Antropologia do Livro de Jó

Antropologia do Livro de Jó

Antropologia do Livro de Jó


O livro de Jó levanta numerosas perguntas sobre a natureza e destino do homem. Considerando que o homem é mero mortal, como ele pode ter uma relação com Deus? Que efeito o pecado tem na vida da pessoa e na sua relação com Deus? Que relação existe entre pecado e sofrimento? É possível adorar e servir a Deus desinteressadamente? Como o homem pode conciliar o sofrimento com o amor e cuidado de Deus? Há esperança além da sepultura? 

O homem na visão de Jó. 

O sofrimento de Jó o levou a refletir de modo intensivo e agonizante sobre a natureza, o destino e a relação dos homens com Deus. A origem do homem. Jó reconheceu que ao nascer ele estava “nu” (1.21), quer dizer, não possuía bens terrenos. Gemendo em agonia física e emocional, ele desejou nunca ter nascido (3.3-10), ou ser um natimorto (w. 11-19), de forma a ter evitado as dificuldades da vida na terra e estado em paz na sepultura. Considerando que nada disso aconteceu, ele desejou morrer (w. 20-26). A morte terminaria com a sua desgraça e amargura (v. 20), e ele seria feliz (v. 22). Caso contrário, continuaria sem paz, tranquilidade e descanso (v. 26). Pensando sobre Deus ter formado Jó cuidadosamente no útero materno, Jó perguntou a Deus como Ele poderia destruí-lo agora (10.8). Considerando que Deus, como oleiro, moldara Jó no útero (v. 9) e visto que esse desenvolvimento embrionário complicado foi como a coalhadura de leite em queijo e como um tecelão tecendo-o com pele, carne, ossos e tendões, como, perguntou Jó, Deus poderia se virar contra ele agora (w. 10,11)? Era inconsistente, parecia a Jó. 

Uma vez mais, ele lamentou ter nascido (v. 18). Ser um natimorto (“desde o ventre seria levado à sepultura!”, v. 19) teria sido preferível a essa desgraça. A natureza do homem. Ser “nascido da mulher” (14.1) fala da fragilidade humana (cf. 15.14; 25.4). Contudo, ele é a criatura de Deus (14.15), tendo sido feito pelas suas mãos (v. 15; cf. “mãos” em Jó 10.3,8) no útero (31.15), e tendo de Deus a respiração (27.3). Na mortalidade do homem, ele não pode descobrir sabedoria sem temer a Deus (28.12,13,21,28). Quando Jó falou que o homem é “mortal”, usou a palavra hebraica ’enos, palavra usada 30 vezes no livro de Jó e que significa o homem em sua fraqueza, finitude ou fragilidade. Jó reconheceu que diante da santidade de Deus, o homem é impuro (14.4). E o homem é mau (3.17; 9.22,24; 10.3; 16.11; 21.7,16,28; 24.6; 27.7,13; 29.17; 31.3), irreligioso (13.16; 27.8) e sem esperança (Jó 6.11; 7.6; 14.19; 17.15; 27.8). Jó reconheceu que o pecado pode ocorrer no coração (1.5; 31.7,9) ou nos pensamentos (31.1). O pecado pode tomar a forma de engano (27.4; 31.5), injustiça (31.13,16,21), falta de compaixão (v. 17) ou alegrar-se com o mal alheio (v. 29). A brevidade da vida. Jó falou repetidamente e de muitas formas sobre a brevidade da vida humana. Comparou a brevidade da vida aos movimentos rá­pidos do tecelão (7.6), uma respiração (v. 7.7), uma nuvem (7.9), um corredor veloz (9.25), um barco de papiro (v. 26), uma águia que se lança sobre a presa (v. 26), e uma flor e uma sombra (14.2). Sua vida, disse ele, parecia alguns dias (10.20), alguns meses (21.21) e alguns anos (16.22). Considerando que a vida lhe foi encurtada (17.1), com o número dos dias já determinado para ele (14.5), sua impressão era de que a vida estava se escoando (30.16). 

O sofrimento do homem. 

