Veneno — Enciclopédia Bíblica Online

Na Bíblia, “veneno” designa tanto uma realidade material quanto uma categoria teológico-moral: no plano literal, aparece como peçonha e substância letal associada a serpentes e ao sofrimento humano (Dt 32.24; Dt 32.33; Jó 20.16; Sl 58.5; Sl 140.4), e, no plano figurado, descreve a fala que mata, a justiça pervertida, a liderança religiosa corrompida e a contaminação coletiva da vida social e cultual (Sl 140.4; Rm 3.13; Tg 3.8; Am 5.7; Jr 23.15); por isso, o campo semântico bíblico integra amargura, fel e toxicidade como imagem de antiordem espiritual, inclusive em linguagem visionária, quando águas destinadas à vida tornam-se instrumento de morte (Ap 8.10-11), e em linguagem ética-escatológica, quando práticas de engano e “feitiçaria” são tratadas como forma de envenenamento moral das nações (Gl 5.20; Ap 9.21; Ap 18.23; Ap 21.8).

Imagem de um escriba judeu escrevendo e as palavras hebraica e grega para "veneno"

I. Delimitação Semântica

Lexema/forma Delimitação semântica Âncoras textuais
Hb. ḥēmâ (H2534) “calor/fúria”; em subcampo específico, “veneno/peçonha”. Freq.: 124 (total do lexema; uso “veneno” em subconjunto). Dt 32.24; Dt 32.33; Jó 6.4; Sl 58.4; Sl 140.3.
Hb. rōʾš (H7219) “fel/veneno”; amargor tóxico e figura de juízo pactual. Freq.: 12. Dt 29.18; Dt 32.33; Jó 20.14,16; Jr 8.14; Jr 9.15; Jr 23.15; Lm 3.5,19; Os 10.4.
Hb. ios (G2447) “veneno/ferrugem”; peçonha verbal (ética da fala) e corrosão escatológica. Freq.: 3. Rm 3.13; Tg 3.8; Tg 5.3.
Hb. peṯen (H6620) “áspide”; fauna peçonhenta em sentido literal e metafórico. Freq.: 6. Dt 32.33; Sl 58.4; Sl 91.13; Jó 20.14,16; Is 11.8.
Hb. ṣepaʿ (H6848) “víbora”; imagem de ameaça letal e perversão moral. Freq.: 5. Pv 23.32; Is 14.29; Is 59.5; Jr 8.17.
Hb.ʿaḵšûḇ (H5919) “víbora/áspide”; peçonha associada à fala destrutiva. Freq.: 1. Sl 140.3.
Hb. laʿănâ (H3939) “absinto/losna”; amargor tóxico vegetal e metáfora de injustiça. Freq.: 8. Dt 29.18; Pv 5.4; Jr 9.15; Jr 23.15; Lm 3.15,19; Am 5.7; Am 6.12.
Gr. apsinthos (G894) “absinto”; tóxico visionário/apocalíptico ligado a águas mortíferas. Freq.: 2 (duas menções no mesmo versículo). Ap 8.11.
Gr. pharmakeia (G5331) “feitiçaria/sorceries”; campo relacionado a drogas-práticas mágicas. Freq.: 3. Gl 5.20; Ap 9.21; Ap 18.23.
Gr. pharmakeus (G5332) “feiticeiro/envenenador” (campo relacionado). Freq.: 1. Ap 21.8.

A delimitação exegética do campo “veneno” exige separar, no texto bíblico, quatro zonas semânticas diferentes: toxicidade literal, peçonha animal, amargor punitivo e corrosão figurada. No hebraico bíblico, o núcleo não é monolítico: há um eixo em torno de חֵמָה (ḥēmāh, “calor; furor”), outro em torno de רֹאשׁ (rōʾš, “fel; erva tóxica; veneno”) e um terceiro em torno de לַעֲנָה (laʿănāh, “absinto/losna”, com valor de amargor tóxico e social). Em paralelo, no grego do NT, ἰός (iós, “veneno; corrosão”) concentra o campo semântico em apenas três ocorrências textuais canônicas. Esse desenho lexical já impede equivalência automática entre “amargo” e “venenoso”: em vários contextos, “amargor” é antes categoria forense, ética ou pactual do que descrição química.

