Salmo 50 — Comentário Teológico
Atualização:
Quanto a informações gerais que se aplicam a todos os salmos, ver a introdução ao Salmo 4. onde apresento sete comentários que elucidam a natureza do livro. Quanto a classes dos salmos, ver o gráfico no início do comentário, que atua como uma espécie de frontispício da coletânea. Ofereço ali dezessete classes e listo os salmos pertencentes a cada uma delas.
Este salmo é chamado de salmo litúrgico. Era uma peça literária usada no culto do templo, que instruía os
homens acerca dos julgamentos de Deus. Haverá uma prestação de contas. Os homens
são moralmente responsáveis diante da lei de Deus. O culto prestado apenas
de lábios é condenado. A mensagem
profética fala da necessidade do julgamento
futuro. O poeta tornou-se um dos profetas menores e fez entrar a
sua mensagem na liturgia do saltério dos hebreus. Quanto a seu estilo e conteúdo, este salmo nos faz lembrar dos discursos dos profetas pré-exílicos, em passagens como Isa. 1.10-23; Osé. 6.6; Miq. 6.6-8 e Jer.
22.1,13, 17. O poeta não se sentia à vontade com certos desenvolvimentos nos costumes que cercavam os sacrifícios, e os oficiais do templo eram tolerantes para com
as tentativas de reforma. Devemos lembrar que os profetas, em algum grau,
deslocaram de suas posições os levitas (e os sacerdotes). Os antigos ritos e
cerimônias não foram olvidados, mas o ofício profético continuou crescendo em importância
e prestígio.
Pontos de vista religiosos refletem uma era pós-exílica. Note o
leitor que os vss, 8-15 nos dizem que a verdadeira religião consiste em invocar Deus em tempos de tribulação, prestar ações de graças, em um agradecimento sentido no coração, e não no mero oferecimento de sacrifícios. Cf. Isa. 1.10-17; Jer.
7.21-23; Miq. 6.6-8, trechos que já projetavam uma visão mais profunda da
espiritualidade.
Portanto, este salmo tem uma natureza didática, com atitudes próprias de adoração. O Senhor examinará o seu povo com base em princípios espirituais
verdadeiros, e não meramente com base em um espetáculo religioso. Há formalismo
e hipocrisia quanto à maneira como os homens se expressam no templo, na igreja e em seus lares. As pessoas devem ter coração confiante e obediente, e não meramente uma demonstração externa de religiosidade.
Subtítulo. Tem os aqui o subtítulo simples “Salmo de Asafe, que, presumivelmente, deve ter sido um dos autores dos salmos. Os Salmos 73 a 83 também são atribuídos a ele. Ver a introdução ao Salmo 42, quanto a outros autores além de Davi. As notas introdutórias, entretanto, não faziam parte
original das composições, mas foram obra de escribas posteriores, quase todas atinentes a conjecturas quanto à questão da autoria e outras circunstâncias
que podem ter influenciado as composições. Asafe foi um dos grandes músicos levitas (ver I
Crô. 16.4,5), e é natural atribuir a ele alguns salmos. Por outra parte, é possível
que ele, realmente, tenha composto alguns salmos.
Deus Dirige-se ao P ovo (50.1-23)
A A parição do Senhor para Julgar (50.1-6)
50.1
Fala o Poderoso, o Senhor Deus. Elohim, cujo nome já
significa Poder, é denominado aqui Todo-poderoso, o que apenas reforça a ideia básica
envolvida nesse nome divino. Além disso, Ele também é Yahweh (o Deus Eterno).
Esse título augusto encabeça a afirmação profética e didática, cuja intenção era
reformar costumes e atitudes relativos aos sacrifícios. Ver a introdução ao
salmo presente quanto a explicações completas sobre a natureza geral deste salmo.
Este Deus Eterno e Todo-poderoso é o Senhor Universal, e assim dirige-se à humanidade inteira, mas especialmente a Israel, o possuidor de Sua lei. Mas a mensagem é para todos os homens de todos os lugares, aqueles que viviam no oriente (onde o sol nasce) e aqueles que viviam no ocidente (onde o sol se deita no horizonte). As descrições de Deus foram derivadas de elementos
encontrados em Deu. 33.2 e Êxo. 19.16. O poeta continuará sua exposição,
descrevendo uma cena do tribunal do céu. O ser humano é cham ado para ser julgado, e Deus é o seu juiz. Os primeiros seis versículos do
salmo contêm uma descrição idealizada do tribunal do julgamento divino: 1, Deus, o Juiz,
aparece resplandecente. 2. O Seu Espírito convence os homens do pecado, da justiça e do juízo. 3. Ele envia Sua Palavra inerrante, e a revelação da lei como base do julgamento. 4. Sua trom beta soa e alerta os homens. 5, O julgamento será severo, perturbando a ordem da natureza e aterrorizando os homens. Sairá fogo da presença de Deus. 6. Estarão presentes testem unhas que
garantirão as decisões e os atos apropriados. 7. Ocorrerá uma reunião dos justos. 8.
As hostes angelicais e os sábios unir-se-ão, aclamando a justiça do processo e seus resultados.
Nomes Divinos: El, Elohim, Yahweh. Temos aqui uma tríada, cada nome entendido como um título distinto, separado. Portanto, temos o Poder, o
Todo-poderoso e o Deus Eterno, Ver no Dicionário o verbete intitulado Deus.
Nomes de.
50.2
Desde Sião, excelência de formosura. Sião, centro da fé hebreia,
localizada na capital da nação de Judá, Jerusalém, é em si mesma a perfeição
da beleza, e dali o Poder, o Todo-poderoso e o Deus Eterno vem para produzir a declaração profética acerca do julgamento divino. “A aparição de Deus foi transferida
do monte Sinai para Sião, porquanto Sião se tornou, aos olhos das gerações
posteriores, o segundo Sinai, que propagava e interpretava a lei de Moisés, a
base de toda a fé dos hebreus. Cf. Isa. 2.3 e Miq. 4.1,2, O Segundo Sinai tinha uma vantagem sobre o primeiro, porque agora existia o ofício protético que
reforçava a mensagem e dava a ela aplicação universal, com maior discernimento. Quanto à belíssima Sião, ver também Sal, 2.6 e 48.2,11,12. Ver no Dicionário o
artigo chamado Sião.