O sofrimento de Jó era multifacetado. Era físico, social, emocional e espiritual. Estava em dor e tormento (13.25; 16.6; 30.17) e tinha grandes dificuldades (Jamai, “tristeza”, “desgraça”, 3.10; palavra também usada em 4.8; 5.6,7; 11.16; 15.35). No âmbito físico, teve insônia (7.4), perdera peso (16.8), ficou com os olhos vermelhos e olheiras profundas (v. 16), emagreceu (17.7; 19.20), tinha calafrios (21.6), dores nos ossos (30.17); a pele enegrecera e descascara (vv. 28,30), tinha febre (v. 30) e furúnculos que coçavam (2.7). Socialmente, as pessoas o rejeitavam. Zombavam e escarneciam (12.4; 16.10; 17.2,6), e até as crianças debochavam dele (30.1,9-11). Por isso, não tinha alegria (9.25; 30.31). Na sua angústia e amargura (7.11; 10.1), sentia que estava na escuridão (19.8; 30.26) e em desespero (6.14,20). Todos os seus amigos e parentes o abandonaram (19.17-29). Diante de Deus, Jó estava espiritualmente sem esperança (14.13; 19.10). Deus estava calado e aparentemente desinteressado em Jó (19.7; 30.20), embora o sofredor clamasse por ajuda (30.24,28). Apesar de todos esses sofrimentos, Jó insistia que não merecia tais calamidades, que o seu sofrimento excedeu de longe qualquer pecado conhecido merecedor de tais calamidades (6.10,29,30; 13.19; 16.17; 23.7,11,12; 27.4-6; 31.6). 

A relação do homem com Deus. 

O foco do livro de Jó é a relação do homem com Deus, e especialmente, como já declarado, a questão de como o homem deve relacionar-se com Deus, quando a injustiça, na forma de sofrimentos imerecidos, prevalecer.  O homem é capaz de adorar a Deus (Jó 1.20), baseado no temor que ele tem dEle (w. 1.1,8; 2.3; ou seja, reconhecendo todo o esplendor divino e reagindo de acordo) que é a essência da sabedoria (28.28). Deus aceita os sacrifícios do homem feitos em nome de outros (1.5; 42.8). Embora o homem possa amaldiçoar a Deus (1.5,11; 2.5,9), Jó nunca amaldiçoou. Ele desafiou a Deus, depreciando-lhe a aparente injustiça, mas jamais renunciou Deus ou o amaldiçoou como Satanás predissera. Deus castiga os homens pelo pecado? Os três autodesignados conselheiros de Jó afirmaram repetidamente que Deus castiga o pecado — prontamente e nesta vida. Jó desafiou essa visão, declarando que os ímpios continuam vivendo prosperamente com visivelmente nenhuma experiência de julgamento (21.7- 15,17,18) e continuam pecando de muitas formas sem serem castigados (24.1- 17). Jó, porém, afirmou que subsequentemente os ímpios terão o que merecem (24.18-24; 27.13-23; 31.2,3). Muitos estudiosos entendem que as passagens de Jó 24.18-24 e 27.13-23 foram palavras ditas por Bildade ou Zofar, porque, argumentam, esses versículos contradizem as declarações de Jó sobre a indiferença de Deus aos pecadores. O que Jó quis dizer é que, embora os ímpios continuem existindo (21.7, em oposição às palavras de Zofar em 26.5 que diz que os ímpios morrem jovens), no final das contas os pecadores serão castigados. “A posição de Jó era que tanto os justos quanto os ímpios sofrem e ambos prosperam. Este conceito difere drasticamente da insistência dos três disputantes que só os ímpios sofrem e que só os justos prosperam.”(Zuck, “Job”, p. 747.) 

