Alegoria — Enciclopédia Bíblica e Teológica
Alegoria
(gr. allēgoreō, “falar de uma coisa por meio de outra”, “expressar figuradamente”)
Alegoria é uma forma de linguagem figurada na qual uma pessoa, objeto, acontecimento ou sequência narrativa representa uma realidade distinta daquela expressa no nível imediato do discurso. Em sentido literário, costuma ser descrita como uma metáfora desenvolvida ou continuada, embora as fronteiras entre alegoria, parábola, metáfora e símbolo não sejam rígidas no vocabulário bíblico. O heb. māšāl, frequentemente traduzido por “provérbio” ou “parábola”, possui campo semântico amplo e pode abranger desde sentenças proverbiais até narrativas simbólicas extensas; por isso, classificações literárias modernas não devem ser projetadas mecanicamente sobre as categorias antigas (Crossan, 1992: 5.146–147).
O verbo gr. allēgoreō ocorre no NT somente em Gl 4.24, no desenvolvimento paulino da história de Agar e Sara (Gl 4.21–31). Paulo estabelece correspondências entre as duas mulheres, seus filhos e duas alianças: Agar é relacionada ao Sinai e à “Jerusalém atual”, caracterizada pela escravidão, enquanto Sara se associa à promessa, à liberdade e à “Jerusalém do alto”. A passagem não afirma que a narrativa de Gênesis tenha sido originalmente composta como uma alegoria; Paulo toma personagens e acontecimentos da tradição abraâmica e os relê figurativamente no contexto de sua controvérsia sobre a Lei, a promessa e a identidade dos filhos de Abraão. Essa argumentação constitui a etapa final da extensa série de provas escriturísticas e teológicas desenvolvida em Gl 3.1–4.31 (Betz, 1992: 2.912–913).
O fenômeno literário, entretanto, não se limita à ocorrência do termo allēgoreō. O AT contém narrativas cujo caráter alegórico é reconhecível pela correspondência entre os elementos da história e realidades históricas ou teológicas. Ez 17.2–21 oferece um exemplo particularmente claro: a narrativa das duas águias e da videira é seguida de uma explicação que identifica seus principais elementos com governantes e acontecimentos políticos. Procedimento semelhante aparece nas imagens dos leões e da videira em Ez 19 e das duas irmãs em Ez 23. Nem todo detalhe de uma alegoria, contudo, precisa possuir necessariamente um referente independente; exigir correspondência para cada elemento pode transformar análise literária em alegorização arbitrária (Crossan, 1992: 5.147–148).
Deve-se, por isso, distinguir a alegoria como característica do próprio texto da interpretação alegórica como método hermenêutico. Esta última procura encontrar, além do sentido imediato de uma passagem, correspondências espirituais ou filosóficas adicionais. Tal procedimento desenvolveu-se no mundo grego antes do cristianismo e foi amplamente empregado no judaísmo helenístico, sobretudo em Alexandria, tornando-se posteriormente importante na exegese cristã patrística (Schodde, 1979: 1.94–95). A leitura alegórica tradicional do Cântico dos Cânticos como representação do amor entre Deus e Israel ou entre Cristo e a Igreja pertence a essa história da interpretação; não demonstra que o livro, em sua forma literária original, tenha sido composto como uma alegoria. De modo semelhante, metáfora, símbolo, parábola e tipologia podem compartilhar mecanismos de correspondência figurativa, mas não devem ser tratados como categorias simplesmente intercambiáveis.
