Significado de “pecado” na Bíblia
Significado Bíblico
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PECADO
A. Origem. Surgindo em outra parte, o pecado “entrou no mundo” (Rm 5.12) quando Adão sucumbiu ao ser tentado por outro. A plena “responsabilidade pela presença e conseqüências do pecado no mundo, não obstante, recaiu pesada mente sobre o homem. O homem pecou, o homem tem de morrer. Apropria morte silencia toda tentativa de transferir, ainda que parcialmente, a culpa para Satanás, em quem o pecado se originou e por quem o homem foi tentado. Nem o pecado, nem a própria morte apesar de sua finalidade, é a última palavra sobre o pecador, pois se “a morte veio por um homem, também por um homem veio a ressurreição dos mortos” (1 Co 15.21). Se o pecado (e a morte) foi lançado por meio de uma tentação demoníaca como uma possibilidade, e por meio da transgressão de Adão entrou no mundo como uma realidade, o pecado (e morte) é também de modo cósmico derrotado e abolido do mundo e da história do homem por meio do Deus Homem, Jesus, o Cristo. Por meio de Cristo o pecado é liquidado e perdoado, a morte termina em ressurreição, pecadores se tomam santos e aquele “que tem o poder da morte” é destruído (Hb 2.14).
B. Pecado e liberdade. O conceito de liberdade não explica o pecado. Embora o pecado não esteja sem conexão com a liberdade, esta não explica a origem daquele. Deus tem liberdade autêntica e não pode pecar, e Deus criou o homem com uma liberdade que era moralmente qualificada e cuja continuidade dependia de um abster-se do pecado. O homem foi criado com capacidade de não pecar e o homem recriado em Cristo e gerado de Deus, “não peca” (l Jo 5.18). A capacidade para pecar não é da essência da liberdade. A verdadeira liberdade é constituída pela habilidade criada, e posteriormente recriada, do homem de fazer o bem, não por uma faculdade moralmente não qualificada de fazer um ou outro. A liberdade pertence à essência do homem como criado por Deus e como restaurado por Cristo; em nenhuma ocasião é um aspecto da humanidade moralmente neutro e não qualificada. O efeito do pecado humano sobre a liberdade é definido no pensamento bíblico, portanto, não como outra forma de liberdade, mas antes como escravidão e servidão (Rm 6). O homem criado não era mais livre para pecar do que, tendo pecado e caído na servidão moral, é livre novamente para ser o que foi outrora. O pecado constitui uma perda, não um exercício de liberdade. Pecado é um mistério imoral e irracional, cuja solução não é encontrada no conceito de liberdade humana. Liberdade como uma explicação do pecado leva invariavelmente a alguma forma de pelagianismo e arminianismo. Se na liberdade o homem poderia pecar contra seu Criador, a liberdade pela mesma definição conteria a possibilidade da auto-impulsionada volta do homem para seu Criador. Se o pecado é um verdadeiro exercício de liberdade, tal liberdade, mesmo após o pecado, permanece também livre de agir de uma maneira tanto pelagiana, como semipelagiana, ou arminiana para desfazer seu pecado e retomar para Deus — ou se recusar a voltar para ele. De acordo com o relato de Gênesis sobre a queda do homem no pecado, este não estava livre para pecar, porém estava sob o mandamento divino de não pecar, sob a ameaça de morte. Adão e Eva estavam sob a ordem restritiva divina de não fazer o que fizeram. A liberdade, como a autoridade, é composta dos componentes: poder e direito. Uma autoridade que exerce um poder sem direito é uma total perversão totalitária da autoridade; uma liberdade que faz aquilo que não tem o direito de fazer é uma perversão anarquista da verdadeira liberdade. O princípio teológico de que Deus criou o homem livre, isto é, com uma liberdade que era livre para pecar, é uma explicação do pecado em termos de pecado. Se Deus tivesse dotado o homem com tal liberdade, ele não poderia, em justiça, permitir que a liberdade do homem sofresse a servidão que o pecado inflige sobre a liberdade. No pensamento bíblico, todavia, o ato de pecado do homem é considerado como perda da liberdade. De acordo com o relato de Gênesis da queda do homem, este perdeu seu direito de permanecer no Jardim do Éden, seu direito a viver e seu direito de ser ele mesmo — nu e sem ter vergonha disso. Na continuidade do relato bíblico o homem, como pecador, é mostrado como não sendo mais livre para ser ele mesmo. Ou ele é um escravo do pecado e está sob o domínio da morte, um devoto de ídolos — que nesta devoção aos seus ídolos se toma sub-humano e como seus ídolos (SI 115.8), ou ele se toma um prisioneiro da graça e por meio deste cativeiro recebe novamente sua verdadeira liberdade como uma dádiva de Deus, uma liberdade que lhe permite desfrutar de redenção e perdão para seu passado pecador e o dom da graça que justifica seu direito de viver em um futuro livre e interminável.