Considerando que o sofrimento de Jó, como já declarado, resultou em tamanha dissipação física, ele sentia que morreria logo. Na verdade, ele preferia a morte ao intenso sofrimento que estava tendo (6.8,9; 7.15). A morte é final, declarou Jó, pois não há retorno (7.9; 10.21; 16.22), e na morte o homem já não existe (7.21; 14.10), “passa” (14.20) e não tem esperança (w. 10- 12; 17.15,16) de voltar à vida anterior. Os dias de “todos os viventes” (30.23) “perecem” (7.6) e os vivos não se lembram (24.20). Tanto os prósperos quanto os pobres morrem (21.23-26). Jazendo morto no pó (7.21; 17.16; 21.26), o homem está na escuridão (10.21,22; 17.13) e o corpo está sujeito à decomposição pelos vermes (17.14; 21.26; 24.20). “Os mortos”, que “tremem” (Jó 26.5), são literalmente os repaim (a palavra também ocorre em Is 14.9: “mortos”). Os refains, descendentes de Rafa, eram um grupo étnico (Gn 14.5; 15.20; Dt 2.11; 3.13; Js 17.15) de estatura alta (Dt3.11; 2 Sm 21.16,18-20). Em ugarítico, os refains eram deuses importantes ou guerreiros nobres. Quando usada em ugarítico para referir-se aos mortos, a palavra denotava a elite entre os mortos.6’ O que Jó quer dizer é que até mesmo os mortos da elite “tremem”, porque Deus está acima deles. Isso indica o tormento consciente na morte. Os versículos que falam que os mortos estão nas trevas indicam o aspecto físico da morte. Em Jó 26.6, Jó declarou que “o inferno está nu perante [Deus]”, quer dizer, Ele vê tudo que acontece no Sheol, o lugar dos mortos. Outra referência à morte proferida pelos lábios de Jó está registrada em Jó 19.26. A palavra morte não é usada, mas ele disse: “Depois de consumida a minha pele, ainda em minha carne verei a Deus”. Consumida significa “esfolada” ou “desnudada”. 

Quer dizer, ele morreria do descascar constante da pele (Jó 2.7; 30.30).66 Certos estudiosos propõem que significa que, depois que a pele tivesse secada ou desfigurada a ponto de ficar irreconhecível,6 enquanto ainda estivesse vivo, ele veria Deus defender-lhe a causa. Outros dizem que Jó quis dizer que ele veria a Deus em um corpo ressuscitado. Se este é o significado depende da palavra hebraica min (“em”). Se for traduzido por “em”, então a ideia é “do ponto privilegiado de”, e o versículo significa no corpo ressuscitado ou na carne enquanto ainda vivesse. Se for traduzido “de”, então o versículo significa “à parte da” sua carne (ou seja, depois da morte). Favorecendo a segunda visão é que em geral min significa “sem” (cf. 11.15), e visto que Jó 19.26a fala de morte, teríamos o versículo 26b em paralelismo hebraico também se referindo à morte. Jó não estava dizendo que ele veria a Deus na carne, mas sem ou à parte da carne. Ele veria Deus no estado da morte. Isto não indica a ressurreição depois da morte, mas a consciência consciente depois da morte. Ele mesmo veria a Deus (19.27), cara a cara, e Deus lhe seria o defensor. Tal fato predito era um grande clímax da fé no meio da agonia da dor física e emocional e do ostracismo social de Jó. 

O homem na visão dos conselheiros de Jó. Considerando que o ponto de vista de Jó sobre o homem focou a brevidade e as desgraças da vida, cada um dos componentes do trio hostil concentrou-se no pecado do homem e suas consequências (embora também mencionassem a brevidade da vida). E compreensível, porque os três se dedicaram a explicar as circunstâncias de Jó como o resultado da sua má conduta. Elilaz. Elifaz disse que o homem planta o mal (Jó 4.8), é injusto e impuro (v. 17; 15.14), é culpado de ressentimento e inveja (5.2), é astucioso e capcioso (w. 12,13), vil e corrupto (15.16), iníquo (w. 16,35; 22.15), ímpio (v. 20), desafiante de Deus (w. 25,26; 22.17), hipócrita (15.34) e enganoso de nascença (v. 35). Elifaz acusou Jó de pecar com palavras (w. 5,6,13), de ser ignorante de Deus (15.7-9), de enfurecer-se contra Deus (v. 13), de não ser de nenhum benefício para Deus (22.2,3) e de ser culpado de grande maldade (v. 5). Acusou Jó de exigir penhora dos outros por nenhuma razão (v. 6) e de ignorar as necessidades dos cansados, famintos, viúvas e órfãos (w. 7,9). Na lei mosaica, exigir penhora pertencia à prática do credor que aceita a capa do tomador de empréstimo como garantia de pagamento, caso não lhe pudesse pagar a dívida. A roupa, porém, tinha de ser-lhe devolvida antes do pôr-do-sol (Êx 22.26,27). Acusar Jó de exigir penhora e não devolvê-la à noite dava a entender que ele era insensível, ganancioso e ladrão. De forma interessante, Elifaz não tinha base para fazer essas alegações em Jó 22.6-9. 

