Livro de Deuteronômio

Livro de Deuteronômio
O Livro de Deuteronômio é o quinto livro da Bíblia. Nele estão registrados os discursos que Moisés fez quando o povo de Israel estava na terra de Moabe, antes de atravessar o rio Jordão e tomar posse de Canaã. Nesses discursos Moisés se refere aos 40 anos de peregrinação pelo deserto. Ele manda que o povo obedeça a Deus porque a desobediência traz como resultado o castigo. O povo de Israel deve adorar somente o SENHOR, o Deus dos seus antepassados. Depois de escolher Josué para ficar no seu lugar, morre no monte Pisga Moisés, o maior de todos os profetas de Israel. A passagem-chave do livro se encontra em 6.4-6.

Título

O título em português Deuteronômio deriva da designação do livro na LXX como gr. deuteronômio, “segunda (ou repetida) lei”, baseada na tradução de Deut. 17:18 como “esta repetição da lei” (do hebraico mišnēh hattôrâ hazz’ôṯ “uma cópia desta lei”). O livro não constitui um corpo de lei distinto daquele registrado nos livros precedentes do Pentateuco; ao contrário, é uma expansão ou reinterpretação das estipulações do pacto do Sinai (Horeb) apresentadas no contexto de uma renovação daquele acordo entre Israel e Deus promulgado nas fronteiras de Moabe (29:1), daí a repetição ou recitação de legislação anterior. Seu título hebraico ’ēlleh haddeḇārîm “estas são as palavras”, retirado das palavras iniciais do texto, reflete a fórmula padrão de abertura dos textos do tratado do antigo Oriente Próximo (aliança).

Autor e Data

O Livro de Deuteronômio é composto quase que inteiramente de discursos atribuídos a Moisés. Há também breves seções históricas consideradas da lavra de Moisés. Quando o Antigo e o Novo Testamento citam a lei de Moisés, referem-se, em sua maioria, a este livro do Pentateuco. Por estas e outras razões, os estudiosos conservadores conferem sua autoria ao grande legislador de Israel. Isto não significa que não haja comentários e dados de informação histórica editados e inseridos por outros escritores. Mas, este ponto de vista leva a sério as declarações exaradas no livro e o testemunho geral pontilhado no restante da Bíblia concernente à autoria mosaica. Os estudiosos que adotam o, digamos, ponto de vista de Wellhausen, sustentam, com várias modificações, que Deuteronômio é uma composição que contém algum material antigo, parte do qual derivado de Moisés, mas produzido por um profeta ou escola de profetas pouco antes de 621 a.C. Neste ano, o livro da lei foi descoberto por Hilquias, no Templo, e lido na presença do rei Josias. Este episódio desencadeou uma série de reformas que os estudiosos deste ponto de vista declaram que foi baseada em Deuteronômio (2 Rs 22.8—23.25; 2 Cr 34.14—35.19). Ponto de destaque entre estas reformas foi a retirada dos altares idólatras e dos altares erigidos ao Senhor nos lugares altos. Os reformadores também insistiram que os sacrifícios deviam ser oferecidos somente no santuário central em Jerusalém. Estes estudiosos asseveram que a perspectiva de Deuteronômio é semelhante ao Livro de Jeremias, aos dois livros de Reis e a outra literatura profética de fins do século VIII a.C. a início do século VII a.C. Afirmam que a ideia de um santuário central exclusivo era desconhecida a tais dignitários como Samuel e Elias. Estas são algumas das principais razões apresentadas para imputar a autoria de Deuteronômio a um profeta ou escola profética mais ou menos no começo do século VII a.C. A evidência para este ponto de vista não é bastante forte para ocasionar um consenso geral entre os estudiosos. E. Robertson atribui a edição de Deuteronômio a Samuel. Por outro lado, Hölescher imputa esta tarefa ao período pós-exílico. Ademais, se o livro foi escrito para corrigir a prática de adoração nos lugares altos, é surpreendente que tal costume não seja especificamente mencionado. Supomos que um autor escrevendo em princípios do século VII a.C. fizesse alusão a Jerusalém ser o santuário central, se um dos propósitos primários do autor (ou autores) fosse centralizar todos os sacrifícios ali. A semelhança em perspectiva entre este livro e a literatura profética pode ser explicada pela influência de Deuteronômio nos escritores proféticos. O fato de a leitura de Deuteronômio ter ocasionado certas reformas não é indicação segura de que foi escrito nos dias de erros de adoração, mais do que a Bíblia foi escrita pouco antes da Reforma protestante. Contribuição importante ao assunto é o Treaty of the Great King (Tratado do Grande Rei).1 Kline afirma que a estrutura e o conteúdo de Deuteronômio se ajustam ao padrão de tratados redigidos entre uma suserania e seu vassalo. Estes tratados começavam com um preâmbulo que identificava o estado suserano (cf. 1.1-5), seguido por um prólogo histórico (cf. 1.5—4.49). Depois, vinham as estipulações do tratado (cf. caps. 5—26), sucedidas por uma exposição de maldições, no caso de não observância, e de bênçãos, na observação fiel (cf. caps. 27—30). O tratado era concluído com a listagem das testemunhas (cf. 31.16-22; 31.28—32.45), instruções sobre onde guardá-lo e suas proclamações recorrentes e periódicas (cf. 31.9-13), e providências para a sucessão dinástica (cf. caps. 31—34, joassim). Kline alega que a estrutura de Deuteronômio tem afinidade mais estreita com os tratados do segundo milênio a.C. Sua tese dá impulso ao ponto de vista de que Deuteronômio é uma unidade pertencente à era mosaica. O assunto da autoria é vasto e complicado, e não é o propósito deste comentário analisá-lo em detalhes. Esta breve exposição serve para indicar algumas das principais questões relacionadas à autoria e data, e explicar a razão para tratar Deuteronômio como substancialmente mosaico.

