Comentário de Lucas 1:30-35
Atualização:
Comentário de Lucas 1:30-35
30 – Mas o anjo lhe disse: Maria, não temas (não
permaneças em teu temor); porque achaste graça diante de Deus.
A expressão
“achar graça” designa uma demonstração de graça que lhe está sendo concedida.
31 – Eis que
conceberás e darás à luz um filho, a quem chamarás pelo nome de Jesus.
As
formulações utilizadas pelo anjo lembram Is 7.14: “A virgem conceberá e dará à
luz um filho e lhe chamará Emanuel.” Jesus significa: “Deus é salvação
ou redenção.”
32 – Este será grande e será chamado Filho do
Altíssimo; Deus, o Senhor, lhe dará o trono de Davi, seu pai.
33 – Ele reinará para sempre sobre a casa de Jacó,
e o seu reinado não terá fim.
Portanto,
Ele será chamado “Filho do Altíssimo”, Filho de Deus, do Criador e Mantenedor
do céu e da Terra. Se Maria tivesse compreendido integralmente o que diz essa
palavra, a infinita grandeza daquele que ela deverá carregar sob o coração e
nutrir com seu sangue, de modo algum o teria podido suportar!
É bem
verdade que houve outras pessoas de nome Jesus ou Josué, porém nenhuma delas
era aquilo que o nome diz, a saber, alguém que torna bem-aventurado, i.
é, alguém que redime seu povo dos pecados.
É bem
verdade que houve pessoas chamadas grandes, porém nenhuma no sentido
pleno da palavra, como o Messias Cristo, que era grande e verdadeiro em sua
divindade, grande e verdadeiro em sua humanidade, grande em seus milagres,
grande em seu ensinamento, grande em seu agir. Não houve ninguém que por
natureza e essência fosse simultaneamente Filho do Altíssimo, Filho eterno do
Pai eterno, resplendor de sua glória e réplica de sua natureza, e cuja obra por
isso é tão importante. Houve igualmente reis, reis assentados no trono
de Davi e que governaram sobre a casa de Israel, mas não que fossem eternos,
reis da verdade ou duques da bem-aventurança ou príncipes da paz e da vida,
como Jesus Cristo o foi.
É uma
estranha magnitude, essa que começa em um estábulo, acaba em uma cruz e no meio
tempo é carregada de sofrimento, opróbrio e tristeza. Grande não é
necessariamente aquele que apregoa a Cristo poderosamente diante de uma
multidão gigantesca. Grande é aquele que, ao anunciar o Senhor, é expulso das
casas, alvejado com pedras, e então segue adiante, tentando a mesma coisa em
outro local. Cumpre, pois, lembrar aquelas pessoas diante das quais o Senhor e
Mestre caminha com a coroa de espinhos, escarnecido, ofendido e açoitado. –
“Olha para Cristo, pondera o que ele merecia e o que lhe foi feito aqui na
terra: que direito, que exigências tens tu, para que estejas em melhor condição
do que ele, e que obtenhas honra, enquanto ele tinha de sofrer humilhação?
Aprende que a vergonha que te torna semelhante ao Jesus desprezado constitui
verdadeira grandeza.” – Maiores que a saúde são com freqüência a enfermidade e
fraqueza, porque a glória da alma crente, que consiste em humildade, submissão
e perseverança, transparece mais nitidamente através do invólucro passageiro
(Rieger, Müller).
34 – Então, disse Maria ao anjo: Como será isto,
pois não tenho relação com homem algum?
A virgem,
chamada a tornar-se mãe de Jesus, não pode retroceder diante da possibilidade
de tornar-se um enigma para seu noivo e para o mundo. Pois, no instante em que
está para tornar-se a mãe daquele que não terá receios de levar uma vida de
humilhação e não terá medo de suportar o opróbrio e a vergonha do mundo, também
ela precisa demonstrar a coragem de trilhar os caminhos de Deus e consentir na
agonia de morte, i. é, precisa aparentar ser moça desonrada diante do mundo.
Com certeza não havia coisa mais terrível para uma moça pura. Daí sua pergunta:
“Como será isto?”
35 – Respondeu-lhe o anjo: Descerá sobre ti o
Espírito Santo, e o poder do Altíssimo te envolverá com a
sua sombra; por isso, também o ente santo que há de nascer (ser gerado) será
chamado Filho de Deus.
