Primeira Carta aos Coríntios
Atualização:
A Primeira Carta aos Coríntios é uma carta que Paulo escreveu aos cristãos da cidade de Corinto para tratar de vários e sérios problemas que os estavam perturbando. A igreja estava dividida, e nela havia questões de doutrinas e a respeito da vida cristã. Nos caps. 12—14 Paulo trata dos dons do Espírito, o maior dos quais é o amor (cap. 13). O cap. 15 trata da ressurreição.
Se em 1Co 16.8 Paulo está contemplando o Pentecostes como prazo seguinte, ele não pode ter escrito a carta antes do começo do ano. Porém, a menção do Cordeiro pascal sem motivação aparente em 1Co 4.6ss é um forte indício de que Paulo ditou a carta somente na época da Páscoa. Porém de que ano? Com base em 1Co 16.8 sempre se supôs como óbvio que a carta tenha sido redigida no final da atuação em Éfeso. Nesse caso estaríamos na primavera do ano 55. Contudo, isso seria tão certo? Será que apenas no final do trabalho de vários anos em Éfeso abriu-se uma “porta grande e oportuna” para o apóstolo? E, nesse caso, não seria muito breve a prorrogação de sua permanência por sete a oito semanas, comparado com os anos de sua atuação anterior? As observações sucintas em 1Co 16.8s poderiam ser muito mais compreensíveis se caíssem no começo da temporada em Éfeso. Nesse caso, seria nova, tanto para Paulo como para os coríntios, a experiência de que se abre para ele uma grande atividade em Éfeso, e que ao mesmo tempo se levanta uma forte resistência contra ela. E se agora ele imagina que precisa permanecer mais tempo, alongando sua estadia além da Páscoa até Pentecostes, isso significaria um acréscimo consideravelmente grande de tempo após uma primeira atuação breve.
Verdade é que nesse Pentecostes Paulo não teria conseguido liberar-se de Éfeso, mas teria permanecido pelo menos mais um ano, para somente então executar seu plano de viagem de acordo com 1Co 16.3-9. Nessa hipótese, porém, entramos em conflito com o relato de At 19.21s. Aqui o plano de viagem do apóstolo e o envio de Timóteo são apresentados em exata correspondência a 1Co 16.3-9, mas posicionados nitidamente no final da atuação em Éfeso. E em At 20.1s é relatada a correspondente realização do plano de viagem. Também a presente missiva aponta para uma época já passada de trabalhos e lutas em Éfeso, por meio da menção da “luta com feras” em Éfeso, em 1Co 15.32. Portanto, apesar de tudo, será necessário fixar a data da carta na época pascal do ano 55. Também nesse caso se evidencia novamente que não podemos permitir que o entendimento de passagens da carta seja determinado pelas nossas concepções e idéias. Sabemos muito pouco do que há por trás das frases de uma carta, que nos dão motivo para uma série de suposições. As referências claras de Atos dos Apóstolos são determinantes.
Ao longo da sua existência, Corinto conheceu o esplendor e a miséria. No ano 146 a.C., esteve a ponto de desaparecer, arrasada pelos romanos; mas, um século depois, no ano 44 a.C., Roma mesmo cuidou para que a cidade fosse reconstruída e constituída como a residência do governador da província. Esse último dado ficou registrado com exatidão em At 18.12-18, onde se diz que o procônsul Lúcio Júnio Gálio governava a Acaia quando Paulo chegou ali na sua segunda viagem missionária.
Corinto tinha uma dupla saída para o mar: para o Adriático pelo porto de Lequeo, e para o Egeu pelo de Cencréia (cf. At 18.18 e Rm 16.1). Essa privilegiada situação geográfica trazia não poucos benefícios à cidade, pois os dois portos eram muito freqüentados pelos barcos que faziam as rotas comerciais através dos dois mares.
A população de Corinto, estimada naquela época em cerca de 600.000 pessoas, incluía mercadores, marinheiros, soldados romanos aposentados e uma elevadíssima proporção de escravos (por volta de 400.000). Corinto era, além disso, um centro de incessante afluência de peregrinos, que vinham de lugares distantes para adorar às diversas divindades que tinham um santuário nela.
A cidade, famosa pela sua riqueza e cultura, era conhecida também pela corrupção moral dos seus habitantes e pela libertinagem que dominava os costumes da sociedade. É possível que muitas das críticas que lhe faziam fossem exageradas, mas certamente a má reputação de Corinto, fomentada por causas tão conhecidas como a prostituição sagrada no templo de Afrodite, era notória em toda a bacia do Mediterrâneo.
Essa Corinto antiga fora completamente destruída no ano de 146 a.C. quando a Grécia foi conquistada pelos romanos, e jazera em ruínas durante um século. Somente Júlio César ordenou a reconstrução no ano de 44 a.C. Agora se formara uma cidade completamente nova, que experimentara um florescimento exterior rápido e atraíra pessoas de todos os países. Em virtude de sua localização, Corinto era uma cidade especialmente apropriada para a navegação e o comércio nas condições da época. Ligada ao restante da Grécia por meio de uma estreita faixa terrestre, o “istmo de Corinto”, ela tinha dois portos, tanto a norte quando a sul desta faixa. O porto setentrional Lequéia ficava localizado no golfo de Corinto e acolhia a navegação do lado ocidental do Mar Mediterrâneo. A cidade portuária ao sul, Cencréia, no golfo de Egina, estava aberto para as embarcações que viajavam pelo setor leste do Mar Mediterrâneo, até a Ásia Menor, a Palestina e o Egito. Conseqüentemente, Corinto se tornou o mais importante local de cabotagem do comércio entre o Ocidente e o Oriente do mundo mediterrâneo. Não era nenhum milagre que a cidade progredisse e se tornasse celeremente uma grande e rica cidade comercial. Sobretudo em vista da ausência de uma população autóctone tradicional, isso levou a uma vida luxuosa e desregrada que se tornou praticamente proverbial. “Corintizar”, ou seja, “viver como um coríntio”, significava levar uma vida de prazeres desenfreados. Ao lado da rica elite de Corinto, porém, havia grandes multidões de escravos e grupos populacionais humildes. Por essa razão eram grandes as diferenças sociais em Corinto.
A vida sexual era amplamente corrompida no final da Antiguidade, e muito mais ainda em Corinto. Já na era clássica grega o grande orador Demóstenes declarara: “Temos amantes para nos regozijarmos com elas, depois escravas compradas, para cuidarem de nossos corpos, e finalmente esposas, que devem conceder-nos filhos legítimos e estão encarregadas de supervisionar todos os nossos misteres domiciliares.” Qual não deve ter sido a situação quando o senso oriental havia perpassado o Ocidente em épocas posteriores. Agora a “prostituição sacra” também se tornou conhecida na Grécia. Em Corinto havia o grande templo de Afrodite, a “deusa do amor”. Em pequenas casas adornadas de rosas ao redor deste templo viviam mil sacerdotisas da divindade, que se entregavam a cada visitante no culto à ela. Para o sentimento da época, frequentar essas casas não tinha nada de escandaloso.