A verdade é que Jó, mais tarde, negou essas acusações (31.16-22,32). As dificuldades, a consequência do pecado, são ocasionadas pelo próprio homem, e não pelas condições externas (Jó 5.6), e são tão inevitáveis quanto o vôo das faíscas de uma fogueira ao ar livre (v. 7).'68 Na realidade, o homem concebe as dificuldades (15.35, 'amai, a mesma palavra usada em 3.10; 4.8; 5.6,7). Elifaz, como Jó, também falou sobre a fragilidade do homem, sugerido pelo fato de que ele “nasce da mulher” (15.14). O mais idoso dos inimigos verbais de Jó fez numerosas reivindicações e declara- ções para descrever as consequências do pecado. Falou sobre os pecadores que perecem e são destruídos (4.7,9; 22.20), são esmagados tão facilmente quanto se esmaga uma traça (4.19), são “despedaçados” e passam despercebidos (4.20) e sofrem tormentos (15.20). A palavra hebraica para referir-se a “se dar pena a si mesmo” pode ser traduzida por “estorcer-se de dor”, referindo-se às dores de parto da mulher. Os filhos dos maus são indefesos (5.4), e a astúcia dos ímpios é frustrada (w. 12-14). Os irreligiosos serão atacados (15.22), terão fome (v. 23), ficarão apavorados (v. 24; 22.10), sem-lar (15.28), inseguros e confusos (15.30; 22.16) e serão arruinados e escarnecidos (v. 19). As suas riquezas e posses desaparecerão (5.5; 15.29-34; 22.20). Elifaz comparou o estado confuso dos maus às trevas (5.14; 15.22,23,30; 22.11), e declarou que o fogo e as águas de enchente destruiriam as suas posses (15.34; 22.11,16,20). 

Bildade. 

Bildade, como o conselheiro mais velho Elifaz, acentuou que as calamidades são consequências do pecado do homem. O homem é frágil (“nasce da mulher”, 25.4; cf. 15.24), fraco (’enos, 25.4,6, e “filho do homem”, v. 6), impuro e injusto (w. 4,5; cf. 8.6), e tão inútil e asqueroso quanto uma larva de inseto ou verme (25.6). A sua vida é breve, movendo-se rapidamente da nascença à morte como uma sombra (8.9). Os ímpios são destruídos, murchados como papiro sem água ou morrendo como uma planta bem enraizada arrancada pelas raízes (8.11-19; 18.16). As tendas lhe são queimadas (18.15) e desaparecem (8.22), e eles morrem (falado como que estando na escuridão, Jó 18.5,6,18). São apanhados em todos os tipos de dificuldades (w. 8-10), enfrentando o terror, o desastre, a insegurança e a doença (18.11-14). Ninguém se lembra deles (v. 17), e não têm sobrevivente (18.19). Zofar. Elifaz falou da distância dos maus, Bildade disse que os maus são apanhados, mas Zofar acentuou que os maus perdem a riqueza. Zofar acusou Jó de dois pecados: afirmar injustamente que é inocente (Jó 11.4) e desprover os pobres (20.19). Este terceiro disputante, mais sarcástico que os dois companheiros, disse que o homem é enganoso (11.11), mal (w. 11,14), estúpido (v. 12), irreligioso (20.5) e orgulhoso (v. 6). Por isso, os pecadores passam por dificuldades (v. 16; 20.22), têm terrores (v. 25), para eles a alegria é fugaz (v. 5) e a vida é passageira e efêmera como um sonho (v. 8). Jó era ignorante de Deus (11.7,8), e os ímpios morrem sem esperança (v. 20) e perecem como o seu próprio esterco (20.7). Sob a raiva e ira de Deus (w. 23,28), os ímpios têm escuridão, fogo e inundação (20.26,28), as mesmas três calamidades que Elifaz mencionara (5.14; 15.34; 22.11). 

