Comentário de Lucas 1:39
Comentário de Lucas 1:39
O anjo do
Senhor desapareceu. Maria está parada, intimamente comovida, rica, plena,
abrigando no coração, ou melhor, no ventre materno, o mistério dos mistérios,
maior do que tudo o que o mundo jamais ouviu e viu.
Na grandiosa
hora da visitação Maria se rendera e confiara ao agir de Deus. Desde então ela
tinha certeza, pela fé, de que seria mãe. Pela transbordante emoção do coração
ela anseia por outro ser humano ao qual possa contar e comunicar tudo. Maria
anseia por comunhão. Verdadeira vida em Deus busca comunhão. O “eu” busca um
“tu” confiável. Quanto mais ela derrama o coração perante o Senhor, tanto mais
repleto ele fica. Ela precisa de alguém ao qual consiga revelar tudo. Em casa,
no entanto, ela está sozinha. As pessoas em seu redor não conseguem entendê-la!
Ela não teria nada além de mal-entendidos e equívocos, e talvez até mesmo
escárnio e gozação. Ela não fora acometida de mudez, como Zacarias, mas na
verdade sua situação não era muito melhor! O delicado sentimento da virgem
percebia a ameaça da perspectiva de imprevisível incompreensão e vergonha.
Nessa situação não é bom estar sozinha. A solidão poderia até mesmo se tornar
um perigo para ela, tão logo viessem tempos de tribulação. A comunhão de almas
crentes com freqüência é o único remédio para pessoas atribuladas. Já a solidão
muitas vezes é um solo fértil para diversas plantas venenosas da dúvida e do
desânimo.
Contudo,
para onde iria, afinal? – Acaso haveria um lugar melhor do que junto de Isabel,
à qual o anjo a remetera com tanta clareza? Pois ela não é apenas sua parenta,
não apenas uma mulher de idade e experiente nos caminhos de Deus, uma amiga
maternal de Maria, que talvez não tivesse mais mãe – mas ela é também alguém
que experimentou uma graça similar. Como lhe foi preciosa a dica do anjo!
Ansiosamente volta-se, agora, às montanhas de Judá. Lá ela avista o
compartilhar da fé, o diálogo sobre a fé, o fortalecimento na fé. – Será que
ela pressente que existe uma ligação entre ambas?
Sim, a
comunhão dos santos é indescritivelmente preciosa, a maior e mais bela obra
dentre todas as obras que o Espírito Santo realiza na terra, é a coroa de tudo.
39 – Naqueles dias, dispondo-se Maria, foi
apressadamente à região montanhosa, a uma cidade de Judá.
Circunstâncias
extraordinárias demandam caminhos e pressa extraordinários. Não importava que a
viagem até o alvo durasse cinco dias ou mais, não importava se era decoroso ou
não, pelos costumes daquele tempo, que uma moça realizasse uma viagem tão longa
a pé: o intenso ímpeto do coração acelerou apressadamente os passos de Maria e
supera todas as dúvidas.
É comovente
acompanhar um pouco os pensamentos da virgem durante a viagem. Quem é como essa
eleita? Quem a conhece, quem imagina o que lhe aconteceu? Como sua alma está
agitada, cheia de devoção, cheia de santa reflexão repleta de gratidão e
louvor!
Lutero diz:
“Teria sido justo que se encomendasse para ela uma carruagem dourada,
acompanhando-a com 4.000 cavalos e alardeando diante da carruagem: aqui viaja a
mulher de todas as mulheres! No entanto, houve somente silêncio acerca de tudo
isso. A pobre mocinha vai a pé por um caminho longo, de mais de trinta
quilômetros e não obstante é a mãe de Deus. Não seria de admirar se todas as
montanhas tivessem saltado e dançado de alegria.”
