Teocracia — Estudos Bíblicos
Atualização:
TEOCRACIA
Palavra que vem de dois termos gregos, theós, “Deus”, e kratéo, “governar”. Isso chega ao sentido de “governo de Deus”. Devemos fazer distinção com outro vocábulo, democracia, cuja primeira porção, demos, significa “povo”, e que indica o governo entregue às mãos do povo. E também devemos distinguir teocracia de hierocracia, o governo dos sacerdotes. E, finalmente, de monarquia, o governo de um único homem ou rei.
Embora a ideia de teocracia apareça nas Escrituras, com bastante frequência, o próprio vocábulo, “teocracia”, nunca figura ali. Essa palavra parece ter sido cunhada por Josefo (vide), que se utilizou do termo a fim de referir-se ao caráter impar do governo dos hebreus, revelado a Moisés, em contraste com o tipo de governo de outras nações ao derredor. Escreveu Josefo: “Nosso legislador... ordenou aquilo que, forçando a linguagem, poderia ser chamado de teocracia, ao atribuir a autoridade e o poder a Deus” (Contra Ápion, II, 165).
Não obstante, a ideia de teocracia é muito mais antiga do que a palavra que corresponde a ela, conforme o próprio Josefo sugeriu em sua declaração, citada acima. Essa ideia retrocede ao Antigo Testamento desde a época de Moisés e, portanto, à iniciação mesma das Sagradas Escrituras (ver Êxo. 19:4-9; Deu. 33:4,5). No âmago dessa ideia fica a relação ímpar entre Deus e Israel, como seu povo peculiar. Essa relação é constituída pela aliança que vinculou o povo de Israel a Deus (ver Êxo. 19 e 20), e que constituiu aquele povo em ”...reino de sacerdotes e nação santa...” (Êxo. 19:6).
Deus reclamou o povo de Israel como sua propriedade, por havê-los remido da servidão aos egípcios. Os grandes atos libertadores, da época da saída de Israel do Egito, e durante os quarenta anos de vagueação pelo deserto, declararam o Senhor como o eterno Governante de Israel (ver Êxo. 15:18). Moisés foi, tão-somente, o homem por intermédio de quem Deus transmitiu a sua vontade ao seu povo terreno.
Gideão, várias gerações depois de Moisés, aceitou a coroa, porquanto acreditava que somente Deus poderia governar sobre Israel (Juí. 8:22,23). No período que antecedeu ao surgimento da monarquia em Israel, profetas, sacerdotes e juízes foram os intermediários na expressão da teocracia. Vale dizer, Deus governava o seu povo através daqueles representantes. Assim na guerra de Israel contra Sisera, a profetisa Débora e o juiz Barauque aparecem como os agentes do livramento de Deus (Ju 4:4-7). Os sacerdotes levitas também aparecem, com frequência como os mensageiros da vontade divina (Juí. 20:28; I Sam. 14:41). Mas por ocasião da teocracia institucionalizada, quando surgiu a monarquia em Israel, a teocracia passou a se manifestar de forma muito menos direta, e o governo de Israel passou a assemelhar-se mais ao governo das nações gentílicas. ”Disse o Senhor a Samuel: Atende à voz do povo em tudo quanto te dizem, pois não te rejeitaram a ti, mas a mim. para eu não reinar sobre eles... Porém, o povo não atendeu à voz de Samuel, e disseram: Não, mas teremos um rei sobre nos. Para que sejamos também como todas as nações; o nosso rei poderá governar-nos, sair adiante de nós. e fazer as nossas guerras”’ (1 Sam. 8:7 19.20). Apesar disso, depois que a monarquia se estabeleceu em Israel, principalmente de Davi em diante, o rei passou a ser considerado símbolo do reinado teocrático. Os reis de Israel não eram apenas reis, no sentido comum do termo, mas também eram ungidos do Senhor, em sentido puramente teológico (Sal. 2:2; 20:6), um príncipe do Senhor (I Sam. 10:1: II Sam. 5:2). Mesmo durante o Deríodo monárquico, concebia-se que o Senhor Deus seguia adiante do rei em 2 Sam. 5:24” O rei estaria sentado no trono de Deus (I Crõ. 29:23; cf. 28:5). O Governante real era Deus, e a autoridade do trono de Davi derivava-se do Senhor. A natureza teocrática da monarquia de Israel é conformada, por exemplo. pela prerrogativa dos profetas de destronarem os reis além do tato de que foi o profeta Samuel quem estabeleceu o reinado em Israel, a mandado do Senho' (I Sam. 15:26; 16:1,2; cf. I Reis 11:29-31: 14:10; 16:1,2,21:21). Nesse contexto, nota-se que não havia critérios estereotipados para reconhecimento ou confirmação de um profeta, em Israel. Somente a presença do indefinível Espírito de Deus revelava a diferença entre um profeta verdadeiro e um profeta falso.