No aspecto religioso Corinto deve ter ostentado a mesma imagem conturbada que se constata em todos os lugares daquele tempo. O culto aos deuses antigos era preservado naturalmente como peça indispensável da vida estatal e civil. Contudo, em ampla medida deixara de ter um significado realmente religioso. Quando havia um anseio interior nas pessoas, elas buscavam satisfação nos ensinos e conceitos filosóficos ou se voltavam aos “mistérios”, cujas cerimônias enigmáticas prometiam aos iniciados vida divina e superação da morte. Contudo, também os cultos de divindades orientais, especialmente egípcias, conquistavam uma crescente influência.
Corinto também hospedava um contingente de judeus que tinham como centro vital uma sinagoga. Ela também influenciava seu contexto, transformando numerosos gregos em “prosélitos”. A antiquíssima origem da revelação do AT, a mensagem nítida do Deus único, Criador do céu e da terra, a milagrosa história de Israel, a clara organização da vida humana pelos mandamentos de Deus, tudo forçosamente exercia uma atração justamente sobre as pessoas sérias em uma época de incerteza e confusão interior. No entanto, nem mesmo em Corinto faltava o “anti-semitismo” que perpassava todo o Império Romano. Esse anti-semitismo expressou-se de maneira significativa quando os judeus acusaram Paulo perante o recém-nomeado procônsul Gálio por meio da rejeição da queixa e do comportamento dos presentes ao tribunal (At 18.12-17).
O anúncio do evangelho havia sido bem acolhido desde o princípio, quando Paulo, provavelmente no início da década de 50, chegou a Corinto vindo de Atenas. Durante “um ano e seis meses” (At 18.11), permaneceu na cidade, dedicado à proclamação da fé em Jesus Cristo (At 18.1-18).
As primeiras atuações do apóstolo, segundo o seu costume, visavam travar relacionamento com os judeus residentes (At 18.2,4,6,8); mas a oposição de muitos deles logo o levou a dedicar os maiores esforços à população gentia (At 18.6).
Parece que o trabalho do apóstolo, durante o tempo relativamente longo em que permaneceu na capital de Acaia, visava acima de tudo lançar os fundamentos para que outros depois dele, como Apolo (1.12), pudessem continuar anunciando o evangelho na região do Peloponeso (3.6-15).
Entretanto, será que essa metrópole, com sua vida mal-afamada, poderia ser um campo missionário apropriado? Será que aqui Paulo poderia ter alguma esperança de sucesso para o evangelho? De forma alguma Paulo deve ter feito esta pergunta. Ele era incumbido por seu Senhor, ele “tinha de” evangelizar (1Co 9.16). O “sucesso” não era com ele. Mas ele contava com a “demonstração do Espírito e de poder” (1Co 2.4) até mesmo numa cidade como Corinto, e acabou tendo razão. O milagre aconteceu. Foi precisamente em Corinto que surgiu uma igreja de Deus singularmente grande e viva.
O surgimento é relatado em Atos dos Apóstolos 18.1-11. A princípio Paulo chegou a Corinto sozinho. Na metrópole estranha encontrou trabalho e alojamento com o casal Áquila e Priscila, que – tendo chegado há pouco de Roma – havia estabelecido em Corinto seu empreendimento artesanal. É provável que o casal já abraçara a fé em Cristo em Roma. Como em todos os lugares, também em Corinto Paulo começou sua proclamação na sinagoga. Depois de desincumbirem-se de sua tarefa na Macedônia (At 17.14; 1Ts 3.1s), Silvano e Timóteo tornaram a unir-se a Paulo. Foi então que começou aquele “trabalho em equipe” sobre o qual Paulo lança um grato retrospecto em 2Co 1.19. Contudo, também nesse caso os judeus como grupo tomaram uma decisão negativa, em vista da qual Paulo foi obrigado a alugar um recinto próprio para seu evangelho, situado bem ao lado da sinagoga (At 18.6s). O intuito era deixar claro que Israel continuava sendo chamado para seu Rei e Redentor. Isso de fato não foi em vão. O presidente da sinagoga, Crespo, aceitou a fé e foi batizado pessoalmente por Paulo (1Co 1.14). Não deve ter sido o único judeu que reconheceu em Jesus o Messias. Contudo, a igreja que passou a ser formada era essencialmente de gentios cristãos.
Não é admissível elaborar uma imagem unilateral da igreja a partir de 1Co 1.26ss. Sem dúvida também podiam ser encontrados nela escravos, aos quais Paulo se dirige de maneira especial em 1Co 7.20-22. Porém a parte principal do cap. 7 fornece instruções para o matrimônio e o divórcio, para casar ou deixar solteiras as filhas, o que somente podia ser feito por pessoas “livres”. Conseqüentemente, um grande contingente da igreja deve ter sido formado por “livres”. 1Co 11.21 evidencia que também pessoas abastadas pertenciam à igreja. E não devem ter sido em pequeno número, uma vez que se tornava necessário abordar exaustivamente a questão da participação em banquetes festivos em templos e casas particulares (1Co 8 e 10). Igualmente não eram escravos e pessoas pobres que abriam processos sobre propriedades diante de tribunais seculares. Os fortes contrastes sociais da cidade penetravam na igreja e ameaçavam sua unidade. Nas refeições comunitárias alguns passam fome, e outros se fartam.
Depois de um trabalho de um ano e meio (At 18.11) – que tempo curto para a edificação de uma igreja! –também em Corinto os judeus tentaram expulsar Paulo com auxílio dos órgãos estatais romanos. A tentativa fracassou diante da atitude do procônsul romano Gálio. Irmão do conhecido filósofo romano Sêneca, Gálio nem sequer acolheu as queixas e observou com indiferença enquanto o presidente da sinagoga Sóstenes era açoitado diante de seus olhos. Por isso Paulo conseguiu permanecer mais algum tempo em Corinto, mas depois retornou até Antioquia via Éfeso (At 18.18-22).
Breve tempo depois – dados cronológicos exatos não são possíveis por causa das notícias esparsas – Apolo chegou a Corinto, continuando com êxito a evangelização (At 18.27s). Ele fortaleceu e aprofundou a vida de fé e era valorizado por toda a igreja, como comprova um novo convite, evidentemente oficial, para que torne a visitar Corinto (1Co 16.17). Ele atuou de modo especial no meio da população judaica. Reuniu em torno de si um grupo de pessoas que eram cristãs graças a ele (1Co 1.12). Em 1Co 3.5 Paulo fala de membros da igreja que chegaram à fé por intermédio de Apolo.
A igreja tornou a crescer quando chegaram cristãos do Oriente que consideravam Cefas (Pedro) o homem destacado do primeiro cristianismo (1Co 1.12; cf. também 2Co 11.5). Dificilmente podemos supor que o próprio Pedro tenha vindo a Corinto e evangelizado ali.