Este versículo tem sido cristianizado para falar de Cristo, que é a
perfeição da beleza, além de ser também o Juiz. Em harmonia com isso, o julgamento é visto como operante por ocasião do Segundo Advento de Cristo. Sião será o Seu trono (Sal. 2.6), mas tudo isso estará fora do escopo da visão de nosso poeta sacro.
Resplandece Deus. Deus é a Luz Suprema e também a Revelação Suprema. Ver no Dicionário
o artigo chamado Luz, A Metáfora da. A cristianização deste versículo tem prosseguimento, ao fazer do Logos-Cristo a Luz que
rebrilhará nos últimos dias. Cf. esta parte do versículo com Sal. 81.1 e Deu. 33.2. Está
em pauta a manifestação divina, a Luz de um Novo Dia, Isso envolve
diretamente o teísmo. Deus não somente criou, mas continua presente em Sua criação, a
fim de julgar e recompensar. Os homens são moralmente responsáveis diante Dele. Contrastar essa idéia com o deísmo, que afirma que Deus criou o
universo, mas então o abandonou, deixando-o entregue aos cuidados das leis naturais. Ver sobre ambos os term os no Dicionário.
50.3
Vem o nosso Deus, e não guarda silêncio. Deus virá como aquele que trará a palavra final da verdade, verdade que julgará os homens. Ele não
guardará silêncio. Os homens serão responsáveis diante Dele. A lei moral demanda uma reação moral. O julgamento não será abafado ou esquecido. Será um acontecimento
inevitável. Ver no Dicionário o verbete intitulado Lei Moral da
Colheita segundo a Semeadura.
Perante ele arde um fogo devorador. Tem os aqui uma figura
simbólica, e não a descrição literal do que sucederá por ocasião do
julgamento. Não obstante, o livro de I Enoque acendeu as cham as do hades, durante o período
intermediário entre o Antigo e o Novo Testamento. O Novo Testamento tomou essa metáfora do julgamento e o transformou em fogo literal (ou assim parece ser), pelo menos em alguns pontos. Seja como for, os intérpretes, antigos e modernos, compreendem esse fogo como literal. Mas ninguém pode prejudicar a alma imaterial com o fogo literal, pelo que é uma insensatez falar aqui em chamas literais. O julgamento
será como fogo. Será algo consumidor; será seriíssimo; será poderosíssimo. Tentar fazer a imaterialidade (a alma) sofrer por causa do fogo literal é como jogar pedras no sol, na esperança de acertá-lo e de alguma maneira afetá-lo. Ver no Dicionário o artigo chamado Julgamento de Deus dos Homens Perdidos, onde exponho minha posição sobre a questão. Caros leitores, até o julgamento divino será remediai, e não apenas retributivo. Ver as notas em I Ped. 4.6 no Novo Testamento Interpretado. O julgamento é um dedo da amorosa mão de Deus. O julgamento fará alguma coisa boa. Não terá por propósito somente
ferir. Será disciplinador, e não apenas punitivo.
Interpretações Inferiores Deste Versículo:
1. O evangelho da missão entre os gentios, que varreria todo o mundo pagão queimando a idolatria e o pecado e preparando o caminho para a salvação.
2. O julgamento por ocasião do segundo advento de Cristo.
3. O julgamento dos judeus que tiverem rejeitado a Cristo.
4. O incêndio que devorou Jerusalém, provocando-lhe a destruição, no ano 70 D. C., uma medida preliminar de maiores julgamentos vindouros. Este versículo, pelo contrário, tem um sentido geral, servindo de ameaça
a todos os homens de todos os lugares, mas especialmente a Israel, no sentido de
que Deus é um Deus de revelação e julgamento, e os homens são responsáveis diante Dele por seus atos. Esta passagem apresenta princípios que podem ser aplicados a qualquer julgamento.
50.4
Intima os céus lá em cima. O clamor do julgamento divino subirá
até os céus e então descerá até a terra. O mais provável é que o sentido dessa
intimação seja que Deus convocará os céus e seus seres inteligentes para serem testemunhas
de como Ele julgará os homens. Não é provável que esteja em vista o julgamento dos anjos. A terra, igualmente, e seus seres inteligentes, serão
testemunhas da retidão desse ato de juízo divino. Coisa alguma será feita em
segredo. Não haverá jogos, não haverá subterfúgios, não haverá omissões nem exageros. O julgamento divino será público e universal. Cf, Miq. 6.2. Ver também Deu.
4.26; 32.1; Isa. 1.2; Miq. 1.2 e I Macabeus 2.37.
50.5
Provavelmente estão em vista aqui os réus, ou seja, Israel, o povo
das alianças com Deus (ver a respeito no Dicionário). Ver sobre o pacto
abraâmico em Gên. 15.18, e sobre o pacto mosaico, em Êxo. 19. Embora os
israelitas fossem os fiéis de Deus (os quais nem sempre foram muito fiéis), serão
julgados. Nenhum homem é tão bom que escape do julgamento. Haverá também o
julgamento dos crentes. Ver no Dicionário os artigos denominados Julgamento de Cristo, Tribunal do e Julgamento do Crente por Deus.
A primeira parte do salmo anuncia julgamento universal, mas também se especializa no julgamento dos santos de Israel, o povo em relação de pacto com Deus. Este versículo tem sido cristianizado para referir-se à igreja, aos santos do Novo Testamento e a como o julgamento será decretado ali; mas não é isso o que está em vista, em bora possam os fazer tais aplicações.