Conteúdo

Intercaladas dentro da narrativa dos últimos dias de Moisés estão três discursos que o grande líder dirige ao povo de Israel nos estágios finais de suas peregrinações ao deserto. Após uma breve introdução, a primeira oração analisa a história do povo no deserto da diretiva de Deus em Horebe (Sinai) que eles tomam posse da terra prometida através da conquista de Hesbom e Basã e da alocação da terra a leste do Jordão. (1:6–3:29); o discurso termina com a admoestação à obediência fiel às leis de Deus, particularmente aquelas que proíbem a idolatria (4:1-40). A narrativa narra a nomeação de Moisés de cidades de refúgio na Transjordânia (vv. 41-43). O segundo discurso de Moisés compreende uma revisão das leis de Israel, incluindo uma reafirmação e exposição dos Dez Mandamentos como a base da aliança de Israel (5:1-11:32) e uma compilação de legislação específica (12:1-26:15); o discurso conclui com uma exortação ou declaração a respeito do compromisso com a aliança (vv. 16-19). A seguir, uma narrativa da cerimônia de renovação da aliança nas planícies de Moabe (27:1-29:1), retratada em termos de sua posterior observância em Siquém. O terceiro discurso de Moisés (29:2–30:20) constitui uma acusação à fidelidade da aliança. Os capítulos restantes registram os eventos finais da vida de Moisés, incluindo uma acusação final ao povo e a nomeação de Josué como seu sucessor (cap. 31), o “Cântico de Moisés” (32:1-43), a “Bênção” de Moisés” (cap. 33), e um relato da morte e sepultamento de Moisés (cap. 34).