Do ponto de vista quantitativo, o dado mais estável para a fase filológica é o seguinte: חֵמָה aparece amplamente no AT e só em subconjunto restrito assume carga de peçonha; רֹאשׁ ocorre 23 vezes, com cerca de 12 ocorrências no campo de fel/veneno/erva tóxica; לַעֲנָה ocorre 8 vezes com forte associação a amargor tóxico e injustiça social; e ἰός no NT está restrito a Romanos 3.13, Tiago 3.8 e Tiago 5.3. A forma apresentada como “fíosh” deve ser corrigida para רֹאשׁ (rōʾš), inclusive no contexto de Jó 20.16.

II. Antigo Testamento: veneno literal, metáfora judicial e toxicidade social

A primeira camada é pactual-judicial. Em Deuteronômio, o binômio רֹאשׁ (rōʾš, “fel/veneno”) e לַעֲנָה (laʿănāh, “absinto/losna”) participa de linguagem de infidelidade e sanção, especialmente na tradição de Deuteronômio 29 e 32, onde o “veneno” não é apenas substância, mas índice de deterioração moral e destino de juízo. A mesma rede reaparece em Jeremias e Lamentações como “amargor infligido” na história do povo, e em Oséias/Amós como metáfora de perversão institucional do direito. Nesse bloco, “veneno” funciona como categoria de aliança violada: o que deveria ser justiça converte-se em amargor tóxico. (Dt 29.18; Dt 32.24, 32.33; Jr 8.14; Jr 9.15; Jr 23.15; Lm 3.5, 3.19; Os 10.4; Am 5.7; Am 6.12).

A segunda camada é antropológico-poética: a peçonha aparece como diagnóstico da fala violenta. Nos Salmos sapienciais e imprecatórios, a imagem da serpente/áspide articula fisiologia e ética da linguagem, descrevendo a palavra como ferida envenenada. Aqui entram também provérbios de advertência onde o “fim amargo” e a “picada” da serpente deslocam a semântica do tóxico para o discernimento moral de trajetórias. Em Jó 6.4, a cena das “flechas” com veneno desloca o campo para sofrimento extremo sob registro teológico. (Jó 6.4; Sl 58.4; Sl 69.21; Sl 140.3; Pv 5.4; Pv 23.32).

A terceira camada é zoológica e imagética. Textos proféticos e poéticos recorrem a serpentes, víboras e áspides para expressar letalidade real ou potencial. O vocabulário de veneno, nesses casos, não é ornamentação retórica gratuita: ele sinaliza risco mortal, subversão da ordem e, em certos contextos escatológicos, reversão da ameaça por ação divina. Em Jó 20.14 e Jó 20.16, o campo tóxico integra a lógica retributiva do discurso; em Isaías 11.8, a imagem da criança junto à serpente redefine o horizonte de paz como neutralização do perigo venenoso; em Isaías 14.29 e 59.5, o motivo retorna com valência de juízo. (Jó 20.14, 20.16; Is 11.8; Is 14.29; Is 59.5).

A quarta camada é narrativa e ritual. Êxodo 15.23–25 tematiza águas “amargas” que são transformadas; 2 Reis 2.19–22 narra águas nocivas tornadas salubres; 2 Reis 4.39–41 registra alimento mortífero (“morte na panela”) revertido; e Números 5.11–31 descreve a “água amarga” no rito de ciúme. Exegese rigorosa distingue esses quadros: nem todo “amargo” é “veneno” químico. Em Números, o foco é procedimento ritual-jurídico de prova sob maldição; já em 2 Reis 4, a narratividade aponta para toxicidade alimentar concreta; em Êxodo 15 e 2 Reis 2, a ênfase recai sobre transformação de condição hídrica adversa por intervenção divina. (Êx 15.23–25; Nm 5.11–31; 2Rs 2.19–22; 2Rs 4.39–41).