C. Pecado e soberania divina. A origem do pecado não é esclarecida em uma maneira biblicamente aceitável pela afirmação de que o homem é a segunda, e Deus a primeira, causa final do pecado. Os bem-intencionados, porém mal orientados, defensores da soberania de Deus têm declarado muitas vezes que o próprio Deus é a fonte do pecado. E dito que Deus determinou o pecado, é sua causa primordial e até mesmo o criador do pecado. Embora essas afirmações sejam lançadas em defesa da soberania divina, são essencialmente blasfêmias. É muito significativo que nenhum daqueles que fazem estas afirmações tenham sido conhecidos por exprimi-las em suas orações e adoração a Deus; ninguém, confessando seus pecados, afirma perante Deus o que reivindica em sua teologia: que Deus, a quem ele ora pelo perdão de seus pecados, é a causa primeira de seu pecado. Rejeitando tanto a noção de que Deus determinou o pecado quanto que o pecado é um produto do acaso, o pensamento cristão moderado nunca m ousou afirmar mais do que Deus “permitiu o pecado”. A expressão mais clara do relacionamento da vontade divina soberana com o pecado não pode ser descoberta por uma pesquisa na área da origem do pecado, mas é encontrada na cruz onde Deus, à custa da morte de seu próprio Filho, vence e expulsa o pecado. Toda análise racional do pecado, como a análise psicológica de Kierkegaard sobre o pecado, revela que o pecado pressupõe a si mesmo, e a história do pensamento cristão demonstra que as explicações sobre o pecado reduzem o pecado para algo que não traz consigo culpa e que não necessita de confissão. O pecado tem de ser reconhecido e confessado, não explicado. A Bíblia não explica a origem do pecado no mundo dos anjos, e sua ligação com a origem do pecado no mundo dos homens, mais do que explica como o homem, sendo criação de Deus, pôde pecar. Não existe uma boa razão moral, nem uma razão racional válida para a realidade do pecado. Não pode haver uma razão moral verdadeira para o mal mais do que pode haver uma razão válida para a irracionalidade. O pecado é tanto imoral quanto irracional.
D. História e queda. O pecado é um fenômeno essencialmente histórico. Ele tem um caráter de evento. Para se tomar real, tem de acontecer. Não é um evento dentro da atividade trinitária dentro da divindade, uma atividade tanto necessária quanto (conseqüentemente) eterna. O histórico tampouco é necessário nem etemo, e o pecado, também não sendo nenhum dos dois, é histórico. Por ser real, o pecado é aconteceu uma vez no tempo. A queda registrada em Gênesis é uma realidade histórica. A seqüência de Gênesis de Criação-Queda também instrui claramente que tampouco o pecado é um item da criação, nem uma qualidade da criação que durante o processo do tempo é progressiva mente transformada em bem emergente. Pecado, ao contrário, é uma contradição de toda realidade criada e não-criada. E destrutivo de todo o bem. A substituição de um desenvolvimento evolutivo do bem para a queda histórica bíblica é uma má interpretação do bem que Deus realizou na história por meio de Jesus Cristo. O relato bíblico da que da do homem no pecado é caracterizado por um complexo de contradições entre o homem e Deus, marido e mulher e entre o homem e a natureza, todos dos quais aparecem como conseqüências do pecado. Nenhum cristão pode dizer porquê ele pecou. Se ele pudesse dar um motivo para seu pecado, e conseqüentemente uma explicação, o pecado não necessitaria de perdão nem de anulação; sendo um ato justificável, teria então direito de existir. Tanto a origem do pecado quanto sua continuidade na vida de cada homem é e continua sendo um enigma para o qual não há apologia e nenhuma teodicéia conhecida. O pecado não tem defesa, nenhum direito à existência. Toda explicação do pecado em termos de liberdade humana se toma algo que não traz consigo culpa nem precisa de arrependimento; quando explicado em termos da causalidade da vontade divina soberana, o pecado é naturalizado dentro do próprio ser de Deus.
E. Pecado original. Este não é um conceito temporal, mas sim teológico e, conseqüentemente, não lança qualquer luz sobre a origem do pecado. O pecado original não se refere ao primeiro de todos os pecados, nem ao primeiro pecado na história humana, mas ao primeiro pecado de Adão, e apenas a este, não aos pecados subsequentes de Adão. Na história humana Eva pecou primeiro; não obstante, foi pelo pecado (posterior) de Adão que “entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte” (Rm 5.12). O pecado original é o primeiro pecado de Adão, a fonte de todos os outros peca dos, inclusive os pecados subsequentes de Adão, e é por este poder que a morte passou a todos os homens, embora todos os homens não tenham pecado da mesma maneira que o primeiro ato pecaminoso de Adão (Rm 5.14).