As riquezas dos irreligiosos, adquiridas injustamente, se perderão de repente (20.10,15-18) e completamente (v. 21) antes que possam desfrutar delas (v. 18). Eliú. Com os críticos de Jó presos em um impasse, falou Eliú, um espectador. Jovem e enfurecido pelo impasse dos debates, Eliú estava pasmo que eles, homens mais velhos que ele, não eram sábios (32.6,7). Falou também da natureza pecadora do homem, embora acentuasse a inabilidade de o homem saber e influenciar Deus. Falando menos dos resultados do pecado que os outros três, viu um propósito diferente no sofrimento, isto é, impedir o homem de destruir-se (33.17-28,30; 36.16). O sofrimento pode ajudar a proteger o homem do pecado em vez de ser uma punição pelo pecado. Para Eliú, o sofrimento de Jó conduziu a uma atitude de orgulho diante de Deus. A reclamação de Jó a Deus (v. 13; 34.17) significava que ele precisava humilhar-se diante de Deus (33.27; 36.23; 37.24). Criado por Deus (33.6; 34.19; 35.10; 36.3; 37.7),69 o homem é dependente dEle até para respirar (33.4; 34.14,15), e é obviamente inferior a Deus (“maior é Deus do que o homem”, w. 12,13). O homem é responsável a Deus e não vice-versa (v. 13). O homem não pode condenar Deus (34.17,29), ver a Deus (v. 29; 35.14), desafiar a Deus (36.23), alcançar Deus (37.23) ou entender Deus (36.26) e os seus caminhos na natureza (v. 29; 37.15,16). O jovem conselheiro-teólogo disse que Jó percebeu as comunicações de Deus com ele, embora ele falasse em sonhos (33.15-18) e por meio da dor (w. 18-22; 36.15). Contudo, Deus vê o homem (34.21,22; 36.7). Além de não entender Deus, Eliú apresentou Jó como pecador. Era culpado de orgulho (33.17; 35.12; 36.9; 37.24), maldade (34.36,37), rebelião (v. 37) e de falar contra Deus (v. 37). Todavia, o pecado do homem não afeta Deus adversamente nem a justiça do homem acumula-se para o benefício de Deus (Jó 35.6-8). 

Como o trio de protagonistas, Eliú associou o castigo com o mal, embora não fosse tão específico ou severo quanto os outros foram nos pronunciamentos (34.11,26; 36.6). Eliú falou da morte, como falaram os outros quatro debatedores. A cada dia, a alma do homem fica mais próxima da cova (33.22), uma referência à morte, como já discutido, e o homem morre de repente (34.20-25) com o corpo voltando ao pó (v. 15). O homem na visão de Deus. Na primeira fala para Jó, as numerosas perguntas retóricas de Deus tinham o propósito de apontar as insuficiências e fraquezas de Jó em vista da soberania e força de Deus, e a ignorância dele, levando em conta a onipotência de Deus. As perguntas do Senhor variaram: onde, quem, qual, que, de que, podes, tens, sabes. Considerando que o homem foi criado no último dia da criação, obviamente Jó não teve papel e não sabia de nada sobre o trabalho criativo de Deus nos dias precedentes. A terra e o mar, as nuvens e a alvorada, a escuridão e a luz, a neve e o granizo, o relâmpago e o vento, a chuva e o orvalho, o gelo e a geada, as estrelas e os planetas (38.4-38), aspectos da natureza inanimada, foram criados por Deus sem a ajuda ou conhecimento de Jó. É inquestionável que a verdade ressalta a natureza finita do homem. Leões e corvos, cabras-monteses e cervos, jumentos selvagens e bois, avestruzes e cavalos, falcões e águias (w. 39;39.30) foram feitos e cuidados pela mão do poder criativo e providência amorosa de Deus. Neste campo também o homem é incompetente e ignorante. 

Não admira que Jó respondesse a esta primeira fala reconhecendo a sua indignidade e inabilidade em responder (40.4,5). A segunda fala de Deus, na qual ele descreveu a anatomia e hábitos do beemote (40.15-24) e do leviatã (41), também mostrou as inabilidades de Jó e sugeriu a necessidade de arrepender-se do orgulho. Significativamente, Jó, tendo sido feito “semelhante ao pó e à cinza” (30.19), reduzido a uma posição de desgraça ignóbil, agora diz: “Me arrependo no pó e na cinza” (42.6), reconhecendo que ele era tão inútil quanto o pó e a cinza sobre os quais ele estava sentado. Jó, tendo reclamado que Deus o moldara do barro apenas para mandá-lo de volta ao pó (10.9), agora aceitou a sua posição humilde no monte de cinza como simbolismo da própria inutilidade. Resolveu mudar de atitude de desafio a Deus e retirar humildemente as alegações contra a suposta injustiça de Deus. Os colóquios de Deus claramente mostram que o homem é finito (40.9; 41.10,11), que o orgulho não tem lugar diante de Deus, que Ele trata do pecado e que acusá-lo de injustiça é absurdo (40.8).

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