Santos. Ou seja, homens que se tornaram piedosos através dos sacrifícios e dos pactos, e também mediante a observância da lei mosaica. Ser santo do Antigo Testamento era um a questão “coletiva”. É possível que alguém seja um santo individual, m as no Antigo Testamento os santos eram a com unidade que co m partilhava pro visões que a ela chegavam através dos patriarcas.
50.6
Os céus anunciam a sua justiça. Os céus declararão a retidão de Deus. Ele não cometerá equívocos, e Sua santidade será vindicada. Outrossim, Deus julgará em conformidade com a Sua própria santidade, que supostamente foi formada nos homens enquanto eles desenvolviam seu caráter moral.
Portanto santificai-vos, e sede santos, pois eu sou o Senhor
vosso Deus.
(Levítico 20.7)
Eu sou o Senhor vosso Deus: portanto, vós vos consagrareis,
e sereis santos, porque eu sou santo.
(Levítico 11.44)
É o próprio Deus que julga. Emanuel Kant baseou um argumento em prol da existência de Deus sobre o postulado de que deve existir um Poder e uma Inteligência capaz de equilibrar as contas, de fazer justiça, de dispensar recompensas e punições. Paralelamente, também deve haver a sobrevivência da alma, para que o homem receba o castigo ou a recompensa apropriada, o que raram ente acontece na esfera terrestre. Se não aceitarmos esse postulado, terem os então de aceitar a ideia de que o caos é o verdadeiro deus deste mundo. O poeta, porém, não apresentou argumentos filosóficos. Foi direto à conclusão: Deus é o Juiz. E também não tinha dúvidas quanto a existência Dele.
Duas acusações serão feitas contra os santos: vss. 7-15 — Deus não queria apenas a oferenda de animais sacrificados, isto é, o formalismo; e vss. 16-23 — muitos que se dizem crentes não comprovam o fato mediante uma vida ditada pela moralidade autêntica.
Selá. Quanto a significados possíveis desta palavra misteriosa, ver as notas expositivas sobre Sal. 3.2.
Sacrifícios Aceitáveis: Acusação Contra o Formalismo (50.7-15)
50.7
Escuta, povo meu, e eu falarei. “A acusação foi feita como uma palavra vinda de Deus, o Deus deles, para que ouvissem o recado divino. Deus não os reprovava pela observância meticulosa da letra da lei, ao oferecerem os sacrifícios prescritos. Mas Israel nunca percebeu que Deus não precisava de touros ou bodes (vs. 9; cf. o vs. 13). Ele é o Senhor de toda a Criação. Ele é o possuidor de tudo” (Allen P. Ross, in loc.).
Os israelitas não falhavam por observarem as prescrições formais de sua religião; de fato, eles exageravam no zelo por esse aspecto. Pelo contrário, estavam confusos quanto ao significado do que praticavam. Tinham as formas externas, mas não a realidade interior para a qual apontavam as form as externas. Eles tinham obscurecido a espiritualidade, ao mesmo tempo que pensavam ser os homens mais espirituais na face da terra.
O resultado desse monstruoso equívoco foi que Deus precisou testificar contra aqueles homens supostamente espirituais e atacá-los precisamente onde jazia sua falsa espiritualidade. O mesmo está acontecendo hoje em dia no seio da igreja cristã. Homens que dão atenção estrita à letra de seus dogmas perseguem os que são ligeiramente diferentes. Em seu fundamentalismo, esses cristãos também obscurecem a espiritualidade, deixando de viver de acordo com a lei do amor, a própria essência da espiritualidade, conforme aprendemos em I João 4.7.
Outrossim, o amor é, igualmente, a essência da lei, quando ela é corretamente compreendida (ver Rom. 13.8 ss.)
O oposto da injustiça não é a justiça — é o amor.
O amor concede em um momento o que o trabalho não pode
obter em uma era.
(Goethe)
O amor, como a morte, muda tudo.
(Robert Browning)
Ver no Dicionário o artigo detalhado chamado Amor.
Escuta, povo meu. Em primeiro lugar, Deus convocou homens de todos os lugares para ouvir a Sua acusação. Agora, porém, Deus afunilou Sua atenção para incluir somente Israel, o povo em relação de aliança com Ele. Os israelitas eram os que mais precisavam dar ouvidos a Deus, por_serem os maiores depositários da verdade divina. Cf. o prefácio do decálogo, em Êxo. 20.1,2. Cf. Sal. 81.10-12.
50.8
Não te repreendo pelos teus sacrifícios. O Poder divino não reprovava os filhos de Israel por causa de sua ortodoxia. Eles tinham seguido zelosamente a lei. E, afinal de contas, fora Deus mesmo quem lhes dera a legislação mosaica. Essa ortodoxia, entretanto, laborava em erro. Não lhes tinha revelado a essência da espiritualidade.
Tinha-os deixado tontos e secos. Atualmente, milhares e milhares de cristãos aderem a credos ortodoxos e os transformam em ídolos. Em torno desses credos, edificam fortalezas. Declaram guerra contra homens de outras denominações, que acreditam em outros credos. Essa guerra tornou-se generalizada, cada grupo afirmando ser ou exclusivo ou melhor que os demais. Os homens têm religião o bastante para odiar, mas não o suficiente para amar aos outros. Paulo chegou ao ponto de afirmar que os homens podem ter uma fé genuína, capaz de mover montanhas, e um conhecimento que revela profundos mistérios, que outros não foram capazes de penetrar. Também podem ser excelentes exemplos de alegada espiritualidade, além de toda espécie de
realizações; mas sem amor são como nada (ver I Cor. 13).
Os fariseus eram gigantes quanto ao Antigo Testamento, como outros jamais foram. Mas eram pigm eus no que dizia respeito à essência da espiritualidade, ensinada pela Bíblia.
Para o homem, o sacrifício é um desperdício. Para Deus é
algo desnecessário. A alternativa consiste em descobrir qual
necessidade era satisfeita pelos sacrifícios.