F. Depravação total. O pecado original fornece uma pista sobre a natureza do pecado e da morte. De acordo com o relato de Gênesis, o pecado original é um ato de auto-afirmação, orgulhoso, sem amor, rebelde, ingrato e destrutivo, primeiramente contra Deus que deu ao homem sua realidade e, simultaneamente, contra o eu e todas as outras formas de realidade criadas. Pelo seu primeiro ato de pecado, Adão quebrou o relacionamento com Deus, com Eva e com o mundo natural, no qual em graus reais embora diferentes, sua própria vida e bem-estar dependiam. O pecado de Adão é uma declaração de auto-suficiência; ele desejava caminhar sozinho. Por este primeiro pecado original de Adão tudo é alienado; Adão e Eva se escondem um do outro utilizando roupas. Adão se esconde de Deus, Adão culpa a Deus e a Eva, Eva culpa a serpente, e o ego (eu) é alienado de si mesmo. Para esta privação do eu, de tudo, tanto o eu quanto o “não eu”, existe uma depravação total correspondente, na qual o eu é privado de todas aquelas qualidades morais e espirituais que constituem o eu autêntico e seu relacionamento com tudo que seja “não eu”. O homem perdeu a auto-realização; ele é o pior inimigo de si mesmo. O eu está totalmente depravado, pois o eu não pode fazer nada pior ou mais destrutivo para Deus, para seu próximo, para seu mundo e para si mesmo do que o pecado. Se não fosse assim, a morte e o inferno seriam uma super matança que excederia a qualidade da culpa pelo pecado. O pecado original — e todos os pecados subsequentes meramente re enfatizam isto — efetivamente quebra o relaciona mento do homem com toda a realidade: o eu, Deus, o próximo, a natureza, de modo que o homem não consegue restabelecer relacionamentos originais e autênticos. Isto é revelado de modo supremo na cruz, onde o homem mata aquele em quem toda realidade, divina e criada, está centralizada. Assim, o pecado original como aquele ato que quebra todo relacionamento criado entre o homem e Deus não é meramente moral, intelectual, nem afetivo, porém algo mais profundo que tudo isto. É, em essência, religioso. Como falou Davi: “Pe quei contra ti, contra ti somente, e fiz o que era mal perante os teus olhos” (SI 51.4). E esta referência divina que constitui a essência do pecado original e por meio desta referência toma-se também o pecado do homem contra ele mesmo, seu próximo e a natureza. A natureza do pecado é totalmente destrutiva; o pecado, portanto, traz à tona aquelas plenas realidades que os conceitos bíblicos de morte e da ira divina infinita transmitem. Este pecado que apresenta o pecador totalmente depravado não pode ser aprendido da experiência humana. Embora a história esteja saturada de for mas múltiplas de ação pecaminosa, um verdadeiro reconhecimento do pecado — como distinto do erro, ignorância, loucura ou fragilidade humana — não acontece dentro do campo de observação ou da experiência humanas. Nenhum caminho leva da experiência do pecado ao verdadeiro conhecimento do pecado. As dimensões religiosas distintas do pecado como um ato que, em primeiro lugar, é contra Deus, podem ser reveladas somente pelo próprio Deus. O comportamento moral do homem é freqüentemente melhor do que aquilo que a depravação pode produzir, uma ambiguidade derivada das operações graciosas de Deus sobre o homem e uma verdade que pode ser conhecida apenas por meio da revelação. Que todo pecado contra o próximo, contra o meio ambiente natural do homem, é também contra Deus, não é um conhecimento humano alcançável salvo se concedido por meio de revelação divina. Semelhantemente, o conhecimento de que o relacionamento correto do pecador para com Deus, para com o próximo e para com o meio ambiente natural não pode ser reconstituído, exceto pela graça da regeneração, pode também ser conhecido somente por meio da revelação.
