Comentário de Lucas 1:7-17
Atualização:
Comentário de Lucas 1:7-17
7 – E não tinham filhos, porque Isabel era estéril,
sendo eles avançados em dias.
A formulação
“não tinham filhos, sendo eles avançados em (seus) dias” é puramente hebraica,
cf. Gn 18.11; 24.1; Js 13.1; 23.1; 1Rs 1.1.
Não ter
filhos era um grande infortúnio para um casal em idade avançada, e até mesmo
era percebido, com extremo sofrimento, como um sinal do desfavor divino e como
vergonha perante as pessoas, como um sinal da destituição da bênção prometida
em Gn 1.28. Lucas dá a entender que a causa da ausência de filhos se deve a
Isabel, a qual chama de “justa”. – Não se trata de coincidência, mas de
sabedoria do educador celestial permitir que justamente aquelas pessoas que ele
honra com graças especiais passem por graves provações.
Precisamente
a infertilidade contribuiu de modo essencial para preparar o matrimônio do
casal agora idoso como local de revelação divina. Na verdade, agora eles
estavam menos enredados nos pensamentos e nas preocupações do mundo. Em calada
solidão eles tiveram a oportunidade de aprender a esperar no Senhor e a
crer cegamente que Deus se lembra de seu juramento (Zacarias significa: Javé
se lembrou, e Isabel: Deus é meu juramento).
Como
autênticos israelitas, pois, era impossível a esse grisalho casal crer que a
infertilidade fosse a última vontade de Deus. Por essa razão eles aguardavam
ansiosamente por descendência.
8 – Ora, aconteceu que, exercendo ele diante de
Deus o sacerdócio na ordem do seu turno, coube-lhe por sorte,
Novamente
aparece o aconteceu que = estilo hebraico. As palavras diante de Deus
ou diante da face de Deus ressaltam a relevância da atividade
sacerdotal.
9 – segundo o
costume sacerdotal, entrar no santuário do Senhor para queimar o incenso.
A locução na
ordem do seu turno significa: juntamente com toda a categoria de serviço de
Abias, Zacarias permaneceu em Jerusalém por uma semana, prestando o serviço no
templo. Por sorteio coube-lhe a tarefa de acender o incenso. Para isto, ele
entrou no chamado recinto santo, no qual se encontrava, além do candelabro de
ouro e da mesa de pães da proposição, também o altar de incenso.2
A expressão santuário do Senhor destaca a santidade do templo (Êx 30.8).
10 – E, durante esse tempo, toda a multidão do povo
permanecia da parte de fora, orando.
Depois de
Zacarias ter derramado o incenso sobre as brasas incandescentes do altar, ele
se prostrara, conforme prescrito, para a adoração. Nessa hora da queima do
incenso, em todo o país os rostos do povo se voltavam para Jerusalém, e as
pessoas oravam. No instante em que o sacerdote se posta diante de Deus, ele
resume, como representante do povo, as orações de todos, trazendo-as à face de
Deus. Nessa hora ele também pode expressar sua intenção mais íntima e sagrada diante
de Deus. A subida do incenso é uma imagem da ascensão da oração, agradável a
Deus. Veja Sl 141.2 e Ap 5.8; 8.3s.
11 – E eis que lhe apareceu um anjo do Senhor, em
pé, à direita do altar do incenso.
A hora da
oração é a hora da revelação de Deus. Deus não esquecera a oração do idoso
casal. De forma muito mais gloriosa do que eles jamais haviam suplicado,
atendeu-se o que eles aguardavam ansiosamente. Apareceu-lhe um anjo do Senhor. À
direita do altar do incenso constitui um sinal de que ele vem a Zacarias de
fato por incumbência e autorização de Deus.
12 – Vendo-o, Zacarias turbou-se, e apoderou-se
dele o temor.
Quando o
mundo invisível subitamente se torna visível, o ser humano fica perplexo.
Quando a consciência de sua indignidade e de seu pecado despertam na seqüência,
a perplexidade se transforma em temor, porque a pessoa sente que o juízo é
iminente.