(J. R. P. Sclater, in loc.).
Ai de todos, escribas e fariseus, hipócritas! porque dais o dizimo
da hortelã, do endro e do cominho, e tendes negligenciado os
preceitos m ais importantes da lei, a justiça, a misericórdia e a
fé; devíeis, porém, fazer estas cousas, sem omitir aquelas.
(Mateus 23.23)
Misericórdia quero, e não sacrifício; e o conhecimento de
Deus, m ais do que holocaustos.
(Oséias 6.6)
50.9,10
De tua casa não aceitarei novilhos. Israel tinha sua reserva de certos animais domesticados, separados para propósitos de sacrifício. Os israelitas tinham o cuidado de selecionar animais sem defeito, ou seja, aptos para serem oferecidos a Deus sobre o altar. Eles não ofertavam porcos ou animais desaprovados, a fim de poupar dinheiro. Sua ortodoxia levava-os a seguir todas as prescrições da legislação mosaica. Entretanto, Deus não estava interessado nessas atitudes meramente exteriores. Atualmente, em muitas igrejas evangélicas são sacrificados porcos sobre o altar (program as musicais profanos) para que as multidões sejam atraídas pelo espetáculo e assim possam ouvir “a pregação do
evangelho” . Os hebreus nunca se tornaram culpados desse tipo de perversão. A adoração legalista dos hebreus seguia todas as regras. Mas o Espirito não se fazia presente em seus cultos.
Deus não precisava dos animais dos filhos de Israel (vs. 10), porquanto, afinal, era o proprietário de todas as coisas, incluindo todos os cinco animais nobres usados nos sacrifícios. Ver nas notas expositivas sobre Lev. 1.14-16 os cinco animais que podiam ser oferecidos como sacrifício.
Homens biblicamente onodoxos, mas que tinham pouco do Espírito Santo, dilapidavam sua substância provendo animais seletos para os sacrifícios. Por outra parte, para Deus, isso era desnecessário, se é que os cultos dos hebreus consistiam apenas nisso. Eles tinham trazido sacrifícios em abundância, somente animais da melhor qualidade, mas a esses sacrifícios faltava a essência.
Aplicação Espiritual. Escreveu Paulo: “Trabalhei muito mais do que todos eles; todavia não eu, mas a graça de Deus comigo” (I Cor. 15.10). Os trabalhos de Paulo eram abundantes e continham a essência da espiritualidade. Quanto a nós, porém, é mister perguntar quanto de nosso trabalho é feito em favor do próprio “eu” e para servir de espetáculo perante outras pessoas. Quantos grandes pregadores são pequenos cristãos? Quanto de nossos esforços se deve ao ego e quanto se deve ao Espírito? Quantos de nós promovem o próprio “eu” através de nossas obras, em lugar de amar ao próximo? Quantos pregadores pregam e escrevem para impressionar os outros, em vez de para beneficiar o próximo?
Quantos espetáculos na igreja (e são apenas isso) são realizados pelos atores da fé, e não por reais propagandistas da fé? Quantos améns são vociferados para impressionar a outros com nossa espiritualidade, e não como agradecimento sincero a Deus? Jesus demonstrou que as pessoas podem até realizar milagres como espetáculos, mas sem a substância do Espírito (ver Mat. 7.22).
“... a ironia permeia a reprimenda, a melhor arma contra o erro do ritualismo” (Ellicott, in loc.). Assim também, entre os filhos de Israel, os homens tentavam impressionar a Deus com os seus sacrifícios. Mas Deus olhava em outra direção.
Yahweh não se assemelhava aos deuses pagãos, os quais, supostamente, engordavam com a carne que lhes era oferecida.
As alimárias aos milhares sobre as montanhas. Essa assertiva contrasta os poucos animais que os homens apresentam em suas oferendas, com a totalidade da possessão de animais existentes no mundo. Quantas milhares de cabeças de gado estão pastando sobre milhares de montanhas? Todos esses animais pertencem a Deus. Aquele que é o proprietário de todos eles, não precisa de alguns poucos. “Está aqui em foco todo o gado que há no mundo” (John Gill, in loc.).
50.11,12
Conheço todas as aves dos montes. Os animais impróprios para serem oferecidos em sacrifício, todos os demais animais, além dos cinco tipos de animais próprios para o altar, também pertencem ao Pai celeste. Há inúmeras aves e mamíferos de quatro patas, animais que se arrastam sobre a terra e peixes nas águas. Se Elohim tivesse fome, à semelhança dos deuses pagãos que presumivelmente devoravam os sacrifícios que lhes eram oferecidos, poderia facilmente satisfazer-se sem apelar para o sangue e a gordura que lhe cabiam nos sacrifícios. Ver as leis sobre o sangue e a gordura dos animais, em Lev. 3.17. Naturalmente, o poeta estava escrevendo com sarcasmo cortante. Deus, normalmente, nunca diria coisas tão ridículas. O que Deus realmente quer é sumariado nos vss. 14 e 15.
Ao Senhor pertence a terra e tudo o que nela se contém, o
mundo e os que nele habitam.
(Salmo 24.1)
50.13
Acaso como eu a carne de touros? O sarcasmo continua. Elohim não estabeleceu as leis acerca dos sacrifícios a fim de ter suprimento interminável de sangue e gordura para Si mesmo. Ele fez essas leis em favor dos homens, para servirem de lições morais e espirituais que pudessem ser derivadas do sistema, em prol dos seres humanos. Este versículo tem sido cristianizado para fazê-lo referir-se a como Cristo substituiu o sistema dos sacrifícios (ver Heb. 9.11ss. e todo o capítulo 10). Mas essa interpretação é anacrônica, pois o salmo presente não é messiânico. Não obstante, o autor sagrado sentia desde os seus ossos que havia algo de terrivelmente deficiente nos sacrifícios de animais quanto ao perdão de pecados ou quanto a outros propósitos espirituais. Os adoradores recebiam uma impressão deficiente da espiritualidade que “se deriva da aderência a um ponto de vista antigo e desgastado da eficácia de sacrifícios de animais. Que eles soubessem que os sacrifícios nada faziam em favor de Deus, no sentido de suprir Suas necessidades ou quereres” (William R. Taylor, in loc.).
