JESUS CRISTO — Enciclopédia Bíblica e Teológica
Jesus Cristo
(Heb./aram. יֵשׁוּעַ, Yēšûaʿ; gr. Ἰησοῦς, Iēsous; Heb. מָשִׁיחַ, māšîaḥ; gr. Χριστός, Christos.)
Jesus de Nazaré foi um judeu do séc. I d.C., cuja atividade pública se desenvolveu principalmente na Galileia e que foi executado por crucifixão sob a autoridade do prefeito romano Pôncio Pilatos, provavelmente ca. 30 d.C. A investigação histórica procura reconstruir sua atividade, proclamação, relações sociais, conflito em Jerusalém e morte a partir das fontes disponíveis, enquanto os escritos do NT interpretam esses acontecimentos à luz da fé pascal e atribuem a Jesus identidade e funções expressas por designações como Cristo, Filho de Deus, Filho do Homem e Senhor. Esses dois planos são inseparáveis na documentação cristã primitiva, mas não são metodologicamente idênticos: aquilo que pode ser estabelecido mediante investigação histórica deve ser distinguido das afirmações cristológicas formuladas pelos próprios textos (Meyer, 1992: 3.773–774, 792).
A expressão “Jesus Cristo” combina originalmente um nome pessoal e um título. Ἰησοῦς (Iēsous) representa em grego o nome hebraico e aramaico יֵשׁוּעַ (Yēšûaʿ), forma tardia relacionada a יְהוֹשֻׁעַ (Yĕhôšuaʿ), tradicionalmente entendida no campo semântico de “Yahweh salva” ou “Yahweh é salvação”. Χριστός (Christos), por sua vez, significa “ungido” e corresponde ao hebraico מָשִׁיחַ (māšîaḥ), “ungido”, de onde procede “Messias”. Na linguagem cristã primitiva, o título foi tão estreitamente associado a Jesus que “Cristo” passou progressivamente a funcionar também como parte de sua designação pessoal, sem perder por isso sua origem messiânica (Meyer, 1992: 3.773).
I. Nome, origem e designações
O nome יֵשׁוּעַ (Yēšûaʿ) não era exclusivo de Jesus de Nazaré. É uma forma abreviada e tardia de יְהוֹשֻׁעַ (Yĕhôšuaʿ), nome conhecido em português sobretudo pela forma “Josué”; a LXX e o NT empregam Ἰησοῦς para representar esse mesmo nome, como se observa, por exemplo, nas referências ao Josué veterotestamentário em At 7.45 e Hb 4.8. Outros personagens judaicos também o possuíam, entre eles Jesus Ben Sirá e Jesus, chamado Justo, colaborador de Paulo em Cl 4.11. A necessidade de acrescentar qualificadores a “Jesus” decorre justamente de seu caráter relativamente comum no judaísmo do período (Meyer, 1992: 3.773).
A etimologia do nome associa-o a Yahweh e à ideia de salvação. Essa associação é explicitamente explorada em Mt 1.21, onde a ordem para dar à criança o nome “Jesus” é interpretada pela afirmação de que ele “salvará o seu povo dos seus pecados”. O evangelista não está oferecendo uma análise filológica completa do nome, mas empregando seu significado tradicional como recurso cristológico. Deve-se, portanto, distinguir a história linguística do antropônimo de sua interpretação teológica dentro da narrativa de Mateus.
Como o nome pessoal não bastava para individualizá-lo, Jesus podia ser identificado por procedência geográfica. Os Evangelhos empregam expressões equivalentes a “Jesus de Nazaré”, “Jesus, o Galileu” e formas adjetivais normalmente traduzidas por “Nazareno” ou “Nazoreu” (Meyer, 1992: 3.773). O grego apresenta, porém, duas formas distintas: Ναζαρηνός (Nazarēnos), particularmente característica de Marcos, e Ναζωραῖος (Nazōraios), mais frequente em Mateus, Lucas, João e Atos. No NT, essas designações aparecem vinculadas ao nome de Jesus e funcionam ordinariamente como identificação de sua procedência, prática compatível com a identificação de pessoas pelo lugar de origem no mundo judaico antigo (Walls, 1982: 818).
A relação linguística precisa entre “Nazareth”, Ναζαρηνός e Ναζωραῖος apresenta dificuldades que desaconselham derivar mecanicamente todas as formas de uma única construção grega. Mt 2.23 acrescenta uma dificuldade própria ao afirmar que Jesus seria “chamado Nazoreu”, relacionando a designação ao cumprimento dos profetas sem citar uma passagem veterotestamentária específica. Foram propostas relações com נֵצֶר (nēṣer), “rebento”, em Is 11.1, com נָזִיר (nāzîr), “nazireu”, e com um tema profético mais amplo de rejeição ou desprezo; nenhuma dessas explicações deve ser apresentada como etimologia demonstrada (Walls, 1982: 818).
“Cristo” pertence a outra categoria. Χριστός (Christos) é o correspondente grego de מָשִׁיחַ (māšîaḥ) e significa literalmente “ungido”. No AT, a linguagem da unção pode aplicar-se a reis, sacerdotes e, em contextos específicos, a outras figuras investidas para uma função; no judaísmo do Segundo Templo, expectativas diversas passaram a empregar linguagem messiânica para agentes da intervenção futura de Deus. No cristianismo nascente, a identificação de Jesus como “o Cristo” tornou-se uma confissão central, vinculando sua pessoa às expectativas messiânicas de Israel (Meyer, 1992: 3.773, 787).
A forma composta “Jesus Cristo” deve, por isso, ser lida historicamente antes de ser tomada como simples nome próprio. “Jesus” identifica a pessoa; “Cristo” expressa inicialmente uma afirmação acerca de sua identidade e função: Jesus é o Messias. O uso cristão muito antigo aproximou de tal modo ambos os elementos que Χριστός podia aparecer quase nominalmente, especialmente nas cartas paulinas, mas essa evolução semântica não elimina a força titular do termo nos textos em que a questão da messianidade de Jesus está explicitamente em jogo. A distinção entre nome, procedência e título fornece, assim, a base terminológica para o tratamento histórico e cristológico das seções seguintes.