G. Pecado e graça. Pecado é a transgressão da lei, porém nunca é somente isto. Uma vez que o propósito da lei é a graça, como indicado pelo fato que foi entregue a Israel em uma situação de aliança (Gl 3.17) e pelo próprio prefácio introdutório da lei, o pecado é sempre um ato contra a bondade e a graça de Deus. Esta qualidade do pecado como um ato contra a graça de Deus enfatiza que o pecado nunca é um acontecimento individual, mas sempre um assunto social. A graça é uma expressão da vontade de Deus de estar com e para o homem em uma comunidade na qual o homem está tanto para Deus quanto para o seu próximo. Este caráter social da graça corresponde à exigência da lei que amemos tanto a Deus quanto ao nosso próximo. Aquele que ama a Deus não pode odiar seu próximo; e aquele que odeia seu próximo não pode amar a Deus (l Jo 2.3). O pecado como a rejeição desta vontade divina graciosa para a comunidade não é, portanto, um ato individualista. Antes é um ato social — mesmo na sua forma negativa, anti-social. Além disso, pelo fato de que o pecado é um ato social, o pecado é cometido não somente por um único indivíduo, mas por grupos sociais e pode ser incorporado a estruturas sociais. Uma nação pode pecar não menos do que um indivíduo; existem pecados nacionais, não menos que indivíduos, são chamadas ao arrependimento e correção da vida. Semelhantemente, a Igreja pode pecar e ser chamada para confessar e corrigir a vida, embora deva ser admitido que raramente as igrejas fazem aquilo que requerem dos seus membros individuais. Este caráter comunal e social do pecado, que reflete o caráter comunal e social da graça, ajuda a compreender porque a justiça nunca é um conceito individual, mas sempre um conceito inerentemente social. Não há justiça individual que seja distinta da social. Toda justiça é justiça social, porque a justiça é a expressão da santidade de Deus na medida em que conserva o propósito gracioso de Deus de estar com e a favor do homem contra o ataque pecaminoso do homem contra este propósito. Deve ser observado também que, por causa do caráter social do pecado, a distinção entre ética “pessoal” e “social” está fundamentada em uma má compreensão da natureza do pecado. A ética “pessoal” sempre se mostra como sendo uma ética do indivíduo em contraste com uma ética social. Todo pecado é, de fato, pessoal, quer seja o do indivíduo quer seja o da personalidade incorporada da igreja ou nação — como também o são todo amor e as boas obras. Porém não há ética pessoal individualista, como não há graça individualista ou justiça individualista. As idéias bíblicas de graça, amor, justiça, como também o ensino bíblico de que o pecado original de Adão é também o pecado do homem e o único ato de obediência de Cristo pode ser a justiça do homem, são em teoria abandonadas quando o pecado é definido individualmente pela referência a uma compreensão legalista da lei, sem referência ao caráter social da graça de Deus. Esta qualidade incorporada do pecado é também nitidamente vista nos ensinos do NT de que alguém pode ser perdoado por Deus somente à medida em que perdoa os outros (Mt 6.14,15), pode adorar a Deus no altar apenas quando está em relacionamento correto com seu irmão (Mt 5.23,24) e pode orar corretamente somente quando se dirige a Deus como “Pai nosso” e pede o pão de cada dia, o perdão dos pecados e a libertação do mal enquanto ora usando pronomes pessoais plurais (“nós” e “nosso”).
H. Pecado e castigo. O pecado requer punição. Sendo uma afronta contra a majestade infinita de Deus, o pecado necessita de castigo infinito e sem limite. A Bíblia fala, portanto, do salário do pecado como a morte e o castigo eterno no inferno. Tal punição é o reflexo da santidade de Deus pela qual ele se conserva contra o pecado do homem. Ao responder ao pecado, a santidade de Deus toma a forma de justiça, expressando-se em ira infinita e juízo ilimitado. A resposta divina, todavia, acontece na história somente na cruz onde, o Filho de Deus se toma o objeto dela — e morre. Em outra parte da história humana, a ira e a justiça punitiva de Deus são sempre corretivas, uma forma de ira por causa da graça, uma forma de julgamento que pode ser desviado, evitado e mudado por Deus quando o homem se arrepende e responde à sua graça. O único julgamento e ira divina, na história, do qual Deus não pode retroceder ou se arrepender, é aquele que aconteceu na cruz. O fato de que todas as outras manifestações de julgamento divino sobre o pecado são contingentes em vez de absolutas, corretivas em vez de finais, sugere que toda a justiça que a sociedade administra a seus criminosos deve ser medicinal e corretiva, nunca meramente punitiva e final. O pecado original é a fonte de todos os outros pecados e estes são tão múltiplos que desafiam números ou nomes, mesmo assim cada um deles reflete algo da altamente complexa natureza do pecado. Por causa desta complexidade não é surpreendente que a Bíblia use muitas palavras para denotar o pecado. O pecado é, além do mais, no pensamento bíblico, muitas outras coisas — incredulidade, desconfiança, ingratidão, falta de amor, ódio. O maior pecado ocorre em reação à cruz, onde a natureza do pecado em todos os seus aspectos é revelada, e o pecado original com todas as suas expressões históricas subsequentes é vencido e perdoado pela ação graciosa de Deus em Cristo. O maior pecado, portanto, é a rejeição do Cristo crucificado que julgará todos os homens de acordo com o Evangelho (Rm 2.16), o que significa, em referência à vontade e propósito gracioso de Deus.
