ONIPOTÊNCIA — Enciclopédia Bíblica e Teológica
Onipotência
(Heb. שַׁדַּי, Šadday; gr. παντοκράτωρ, pantokratōr.)
Onipotência é, na teologia cristã, a perfeição divina pela qual Deus possui poder pleno e insuperável para realizar tudo aquilo que corresponde à sua vontade e à sua natureza. A afirmação não significa que contradições lógicas, mal moral ou negação da própria identidade divina constituam possibilidades que Deus simplesmente não consegue realizar. Mentir, contradizer sua natureza ou produzir simultaneamente estados de coisas mutuamente excludentes não representam, na formulação clássica do atributo, poderes cuja ausência tornaria Deus menos poderoso; são impossibilidades que não constituem objetos positivos da potência divina. A tradição teológica formulou essa distinção precisamente para evitar que “onipotência” fosse entendida como arbitrariedade ou como capacidade de autocontradição (Bromiley, 1986: 3.594).
A Escritura não apresenta uma definição abstrata de onipotência nem possui, no hebraico ou no grego bíblico, um substantivo que corresponda exatamente à categoria teológica posterior. O conceito emerge de um conjunto mais amplo de afirmações acerca da capacidade de Deus para criar, governar, julgar, salvar e cumprir aquilo que determina: nada é difícil demais para ele (Gn 18.14; Jr 32.17), ninguém pode impedir sua ação (Is 43.13), e ele realiza no céu e na terra aquilo que lhe apraz (Sl 115.3; 135.6). A formulação doutrinal de “onipotência” sistematiza, assim, uma linguagem bíblica predominantemente concreta sobre o poder soberano de Deus (Vos, 1986: 3.592–593).
I. Terminologia e formação do conceito
O vocabulário bíblico não oferece uma equivalência simples entre “onipotência” e um único termo original. No NT, a palavra mais diretamente relacionada à ideia é παντοκράτωρ (pantokratōr), normalmente traduzida “Todo-Poderoso”. O termo exprime domínio ou poder abrangente e é aplicado exclusivamente a Deus no NT. Sua distribuição é fortemente concentrada no Apocalipse: além de 2Co 6.18, ocorre em Ap 1.8; 4.8; 11.17; 15.3; 16.7, 14; 19.6, 15; 21.22. A concentração nesse livro associa o título à soberania de Deus diante dos poderes históricos, políticos e cósmicos que estruturam a visão apocalíptica (Vos, 1986: 3.592).
O termo παντοκράτωρ já possuía, contudo, uma história significativa antes do NT. A LXX emprega-o com frequência na representação grega de designações divinas hebraicas, inclusive em contextos relacionados a Yahweh Sebaoth e a El Šadday (Vos, 1986: 3.592). Desse modo, quando o termo aparece no cristianismo primitivo, ele pertence a uma linguagem religiosa anteriormente desenvolvida na tradução grega das Escrituras de Israel. Seu emprego não constitui por si só uma exposição filosófica da onipotência; funciona primeiramente como título que proclama a supremacia e o governo divinos.
O hebraico שַׁדַּי (Šadday) requer maior cautela. O termo ocorre isoladamente e na combinação אֵל שַׁדַּי (ʾĒl Šadday), tradicionalmente vertida “Deus Todo-Poderoso”, especialmente nas tradições patriarcais (Gn 17.1; 28.3; 35.11; 43.14; 48.3; Êx 6.3). Essa tradução, porém, não estabelece a etimologia do vocábulo. A origem, a formação e o significado primitivo de Šadday permanecem discutidos, e “Todo-Poderoso” representa uma interpretação tradicional fortemente mediada por antigas traduções, particularmente a LXX e a Vulgata (Rose, 1992: 4.1005). Por isso, Šadday não deve ser apresentado simplesmente como a palavra hebraica para “onipotente”.
A diferença entre Šadday e pantokratōr mostra também por que a história lexical não pode ser identificada diretamente com a história da doutrina. Um título divino pode transmitir poder, soberania, proteção ou supremacia sem formular por si mesmo a proposição metafísica de que o poder de Deus é ilimitado. Inversamente, textos que não empregam nenhum desses títulos podem expressar com grande força aquilo que posteriormente seria sistematizado como onipotência, afirmando que nenhum propósito divino pode ser frustrado e que nenhuma esfera da criação permanece fora do alcance de sua ação (Jó 42.2; Is 43.13; Dn 4.32). A categoria teológica nasce, portanto, da síntese do testemunho bíblico acerca de Deus, e não da expansão semântica de um único lexema (Vos, 1986: 3.592–593).
Essa distinção é decisiva para a definição do atributo. “Todo-Poderoso” funciona biblicamente como título e confissão de soberania; “onipotência”, em sentido técnico, é a formulação teológica que procura explicitar as consequências dessa soberania para a relação de Deus com tudo o que existe. A doutrina não acrescenta à Escritura um poder diverso daquele que ela atribui a Deus, mas organiza conceitualmente afirmações dispersas sobre criação, governo, história e salvação. Ao mesmo tempo, essa sistematização exige cautela para que a linguagem abstrata de “poder ilimitado” não seja separada da vontade, do caráter e dos propósitos do Deus a quem os textos bíblicos atribuem esse poder (Bromiley, 1986: 3.594–595).
