Testamento — Enciclopédia Bíblica e Teológica
TESTAMENTO
(Heb. בְּרִית, bərît, “aliança”; gr. διαθήκη, diathēkē, “aliança; disposição testamentária”; lat. testamentum.)
Testamento, no vocabulário bíblico e cristão, reúne dois usos historicamente relacionados, mas semanticamente distintos: pode designar uma disposição de última vontade e, por tradição, cada uma das duas grandes coleções das Escrituras cristãs, o Antigo Testamento e o Novo Testamento. Para compreender essa nomenclatura, porém, o ponto de partida não é o testamento jurídico moderno, mas o conceito bíblico de aliança. O hebraico bərît designa relações vinculantes estabelecidas mediante compromissos e obrigações, constituindo uma das principais categorias pelas quais a Bíblia descreve a relação entre Deus e seu povo (Mendenhall & Herion, 1992: 1.1179). Na Septuaginta, diathēkē tornou-se o equivalente grego normal de bərît; consequentemente, no grego bíblico, o termo possui predominantemente o sentido de “aliança”, ainda que em outros contextos gregos pudesse designar também uma disposição testamentária.
A expressão “nova aliança” tem seu antecedente decisivo em Jr 31.31–34 e é retomada extensamente em Hb 8.8–12 e 10.16–17. A tradição cristã primitiva interpretou a morte de Jesus e a comunidade constituída em torno dela à luz dessa promessa: na tradição da ceia, o cálice é associado à nova aliança no sangue de Cristo (Lc 22.20; 1Co 11.25). Por essa razão, “Antigo Testamento” e “Novo Testamento” significam historicamente, em sua origem conceitual, “antiga aliança” e “nova aliança”, e não dois “testamentos” no sentido comum de documentos pelos quais alguém dispõe de seus bens para depois da morte. Bruce observa precisamente que o lat. testamentum transmitiu ao Ocidente cristão uma designação cuja matriz grega, diathēkē, possui na Bíblia sobretudo valor pactual (Bruce, 1982: 157).
A distinção, contudo, não elimina completamente o sentido jurídico de “testamento”. Em Gl 3.15–18 e, de maneira particularmente discutida, em Hb 9.15–22, o campo semântico de diathēkē aproxima aliança, herança e disposição testamentária. Uma linha interpretativa entende que o autor de Hebreus explora deliberadamente os dois valores do termo — “aliança” e “testamento” — ao relacionar a herança prometida com a morte (Lundbom, 1992: 4.1092). Outra interpretação sustenta que mesmo Hb 9.16–17 pode permanecer dentro da concepção de aliança ratificada mediante morte sacrificial, sem exigir uma mudança estrita para o sentido técnico de “última vontade” (McCaig, 1979: 1.794–796). Assim, não se deve transformar o possível jogo semântico de Hebreus em definição uniforme de diathēkē no Novo Testamento.
A aplicação de “Antigo Testamento” e “Novo Testamento” às duas coleções de escritos cristãos consolidou-se no decorrer do séc. II. Já 2Co 3.14 emprega palaia diathēkē em referência à “antiga aliança”, embora ainda não como título inequívoco de todo o cânon hebraico. Na segunda metade do séc. II, as designações passaram a ser aplicadas às coleções escriturísticas; no Ocidente, Tertuliano empregou tanto instrumentum quanto testamentum para traduzir diathēkē, sendo testamentum a forma que prevaleceu na tradição latina e, por meio dela, nas línguas modernas (Bruce, 1982: 157; Lundbom, 1992: 4.1093). “Testamento”, portanto, é simultaneamente um termo da história da tradução, uma designação canônica e, em contextos específicos, uma possibilidade semântica de diathēkē; seu fundamento bíblico mais amplo permanece, contudo, a linguagem da aliança.