III. Novo Testamento: reuso intertextual e deslocamento ético

No texto grego do NT, ἰός (iós, “veneno; corrosão”) ocorre em três lugares e com dois valores semânticos distintos. Em Romanos 3.13, a expressão ἰὸς ἀσπίδων (ios aspidōn, “veneno de áspides”) retoma diretamente a tradição salmódica da fala tóxica; em Tiago 3.8, a língua é descrita como μεστὴ ἰοῦ θανατηφόρου (mestē iou thanatophorou, “cheia de veneno mortífero”); já em Tiago 5.3, ὁ ἰὸς αὐτῶν (ho ios autōn) designa corrosão/ferrugem de metais, com função acusatória escatológica. A unidade lexical, portanto, não implica unidade imagética: o mesmo termo serve à ética da linguagem e à denúncia econômico-profética.

Quando a comparação de versões é realmente necessária, Tiago 5.3 é o ponto decisivo: tanto tradição inglesa (ESV) quanto portuguesa clássica (ACF) vertem o campo como “corrosion/ferrugem”, não como “veneno” zoológico, preservando o valor metafórico-judicial do texto. Em contraste, Romanos 3.13 e Tiago 3.8 mantêm inequívoco valor peçonhento (“veneno de áspides”, “veneno mortífero”), em continuidade com a tradição poética veterotestamentária.

IV. Contribuição da LXX para o campo semântico

A Septuaginta não apenas traduz; ela também reconfigura nuances. Em Deuteronômio 32.33, a redação grega usa θυμὸς δρακόντων (thymos drakontōn, “veneno/fúria de dragões”) e ἀνίατος θυμὸς ἀσπίδων (aniatos thymos aspidōn, “veneno incurável de áspides”), mostrando que θυμός pode assumir valor tóxico quando o contexto exige letalidade, e não apenas “ira” psicológica.

A ponte mais importante com o NT está no Salmo 139(140).4 da LXX, onde aparece ἰὸς ἀσπίδων (ios aspidōn, “veneno de áspides”), expressão reutilizada em Romanos 3.13. Esse encadeamento explica por que Paulo não cria metáfora nova: ele reativa uma tradição lexical consolidada entre texto hebraico, grego dos Salmos e retórica apostólica.

Outra contribuição da LXX aparece na tradução de רֹאשׁ e לַעֲנָה com χολή (cholē, “fel”) e πικρία (pikria, “amargor”), sobretudo em textos proféticos de denúncia social. Em Amós 6.12, e também na tradição de Jeremias 23, a equivalência grega reforça que “veneno” no discurso profético frequentemente opera como gramática ética do colapso do direito, e não como descrição farmacológica.

V. Campo semântico de “veneno” na ponte entre LXX e NT

No recorte textual solicitado, o eixo “veneno/peçonha” aparece com uma base hebraico-grega bem definida: no texto hebraico de Salmo 140.4 ocorre חֲמַת־עַכְשׁוּב (ḥămaṯ-ʿakšûḇ, “veneno de áspide”), enquanto a LXX verte o mesmo núcleo por ἰὸς ἀσπίδων (ios aspidōn, “veneno de áspides”); Romanos 3.13 reutiliza essa mesma locução grega quase literalmente.

No mesmo recorte, o segundo eixo é o campo φαρμακ- (“droga/poção/feitiçaria/feiticeiro”): Isaías 47.9 traz φαρμακεία (pharmakeia, “feitiçaria/prática mágico-ritual”) e Isaías 47.12 traz φάρμακον em forma flexionada (pharmakon, “droga/poção”); no NT aparecem φαρμακεία em Gálatas 5.20, φάρμακον em Apocalipse 9.21, φαρμακεία em Apocalipse 18.23 e φάρμακος em Apocalipse 21.8 (na forma flexionada φαρμάκοις, pharmakois, “feiticeiros”).

A contagem estritamente deste conjunto de passagens é a seguinte: campo “peçonha” = 3 ocorrências textuais (1 hebraica + 2 gregas); campo φαρμακ- = 6 ocorrências textuais (φαρμακεία = 3; φάρμακον = 2; φάρμακος = 1). Essa contagem é metodologicamente local, isto é, restrita ao corpus-base aqui analisado e não ao cânon inteiro.