Portanto havia acontecido em Corinto um trabalho de múltiplas facetas, e – diferentemente de Filipos e Tessalônica – surgiu uma igreja heterogênea. Suas características e forças naturais “gregas”, ou melhor, “helenistas” levaram a uma vida eclesial rica e ativa, porém em breve também constituíram pontos especiais de perigo.
A partir de nossas concepções costumeiras pensamos imediatamente em “heresias” quando ouvimos a respeito de dificuldades e cisões numa igreja cristã. Por isso, a pesquisa também tentou repetidamente elaborar um quadro das “heresias” em Corinto. Contudo, não é disso que se trata. Tampouco ocorre, como na Galácia ou em Colossos, a irrupção de um pensamento “legalista” e de uma devoção “legalista”, mediante o entusiasmo para realizações e práticas especiais. Pelo contrário, uma parcela da igreja está repleta de exultação pela “liberdade”. O mote é “tudo me é lícito”. A vida concreta neste mundo é indiferente. Manifesta-se a alegria grega em “conhecer”, na “sabedoria” e no discurso belo e arrebatador. Se a vida da igreja tem abundância disso, se além disso surgem os misteriosos poderes divinos no falar em línguas e em outros “dons”, que então ainda importa minha vida diária? Por que não deveria eu satisfazer minhas necessidades sexuais, assim como também como e bebo? Por que não deveria eu participar de banquetes em templos dos gentios, uma vez que “sei” que os deuses ali adorados nem sequer existem? Por que não deveria eu pleitear meu “direito” contra outros membros da igreja diante de juízes gentios? Sim, não é necessário que explicitemos com a maior clareza nossa liberdade e superioridade cristãs? Não seria um selo alvissareiro dessa liberdade o fato de alguém ter a coragem de casar-se com sua própria madrasta, desprezando toda a “moral”? Será que as mulheres na igreja não têm razão quando tiravam o “véu”, sinal da submissão ao marido, participando ao lado dos homens nas orações e profecias, indistintamente? Se outros membros da igreja permanecem “medrosos” e “fechados”, eles precisam ser arrastados pelo audacioso exemplo dos “livres”. Desse modo perdia-se cada vez mais a visão da profundidade do pecado e da gravidade da perdição, da qual o ser humano precisa ser resgatado. A cruz de Cristo perdeu a importância. Outros temas eram mais interessantes. No fluxo desse desenvolvimento cresceu entre muitos uma insatisfação com Paulo. Na verdade, ele trouxera o evangelho da liberdade da lei; no entanto, será que de certo modo não permanecera preso a uma certa estreiteza e unilateralidade? De forma alguma ele era um orador brilhante. Também o conteúdo de suas palestras era precário. Sempre giravam apenas em torno da cruz. As indagações modernas, os pensamentos audaciosos e profundos de outros mestres, também de alguém como Apolo, não eram do seu feitio. Será que Paulo não refreava o desenvolvimento da igreja? E constantemente chegavam notícias sobre aflições e sofrimentos do apóstolo. Era essa a aparência de um emissário autêntico do Rei supremo? Outros pregadores itinerantes da época não tinham uma apresentação bem diferente? Em vários círculos até se dizia que ele não era um verdadeiro apóstolo; será que havia alguma verdade nisso? É claro, uma parte da igreja confessava uma firme fidelidade a ele. “Eu sou de Paulo”, exclamava-se nesse grupo. Outros, porém, contrapunham: “Pois bem, então me declaro adepto de Apolo!” Ainda outros deixavam valer somente Pedro, e outros “tais apóstolos” (2Co 11.5), enquanto diversos enveredavam por caminhos completamente novos, pretendendo pertencer unicamente “a Cristo”, numa liberdade total de quaisquer vínculos humanos.
Ocorre, porém, que com relação a essa carta nos encontramos na contingência difícil de não dispor de outras fontes para conhecer a igreja de Corinto, à qual Paulo escreve. É unicamente a partir dessa carta que podemos tentar inferir qual era a situação dos destinatários da carta. Não conseguimos nos livrar de um determinado “ciclo”: a interpretação precisa pressupor aquilo que somente somos capazes de depreender da leitura e interpretação da própria carta. Por isso é inevitável que assim muitos aspectos permaneçam incertos. Contudo, será útil para o leitor, à medida em que avança na leitura da carta, ter de antemão determinada noção dos destinatários da carta e sua situação exterior e interior. Essa noção terá de ser corroborada e consolidada pela própria interpretação.
Além disso, os antecedentes pagãos da maioria daqueles irmãos continuavam pesando na conduta de alguns, e a corrupção geral, característica da cidade, era influente também na congregação, de modo que, inclusive no seu seio, se davam casos de imoralidade que exigiam ser imediatamente corrigidos.
Em seguida, trata de orientar os seus leitores sobre outros males que já estavam presentes na igreja, mas cujo progresso devia ser impedido sem perda de tempo: uma situação incestuosa consentida pela congregação (5.1-13), questões judiciais surgidas entre os crentes e promovidas perante juízes pagãos (6.1-11), comportamentos sexuais condenáveis (6.12-20) e atitudes indignas entre os participantes do culto, especialmente na Ceia do Senhor (11.17-22,27-34).
Junto com todas essas instruções, a carta contém as respostas do apóstolo às perguntas dos coríntios relacionadas com o matrimônio cristão e o celibato (7.1-40), com o consumo de alimentos que antes de sua venda pública haviam sido consagrados aos ídolos (8.1-13; 10.25-31) ou com a diversidade e o exercício dos dons outorgados pelo Espírito Santo (12.1—14.40).
Outros textos, relacionados com questões doutrinárias e de testemunho cristão, incluem admoestações contra a idolatria (10.1—11.1) e considerações sobre os enfeites das mulheres no culto (11.2-16) e sobre a instituição da Ceia do Senhor (11.23-26). Notáveis pela sua beleza e a sua profundidade de pensamento são o poema de exaltação do amor ao próximo (12.31b—13.13) e a extensa declaração sobre a ressurreição dos mortos (15.1-58).
O corpo central de 1Coríntios, que tem como prólogo uma saudação e uma apresentação temática de caráter geral (1.1-9), conclui com um epílogo que contém breves indicações acerca da oferta para a igreja de Jerusalém, mais as saudações de costume e notas pessoais (16.1-24).