A monarquia, em Israel, foi a organização de algo teocrático sob um governante humano. A teocracia talvez encontre sua riais excelente expressão nas predições dos profetas (ver Jer 1:1,2; cf. Isa. 7:7). As visões messiânicas dadas aos profetas foram organicamente entretecidas na curva da história dos reis de Judá, bem como na restauração final da dinastia davídica. Em sua essência e em seu intuito, o reino é um instrumento ;e redenção, inseparavelmente vinculado às expectações messiânicas. De fato. em seu sentido messiânico, o trono de Davi aparece no centro da teologia bíblica, com seu reconhecimento de Deus como o Governante final sobre a terra inteira. Dentro da revelação progressiva da escatologia bíblica, o conceito teocrático do reino davídico suprimiu o padrão das ideias concernentes à vinda palpável do reino de Deus. quando da era milenar. Através da restauração do trono de Davi, Deus haverá de realizar a redenção final de Israel. Mas, esse futuro acontecimento, que fará parte da história, haverá de introduzí-la era da justiça e da paz eternas sob o reinado universal do Filho maior de Davi, Jesus Cristo.
Não ha espaço para o secularismo, dentro da teocracia de Israel. Descendo até os mais minúsculos detalhes, todos os regulamentos políticos, legais e sociais são essencialmente teológicos. Esses regulamentos eram a expressão suprema e direta da vontade de Deus. Até mesmo a detenção de criminosos e a punição dos mesmos fazem parte do interesse imediato de Deus (ver Lev 20:3.5,6,20: 24:12: Núm. 5:12.13: Jos. 6:16).
Várias religiões — desde os tempos mais remotos — (hebreus, babilônios e egípcios), têm tomado a posição de que seus estados eram teocracias, visto que Deus ou os deuses mediante revelações e profetas, lhes teriam dado suas leis e instituições. A teocracia é um estado no qual os princípios religiosos (usualmente com apoio de um monarca e de um sacerdócio alegadamente nomeados por Deus) são as principais leis e o poder controlador.
Já nos tempos modernos, as cidades de Florença. na Itália, sob Savonarola (v de), e Genebra, na Suíça, sob Calmo (vide), durante algum tempo tornaram-se, alegadamente, teocracias. Além disso, as colônias da Nova Inglaterra na América do Norte, sob o puritanismo.
tornaram-se teocracias. O aparecimento de governos democráticos tem tendido a separar Igreja e Estado, de tai modo que as teocracias são evitadas. Naturalmente, o Irã atuai é um exemplo de teocacia; mas, como tantas outras teocracias distorcidas, entristecemo-nos diante das perseguições e matanças praticadas em nome de Deus.
Este co-autor e tradutor quer dar aqui sua contribuição. No Novo Testamento não parece haver definição quanto ao tipo de “governo eclesiástico”. Porém, com base nas condições vigentes em Israel até Samuel (ver I Sam. 8:7), bem como durante o governo milenar de Cristo, o que ainda jaz no futuro, o governo eclesiástico ideal seria o teocrático. Segundo penso, esse tipo de governo existiu na igreja, durante todo o período apostólico. Deus (na pessoa de Cristo), dirigia sua Igreja mediante ministros por ele escolhidos (ver Efé. 4.11ssj). Pode-se dizer que a Igreja entrou em decadência espiritual quando o ministério passou a ser tido como ofícios burocráticos, a partir do século II D.C., não mais ocupado por indivíduos misticamente designados e preparados. Parece-me evidente que o Espírito do Senhor restaurara esse tipo de governo eclesiástico, antes ao segundo advento de Cristo. Doutra sorte, no dizer do quarto capitulo de Efésios, os crentes não atingirão a maturidade que deverá caracterizar a Igreja nos cias finais do cristianismo. Seja como for, o milênio (vide) será a mais pura teocracia, sem os abusos do passado, e que têm feito muitos proscreverem-na, até mesmo de suas congregações. E o estaco eterno, cassado o milênio, dará continuidade à teocracia, para sempre. A teocracia é a essência do reino de Deus.