V. Da peçonha física à antropologia moral

No texto hebraico de Salmo 140.4, a imagem da peçonha está ligada ao aparelho da fala: a violência verbal é descrita como substância tóxica, não apenas como metáfora ornamental, mas como diagnóstico de letalidade social da linguagem. A Septuaginta fixa essa leitura com ἰὸς ἀσπίδων (ios aspidōn, “veneno de áspides”) “debaixo dos lábios”, preservando a concretude zoológica do quadro (serpente/áspide) e, ao mesmo tempo, deslocando-o para ética da fala.

Quando Romanos 3.13 cita essa cadeia de imagens, Paulo integra o versículo a uma catena acusatória sobre a universalidade do pecado. O dado exegético decisivo não é apenas a presença do substantivo ἰός (ios, “veneno”), mas a manutenção da sintaxe imagética da boca/lábios como vetor de morte simbólica. A ponte canônica, portanto, não é temática genérica; é lexical e argumentativa.

Nessa conexão, o ganho hermenêutico é reconhecer que “veneno” não funciona como nota marginal de toxicologia bíblica, mas como gramática moral da palavra humana. Inferência exegética: a migração do cenário sapiencia/profético para o discurso paulino transforma uma denúncia de ímpios em um diagnóstico antropológico abrangente, sem alterar o núcleo semântico do termo.

VI. Isaías 47.9 no grego bíblico

Isaías 47.9, na versão grega, associa o juízo à “multidão de feitiçarias”, com a forma φαρμακεία (pharmakeia, “feitiçaria/prática mágico-ritual”); poucos versos adiante, Isaías 47.12 retoma o campo com φάρμακον em flexão plural dativa (τοῖς φαρμάκοις, tois pharmakois, “com tuas poções/práticas mágicas”). A alternância interna entre φαρμακεία e φάρμακον mostra um campo semântico que oscila entre prática ritual e meio instrumental.

Esse ponto é importante para o dossiê “veneno”: no grego bíblico, o mesmo tronco lexical pode transitar entre “substância” e “operação mágico-religiosa”. Em termos de história semântica, isso explica por que o NT herda um vocabulário no qual “droga/poção” e “feitiçaria” não são campos isolados, mas vasos comunicantes.

IX. Gálatas 5.20 e Apocalipse 9.21; 18.23; 21.8

No desenvolvimento do campo semântico bíblico de “veneno”, o grego não opera apenas com ἰός (ios, “veneno/peçonha”), mas também com a família φαρμακ-, que amplia a ideia de toxicidade para o âmbito de poções e práticas que corrompem o discernimento religioso e comunitário.

Em Gálatas 5.20, φαρμακεία (pharmakeia, “feitiçaria”) é listada entre “obras da carne”, o que desloca o termo para o plano ético-comunitário: não se trata de inventário folclórico, mas de prática incompatível com a vida do Espírito.

Apocalipse 9.21 usa φάρμακον na forma φαρμάκων (pharmakōn, “de poções/feitiçarias”), e Apocalipse 18.23 retoma φαρμακεία (pharmakeia, “feitiçaria”) em chave de sedução das nações. O efeito conjunto é um eixo semântico que liga culto idólatra, engano coletivo e recusa de arrependimento.

Apocalipse 21.8, por sua vez, substantiva o agente com φαρμάκοις (pharmakois, “feiticeiros”), transferindo o foco de prática para identidade moral-jurídica no cenário de juízo final. Há, portanto, continuidade lexical e progressão pragmática: de ato (φαρμακεία/φάρμακον) para agente (φάρμακος).

X. Convergência lexical entre “veneno” e φαρμακ- na tradição grega bíblica

A articulação exegética entre “veneno” e o radical φαρμακ- exige distinguir dois níveis semânticos complementares no grego bíblico. O primeiro é o da peçonha propriamente dita, expresso por ἰός (iós, “veneno”), com continuidade textual direta entre a LXX e o NT. No Salmo 139.4 da LXX, a fórmula ἰὸς ἀσπίδων (ios aspidōn, “veneno de áspides”) aparece na cláusula “debaixo dos seus lábios”, e Romanos 3.13 retoma a mesma expressão sem alteração substancial, preservando a força zoológica da imagem para descrever a violência moral da fala (Sl 139.4 LXX; Rm 3.13).