Aplicação Espiritual. A ortodoxia da época em que o salmo foi composto tinha resguardado um ponto de vista teológico já desgastado pelo tempo. Conforme a teologia se desenvolveu, todo o sistema sacrificial foi sendo posto de lado. Algo melhor tinha chegado. Algo melhor sem pre pode chegar, pelo que não devemos ficar preocupados com o que os homens dizem a respeito da ortodoxia.
50.14,15
Oferece a Deus sacrifício de ações de graças. O poeta ofereceu uma lista sim ples das coisas que realmente agradavam a Deus, sinais de verdadeira espiritualidade: ações de graças; tomar votos e cumpri-los no templo (ou particularmente, conforme o caso); usar a oração quando algo de especial se fazia necessário ou quando a pessoa estivesse enfrentando perigo; e, finalmente, acima de todas as
coisas, glorificar a Deus por todo o bem que Ele faz pelo indivíduo. Essa lista simples se assemelha com a regra evangélica do “ora e lê a tua Bíblia”, que inclui coisas úteis mas dificilmente envolve todas as necessidades de uma pessoa espiritual. Os grandes mandamentos de amar a Deus de todo o coração e ao próximo como a nós mesmos (Deu. 6.5; Mat. 19.19) tornam-se aqui conspícuos devido à sua ausência. O poeta sacro estava dando somente uma lista sugestiva de coisas que um homem verdadeiramente espiritual faria a fim de agradar a Deus. Ao tentar destacar importantes questões espirituais, “o salmista estava tornando os sacrifícios uma questão de importância relativamente pequena (ou mesmo nenhuma importância), e, assim sendo, preparava o caminho para sua ab-rogação” (William R. Taylor, in loc.).
“A gratidão e o cumprimento leal dos deveres conhecidos são o ritual mais agradável aos olhos de Deus” (Ellicott, in loc.). Naturalmente, qualquer hebreu diria que a lei é o manual descobrir como devemos agir, quais coisas positivas devemos fazer, e quais não devemos fazer. Ver Sal. 1,2, quanto a uma súmula de idéias a respeito.
Ações de graças. Ver no Dicionário o artigo chamado Votos, quanto a explicações detalhadas. “O voto principal que Deus tinha encarecido diante de Israel era o cumprimento de tudo quanto lhes fora ordenado no Sinai: ‘Tudo o que o Senhor falou, farem os’ (Êxo. 19.8)” (Fausset, in loc.).
Acusação contra os Hipócritas (50.16-23)
50.16
Mas ao ímpio diz Deus. Os vss. 16-23 constituem a segunda acusação, sendo que os vss. 7-15 constituem a primeira. Os que eram tão cuidadosos quanto à ortodoxia, mas esqueciam os valores reais.da lei, também eram culpados de hipocrisia. Eram fanáticos, cumprindo literalmente a lei atinente aos sacrifícios, mas seu coração não tinha sido transformado por seu fanatismo. Agora o poeta os chama de ímpios, porquanto seus pecados eram sérios, a despeito do espetáculo externo de fé religiosa.
Eles eram violadores da lei, o manual do homem espiritual. Os estatutos eram claros. As provisões e responsabilidades dos pactos eram todas bem conhecidas. Ver sobre a tripla designação da lei, em Deu. 6.1. Ver no Dicionário o artigo chamado Pactos. E ver sobre o pacto abraâmico em Gên. 15.18. Além disso, ver sobre o pacto mosaico na introdução a Êxo. 19. Os ensinamentos eram claros e viviam na boca dos hipócritas. Estes serviam só de boca, mas o coração deles estava longe de sentir e obedecer à essência dos mandamentos da lei. Ver Sal. 1.2, quanto a um sumário do que a lei significava para Israel. Ter e obedecer à lei fazia dos israelitas uma nação distinta (ver Deu. 4.4-8). A lei era o guia (ver Deu. 6.4 ss.).
“Os ímpios indisfarçados abrigavam -se sob o nome do pacto” (Ellicott, in loc.). Muitos eram pecadores profanos, apesar de suas vantagens. Cf. Sal. 78.37 e Heb. 8.7,8,13.
50.17
Uma vez que aborreces a disciplina...? Este versículo nos surpreende. Na realidade, os hipócritas odiavam as instruções da lei, a despeito de tudo o que demonstravam em contrário. O resultado era que jogavam para trás de si mesmos as instruções espirituais, de modo que ficassem fora de sua visão, e praticavam coisas que a lei proibia. A lei dizia o que era permitido e o que era proibido, e também ensinava as coisas positivas que um homem deveria, com diligência, buscar e praticar. Os hipócritas, porém, ofendiam em todos os pontos. Ver Mat. 23.23. Ver no Dicionário o verbete chamado Hipocrisia, quanto a comentários que ilustram o assunto e a parte presente do Salmo 50. Os versículos seguintes prosseguem, dando algumas instâncias concretas de seus fracassos. “Embora aquela gente ímpia se reunisse com os que amavam o Senhor, Deus conhecia a corrupção de seu coração” (Allen P. Ross, in loc.). Eles ensinavam a outras pessoas, mas não a si mesmos. Ver Rom. 2.21-23. Cf. Atos 13.45.46 e Luc. 7.30. “A lei não fora dada somente para ser falada, mas também para ser cumprida (Rom. 2.13). Os ímpios faziam coisas contra a aliança e corrompiam a outros com suas lisonjas (I Macabeus 1.30)” (Fausset, in loc.).