1. Divisão e escândalo na igreja de Corinto (1.10—6.20)
a. Divisões internas na igreja (1.10—3.23)
b. Correta compreensão do ministério apostólico (4.1-21)
c. Um caso de incesto (5.1-13)
d. Questões judiciais entregues a juízes pagãos (6.1-11)
e. Problemas de imoralidade (6.12-20)
2. Resposta às consultas da igreja de Corinto (7.1—15.58)
a. Matrimônio e celibato (7.1-40)
b. Alimentos consagrados a ídolos e a liberdade cristã (8.1—11.1)
c. Desordem no culto público (11.2-34)
d. A questão dos dons espirituais (12.1—14.40)
e. A questão da ressurreição (15.1-58)
Epílogo (16.1-24)
Autor
Essa carta aponta para Paulo como o seu autor e a autoria paulina dela não tem sido seriamente questionada. Até mesmo os estudiosos radicais admitem que a epístola é fundamental para a nossa compreensão do ministério e da mensagem de Paulo.Data
Embora os Atos dos Apóstolos não tenham sido escritos com o propósito de fornecer uma estrutura histórica para o Corpus Paulinum, há casos em que Atos e fatos de antigos registros históricos complementam as cartas de Paulo. Uma maneira muito importante pela qual Atos complementa o material menos específico nas cartas paulinas é em relação à cronologia.4 Sem a estrutura cronológica de Atos, seria muito mais difícil saber como organizar em sequência materiais das cartas de Paulo e atribuir-lhes datas. É nossa boa sorte poder atribuir datas a cerca de cinco episódios mencionados em Atos e, assim, atribuir datas relativas a partes da correspondência de Paulo.5 Um desses exemplos é o caso de Atos 18, em que Lucas narra o início do Missão paulina em Corinto. Nesse ponto, temos provas firmes da data da missão cristã com base em dados históricos suplementares. Em particular, Atos indica que a obra de Paulo em Corinto aconteceu enquanto Gálio era o procônsul da Acaia (Atos 18:12) .6 Esse oficial romano, que era irmão do filósofo romano Sêneca, também é conhecido da literatura romana antiga, como dados arqueológicos. É este último reino de evidência que ajuda a especificar o tempo de sua carreira quando ele era procônsul em Corinto.7 Isso colocaria o trabalho de Paulo em Corinto e sua aparição diante de Gálio no início dos anos 50. Atos 18:11 indica que Paulo trabalhou em Corinto por 18 meses; isso significa que a correspondência de Paulo em 1 Coríntios teria ocorrido em aproximadamente 55 d.C. 8 Enquanto alguns intérpretes tentaram se tornar ainda mais precisos com a datação, parece que 55 a.C é tão específico quanto a evidência pode suportar.Local e Época da Redação
O local da redação citado é Éfeso, em 1Co 16.8: “Ficarei, porém, em Éfeso até ao Pentecostes.” Ao lermos a carta devemos recordar que ela não foi escrita em sossego tranqüilo, mas no meio de acalorado trabalho, ao qual o próprio Paulo alude em 1Co 16.9. Também isso fornece uma explicação simples para as irregularidades e tensões na carta. Como as preocupações com Corinto devem ter sido tormentosas para o apóstolo face à abundância de tarefas em Éfeso, como deve ter sido ofensiva toda a desconfiança contra aquele que se desgastava no serviço a Jesus!Se em 1Co 16.8 Paulo está contemplando o Pentecostes como prazo seguinte, ele não pode ter escrito a carta antes do começo do ano. Porém, a menção do Cordeiro pascal sem motivação aparente em 1Co 4.6ss é um forte indício de que Paulo ditou a carta somente na época da Páscoa. Porém de que ano? Com base em 1Co 16.8 sempre se supôs como óbvio que a carta tenha sido redigida no final da atuação em Éfeso. Nesse caso estaríamos na primavera do ano 55. Contudo, isso seria tão certo? Será que apenas no final do trabalho de vários anos em Éfeso abriu-se uma “porta grande e oportuna” para o apóstolo? E, nesse caso, não seria muito breve a prorrogação de sua permanência por sete a oito semanas, comparado com os anos de sua atuação anterior? As observações sucintas em 1Co 16.8s poderiam ser muito mais compreensíveis se caíssem no começo da temporada em Éfeso. Nesse caso, seria nova, tanto para Paulo como para os coríntios, a experiência de que se abre para ele uma grande atividade em Éfeso, e que ao mesmo tempo se levanta uma forte resistência contra ela. E se agora ele imagina que precisa permanecer mais tempo, alongando sua estadia além da Páscoa até Pentecostes, isso significaria um acréscimo consideravelmente grande de tempo após uma primeira atuação breve.
Verdade é que nesse Pentecostes Paulo não teria conseguido liberar-se de Éfeso, mas teria permanecido pelo menos mais um ano, para somente então executar seu plano de viagem de acordo com 1Co 16.3-9. Nessa hipótese, porém, entramos em conflito com o relato de At 19.21s. Aqui o plano de viagem do apóstolo e o envio de Timóteo são apresentados em exata correspondência a 1Co 16.3-9, mas posicionados nitidamente no final da atuação em Éfeso. E em At 20.1s é relatada a correspondente realização do plano de viagem. Também a presente missiva aponta para uma época já passada de trabalhos e lutas em Éfeso, por meio da menção da “luta com feras” em Éfeso, em 1Co 15.32. Portanto, apesar de tudo, será necessário fixar a data da carta na época pascal do ano 55. Também nesse caso se evidencia novamente que não podemos permitir que o entendimento de passagens da carta seja determinado pelas nossas concepções e idéias. Sabemos muito pouco do que há por trás das frases de uma carta, que nos dão motivo para uma série de suposições. As referências claras de Atos dos Apóstolos são determinantes.
A cidade de Corinto
A península do Peloponeso, no Sul da Grécia, é um território montanhoso unido ao resto do país por um istmo curto e estreito. Na época do Novo Testamento estava sob a administração romana, como parte da província da Acaia, cuja capital, Corinto, estava situada a poucos quilômetros a sudoeste do istmo.Ao longo da sua existência, Corinto conheceu o esplendor e a miséria. No ano 146 a.C., esteve a ponto de desaparecer, arrasada pelos romanos; mas, um século depois, no ano 44 a.C., Roma mesmo cuidou para que a cidade fosse reconstruída e constituída como a residência do governador da província. Esse último dado ficou registrado com exatidão em At 18.12-18, onde se diz que o procônsul Lúcio Júnio Gálio governava a Acaia quando Paulo chegou ali na sua segunda viagem missionária.
Corinto tinha uma dupla saída para o mar: para o Adriático pelo porto de Lequeo, e para o Egeu pelo de Cencréia (cf. At 18.18 e Rm 16.1). Essa privilegiada situação geográfica trazia não poucos benefícios à cidade, pois os dois portos eram muito freqüentados pelos barcos que faziam as rotas comerciais através dos dois mares.
A população de Corinto, estimada naquela época em cerca de 600.000 pessoas, incluía mercadores, marinheiros, soldados romanos aposentados e uma elevadíssima proporção de escravos (por volta de 400.000). Corinto era, além disso, um centro de incessante afluência de peregrinos, que vinham de lugares distantes para adorar às diversas divindades que tinham um santuário nela.