Estrutura e Origem

Embora os primeiros críticos literários tenham visto o Deuteronômio como primariamente o trabalho da fonte Deuteronômica (D), o livro foi submetido a numerosas interpretações críticas e sua composição foi atribuída a uma variedade de autores e editores, variando do Mosaico aos tempos pós-exílicos. Tradicionalmente, o livro é o trabalho de Moisés (embora alguns aceitem o capítulo 34 como um apêndice talvez atribuído a Josué), e muitos estudiosos críticos aceitam pelo menos as raízes mosaicas de sua teologia e leis. Uma visão proeminente é que o cerne do livro (caps. 12-26) representa o Livro da Lei descoberto por Josias em 622/621 a.C. (2 Rs 22-23 par. 2 Cr 34-35) e que formavam a base de suas reformas, promovidas pela elaboração editorial na forma de uma estrutura “Deuteronômica” ou “Deuteronomista” (por exemplo, caps. 5–11 30–34); acréscimos posteriores trouxeram o livro dentro do escopo da “História Deuteronômica” pré-exílica (Deuteronômio - 2 Reis) e da “História Primária” exílica (Gênesis - 2 Reis). Uma adaptação desse ponto de vista data a compilação do “Código Deuteronômico” até o reinado de Ezequias (715–687), possivelmente pelos sacerdotes levitas do norte que haviam fugido para Jerusalém após a queda de Samaria em 722. De qualquer forma, a variedade de Materiais jurídicos, narrativos, exuberantes e poéticos que compreendem Deuteronômio sugerem um longo e complexo desenvolvimento antes da canonização do livro no século IV a.C como parte do Pentateuco.

De acordo com seu cenário literário e histórico, bem como seu tema principal, vários estudiosos compararam a estrutura do livro à forma de antigos tratados vassalos do Oriente Próximo. Esses componentes do tratado incluem o preâmbulo (1:1–5), prólogo histórico (1:6–4:49), declaração de princípios básicos (caps. 5–11), regulamentos específicos (caps. 12–26), maldições e bênçãos sancionando o juramento (caps. 27–28), invocação de testemunhas divinas (30:19; 31:19; 32:1-43) e provisão para continuidade do convênio (caps. 31–34).

Características

E provável que o título “Deuteronômio” tenha sido retirado da expressão grega deuteronomion touto, tradução que a Septuaginta faz da frase: “um traslado desta lei” (17.18), literalmente, “esta segunda lei”. Levando em conta que a maior parte do livro consiste em reformulações da lei feitas por Moisés na véspera da travessia do rio Jordão para entrar em Canaã, este título foi aceito por ser apropriado. Em sua maioria, Deuteronômio é uma série de discursos feitos por Moisés. Estão na linguagem do povo e são dirigidos a todo o Israel. O propósito é lembrar os velhos e informar os jovens acerca do concerto com o Senhor e das leis que o compõem. As exigências são lealdade absoluta ao Senhor e separação de todos os falsos deuses e sua adoração (7.5). Neste sentido, o Senhor é um Deus ciumento, que não tolera rivais e repudia a lealdade dividida (5.7-10). Nada que tenha a probabilidade de desviar seus filhos de adorá-lo ou de corromper-lhes o caráter e a conduta deve subsistir (7.5). Os cananeus licenciosos devem ser destruídos para que não contaminem o povo santo com as práticas pecaminosas destes povos (7.1-4; 20.16-18). Os éditos terríveis nos fazem estremecer, mas a degradação da raça eleita para o advento do Messias teria efeitos ainda mais medonhos. Mas o livro também contém composições aprazíveis e majestosas. Neste livro, mais que em qualquer outro do Pentateuco, Deus declara o amor por seus filhos (7.13; 10.15; 23.5) e o desejo que lhes devota (6.5; 30.6). Deus ensina seu povo a ser misericordioso e generoso para com os órfãos, as viúvas, os pobres e os estrangeiros (10.18; 15.7). Há insistência inflexível na justiça. A justiça deve ser feita indiscriminadamente aos ricos e aos pobres, aos grandes e aos pequenos (1.16,17), e ir a ponto de corrigir pesos e regular medidas (25.13-16). Deuteronômio é um livro “amistoso e prestativo”. Encontrando animais extraviados pertencentes ao vizinho, o israelita deve restituí-los ao dono e, se vir animais de terceiros em dificuldade, deve prestar ajuda (22.1-4). A obediência a Deus é comparada à vida e bênção; a desobediência, à morte e maldição (11.26-28; 30.19). Este fato deu origem à expressão o “estilo de vida deuteronômico”: a bondade ocasiona prosperidade, e a maldade ocasiona adversidade e sofrimento. Há quem advogue que esta interpretação da história percorre os livros históricos da Bíblia. Seus críticos admitem que este ponto é verdadeiro, mas declaram que existem severas limitações. Defendem que Isaías mostra maior insight ao perceber que o sofrimento vicário é muito maior que a justiça florescente. O Livro de Jó foi provavelmente escrito em contradição direta a uma aplicação por demais canhestra do ponto de vista deuteronômico. Mas a passagem de 8.2,3 constata o valor da disciplina do sofrimento. O próprio Moisés é notável exemplo do justo que sofre voluntariamente por causa de sua identificação com um povo rebelde (3.26; 9.18,19).