De acordo
com Mt 1.20 “to gennomenon” é derivado de “gennao”, não “que
há de nascer”, mas “que é gerado” (gennao significa gerar).
Aquilo que
está sendo gerado em Maria é chamado o santo, não um ente
santo, provavelmente para que entenda que a criança não será primeiramente
santificada pela graça, como as pessoas santas do AT e NT. Na verdade ela é,
desde o primeiro instante em que é gerada, a coisa santa, i. é, aquilo que não
tem máculas de pecados (Dn 9.24), que não tem pecado.
Houve quem
cismasse em perguntar como, afinal, seria possível que de Maria nascesse algo
sem pecado. Porque da carne pecaminosa de Maria a criança somente poder obter
carne pecaminosa. Mas aqui no v. 35 é dito expressamente que a criança não será
algo santo por nascer da virgem – sem cooperação do homem – mas pelo
fato de que o Espírito Santo veio sobre a virgem, a fim de gerar a criança
dentro dela. Deve-se a essa geração pelo Espírito Santo que o Filho de Deus
veio de Maria “sem pecado”.
Como é
extremamente delicada e suave a expressão o poder do Altíssimo te envolverá
com a sua sombra! Provavelmente a idéia seja a de uma nuvem. No povo de
Israel a nuvem era sinal da presença graciosa e glória de Deus. Quando somos
rodeados por nuvens ao escalar uma montanha, ficamos completamente envoltos por
elas e não vemos nada além das nuvens. Desse modo também Maria deve ter estado
completamente envolta e rodeada pelo Espírito Santo. Essa vinda do poder do
Altíssimo e esse envolvimento pela nuvem de Deus no Espírito Santo devem ter
sido tão completos que Maria não viu e nem sentiu nada além da simples presença
da nuvem da graça do Espírito Santo, que causou a vinda do Redentor como
criancinha sem pecado.
Se o Senhor
Jesus não tivesse sido gerado pelo Espírito Santo, mas apenas plenificado
com o Espírito Santo, ainda que já no ventre materno como no caso de João, ou
somente por ocasião do batismo, ele teria sido mero ser humano, uma pessoa
pecaminosa (talvez o maior dos profetas, mas nunca e jamais o Filho unigênito
de Deus). Seu nome é Filho de Deus não por causa de quaisquer façanhas
extraordinárias ou por causa de uma graça que posteriormente se derrama sobre
Ele, mas por ter sido em essência e desde a eternidade o Filho perpétuo
de Deus – por isso ele também continuou sendo o Filho de Deus no momento
de se tornar humano, em virtude de sua maravilhosa geração, ocorrida a partir
de Deus por intermédio do Espírito Santo. Cristo é verdadeiro Deus,
porém da mesma maneira verdadeiro ser humano. Jesus é o único ser
humano que certamente precisava nascer, mas não renascer. Seu nascimento,
porém, é metáfora e causa de nosso renascimento.
O anjo não
diz nada a Maria sobre a eterna igualdade e comunhão com Deus desde antes da
fundação do mundo, por causa da qual o próprio Messias-Cristo pôde afirmar mais
tarde: “Antes que Abraão existisse, eu sou” (Jo 8.58). Não o diz porque ela
simplesmente não o teria entendido. Sobre isso ele ainda mantém estendido o
véu. – Também hoje o Senhor ainda revela tudo no devido tempo. O Senhor
manifesta apenas tanto quanto conseguimos suportar (Rm 8.23; 1Jo 3.2). – Jesus
é o Filho de Deus, isso bastava para Maria. Nós somos filhos de Deus, isso
basta para nós. Aqui há sabedoria e graça a um só tempo.
Entretanto,
notemos ainda o seguinte: o segundo Adão, o Filho de Deus, não sai como o
primeiro Adão, diretamente da mão de Deus, mas é nascido de um ser humano, a
fim de ser verdadeiramente partícipe de nossa natureza humana e tenha, pelo
parentesco de sangue, comunhão com toda a nossa geração, igual a seus irmãos em
todas as coisas, a fim de que se torne um sumo sacerdote misericordioso e fiel
perante Deus, para reconciliar os pecados do povo (Hb 2.17). Por essa razão ele
tampouco se envergonha de nos chamar de seus irmãos, a saber, a todos os que
crêem em seu nome, que também não são nascidos do sangue, nem da vontade da
carne, nem da vontade de um humano, e sim de Deus (Jo 1.12s).
