Comentário de Lucas 1:26-29

Comentário de Lucas 1:26-29




Comentário de Lucas 1:26-29
Conforme depreendemos da história anterior, o sacerdote retornou calado do templo. Não podia anunciar ao povo a maravilhosa mensagem da proximidade do Messias, mas tinha de levá-la consigo às montanhas, como um segredo cerrado. Isso já trazia indícios de que o sistema do templo chegaria ao fim.
De forma totalmente diferente apresenta-se agora a segunda história. Ela não sucede a um sacerdote, mas a uma jovem israelita. Não acontece no templo, mas em Nazaré da Galileia; não ao queimar incenso no altar, mas na singela habitação da jovem Maria. Maria, porém, não acolhe o mensageiro divino com incredulidade, e sim com fé. No caso de Zacarias foi dito: “O anjo apareceu”, e aqui se ouve: “O anjo entrou” (v. 28). Aquele ouviu a promessa de que sua esposa, a idosa Isabel, lhe daria à luz o “precursor” do Messias, e ele duvidou. Maria, no entanto, ouviu a mais estranha mensagem, de que ela daria à luz o próprio Messias, o “Filho de Deus”, mesmo virgem, e – estava pronta para crer! O sacerdote precisa carregar a mensagem celestial mudo para sua casa, e somente depois que seu filho nasce ele reencontra a fala. Maria, por sua vez, está imediatamente repleta de bendita alegria e se apressa para ter com Isabel, a fim de anunciar sua felicidade com louvor e gratidão. Esse é o contraste entre a velha e a nova aliança.
Independentemente dessa disparidade, na qual já se anuncia a magnitude da nova aliança sobre a antiga, a excelência do cristianismo sobre o judaísmo, não deixa de ocorrer a mais íntima relação de parentesco entre a velha e a nova alianças. Ambas as proclamações são trazidas pelo mesmo anjo! Na segunda proclamação o anjo até mesmo aponta para a primeira. Um é filho tardio do idoso casal de sacerdotes, que já ultrapassou “a sua época”, o outro é o primogênito de uma virgem. O nascido tardio é enchido do Espírito Santo no ventre materno, o segundo é gerado e nascido pela sobrepujante atuação de Deus na virgem pelo poder do Espírito Santo.
“A hora em que aconteceu o que nos é relatado aqui era sagrada, uma hora que concederia à virgem o filho, ao mundo o Redentor, à terra uma nova vida, à humanidade o Filho de Deus – a hora da concepção de Cristo, a hora da descida da palavra de Deus, do Logos (Jo 1.1), sobre a terra, para dentro da carne! Para ler essa história são necessárias devoção e uma mente de seriedade santa. Cumpre lê-la com adoração e humildade (Êx 3.5)” (Heubner).
A proclamação da maravilhosa origem de Cristo da “virgem” já é profetizada no paraíso em Gn 3.15. Essa promessa, que fala da semente da mulher, e não da semente do homem, exclui o homem expressamente dessa geração. Nas genealogias do AT os israelitas se apegavam com tanta intensidade à ascendência masculina que, com exceção dessa promessa (Gn 3.15), em lugar algum se fala entre eles de outra coisa que não da semente do homem.6
Quanto ao nascimento virginal, cf. também Gl 4.4, onde Paulo não diz nada a respeito de “gerado do pai”, mas escreve: “nascido de mulher”.
26 – No sexto mês, foi o anjo Gabriel enviado, da parte de Deus, para uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré.
De Jerusalém e do templo o relato nos transporta a uma pequena cidade provincial, à casa de uma moça desconhecida. Do contexto sacerdotal chegamos à vida privada do israelita comum. – A referência de tempo no sexto mês corresponde aos cinco meses do v. 24. Chegou o momento em que Isabel pôde sair de sua reclusão e ser reconhecida como aquilo que ela era. Deus esperou por esse momento a fim de acrescentar a essa primeira ação a promessa de uma outra ainda maior. O nome Galiléia designa a borda setentrional da Palestina, na fronteira com a Fenícia. O nome completo dessa parte do território era “círculo dos gentios”, por causa dos muitos gentios que habitavam essa região (cf. Is 9.1, onde se fala da Galiléia dos gentios). Por isso essa terra de fronteira era desprezada pelos judeus ortodoxos. Agora o anjo de Deus se dirige para lá, a fim de anunciar o Filho unigênito de Deus, o alvo de todas os prenúncios proféticos. E a cidade se chama Nazaré. Ela jamais é mencionada no AT.