O segundo nível é correlato, não idêntico: o campo φαρμακ-, que amplia a noção de toxicidade para o domínio de poções, encantamentos e manipulação cultual-social. Nesse eixo, o léxico aparece como prática (φαρμακεία, pharmakeia, “feitiçaria”), substância (φάρμακον, pharmakon, “poção/veneno”) e agente (φάρμακος, pharmakos, “feiticeiro/envenenador”). Assim, a progressão semântica vai de ato para identidade jurídica e moral, especialmente em contextos de juízo e de denúncia do engano coletivo (Gl 5.20; Ap 9.21; 18.23; 21.8).

A distribuição desse radical na LXX confirma a amplitude do campo. Há concentração no ciclo do Êxodo, com vocabulário ligado a “magos/encantamentos”, seguido por ocorrências históricas e proféticas: 2 Reis 9.22, Isaías 47.9 e 47.12, Naum 3.4, Daniel 2.2; 5.7; 5.11; 5.15, e Malaquias 3.5. No deuterocanônico, o mesmo tronco lexical reaparece em Sabedoria 1.14; 12.4; 18.13 e Eclesiástico 6.16, com variação de sentido entre poção destrutiva, feitiçaria e, em contexto sapiente específico, uso metafórico terapêutico (Êx 7.11; 7.22; 8.3; 8.14; 9.11; 2Rs 9.22; Is 47.9,12; Na 3.4; Dn 2.2; 5.7,11,15; Ml 3.5; Sb 1.14; 12.4; 18.13; Eclo 6.16).

Nesse quadro, a comparação de versões só é metodologicamente útil quando preserva distinções de campo. No par Salmo 139.4 → Romanos 3.13, a tradição inglesa clássica conserva explicitamente “veneno de áspides”, evitando abstração moralizante do dado zoológico. Já no eixo φαρμακ-, KJV e versões portuguesas convergem no núcleo “feitiçaria/feiticeiros”, com variações de número e estilo que não alteram a estrutura semântica principal: prática de engano religioso-social, persistência impenitente e responsabilização final do agente (Gl 5.20; Ap 9.21; 18.23; 21.8)

XI. Veneno, amargura e contaminação simbólica no eixo profético-apocalíptico

No livro de Amós, a denúncia social é formulada com a expressão הַהֹפְכִים לְלַעֲנָה מִשְׁפָּט (hahōp̄ḵîm ləlaʿănāh mišpāṭ, “os que transformam o direito em losna/absinto”), em que לַעֲנָה (laʿănāh, “losna/absinto amargo”) não descreve apenas um elemento botânico, mas qualifica o efeito ético do ato jurídico corrompido: o que deveria produzir vida social passa a produzir amargura estrutural (Am 5.7).

No livro de Jeremias, o campo semântico é intensificado por justaposição: לַעֲנָה (laʿănāh, “losna/absinto”) e מֵי־רֹאשׁ (mê-rōʾš, “águas de veneno/fel”) aparecem no mesmo enunciado de juízo contra profetas que contaminaram a terra (Jr 23.15). A formulação desloca o tema de “veneno” para um regime de responsabilidade pública: a liderança religiosa produz intoxicação coletiva, e o castigo assume a mesma lógica simbólica da infecção que ela disseminou.

A. Sonhos e visões: o “veneno” como linguagem de profecia adulterada

A sequência imediata de Jeremias vincula esse juízo ao problema dos sonhos forjados. O texto hebraico apresenta a autolegitimação profética com חָלַמְתִּי חָלַמְתִּי (ḥālamtî ḥālamtî, “sonhei, sonhei”), e acusa o uso de narrativas oníricas para desviar o povo (Jr 23.25-27). O ponto hermenêutico relevante é que o “veneno” de Jr 23.15 não está isolado: ele pertence a uma cadeia semântica em que discurso religioso falso age como agente tóxico sobre a memória pactual e a prática comunitária. 