A cidade, famosa pela sua riqueza e cultura, era conhecida também pela corrupção moral dos seus habitantes e pela libertinagem que dominava os costumes da sociedade. É possível que muitas das críticas que lhe faziam fossem exageradas, mas certamente a má reputação de Corinto, fomentada por causas tão conhecidas como a prostituição sagrada no templo de Afrodite, era notória em toda a bacia do Mediterrâneo.
A vida sexual era amplamente corrompida no final da Antiguidade, e muito mais ainda em Corinto. Já na era clássica grega o grande orador Demóstenes declarara: “Temos amantes para nos regozijarmos com elas, depois escravas compradas, para cuidarem de nossos corpos, e finalmente esposas, que devem conceder-nos filhos legítimos e estão encarregadas de supervisionar todos os nossos misteres domiciliares.” Qual não deve ter sido a situação quando o senso oriental havia perpassado o Ocidente em épocas posteriores. Agora a “prostituição sacra” também se tornou conhecida na Grécia. Em Corinto havia o grande templo de Afrodite, a “deusa do amor”. Em pequenas casas adornadas de rosas ao redor deste templo viviam mil sacerdotisas da divindade, que se entregavam a cada visitante no culto à ela. Para o sentimento da época, frequentar essas casas não tinha nada de escandaloso.
No aspecto religioso Corinto deve ter ostentado a mesma imagem conturbada que se constata em todos os lugares daquele tempo. O culto aos deuses antigos era preservado naturalmente como peça indispensável da vida estatal e civil. Contudo, em ampla medida deixara de ter um significado realmente religioso. Quando havia um anseio interior nas pessoas, elas buscavam satisfação nos ensinos e conceitos filosóficos ou se voltavam aos “mistérios”, cujas cerimônias enigmáticas prometiam aos iniciados vida divina e superação da morte. Contudo, também os cultos de divindades orientais, especialmente egípcias, conquistavam uma crescente influência.
Corinto também hospedava um contingente de judeus que tinham como centro vital uma sinagoga. Ela também influenciava seu contexto, transformando numerosos gregos em “prosélitos”. A antiquíssima origem da revelação do AT, a mensagem nítida do Deus único, Criador do céu e da terra, a milagrosa história de Israel, a clara organização da vida humana pelos mandamentos de Deus, tudo forçosamente exercia uma atração justamente sobre as pessoas sérias em uma época de incerteza e confusão interior. No entanto, nem mesmo em Corinto faltava o “anti-semitismo” que perpassava todo o Império Romano. Esse anti-semitismo expressou-se de maneira significativa quando os judeus acusaram Paulo perante o recém-nomeado procônsul Gálio por meio da rejeição da queixa e do comportamento dos presentes ao tribunal (At 18.12-17).
A Igreja de Corinto
Naquele ambiente, a existência de uma pequena comunidade cristã, composta na sua maior parte por pessoas simples, de origem gentia (1.26; 12.2) e de recente conversão, se via submetida a fortes tensões espirituais e morais.O anúncio do evangelho havia sido bem acolhido desde o princípio, quando Paulo, provavelmente no início da década de 50, chegou a Corinto vindo de Atenas. Durante “um ano e seis meses” (At 18.11), permaneceu na cidade, dedicado à proclamação da fé em Jesus Cristo (At 18.1-18).
As primeiras atuações do apóstolo, segundo o seu costume, visavam travar relacionamento com os judeus residentes (At 18.2,4,6,8); mas a oposição de muitos deles logo o levou a dedicar os maiores esforços à população gentia (At 18.6).
Parece que o trabalho do apóstolo, durante o tempo relativamente longo em que permaneceu na capital de Acaia, visava acima de tudo lançar os fundamentos para que outros depois dele, como Apolo (1.12), pudessem continuar anunciando o evangelho na região do Peloponeso (3.6-15).
O Surgimento da Igreja em Corinto
Paulo viera de Atenas para Corinto. Não sabemos se o fez por terra, viajando pelo istmo, ou por navio. Tinha realizado aquele grande e emocionante itinerário em que, contra suas intenções originais (At 16.6s), o Espírito o dirigiu de forma especial, até mesmo por meio de uma visão noturna, da Ásia para a Europa. Na Macedônia, sua evangelização em Filipos e Tessalônica levara à fundação de igrejas. Contudo, depois de pouco tempo eventos tumultuados o forçaram a sair de ambas as cidades. Em Atenas, depois de diversos diálogos com filósofos, conseguiu conquistar alguns ouvintes para o evangelho através de um único discurso no Areópago (At 17). Não chegou ao ponto de batizar e organizar uma igreja. Porém Paulo não estava desanimado. Sempre se empenhava em atingir as cidades importantes, a partir das quais a mensagem de Jesus se irradiaria para as terras adjacentes tão logo estivesse enraizada na cidade em si. Por isso seu olhar se voltou de Atenas para Corinto, que não ficava muito distante.Entretanto, será que essa metrópole, com sua vida mal-afamada, poderia ser um campo missionário apropriado? Será que aqui Paulo poderia ter alguma esperança de sucesso para o evangelho? De forma alguma Paulo deve ter feito esta pergunta. Ele era incumbido por seu Senhor, ele “tinha de” evangelizar (1Co 9.16). O “sucesso” não era com ele. Mas ele contava com a “demonstração do Espírito e de poder” (1Co 2.4) até mesmo numa cidade como Corinto, e acabou tendo razão. O milagre aconteceu. Foi precisamente em Corinto que surgiu uma igreja de Deus singularmente grande e viva.
O surgimento é relatado em Atos dos Apóstolos 18.1-11. A princípio Paulo chegou a Corinto sozinho. Na metrópole estranha encontrou trabalho e alojamento com o casal Áquila e Priscila, que – tendo chegado há pouco de Roma – havia estabelecido em Corinto seu empreendimento artesanal. É provável que o casal já abraçara a fé em Cristo em Roma. Como em todos os lugares, também em Corinto Paulo começou sua proclamação na sinagoga. Depois de desincumbirem-se de sua tarefa na Macedônia (At 17.14; 1Ts 3.1s), Silvano e Timóteo tornaram a unir-se a Paulo. Foi então que começou aquele “trabalho em equipe” sobre o qual Paulo lança um grato retrospecto em 2Co 1.19. Contudo, também nesse caso os judeus como grupo tomaram uma decisão negativa, em vista da qual Paulo foi obrigado a alugar um recinto próprio para seu evangelho, situado bem ao lado da sinagoga (At 18.6s). O intuito era deixar claro que Israel continuava sendo chamado para seu Rei e Redentor. Isso de fato não foi em vão. O presidente da sinagoga, Crespo, aceitou a fé e foi batizado pessoalmente por Paulo (1Co 1.14). Não deve ter sido o único judeu que reconheceu em Jesus o Messias. Contudo, a igreja que passou a ser formada era essencialmente de gentios cristãos.
