Vida Após a Morte e as Testemunhas de Jeová

Vida Após a Morte e as Testemunhas de Jeová

Vida Após a Morte e as Testemunhas de Jeová


Uma das características doutrinárias das Testemunhas de Jeová é o conceito antropológico de que o homem não possui uma alma que sobrevive à morte. O ser humano, tal como qualquer animal, é um ser intrinsecamente mortal. Quando morre, nenhuma parte dele (sua consciência, suas lembranças, seu eu) sobrevive. O ser humano deixa simplesmente de ser uma entidade vida e consciente e passa a ser pó.
“Na morte a pessoa deixa de existir.” (Mito 1: A Alma é Imortal, grifo meu.)
A antropologia bíblica, neste respeito, é bastante simples, embora ainda seja tema de debates acirrados. É muito fácil vermos a Bíblia como uma totalidade. E por causa da modernização das Escrituras, fica difícil até mesmo lembrar que a Bíblia é literalmente uma mini biblioteca composta de 66 livros escritos que compõem o Antigo e o Novo Testamento. Cada livro teve um contexto em que foi escrito e lido. Cada livro teve um autor com uma formação diferente, um conhecimento maior ou menor da teologia revelada. Cada autor tinha seu próprio vocabulário, o que significa que palavras iguais nos originais grego e hebraico podem ter significados diferentes em livros diferentes, sendo seu sentido esclarecido pelo contexto.

Por exemplo, a palavra néphesh que usualmente traduzimos por “alma” pode significar também “sangue”, “ser humano”, “vida”, “apetite”, etc (Harris, R. L., Harris, R. L., Archer, G. L., & Waltke, B. K. (1999, c1980). Theological Wordbook of the Old Testament (p. 587). Chicago: Moody Press.) O que vai determinar se o significado é um ou outro é exatamente o contexto, o texto em si. Se o texto dá uma ideia de néphesh diferente do usual, não nos é permitido simplesmente padronizar a tradução.

Quando um aniquilacionista (que defende o fim do ser humano na morte), ou diretamente uma Testemunha de Jeová, que logo usarão Ezequiel 18:20, advogando o fato de que a alma pode morrer, seria útil mostrá-lo o texto de 2 Coríntios 12:2, onde lemos:
Conheço um homem em união com Cristo que, há 14 anos — quer no corpo, quer fora do corpo, não sei; Deus sabe —, foi arrebatado ao terceiro céu. (TNM)
Este texto fala de uma experiência mística que o apóstolo Paulo teve. Seu encontro com o divino foi algo tão forte, tão poderoso, que Paulo diz que não sabe dizer se as visões que teve “no terceiro céu” foram experimentadas “dentro” (ἐν) ou “fora” (ἐκτὸς) do corpo, (ἐν σώματι οὐκ οἶδα, εἴτε ἐκτὸς τοῦ σώματος).
Os judeus ensinavam que Deus criou o corpo e alma de Adão como uma unidade (Gn 2:7), e somente a morte pode separar os dois. Em contraste, a filosofia grega ensinava uma separação entre corpo e alma; isto é, a alma, que é imortal, deve ser libertada do corpo, que é mal. Paulo seguiu o pensamento judaico e viu uma separação apenas no momento da morte. (Kistemaker, S. J., & Hendriksen, W. (1953-2001). Vol. 19: New Testament Commentary: Exposition of the Second Epistle to the Corinthians, (p. 408). Grand Rapids: Baker Book House.)
Para uma Testemunha de Jeová, seria fácil criar uma interpretação que se enquadrasse em seu corpo doutrinário. Poderia alegar que Paulo está apenas afirmando não saber se a experiência foi uma visão, algo que ocorreu apenas em sua mente, ou se foi algo literal, experimentado objetivamente por meio dos receptivos sensoriais de seu corpo. Tal interpretação, no entanto, contrairiam completamente o significado original do texto. Um manual de tradução da Bíblia comenta sobre 2 Coríntios 12.2:
A tradução TEV – “Eu não sei se isso realmente aconteceu ou se ele teve uma visão” (também FrCL, BrCL) - não expressa adequadamente o pensamento de Paulo. De fato, isso aconteceu; ele foi arrebatado para o mais alto dos céus. A questão para Paulo era se era uma ascensão corporal ou “apenas em espírito” (GECL). A tradução do CEV comunica corretamente o significado: “Eu não sei se o homem ainda estava em seu corpo quando aconteceu, mas Deus certamente sabe”. (Omanson, R. L., & Ellington, J. (1993). A handbook on Paul's second letter to the Corinthians. UBS handbook series; Helps for translators (p. 218). New York: United Bible Societies.)
Ter uma visão, através de um processo psicológico, ou ver literalmente o terceiro céu com os olhos, não cria de forma alguma uma diferença, pois ambos são experimentados no corpo. Experiências espirituais, visões, experiências extrassensoriais são produzidos por vários dispositivos neurológicos, entre eles, o córtex pré-frontal, lobo parietal superior posterior, lados direito e esquerdo. (NOGUEIRA, Sebastiana M. S. Viagem aos Céus e Mistérios Inefáveis: A Religião de Paulo de Tarso, p. 169) Em ambos os casos, o indivíduo estaria fazendo uso do corpo; ou vendo literalmente, ou vendo através de uma perspectiva psicológica. Desta forma, o único sentido válido e a única dúvida de Paulo é se a experiência espiritual foi em seu corpo humano, ou espiritual.

