Marcos, atestado por alguns manuscritos de menor importância (cf. Gute Nachricht), provavelmente surgiu porque um evangelho que terminasse com o versículo 8 era considerado incompleto. Com base no testemunho dos manuscritos e no seu estilo estranho ao texto, é fácil reconhecê-lo como acréscimo posterior.

Godet sugere que na reflexão sobre os versículos 9-20 pensemos no fato de que Marcos era companheiro de viagem de Pedro. Mas, de acordo com a antiga tradição, Pedro morreu como mártir na perseguição comandada por Nero. É possível imaginar que Marcos tenha fugido repentinamente de Roma e tenha deixado o seu evangelho em Roma, sem poder concluí-lo. Desse evangelho logo foram feitas cópias que também chegaram ao Códice Sinaítico e ao Códice Vaticano.

Segundo a tradição da igreja antiga, Marcos realizou parte do seu ministério em Alexandria. Será que ele mesmo escreveu o final do seu evangelho lá e depois o enviou a Roma? Isso explicaria a ruptura no texto antes do final tanto pelo tempo quanto pela distância para que o final chegasse ao seu destino. A favor dessa posição está o fato de que o estilo de Marcos é mantido no final, como também a continuação da atitude crítica do autor em relação aos discípulos de Jesus (cf. 16.14). Esse final teria então sido acrescentado ao texto original e, juntamente com o evangelho completo de Marcos, teria sido preservado em Roma. A partir do século II teriam surgido as primeiras cópias já com esse final.

A conclusão à qual Godet queria que chegássemos com essas reflexões pode ser observada nas observações que ele mesmo faz:

O leitor atento das últimas páginas do evangelho talvez tenha percebido os sinais inconfundíveis de uma mudança na compreensão da questão ali tratada. No início desse trabalho eu estava em concordância com a maioria dos estudiosos, considerando esse final falsificado. Apesar disso, por causa das observações a seguir, eu não consegui suprimir um desconforto crescente em mim sobre a questão: 1) há o crescendo de um tema bem sinalizado e bem conduzido nesse final (cf. especialmente Klostermann, p. 305); 2) nesse final chama a atenção a continuação do tom crítico em relação aos discípulos; esse aspecto está em harmonia impressionante com o restante do evangelho de Marcos. Será que um outro escritor, que não fosse o próprio autor, conseguiria penetrar tão profundamente nessa característica tão peculiar do livro? Com isso, fui levado a questionar, se as provas antes mencionadas da falsidade do final de Marcos eram realmente tão irrefutáveis, quanto me pareciam anteriormente. A explanação acima não é nada mais do que uma tentativa de responder à questão, sem a pretensão de solução definitiva do problema.4

Nesse sentido, concordo com Godet e gostaria de apresentar a sua tentativa aos meus leitores para que a testem e continuem refletindo sobre a questão.

Pesquisar mais estudos