Não é admissível elaborar uma imagem unilateral da igreja a partir de 1Co 1.26ss. Sem dúvida também podiam ser encontrados nela escravos, aos quais Paulo se dirige de maneira especial em 1Co 7.20-22. Porém a parte principal do cap. 7 fornece instruções para o matrimônio e o divórcio, para casar ou deixar solteiras as filhas, o que somente podia ser feito por pessoas “livres”. Conseqüentemente, um grande contingente da igreja deve ter sido formado por “livres”. 1Co 11.21 evidencia que também pessoas abastadas pertenciam à igreja. E não devem ter sido em pequeno número, uma vez que se tornava necessário abordar exaustivamente a questão da participação em banquetes festivos em templos e casas particulares (1Co 8 e 10). Igualmente não eram escravos e pessoas pobres que abriam processos sobre propriedades diante de tribunais seculares. Os fortes contrastes sociais da cidade penetravam na igreja e ameaçavam sua unidade. Nas refeições comunitárias alguns passam fome, e outros se fartam.
Depois de um trabalho de um ano e meio (At 18.11) – que tempo curto para a edificação de uma igreja! –também em Corinto os judeus tentaram expulsar Paulo com auxílio dos órgãos estatais romanos. A tentativa fracassou diante da atitude do procônsul romano Gálio. Irmão do conhecido filósofo romano Sêneca, Gálio nem sequer acolheu as queixas e observou com indiferença enquanto o presidente da sinagoga Sóstenes era açoitado diante de seus olhos. Por isso Paulo conseguiu permanecer mais algum tempo em Corinto, mas depois retornou até Antioquia via Éfeso (At 18.18-22).
Breve tempo depois – dados cronológicos exatos não são possíveis por causa das notícias esparsas – Apolo chegou a Corinto, continuando com êxito a evangelização (At 18.27s). Ele fortaleceu e aprofundou a vida de fé e era valorizado por toda a igreja, como comprova um novo convite, evidentemente oficial, para que torne a visitar Corinto (1Co 16.17). Ele atuou de modo especial no meio da população judaica. Reuniu em torno de si um grupo de pessoas que eram cristãs graças a ele (1Co 1.12). Em 1Co 3.5 Paulo fala de membros da igreja que chegaram à fé por intermédio de Apolo.
A igreja tornou a crescer quando chegaram cristãos do Oriente que consideravam Cefas (Pedro) o homem destacado do primeiro cristianismo (1Co 1.12; cf. também 2Co 11.5). Dificilmente podemos supor que o próprio Pedro tenha vindo a Corinto e evangelizado ali.
Portanto havia acontecido em Corinto um trabalho de múltiplas facetas, e – diferentemente de Filipos e Tessalônica – surgiu uma igreja heterogênea. Suas características e forças naturais “gregas”, ou melhor, “helenistas” levaram a uma vida eclesial rica e ativa, porém em breve também constituíram pontos especiais de perigo.
As Dificuldades na Igreja
“Quando os ventos de Deus sopram do trono da glória e perpassam a terra, então é tempo abençoado.” Esse “tempo abençoado” com certeza também ocorreu inicialmente em Corinto, quando ressoou o júbilo dos salvos, e uma igreja de Deus no meio dessa metrópole começou a viver uma vida nova. Contudo, mais cedo ou mais tarde cada pessoa convertida percebe que essa vida nova não continua se desenvolvendo sem dificuldades. Nossa velha natureza não foi simplesmente despida por meio do renascimento, mas se manifesta vigorosamente de acordo com nosso modo de ser. E onde um grande número de pessoas precisa viver uma vida em comum, manifestam-se muitas dificuldades e aflições que ameaçam a convivência a partir de nosso ser natural. Justamente numa igreja que ficou sem a pressão de tribulações externas, elas em breve apareceram. O velho ser egoísta (a “carne”, como a Bíblia costuma dizer) se desenvolveu, manifestando em Corinto características tipicamente “gregas”.A partir de nossas concepções costumeiras pensamos imediatamente em “heresias” quando ouvimos a respeito de dificuldades e cisões numa igreja cristã. Por isso, a pesquisa também tentou repetidamente elaborar um quadro das “heresias” em Corinto. Contudo, não é disso que se trata. Tampouco ocorre, como na Galácia ou em Colossos, a irrupção de um pensamento “legalista” e de uma devoção “legalista”, mediante o entusiasmo para realizações e práticas especiais. Pelo contrário, uma parcela da igreja está repleta de exultação pela “liberdade”. O mote é “tudo me é lícito”. A vida concreta neste mundo é indiferente. Manifesta-se a alegria grega em “conhecer”, na “sabedoria” e no discurso belo e arrebatador. Se a vida da igreja tem abundância disso, se além disso surgem os misteriosos poderes divinos no falar em línguas e em outros “dons”, que então ainda importa minha vida diária? Por que não deveria eu satisfazer minhas necessidades sexuais, assim como também como e bebo? Por que não deveria eu participar de banquetes em templos dos gentios, uma vez que “sei” que os deuses ali adorados nem sequer existem? Por que não deveria eu pleitear meu “direito” contra outros membros da igreja diante de juízes gentios? Sim, não é necessário que explicitemos com a maior clareza nossa liberdade e superioridade cristãs? Não seria um selo alvissareiro dessa liberdade o fato de alguém ter a coragem de casar-se com sua própria madrasta, desprezando toda a “moral”? Será que as mulheres na igreja não têm razão quando tiravam o “véu”, sinal da submissão ao marido, participando ao lado dos homens nas orações e profecias, indistintamente? Se outros membros da igreja permanecem “medrosos” e “fechados”, eles precisam ser arrastados pelo audacioso exemplo dos “livres”. Desse modo perdia-se cada vez mais a visão da profundidade do pecado e da gravidade da perdição, da qual o ser humano precisa ser resgatado. A cruz de Cristo perdeu a importância. Outros temas eram mais interessantes. No fluxo desse desenvolvimento cresceu entre muitos uma insatisfação com Paulo. Na verdade, ele trouxera o evangelho da liberdade da lei; no entanto, será que de certo modo não permanecera preso a uma certa estreiteza e unilateralidade? De forma alguma ele era um orador brilhante. Também o conteúdo de suas palestras era precário. Sempre giravam apenas em torno da cruz. As indagações modernas, os pensamentos audaciosos e profundos de outros mestres, também de alguém como Apolo, não eram do seu feitio. Será que Paulo não refreava o desenvolvimento da igreja? E constantemente chegavam notícias sobre aflições e sofrimentos do apóstolo. Era essa a aparência de um emissário autêntico do Rei supremo? Outros pregadores itinerantes da época não tinham uma apresentação bem diferente? Em vários círculos até se dizia que ele não era um verdadeiro apóstolo; será que havia alguma verdade nisso? É claro, uma parte da igreja confessava uma firme fidelidade a ele. “Eu sou de Paulo”, exclamava-se nesse grupo. Outros, porém, contrapunham: “Pois bem, então me declaro adepto de Apolo!” Ainda outros deixavam valer somente Pedro, e outros “tais apóstolos” (2Co 11.5), enquanto diversos enveredavam por caminhos completamente novos, pretendendo pertencer unicamente “a Cristo”, numa liberdade total de quaisquer vínculos humanos.