Ora, se dentro do corpo humano não mora um “eu” consciente, uma alma com identidade que pode sobreviver à morte, como Paulo poderia dizer que havia uma possibilidade de sua experiência ter acontecido “fora do corpo”? Na visão das Testemunhas de Jeová, NADA ocorre fora do corpo. Seu eu não pode sair do corpo. Você não pode experimentar um mundo fora do corpo porque você e seu corpo são uma unidade só. Suas percepções sensoriais (ver, sentir, tocar, etc) estão todas relacionadas ao seu cérebro. Por isso que, para uma Testemunha de Jeová, quando você morre, automaticamente deixa de existir pelo simples fato de que seu cérebro parou de funcionar.

O testemunho de Paulo, embora não seja diretamente o tema que ele está tratando, deixa claro que ele compreendia que havia um “Paulo” além do seu corpo, que o “eu-Paulo” poderia deixar o corpo e ir até um ambiente espiritual chamado “terceiro céu.” Isto contradiz completamente o que ensina as Testemunhas de Jeová. O que dizer então dos textos que fala da alma morrendo?

A menos que você acredite que a Bíblia caiu do céu com zíper e tudo mais, todos sabemos que cada livro contem uma revelação a mais, uma contribuição a mais para a formação que culminou na teologia cristã expressa no Novo Testamento. As Testemunhas de Jeová repetem insistentemente que o entendimento bíblico é progressivo. Usam Provérbio 4:18 para provar isso. 

A antropologia judaica primitiva era bem materialista. A serpente nunca foi apresentada como sendo uma ferramenta usada por uma entidade maligna. O homem é matéria inanimada e ao morrer volta a ser matéria inanimada (“tu és pós e ao pó voltarás.” - Gn 3:19).

O Messias, a Ressurreição, a Salvação, a Encarnação do Verbo, Sua Volta, o Restabelecimento do Reino, todas essas doutrinas que são expressas de forma clara no Novo Testamento são encontradas ainda de forma bem obscura no Antigo Testamento. Só a identidade do Messias, em si mesmo, mesmo com inúmeras alusões no Antigo Testamento, era assunto de intensos debates no tempo de Jesus. Antes de Cristo, a maioria das revelações ainda era obscura. A condição do homem pós-morte era um desses assuntos.

Tome, como exemplo, Gênesis 22. Abraão está disposto a sacrificar seu filho, Isaque. Mais nada somos informados. Não nos é dito o que se passava na cabeça e no coração do patriarca. Só vamos saber as entrelinhas deste relato na carta aos Hebreus, onde somos informados que a ressurreição estava implícita no ato de fé de Abraão, (cf. Hebreus 11:8 e 9).

No mesmo livro de Gênesis, há uma afirmação que nos levaria a entender que existe consciência depois da morte. Ao saber da suposta morte de seu filho, Jacó diz:
“Descerei para a Sepultura (“o Seol”, isto é, a sepultura comum da humanidade) chorando pelo meu filho!” E ele continuava a chorar por seu filho.” (TNM; grifo meu)
A Tradução das Testemunhas de Jeová ainda explicam o significado de “Sepultura” com letras maiúsculas:
“Quando a palavra é grafada em letras minúsculas, refere-se ao espaço físico onde alguém é sepultado. Quando se usa inicial maiúscula, refere-se à sepultura comum da humanidade. Os termos correspondentes são “Seol”, em hebraico, e “Hades”, em grego. É descrita na Bíblia como um lugar ou condição simbólicos em que não há nenhuma atividade nem consciência.” (Sepultura)
Ora, se no Seol, ou seja, na condição de ser humano morto, a pessoa não tem mais consciência, como Jacó poderia lamentar a morte do filho depois de sua morte? Não obstante, como mencionei acima, muitos desses textos do AT apenas expressam a concepção que cada indivíduo hebreu poderia pessoalmente ter desenvolvido. A predominância no AT é de morte eterna. Nem mesmo ressurreição. Não existe ‘tu és pó, ao pó voltarás e do pós voltarás a ser’, implicando qualquer ressurreição. Se pegarmos apenas Gênesis, o que entendemos é: antes do homem ser criado do pó, ele não existia, se ele voltará a ser pó, então ele voltará a não existir. Uma visão materialista simples. O conceito de ressurreição começou a se desenvolver a partir do livro de Daniel, (cf. 12.2).