A Septuaginta conserva esse nexo e o torna ainda mais explícito ao registrar Ἠνυπνιασάμην ἐνύπνιον (Ēnypniasamēn enypnion, “sonhei um sonho”) e ἐνυπνίοις (enypniois, “em sonhos”) no mesmo bloco discursivo em que surge o castigo com “água amarga” (Jr 23 LXX). Assim, sonho falso, palavra falsa e água amarga compõem uma unidade retórica: a visão ilegítima produz uma ecologia moral envenenada.

B. Releitura no NT: águas amargas e linguagem mortífera

No livro de Apocalipse, a terceira trombeta descreve queda cósmica que atinge rios e fontes: a estrela recebe o nome Ἄψινθος (Apsinthos, “Absinto”), as águas tornam-se amargas e muitos morrem (Ap 8.10-11). O dado relevante não é apenas catástrofe natural, mas inversão de função teológica: aquilo que deveria sustentar a vida (fontes e rios) torna-se meio de morte. Esse motivo prolonga, em chave visionária, o padrão profético de “contaminação de fontes” já observado em Amós e Jeremias.

No livro de Tiago, a metáfora se interioriza no corpo social pela linguagem: a língua é descrita como μεστὴ ἰοῦ θανατηφόρου (mestē iou thanatophorou, “cheia de veneno mortífero”) (Tg 3.8). O termo ἰός (ios, “veneno”) não funciona como nota médica, mas como diagnóstico da potência letal da fala desgovernada na comunidade. O eixo “veneno” passa, portanto, de águas e instituições para comunicação e convivência.

C. Ganho exegético da LXX: quando o léxico muda, o foco hermenêutico também muda

Na LXX em Amós 5.7, a formulação grega enfatiza πικρία (pikria, “amargura”) para o efeito do juízo pervertido, em vez de conservar de modo estrito a referência botânica. Esse deslocamento é relevante porque impede reduzir o texto a um inventário naturalista; o alvo continua sendo a qualidade tóxica da ordem social produzida por elites injustas.

Na Septuaginta de Jeremias 23.15, o castigo aparece com ὕδωρ πικρόν (hydōr pikron, “água amarga”), em paralelo ao juízo contra profetas corruptos e à crítica dos sonhos falsos. Mesmo quando a equivalência lexical não reproduz cada termo hebraico de modo mecânico, a arquitetura semântica permanece: liderança mentirosa → contaminação coletiva → sanção figurada como ingestão amarga.

D. Comparação de versões somente onde há ganho hermenêutico real

No livro de Apocalipse 8.11, há convergência entre KJV (“Wormwood”) e ARA/ACF/NVI (“Absinto”), o que preserva o marcador simbólico de amargura letal; já versões de equivalência mais dinâmica podem explicitar o efeito (“amargura”), deslocando o foco do nome botânico para o resultado experiencial da visão. Esse contraste é exegética e pastoralmente útil porque distingue símbolo nominal e impacto semântico.

No livro de Amós 5.7, KJV (“wormwood”) e ARA (“alosna”) mantêm a imagem vegetal em registro mais literal. Em Jeremias 23.15, a ACF preserva “losna” e “águas de fel”, ao passo que a NVI traduz por “comida amarga” e “água envenenada”, explicitando o efeito tóxico para o leitor contemporâneo. O resultado interpretativo é consistente: a metáfora da substância amarga/venenosa funciona como crítica da degradação moral coletiva e do colapso da responsabilidade profética.

A leitura integrada de Amós, Jeremias, Apocalipse e Tiago mostra continuidade temática robusta: “veneno” não é apenas categoria físico-química, mas gramática teológica da corrupção — quando justiça, profecia, água e palavra deixam de servir à vida e passam a operar como vetores de morte (Am 5.7; Jr 23.15; Ap 8.10-11; Tg 3.8).

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Cite este artigo:

GALVÃO, Eduardo. Veneno. In: Biblioteca Bíblica. [S. l.], 31 mai. 2016. Disponível em: [Cole o link sem colchetes]. Acesso em: [Coloque a data que você acessou este estudo, com dia, mês abreviado, e ano].

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