O Motivo da Primeira Carta aos Coríntios
Conseqüentemente, Paulo em breve se deparou com angústias e dificuldades justamente na igreja em Corinto. No primeiro momento tentou ajudar através de uma carta que não nos foi preservada. 1Co 5.9-13 mostra que nessa carta não estavam realmente em questão os problemas doutrinários, mas a prática da vida eclesial. A igreja tolerava em seu seio “irmãos” que viviam em flagrantes e crassos pecados, sobretudo no desregramento sexual. O fato de que a exortação de Paulo de terminar a comunhão com tais pessoas ter sido mal-entendida e rejeitada como demanda impossível deixa claro quanta desconfiança e resistência contra Paulo já existiam na igreja. É verdade que a igreja como um todo ainda se sentia vinculada a seu pai espiritual. Por meio de seus amigos Paulo ouve muitas coisas a respeito da igreja, que lhe causam profunda preocupação. Finalmente a igreja também enviou homens de sua parte para Éfeso – entre os quais estava Estêvão, aliado de Paulo desde o começo, o “primícias da Grécia”, a fim de expor ao apóstolo perguntas escritas (e involuntariamente também orais). Novamente é evidente que essas perguntas não se referem a doutrinas teológicas ou diferenças dogmáticas, mas a questões práticas da vida cristã. Por sua vez, Paulo incumbiu Timóteo de fazer uma visita a Corinto após uma viagem pela Macedônia, a fim de, como representante interino do apóstolo, esclarecer à igreja a posição de Paulo diante das aflições e dificuldades da vida comunitária. Agora, porém, depois da pergunta direta da igreja e depois de obter novas notícias preocupantes de Corinto, Paulo escreve à igreja uma carta detalhada, nossa primeira epístola aos Coríntios. Ele mesmo consegue visitar a igreja apenas mais tarde, igualmente no caminho através da Macedônia, visto que não apenas deseja vê-la brevemente, mas realizar uma visita longa e exaustiva, passando ali o inverno.Peculiaridade e Unidade da Carta
A primeira carta aos Coríntios é, portanto, de modo muito singular, uma verdadeira “carta”, que aborda uma após a outra as condições e aflições concretas dessa igreja específica. Por isso ele não traz, como a carta aos Romanos, um tema predominante, não investe, como a carta aos Gálatas, ardorosamente contra uma deturpação do próprio evangelho por meio de uma nova instituição da “lei”, e não versa sobre questões isoladas da doutrina cristã como as cartas aos Efésios, aos Colossenses e a segunda carta aos Tessalonicenses. Até mesmo em 1Co 15 Paulo não se defronta com uma certa heresia na questão da ressurreição, mas com uma indisposição resultante da atitude geral dos coríntios, de não crer de fato na mensagem da ressurreição e levá-la a sério em todas as suas conseqüências. Não obstante, é possível reconhecer uma unidade da presente carta, alicerçada sobre a causa em si, e não na sistematização de uma determinada teologia. 1Co 13 constitui o centro e o ápice da carta. Todas as aflições na vida da igreja em Corinto resultam em última análise da falta do verdadeiro amor, o “ágape”. Se o amor preenchesse os corações, não haveria partidos, discórdias, inveja (1Co 1-4); a igreja ficaria de luto por um caso de pecado grave em seu meio (1Co 5); ficariam impossíveis os processos entre irmãos diante de juízes seculares (1Co 6); o ordenamento da vida sexual e o uso correto do corpo se estabeleceriam sem “lei”, e as perguntas em torno do matrimônio e do celibato obteriam uma resposta viva (1Co 6 e 7). A partir do amor ao Senhor e às pessoas seria solucionado o problema da “carne sacrificada a ídolos” (1Co 8 e 10) e cresceria entre os coríntios a compreensão pela vida cheia de sofrimentos e sacrifícios de seu apóstolo, que não quer aceitar pagamento deles (1Co 4 e 9). A mulher continuaria usando tranqüilamente o “véu”, de acordo com o costume da época (1Co 11), a maléfica degradação da ceia comunitária do Senhor se tornaria impossível (1Co 11), e a valoração dos dons espirituais obteria um critério claro (1Co 12 e 14). Por que falta esse amor em Corinto? Por que, apesar de seu conhecimento e apesar da plenitude de seus dons espirituais, os membros da igreja permanecem tão “carnais”, tão “infantis”, governados por seu próprio eu? Tirara “a palavra da cruz” do centro, em favor de uma série de “sabedorias”! Somente aprendemos o “amor” debaixo da cruz. Aqui Deus se tornou “tolo” e “fraco” para salvar a nós perdidos, desenvolvendo precisamente nisso sua sabedoria oculta para a nossa glória. É aqui que recebemos esse Espírito de Deus e o “sentimento de Cristo” que nos torna pessoas novas e amorosas (1Co 1 e 2). A partir desse ponto constrói-se sobre o fundamento lançado pelo próprio Deus – no Cristo crucificado – a igreja, de “ouro, prata, pedras preciosas” (1Co 3). Essa igreja vive na expectativa da realidade nova e totalmente diferente, que já irrompeu pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos e que alcançará a vitória impregnada em tudo na parusia do Senhor (1Co 15). Pelo fato de o amor estar em jogo em toda a carta, é pronunciado no final, depois de comunicações e exortações específicas, o “anátema” (a “maldição”) sobre aqueles que não amam o Senhor Jesus (1Co 16).A Integridade e Boa Conservação da Carta
Diante da peculiaridade da carta, houve muitas razões para duvidar de sua integridade. Depois das exposições no cap. 8, a questão da “carne sacrificada a ídolos” é abordada outra vez e de forma muito mais intensa em 1Co 10.14-11.1. O capítulo de 1Co 9 é intercalado sem qualquer correlação real. Será que partes da primeira carta perdida ou também da terceira carta, não preservada, a “epístola das lágrimas” (2Co 2.4), foram acolhidas na primeira e segunda carta aos Coríntios, uma vez que a igreja considerava essas partes importantes, mas por diversas razões não desejava conservar as cartas inteiras? Contudo, essas suposições não deixam de ser muito incertas. E a característica do presente escrito, que dá os motivos para essas conjeturas, ao mesmo tempo lhes solapa o poder de demonstração: uma carta que se refere de forma tão livre às múltiplas carências práticas da vida comunitária em Corinto pode ser cheia de “saltos”, pode retomar uma questão e complementá-la ou aguçá-la em determinadas direções. A própria exegese precisa evidenciar se de fato há na carta incongruências tão fortes que seria impossível avançar sem supor inclusões. De acordo com nossa avaliação, isso acontece tão somente com o breve trecho de 1Co 14.33b-36 em comparação com 1Co 11.2,16.O Escrito de Paulo Como Verdadeira Carta
Se quisermos ler e compreender bem a primeira epístola aos Coríntios precisaremos considerar em primeiro lugar que se trata de uma verdadeira “carta”. Na realidade, ela está entre os “escritos didáticos” do NT, e há uma boa razão para isso. Como autêntico “professor”, o apóstolo Paulo tenta, por meio dela, conduzir a igreja em Corinto a um entendimento claro de numerosas questões. Apesar disso, a carta não é um tratado teológico que aborda básica e amplamente assuntos quaisquer. Uma carta se dirige a pessoas determinadas numa situação concreta. Aborda suas perguntas, conecta-se com o raciocínio delas. Ressalta os aspectos de um assunto que no momento são importantes para elas. Outros aspectos, que talvez sejam muito interessantes para nós, ela nem sequer menciona. Afinal, uma carta precisa ser breve. Tão somente consegue aludir a numerosos pontos. Por essa razão, a compreensão de uma carta também depende de que tenhamos uma certa imagem das pessoas a que ela se dirige em suas elaborações. Se não formos capazes de obter uma imagem clara, ou pelo menos suficientemente clara, estaremos diante de uma barreira intransponível para o entendimento.Ocorre, porém, que com relação a essa carta nos encontramos na contingência difícil de não dispor de outras fontes para conhecer a igreja de Corinto, à qual Paulo escreve. É unicamente a partir dessa carta que podemos tentar inferir qual era a situação dos destinatários da carta. Não conseguimos nos livrar de um determinado “ciclo”: a interpretação precisa pressupor aquilo que somente somos capazes de depreender da leitura e interpretação da própria carta. Por isso é inevitável que assim muitos aspectos permaneçam incertos. Contudo, será útil para o leitor, à medida em que avança na leitura da carta, ter de antemão determinada noção dos destinatários da carta e sua situação exterior e interior. Essa noção terá de ser corroborada e consolidada pela própria interpretação.