50.18
Se vês um ladrão, tu te com prazes nele, e aos adúlteros te associas. Dois pecados, que quebravam violentamente a lei, são destacados neste versículo como ilustrações: o furto e o adultério. Ver Êxo. 20.14,15. Ver sobre Decálogo e sobre Dez Mandamentos, no Dicionário, quanto a um tratamento geral da lei e de seus requisitos. Os hipócritas tanto praticavam quanto aprovavam tais pecados da
parte de outras pessoas. Cf. Jó 34.9.
... não somente as fazem, m as também aprovam os que assim
procedem.
(Romanos 1.32)
Santos. Ou seja, homens que se tornaram piedosos através dos sacrifícios e dos pactos, e também mediante a observância da lei mosaica. Ser santo do Antigo Testamento era um a questão “coletiva”. É possível que alguém seja um santo individual, m as no Antigo Testamento os santos eram a com unidade que co m partilhava pro visões que a ela chegavam através dos patriarcas.
50.6
Os céus anunciam a sua justiça. Os céus declararão a retidão de Deus. Ele não cometerá equívocos, e Sua santidade será vindicada. Outrossim, Deus julgará em conformidade com a Sua própria santidade, que supostamente foi formada nos homens enquanto eles desenvolviam seu caráter moral.
Portanto santificai-vos, e sede santos, pois eu sou o Senhor
vosso Deus.
(Levítico 20.7)
Eu sou o Senhor vosso Deus: portanto, vós vos consagrareis,
e sereis santos, porque eu sou santo.
(Levítico 11.44)
É o próprio Deus que julga. Emanuel Kant baseou um argumento em prol da existência de Deus sobre o postulado de que deve existir um Poder e uma Inteligência capaz de equilibrar as contas, de fazer justiça, de dispensar recompensas e punições. Paralelamente, também deve haver a sobrevivência da alma, para que o homem receba o castigo ou a recompensa apropriada, o que raram ente acontece na esfera terrestre. Se não aceitarmos esse postulado, terem os então de aceitar a ideia de que o caos é o verdadeiro deus deste mundo. O poeta, porém, não apresentou argumentos filosóficos. Foi direto à conclusão: Deus é o Juiz. E também não tinha dúvidas quanto a existência Dele.
Duas acusações serão feitas contra os santos: vss. 7-15 — Deus não queria apenas a oferenda de animais sacrificados, isto é, o formalismo; e vss. 16-23 — muitos que se dizem crentes não comprovam o fato mediante uma vida ditada pela moralidade autêntica.
Selá. Quanto a significados possíveis desta palavra misteriosa, ver as notas expositivas sobre Sal. 3.2.
Sacrifícios Aceitáveis: Acusação Contra o Formalismo (50.7-15)
50.7
Escuta, povo meu, e eu falarei. “A acusação foi feita como uma palavra vinda de Deus, o Deus deles, para que ouvissem o recado divino. Deus não os reprovava pela observância meticulosa da letra da lei, ao oferecerem os sacrifícios prescritos. Mas Israel nunca percebeu que Deus não precisava de touros ou bodes (vs. 9; cf. o vs. 13). Ele é o Senhor de toda a Criação. Ele é o possuidor de tudo” (Allen P. Ross, in loc.).
Os israelitas não falhavam por observarem as prescrições formais de sua religião; de fato, eles exageravam no zelo por esse aspecto. Pelo contrário, estavam confusos quanto ao significado do que praticavam. Tinham as formas externas, mas não a realidade interior para a qual apontavam as form as externas. Eles tinham obscurecido a espiritualidade, ao mesmo tempo que pensavam ser os homens mais espirituais na face da terra.
O resultado desse monstruoso equívoco foi que Deus precisou testificar contra aqueles homens supostamente espirituais e atacá-los precisamente onde jazia sua falsa espiritualidade. O mesmo está acontecendo hoje em dia no seio da igreja cristã. Homens que dão atenção estrita à letra de seus dogmas perseguem os que são ligeiramente diferentes. Em seu fundamentalismo, esses cristãos também obscurecem a espiritualidade, deixando de viver de acordo com a lei do amor, a própria essência da espiritualidade, conforme aprendemos em I João 4.7.
Outrossim, o amor é, igualmente, a essência da lei, quando ela é corretamente compreendida (ver Rom. 13.8 ss.)
O oposto da injustiça não é a justiça — é o amor.
O amor concede em um momento o que o trabalho não pode
obter em uma era.
(Goethe)
O amor, como a morte, muda tudo.
(Robert Browning)
Ver no Dicionário o artigo detalhado chamado Amor.
Escuta, povo meu. Em primeiro lugar, Deus convocou homens de todos os lugares para ouvir a Sua acusação. Agora, porém, Deus afunilou Sua atenção para incluir somente Israel, o povo em relação de aliança com Ele. Os israelitas eram os que mais precisavam dar ouvidos a Deus, por_serem os maiores depositários da verdade divina. Cf. o prefácio do decálogo, em Êxo. 20.1,2. Cf. Sal. 81.10-12.
50.8
Não te repreendo pelos teus sacrifícios. O Poder divino não reprovava os filhos de Israel por causa de sua ortodoxia. Eles tinham seguido zelosamente a lei. E, afinal de contas, fora Deus mesmo quem lhes dera a legislação mosaica. Essa ortodoxia, entretanto, laborava em erro. Não lhes tinha revelado a essência da espiritualidade.
Tinha-os deixado tontos e secos. Atualmente, milhares e milhares de cristãos aderem a credos ortodoxos e os transformam em ídolos. Em torno desses credos, edificam fortalezas. Declaram guerra contra homens de outras denominações, que acreditam em outros credos. Essa guerra tornou-se generalizada, cada grupo afirmando ser ou exclusivo ou melhor que os demais. Os homens têm religião o bastante para odiar, mas não o suficiente para amar aos outros. Paulo chegou ao ponto de afirmar que os homens podem ter uma fé genuína, capaz de mover montanhas, e um conhecimento que revela profundos mistérios, que outros não foram capazes de penetrar. Também podem ser excelentes exemplos de alegada espiritualidade, além de toda espécie de
realizações; mas sem amor são como nada (ver I Cor. 13).
