Comentário de Lucas 1:18-25

Comentário de Lucas 1:18-25




18 – Então, perguntou Zacarias ao anjo: Como saberei isto? Pois eu sou velho, e minha mulher, avançada em dias.
Comentário de Lucas 1:18-25
A solicitação de um sinal é tratada aqui como uma transgressão que merece punição. Não obstante, Abraão (Gn 15.8), Gideão (Jz 6.36s, 39 três vezes) e Ezequias (2Rs 20.8) externaram um pedido semelhante, sem que isso lhes fosse imputado por pecado. Por que, pois, não é correto no presente caso o que em outros episódios foi aceito? Provavelmente porque Zacarias vivia depois daqueles e tinha à disposição toda essa série de revelações e fenômenos, que ele, como sacerdote, certamente conhecia. Ademais, o próprio local em que ele recebia essa mensagem, bem como o fenômeno celestial que lha trazia, deveriam livrá-lo de qualquer dúvida. Sua dúvida, portanto, não era nada mais que falta de fé e a incapacidade de alçar-se, por força da promessa divina, acima do curso natural das coisas.
19 – Respondeu-lhe o anjo: Eu sou Gabriel, que assisto diante de Deus, e (eu, no original consta “egõ” = eu enfático) fui enviado para falar-te e trazer-te estas boas novas.
O mensageiro revela-se como um personagem já conhecido: “Eu sou Gabriel”. O nome significa: “o homem forte de Deus”.5
Gabriel é o mensageiro de Deus, aquele que traz boas notícias, o evangelista de Deus, que edifica. Com as palavras anteriores de Zacarias (“eu sou velho”) contrastam as palavras do anjo: “Eu sou Gabriel, que assisto diante de Deus.”
Pessoas que se encontram diante de Deus são usadas e enviadas por ele. Quem está diante de Deus não conta mais com aquilo que está perante os olhos, mas com o que Deus falou. O anjo continua dizendo: “eu fui enviado para falar contigo, para te evangelizar”, como diz o texto original. Evangelho significa boa nova, uma mensagem que nos liberta do que é visível e nos ergue para alturas invisíveis, para a palavra eterna de Deus, de onde se descortina a visão das glórias eternas.
20 – Todavia, ficarás mudo e não poderás falar até ao dia em que estas coisas venham a realizar-se; porquanto não acreditaste nas minhas palavras, as quais, a seu tempo, se cumprirão.
Essa palavra é um juízo sobre a incredulidade, porém justamente aqui e nesses tempos de ruptura fica claro que todos os juízos de Deus (na história da redenção) são mais juízos da graça. Jamais desejaríamos omitir a faceta da graça diante da faceta do juízo. Para Zacarias, ficar mudo até a hora do nascimento do filho prometido é uma ajuda, uma assistência, uma graça de Deus. A santa e boa mensagem tinha condições de sedimentar-se nele, sem ser esmagada pela constante troca de idéias.
Agora Zacarias tinha tempo de adaptar-se a um novo mundo, de orientar-se e criar raízes, para na seqüência apresentar-se em seu contexto como um filho da luz. Era uma graça maravilhosa que ele ficasse mudo e depois, ao sair, tão-somente conseguisse fazer sinais: “Não me perguntem nada, não consigo falar.”
21 – O povo estava esperando a Zacarias e admirava-se de que tanto se demorasse no santuário.
22 – Mas, saindo ele, não lhes podia falar; então, entenderam que tivera uma visão no santuário. E expressava-se por acenos e permanecia mudo.
23 – Sucedeu que, terminados os dias de seu ministério, voltou para casa.
O povo esperava no átrio pela bênção costumeira. Admirava-se da demora incomum do sacerdote atrás da cortina. Por sua incapacidade de falar e abençoar, a multidão reconheceu que ele tivera uma visão no templo. Através de persistentes gestos com a mão ele convenceu o povo a ir para casa sem obter a bênção.
Como é singular esse episódio! O aspecto de juízo desse acontecimento deixa explícito que, por causa da incredulidade de Zacarias, Deus o impedia de exercer sua função sacerdotal “de conceder a bênção”.
A mudez de Zacarias, no entanto, igualmente explicita o aspecto salvífico: quando a voz do que clama no deserto é anunciada, o sacerdócio do AT emudece. Cala-se a bênção levita quando vem “a descendência em que serão benditas todas as nações da terra” [cf. Gn 12.3].
24 – Passados esses dias, Isabel, sua mulher, concebeu e ocultou-se por cinco meses, dizendo:
25 – Assim me fez o Senhor, contemplando-me, para anular o meu opróbrio perante os homens.
Por que Isabel não se dirigiu imediatamente, cheia de alegria, às pessoas, para gloriar-se de sua felicidade? Por que ela se retrai silenciosamente durante cinco meses? Por que ela oculta sua ditosa situação? Deus permitiu-lhe tornar-se mãe. Agora, por causa dele e de si mesma, ela não deve mais apresentar-se entre as pessoas como infértil (v. 36). Disso se explica o tempo de cinco meses. Após cinco meses a realidade da gravidez torna-se visível, e então ela de fato pode ser reconhecida como abençoada por Deus.
Não há como formular de forma mais sucinta o fato de que “ele contemplou de tal maneira que ele afasta”. A expressão “opróbrio”, que evoca os longos anos de humilhação que a devota israelita experimentara, é explicada pelas palavras do anjo no v. 36: “aquela que diziam ser estéril”. “A estéril” era seu epíteto infame entre as mulheres de sua localidade, mas Deus a contemplara e abençoara.
É da , e não da natureza, que resulta um fruto verdadeiramente divino. Unicamente o fruto da fé dura para a eternidade, e o que não provém da fé é pecado. Felizes de nós quando, por meio da relação viva com Deus, trazemos fruto para Deus!
Era isso, pois, que puderam experimentar também os dois idosos, já grisalhos, já no limiar do Novo Testamento.
Sua mísera vida na terra, colocada à disposição de Deus, podia gerar frutos para a eternidade em virtude da grande graça de Deus. Seu filho João, pelo qual rogaram a Deus, foi o fruto de sua vida oculta de fé. E João tornou-se frutífero para as gerações futuras, ao abrir espaço para o Senhor.
Uma bênção presenteada por Deus, no entanto, somente torna-se bênção real para o povo de Deus e o mundo quando é novamente devolvida a Deus; quando o fruto continua sendo um sacrifício oculto, oferecido tão-somente a Deus. Unicamente aqueles que viram o sentido de sua vida no sacrifício da vida hão de verdadeiramente trazer frutos para Deus.




5 A Bíblia designa pelo “nome” dois seres angélicos celestiais: Gabriel (veja Dn 8.16 e 9.21) e Miguel, um nome que significa: “Quem é como Deus?” (Dn 10.13,21; 12.1; Jd 9; Ap 12.7). Esses dois nomes são simbólicos, expressam a característica e a atividade de seus portadores. Gabriel é o poderoso servo de Deus, destinado a fomentar a obra de Deus na terra. Sua atividade, portanto, é positiva. A de Miguel é negativa. Como indica o nome, ele é o destruídor de tudo aquilo que ousa medir-se com Deus e opor-se a ele. Miguel é o lutador de Deus, ele julga e arrasa.

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