A Transmissão Manuscrita da Carta
Na tradição manuscrita da primeira epístola aos Coríntios apresentam-se quase sempre apenas divergências insignificantes para a compreensão do texto. No próprio comentário faremos menção dos casos em que o grupo de manuscritos “Koiné” (cf. a breve descrição dos manuscritos nas “Orientações para o usuário da série de comentários”) aplaina de modo marcante passagens difíceis.Propósito da Escrita
Mais ou menos na mesma data, algumas pessoas “da casa de Cloe” informaram ao apóstolo (1.11) sobre a difícil situação que estavam atravessando os crentes de Corinto. Impelidos pela fanática adesão pessoal de uns a Paulo e de outros a Pedro ou a Apolo (1.12; 3.4), haviam posto em grave perigo a unidade da igreja.Além disso, os antecedentes pagãos da maioria daqueles irmãos continuavam pesando na conduta de alguns, e a corrupção geral, característica da cidade, era influente também na congregação, de modo que, inclusive no seu seio, se davam casos de imoralidade que exigiam ser imediatamente corrigidos.
Conteúdo e Estrutura
Paulo começa esta carta abordando o problema das divisões internas, ameaça que caía sobre a comunidade cristã como um sinal da incompreensão e esquecimento de determinadas afirmações básicas da fé: que a Igreja é convocada à unidade de pensamento e de parecer (1.10-17; cf. Jo 17.21-23; Ef 4.1-6; Fp 2.1-11); que a única verdadeira sabedoria é a que “Deus preordenou... para a nossa glória” (1.18—3.4) e que somente Cristo é o fundamento da nossa salvação (3.5—4.5; cf. 1Tm 2.5-6).Em seguida, trata de orientar os seus leitores sobre outros males que já estavam presentes na igreja, mas cujo progresso devia ser impedido sem perda de tempo: uma situação incestuosa consentida pela congregação (5.1-13), questões judiciais surgidas entre os crentes e promovidas perante juízes pagãos (6.1-11), comportamentos sexuais condenáveis (6.12-20) e atitudes indignas entre os participantes do culto, especialmente na Ceia do Senhor (11.17-22,27-34).
Junto com todas essas instruções, a carta contém as respostas do apóstolo às perguntas dos coríntios relacionadas com o matrimônio cristão e o celibato (7.1-40), com o consumo de alimentos que antes de sua venda pública haviam sido consagrados aos ídolos (8.1-13; 10.25-31) ou com a diversidade e o exercício dos dons outorgados pelo Espírito Santo (12.1—14.40).
Outros textos, relacionados com questões doutrinárias e de testemunho cristão, incluem admoestações contra a idolatria (10.1—11.1) e considerações sobre os enfeites das mulheres no culto (11.2-16) e sobre a instituição da Ceia do Senhor (11.23-26). Notáveis pela sua beleza e a sua profundidade de pensamento são o poema de exaltação do amor ao próximo (12.31b—13.13) e a extensa declaração sobre a ressurreição dos mortos (15.1-58).
O corpo central de 1Coríntios, que tem como prólogo uma saudação e uma apresentação temática de caráter geral (1.1-9), conclui com um epílogo que contém breves indicações acerca da oferta para a igreja de Jerusalém, mais as saudações de costume e notas pessoais (16.1-24).
Contexto Cultural
Corinto era uma cidade cosmopolita e próspera, conhecida por sua diversidade, cultura, comércio, paganismo, imoralidade e grande riqueza (ver “Corinto”, em 2Co 1). Como implantador da igreja de Corinto, Paulo era muito preocupado com sua saúde espiritual. Escreveu 1 Coríntios em resposta a um grande número de problemas que haviam surgido. Foi “oficialmente” informado de alguns desses assuntos (5.1), porém foi avisado de outros com base em algumas perguntas feitas pelos cristãos coríntios (7.1). Havia facções na igreja (cap. 1), elitismo e conflitos em torno dos dons espirituais (cap. 2; 12; 13), imoralidade sexual (cap. 5; 6; 10), objeções à autoridade de Paulo (cap. 9), uma heresia nascente acerca da ressurreição (cap. 15), práticas aberrantes nas celebrações de adoração (cap. 11) e questões sobre o comportamento cristão apropriado (cap. 7 e 8).Esboço
Prólogo (1.1-9)1. Divisão e escândalo na igreja de Corinto (1.10—6.20)
a. Divisões internas na igreja (1.10—3.23)
b. Correta compreensão do ministério apostólico (4.1-21)
c. Um caso de incesto (5.1-13)
d. Questões judiciais entregues a juízes pagãos (6.1-11)
e. Problemas de imoralidade (6.12-20)
2. Resposta às consultas da igreja de Corinto (7.1—15.58)
a. Matrimônio e celibato (7.1-40)
b. Alimentos consagrados a ídolos e a liberdade cristã (8.1—11.1)
c. Desordem no culto público (11.2-34)
d. A questão dos dons espirituais (12.1—14.40)
e. A questão da ressurreição (15.1-58)
Epílogo (16.1-24)