27 – A uma virgem desposada com certo homem da casa de Davi, cujo nome era José; a virgem chamava-se Maria.
Duas vezes, no começo e no final do v. 27, enfatiza-se que o envio do anjo não se destinava a uma mulher casada, mas a uma virgem. No final do versículo não é usado o pronome “ela”, mas retorna expressamente o termo “parthenos”, i. é, virgem. O anjo não é enviado ao palácio de uma pessoa grande e rica, mas à humilde morada de uma pobre virgem. E quem era essa virgem, essa Maria, escolhida desde a eternidade para ser a mãe de nosso Redentor, a mulher cuja semente há de esmagar a cabeça da serpente? É estranho como a Escritura silencia a esse respeito. Tudo o que sabemos a respeito dela, de sua condição social, seu caráter, sua vida e suas experiências restringe-se a poucos traços relatados para glorificar seu filho. Esses poucos traços, porém, nos permitem lançar olhares profundos. São suficientemente ricos para que sintamos a plenitude com que o Senhor agraciou essa sua serva. Talvez explicações mais amplas teriam resultado em excessiva honra para Maria. A Escritura, porém, promove tão-somente a honra de Deus. A adoração de Maria praticada pela Igreja Católica Romana não tem fundamento na Escritura. Maria era a noiva de José. O Senhor havia providenciado a união dos dois porque seu propósito era conceder à virgem um protetor e vigia que haveria de defender o nascimento estranho das fofocas e assegurar à criança o direito à cidadania em Israel.
Será que as palavras da casa de Davi se referem a José, ou a José e Maria, ou somente a Maria? As palavras referem-se unicamente a Maria. Dessa forma visa-se assinalar que, segundo a exposição de Lucas, Maria era da descendência de Davi (cf. v. 32 e 69). A origem davídica de José é atestada em Lc 2.4, bem como na genealogia em Mateus e por intermédio do título “filho de Davi”, atribuído publicamente ao Redentor.
28 – E, entrando o anjo aonde ela estava, disse: Alegra-te, muito favorecida! O Senhor é contigo!
O mesmo mensageiro que já proclamara o Messias no AT aparece pela segunda vez e chega até Maria. A palavra grega para “favorecida” designa mais do que uma pessoa agraciada por meios naturais. Aconteceu algo especial com ela, enviado da parte de Deus. A saudação “Alegra-te, muito favorecida, o Senhor [é] contigo!” também é particularmente marcante e relevante pelo fato de que nem sequer fazia parte dos bons costumes saudar uma mulher. Isso igualmente fica claro numa palavra de oração judaica: “Agradeço-te, Deus, que não me criaste como gentio, como leproso ou como mulher.”
Com a saudação da graça abriu-se o NT. Um novo mundo foi inaugurado: o mundo da graça.
29 – Ela, porém, ao ouvir esta palavra, perturbou-se muito e pôs-se a pensar no que significaria esta saudação.
O susto da virgem constitui uma prova de que ela não é sem pecado, como considera a Igreja Católica Romana, adorando-a por isso. Se não tivesse pecado, ela permaneceria impassível, sem a menor consternação diante do anjo. É sempre um indício de pecaminosidade que a aproximação do mundo invisível suscite temor nas pessoas (Is 6.5; Lc 5.8). – No entanto, em Jesus não constatamos o menor susto quando anjos se achegam a ele (cf. as histórias da tentação, da transfiguração, do Getsêmani).




6 A genealogia de Lucas é a de Eli, o pai da Maria. De acordo com a percepção da Antigüidade, não convinha citar a mãe como elo da corrente genealógica. Entre os antigos, a pessoa era filho do pai, não da mãe. Enquanto, pois, o texto original diz “ele gerou” a respeito de cada ancestral, Lucas diz sobre José (Lc 3.23): “Jesus, como se cuidava, filho de José.” Com isso Lucas protesta contra o “gerou”. Ele coloca o nome de José no lugar do nome de Maria, porque o nome da mulher não era citado no registro genealógico. O homem tinha o dever de representar publicamente a esposa. A esse respeito, cf. a genealogia em Mateus, onde são citados nomes de mulheres. Comentário Esperança, Mateus, p. 34s.

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