Os fariseus eram gigantes quanto ao Antigo Testamento, como outros jamais foram. Mas eram pigm eus no que dizia respeito à essência da espiritualidade, ensinada pela Bíblia.
Para o homem, o sacrifício é um desperdício. Para Deus é
algo desnecessário. A alternativa consiste em descobrir qual
necessidade era satisfeita pelos sacrifícios.
(J. R. P. Sclater, in loc.).
Ai de todos, escribas e fariseus, hipócritas! porque dais o dizimo
da hortelã, do endro e do cominho, e tendes negligenciado os
preceitos m ais importantes da lei, a justiça, a misericórdia e a
fé; devíeis, porém, fazer estas cousas, sem omitir aquelas.
(Mateus 23.23)
Misericórdia quero, e não sacrifício; e o conhecimento de
Deus, m ais do que holocaustos.
(Oséias 6.6)
50.9,10
De tua casa não aceitarei novilhos. Israel tinha sua reserva de certos animais domesticados, separados para propósitos de sacrifício. Os israelitas tinham o cuidado de selecionar animais sem defeito, ou seja, aptos para serem oferecidos a Deus sobre o altar. Eles não ofertavam porcos ou animais desaprovados, a fim de poupar dinheiro. Sua ortodoxia levava-os a seguir todas as prescrições da legislação mosaica. Entretanto, Deus não estava interessado nessas atitudes meramente exteriores. Atualmente, em muitas igrejas evangélicas são sacrificados porcos sobre o altar (program as musicais profanos) para que as multidões sejam atraídas pelo espetáculo e assim possam ouvir “a pregação do
evangelho” . Os hebreus nunca se tornaram culpados desse tipo de perversão. A adoração legalista dos hebreus seguia todas as regras. Mas o Espirito não se fazia presente em seus cultos.
Deus não precisava dos animais dos filhos de Israel (vs. 10), porquanto, afinal, era o proprietário de todas as coisas, incluindo todos os cinco animais nobres usados nos sacrifícios. Ver nas notas expositivas sobre Lev. 1.14-16 os cinco animais que podiam ser oferecidos como sacrifício.
Homens biblicamente onodoxos, mas que tinham pouco do Espírito Santo, dilapidavam sua substância provendo animais seletos para os sacrifícios. Por outra parte, para Deus, isso era desnecessário, se é que os cultos dos hebreus consistiam apenas nisso. Eles tinham trazido sacrifícios em abundância, somente animais da melhor qualidade, mas a esses sacrifícios faltava a essência.
Aplicação Espiritual. Escreveu Paulo: “Trabalhei muito mais do que todos eles; todavia não eu, mas a graça de Deus comigo” (I Cor. 15.10). Os trabalhos de Paulo eram abundantes e continham a essência da espiritualidade. Quanto a nós, porém, é mister perguntar quanto de nosso trabalho é feito em favor do próprio “eu” e para servir de espetáculo perante outras pessoas. Quantos grandes pregadores são pequenos cristãos? Quanto de nossos esforços se deve ao ego e quanto se deve ao Espírito? Quantos de nós promovem o próprio “eu” através de nossas obras, em lugar de amar ao próximo? Quantos pregadores pregam e escrevem para impressionar os outros, em vez de para beneficiar o próximo?
Quantos espetáculos na igreja (e são apenas isso) são realizados pelos atores da fé, e não por reais propagandistas da fé? Quantos améns são vociferados para impressionar a outros com nossa espiritualidade, e não como agradecimento sincero a Deus? Jesus demonstrou que as pessoas podem até realizar milagres como espetáculos, mas sem a substância do Espírito (ver Mat. 7.22).
“... a ironia permeia a reprimenda, a melhor arma contra o erro do ritualismo” (Ellicott, in loc.). Assim também, entre os filhos de Israel, os homens tentavam impressionar a Deus com os seus sacrifícios. Mas Deus olhava em outra direção.
Yahweh não se assemelhava aos deuses pagãos, os quais, supostamente, engordavam com a carne que lhes era oferecida.
As alimárias aos milhares sobre as montanhas. Essa assertiva contrasta os poucos animais que os homens apresentam em suas oferendas, com a totalidade da possessão de animais existentes no mundo. Quantas milhares de cabeças de gado estão pastando sobre milhares de montanhas? Todos esses animais pertencem a Deus. Aquele que é o proprietário de todos eles, não precisa de alguns poucos. “Está aqui em foco todo o gado que há no mundo” (John Gill, in loc.).
50.11,12
Conheço todas as aves dos montes. Os animais impróprios para serem oferecidos em sacrifício, todos os demais animais, além dos cinco tipos de animais próprios para o altar, também pertencem ao Pai celeste. Há inúmeras aves e mamíferos de quatro patas, animais que se arrastam sobre a terra e peixes nas águas. Se Elohim tivesse fome, à semelhança dos deuses pagãos que presumivelmente devoravam os sacrifícios que lhes eram oferecidos, poderia facilmente satisfazer-se sem apelar para o sangue e a gordura que lhe cabiam nos sacrifícios. Ver as leis sobre o sangue e a gordura dos animais, em Lev. 3.17. Naturalmente, o poeta estava escrevendo com sarcasmo cortante. Deus, normalmente, nunca diria coisas tão ridículas. O que Deus realmente quer é sumariado nos vss. 14 e 15.
Ao Senhor pertence a terra e tudo o que nela se contém, o
mundo e os que nele habitam.