13 – Disse-lhe, porém, o anjo: Zacarias, não temas,
porque a tua oração foi ouvida; e Isabel, tua mulher, te dará à luz um filho, a
quem darás o nome de João.
14 – Em ti haverá prazer e alegria, e muitos se
regozijarão com o seu nascimento.
Primeiramente
o anjo tranqüiliza Zacarias. Está trazendo uma mensagem de misericórdia, não de
juízo. Ele anuncia um filho, o descendente há muito tempo almejado. A expressão
tua oração pode muito bem ter o sentido de “tua prece constante”. O nome
João se origina de Joanã (2Rs 25.23; 1Cr 12.4,12) e significa o mesmo
que “o Senhor agracia”. Ele ocorre diversas vezes no AT. Na realidade a
graça não é característica da prédica de João, mas por meio de sua atuação
inaugurou-se o domínio da graça. Contudo faz parte da natureza do domínio da
graça que ela persiga o pecado de forma implacável até nos menores vestígios, e
o puna inexoravelmente. A premissa da graça é o arrependimento total.
Esse filho
há de ser “um sinal da graça” e “um motivo da alegria”. De uma alegria tal que
culminará no estremecimento, na exultação, no júbilo. E esse júbilo valerá não
apenas para os familiares de João, mas para todo o povo!
15 – Pois ele será grande diante do Senhor, não beberá vinho nem bebida forte e será cheio
do Espírito Santo, já do ventre materno.
João está
entre as pessoas especialmente consagradas que tentavam concretizar o exemplo
da santidade israelita em círculos não-sacerdotais. Essas pessoas eram chamadas
de nazireus, i. é, pessoas “consagradas a Deus”, “noivas de Deus”.3
À
simplicidade de vidas agrega-se como decisivo o fato de que já no ventre
materno ele fica pleno do Espírito Santo. Nesse caso tem-se em mente o Espírito
Santo no aspecto de seu efeito de poder, conforme derramado sobre os profetas
como Espírito de serviço (embora apenas por pouco tempo), inclusive sobre
Sansão e Saul, transformando-os em ferramentas de Deus.
16 – E converterá muitos dos filhos de Israel ao
Senhor, seu Deus.
17 – E irá adiante do Senhor no espírito e poder de
Elias, para converter o coração dos pais aos filhos, converter os desobedientes
à prudência dos justos e habilitar para o Senhor um povo preparado.
Como
primeiro ato é anunciado um poderoso movimento religioso, um grande avivamento
entre o povo. Muitos hão de ser arrancados da alienação de Deus e novamente
reconduzidos a Deus pela via do arrependimento.
Por
intermédio de um trabalho desses ele abrirá caminho para o tempo messiânico, e
isso será a coroa de sua obra. A marca característica da atuação de João é,
como outrora em Elias, “o poder”.4
2 Tanto pela manhã, antes da oferta queimada
às 9 horas, quanto à tarde, por volta das 3 horas, após o holocausto,
aconteciam cultos de oração no templo (At 3.1),
cujo ato simbólico concomitante era a queima de incenso. Quanto à locução
“vindo a sorte recair sobre” (At 1.26), Lange,
em Bibelwerk, observa: “O sorteio era utilizado porque no serviço do santuário
nada deveria ser entregue ao arbítrio humano.”
3 Ele era uma espécie de sacerdote laico, cujo estilo
de vida já tinha sido regulamentado em Nm 6.1-21.
Há dois exemplos de pessoas que foram nazireus durante a vida toda: Sansão e
Samuel (Jz 13.5 e 1Sm
1.11).
4 Também nesse caso faz-se alusão a Malaquias, onde se
lê (Ml 4.5): “Eis que eu vos enviarei o profeta
Elias, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor.” O povo e seus
mestres da lei haviam interpretado essa promessa de forma literal e esperavam o
retorno pessoal de Elias (Jo 1.21; Mt 16.14; 17.10; 27.47). Aqui a promessa deve ser interpretada no
sentido espiritual, de acordo com a própria natureza do profeta. João há de ser
um reformador novo, semelhante a Elias.