Embora um ou outro hebreu possa ter entretido algum conceito de existência pós-morte, como parece ser o caso de Jacó, em termos gerais, os hebreus parecem ter sustentado uma visão materialista de que tudo acaba na morte. Tudo muda no NT. Embora não haja referência direta sobre alguma alma literalmente imortal, uma alma incapaz de ser destruída, a existência da consciência após a morte é bastante clara.

Em Lucas 16:19-29, Jesus usa uma parábola que só pode ser entendida como existência consciente pós-morte. Sim, é uma parábola. Não, não foi um acontecimento histórico. Isso normalmente é usado pelas Testemunhas de Jeová para destruir o argumento de uma alma que sobrevive a morte do corpo. Agora, se Jesus sabia, como ninguém, que o ser humano deixa de existir depois da morte, por qual motivo ele faria uma parábola com elementos de vida após-morte? Será que em todo seu repertório, como o Logos de Deus, não haveria como usar uma parábola diferente?

Se quando o ser humano morre, ele deixa de existir, essa parábola de Jesus simplesmente não possui qualquer sentido. Cristo poderia, por exemplo, usar uma parábola assim para desmentir conceitos pagãos de uma alma imortal, platônica. Poderia ele, certamente, construir uma parábola onde o raciocínio levasse à conclusão de que a vida após a morte não existe. Pelo contrário, Cristo constrói uma parábola que só pode ter uma aplicação e, acima disso, uma exortação, se a pessoa acreditar que, ao morrer uma pessoa boa e uma pessoa má, ambas serão encaminhadas (ambos conscientes) para destinos diferentes para receberem seu quinhão eterno.

Não vemos também qualquer lugar onde o NT revele que nossa alma é imortal, (1 Tim. 6:16). Imortalidade é algo que só Deus tem, embora Paulo diga que Deus irá conceder tal atributo aos cristãos que seguirem Cristo fielmente até a morte, (1 Coríntios 15:54). Logo, se Deus concederá imortalidade, ele não será o único imortal. E, se Deus concede imortalidade, é porque o ser humano não a possui. Uma alma que sobrevive a morte não é imortal. Imortalidade significa a impossibilidade de extermínio. A alma, o self, a consciência, pode continuar a existir por eras e eras sem ser imortal. Ela pode ser considerada como eterna... enquanto dure.

É comum ouvir as Testemunhas de Jeová afirmarem que a ressurreição só faz sentido com uma morte completa, afinal, como ressuscitar alguém que já está vivo? Este raciocínio é superficial pois limita a possibilidade do que significa ser ressuscitado. Na medicina, por exemplo, se usa o tempo inteiro o termo “ressuscitação”, quando alguém tem parada cardíaca, respiratória, e, portanto, é preciso fazer uma ressuscitação. Aqui, claro, ressuscitação significa “reanimação do corpo”. Ainda assim, a pessoa ainda não morreu, está entre a vida e a morte, ainda há vida em ser corpo, e ela é “ressuscitada” quando ela retorna completamente.

Como os hebreus tinham uma posição materialista do mundo em muitos aspectos, ressuscitar não era simplesmente voltar a existir, era voltar a existir como ser humano, no corpo que você tinha. Uma pessoa que morreu e cuja alma, consciência, self, está em outro plano espiritual, pode, sem problema e inconsistência alguma, ressuscitar no sentido de voltar a existir na terra em um corpo físico. Portanto, no sentido primitivo judaico, ressuscitar significa voltar a viver na terra, onde os judeus criam que haveria um reino literalmente a partir de Israel, com o Messias entronizado, etc (cf. Salmos 37:29, Isaías 2:1-4).

Claro, não ache que as Testemunhas de Jeová irão alterar sua doutrina por causa disso. Mas este artigo pode lhe ajudar quando tiver oportunidade de conversar com algum membro. Basta apontar para 2 Coríntios 12:2 e perguntar como Paulo poderia ter uma experiência fora do corpo se o corpo é tudo que existe.

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