Teologia

O núcleo da mensagem de Deuteronômio é o relacionamento de aliança entre Israel e Deus, um conceito enfatizado tanto pela forma como pelo conteúdo do livro e resumido na declaração de credibilidade do Shemá (Deuteronômio 6:4-5). O Senhor é um Deus, um Deus único (4:35, 39), majestoso e supremo (3:24; 10:14), que age na história em favor de seu povo (por exemplo, 1:6–4:49; 29:2-4). Israel é um povo único, escolhido por Deus como um povo “santo” (7:6; 10:15; 14:2; 26:19; 28:9) para desfrutar de um relacionamento privilegiado com o seu Senhor (cf. 1:31). Esse relacionamento de aliança, permitido por Deus como cumprimento de suas promessas aos patriarcas (7:8; 29:12-13; cf. 4:21), requer obediência às estipulações estabelecidas no Sinai e elaboradas para sua situação contemporânea (por exemplo, 4:1; 8:1-6); Um fator central dessa obediência, conforme apresentado em Deuteronômio, é a centralização da adoração israelita (12:1-31). A adesão de Israel ou a rejeição destes regulamentos trará uma retribuição adequada (caps. 27-28).

Importância

Não há o que questionar sobre o valor permanente de Deuteronômio. Os estudiosos liberais e conservadores são prontos em reconhecer a parte que o livro desempenha no desenvolvimento da religião israelita. A história de Israel é escrita do ponto de vista deuteronômico e seus monarcas são pesados nas balanças deste livro. Foi plausivelmente lido na leitura da lei quando da reforma efetuada por Esdras e Neemias depois do retorno do exílio, e é provável que figurava com proeminência nos festivais culturais. E óbvio que nosso Senhor meditou profundamente em Deuteronômio e enfrentou a investida tripla de Satanás com uma defesa tripla retirada do arsenal deste livro (8.3; 6.13,16). Citou parte do Shemá (6.4,5) quando perguntou sobre o maior mandamento (Mc 12.28-30). O apóstolo Paulo, quando se estendeu em suas considerações sobre a simplicidade e acessibilidade da lei, aplicou ao evangelho a descrição feita por Moisés (Rm 10.6-8; cf. Dt 30.11-14).

Deuteronômio e a Santidade

Que elucidações Deuteronômio proporciona para a doutrina da santidade? Os expositores, influenciados por Hebreus 3.1-11 e outros textos do Novo Testamento, veem na terra de Canaã um tipo da experiência do enchimento do Espírito e de total santificação (cf. At 26.18). Deuteronômio é profuso em promessas pertinentes à terra e em exortações a possuir a herança divinamente providenciada (e.g., 1.8; 7.1; 11.8,9). Além desta significação tipológica, Deuteronômio nos lembra que a experiência religiosa genuína é validada pela conduta íntegra. O êxtase religioso é espúrio se não se manifesta em relações justas e sociáveis, e na justiça comercial e social. Deuteronômio nos ensina que a lealdade a Deus é a essência da verdadeira espiritualidade. Este princípio não permite acordo com nada que seja contrário a Deus e exige separação de todas as relações e práticas ilegítimas. A essência da santidade é o amor. O Shemá (6.4-9) resume o dever supremo do homem em tais termos. Deus ama seu povo e busca ser amado por ele. Seu desejo é que seus filhos o sirvam com alegria. Ele possibilita este amor retirando tudo que o impeça, de forma que amemos o Senhor de todo o nosso coração (30.6).

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