(Salmo 24.1)
50.13
Acaso como eu a carne de touros? O sarcasmo continua. Elohim não estabeleceu as leis acerca dos sacrifícios a fim de ter suprimento interminável de sangue e gordura para Si mesmo. Ele fez essas leis em favor dos homens, para servirem de lições morais e espirituais que pudessem ser derivadas do sistema, em prol dos seres humanos. Este versículo tem sido cristianizado para fazê-lo referir-se a como Cristo substituiu o sistema dos sacrifícios (ver Heb. 9.11ss. e todo o capítulo 10). Mas essa interpretação é anacrônica, pois o salmo presente não é messiânico. Não obstante, o autor sagrado sentia desde os seus ossos que havia algo de terrivelmente deficiente nos sacrifícios de animais quanto ao perdão de pecados ou quanto a outros propósitos espirituais. Os adoradores recebiam uma impressão deficiente da espiritualidade que “se deriva da aderência a um ponto de vista antigo e desgastado da eficácia de sacrifícios de animais. Que eles soubessem que os sacrifícios nada faziam em favor de Deus, no sentido de suprir Suas necessidades ou quereres” (William R. Taylor, in loc.).
Aplicação Espiritual. A ortodoxia da época em que o salmo foi composto tinha resguardado um ponto de vista teológico já desgastado pelo tempo. Conforme a teologia se desenvolveu, todo o sistema sacrificial foi sendo posto de lado. Algo melhor tinha chegado. Algo melhor sem pre pode chegar, pelo que não devemos ficar preocupados com o que os homens dizem a respeito da ortodoxia.
50.14,15
Oferece a Deus sacrifício de ações de graças. O poeta ofereceu uma lista sim ples das coisas que realmente agradavam a Deus, sinais de verdadeira espiritualidade: ações de graças; tomar votos e cumpri-los no templo (ou particularmente, conforme o caso); usar a oração quando algo de especial se fazia necessário ou quando a pessoa estivesse enfrentando perigo; e, finalmente, acima de todas as
coisas, glorificar a Deus por todo o bem que Ele faz pelo indivíduo. Essa lista simples se assemelha com a regra evangélica do “ora e lê a tua Bíblia”, que inclui coisas úteis mas dificilmente envolve todas as necessidades de uma pessoa espiritual. Os grandes mandamentos de amar a Deus de todo o coração e ao próximo como a nós mesmos (Deu. 6.5; Mat. 19.19) tornam-se aqui conspícuos devido à sua ausência. O poeta sacro estava dando somente uma lista sugestiva de coisas que um homem verdadeiramente espiritual faria a fim de agradar a Deus. Ao tentar destacar importantes questões espirituais, “o salmista estava tornando os sacrifícios uma questão de importância relativamente pequena (ou mesmo nenhuma importância), e, assim sendo, preparava o caminho para sua ab-rogação” (William R. Taylor, in loc.).
“A gratidão e o cumprimento leal dos deveres conhecidos são o ritual mais agradável aos olhos de Deus” (Ellicott, in loc.). Naturalmente, qualquer hebreu diria que a lei é o manual descobrir como devemos agir, quais coisas positivas devemos fazer, e quais não devemos fazer. Ver Sal. 1,2, quanto a uma súmula de idéias a respeito.
Ações de graças. Ver no Dicionário o artigo chamado Votos, quanto a explicações detalhadas. “O voto principal que Deus tinha encarecido diante de Israel era o cumprimento de tudo quanto lhes fora ordenado no Sinai: ‘Tudo o que o Senhor falou, farem os’ (Êxo. 19.8)” (Fausset, in loc.).
Acusação contra os Hipócritas (50.16-23)
50.16
Mas ao ímpio diz Deus. Os vss. 16-23 constituem a segunda acusação, sendo que os vss. 7-15 constituem a primeira. Os que eram tão cuidadosos quanto à ortodoxia, mas esqueciam os valores reais.da lei, também eram culpados de hipocrisia. Eram fanáticos, cumprindo literalmente a lei atinente aos sacrifícios, mas seu coração não tinha sido transformado por seu fanatismo. Agora o poeta os chama de ímpios, porquanto seus pecados eram sérios, a despeito do espetáculo externo de fé religiosa.
Eles eram violadores da lei, o manual do homem espiritual. Os estatutos eram claros. As provisões e responsabilidades dos pactos eram todas bem conhecidas. Ver sobre a tripla designação da lei, em Deu. 6.1. Ver no Dicionário o artigo chamado Pactos. E ver sobre o pacto abraâmico em Gên. 15.18. Além disso, ver sobre o pacto mosaico na introdução a Êxo. 19. Os ensinamentos eram claros e viviam na boca dos hipócritas. Estes serviam só de boca, mas o coração deles estava longe de sentir e obedecer à essência dos mandamentos da lei. Ver Sal. 1.2, quanto a um sumário do que a lei significava para Israel. Ter e obedecer à lei fazia dos israelitas uma nação distinta (ver Deu. 4.4-8). A lei era o guia (ver Deu. 6.4 ss.).
“Os ímpios indisfarçados abrigavam -se sob o nome do pacto” (Ellicott, in loc.). Muitos eram pecadores profanos, apesar de suas vantagens. Cf. Sal. 78.37 e Heb. 8.7,8,13.
50.17
Uma vez que aborreces a disciplina...? Este versículo nos surpreende. Na realidade, os hipócritas odiavam as instruções da lei, a despeito de tudo o que demonstravam em contrário. O resultado era que jogavam para trás de si mesmos as instruções espirituais, de modo que ficassem fora de sua visão, e praticavam coisas que a lei proibia. A lei dizia o que era permitido e o que era proibido, e também ensinava as coisas positivas que um homem deveria, com diligência, buscar e praticar. Os hipócritas, porém, ofendiam em todos os pontos. Ver Mat. 23.23. Ver no Dicionário o verbete chamado Hipocrisia, quanto a comentários que ilustram o assunto e a parte presente do Salmo 50. Os versículos seguintes prosseguem, dando algumas instâncias concretas de seus fracassos. “Embora aquela gente ímpia se reunisse com os que amavam o Senhor, Deus conhecia a corrupção de seu coração” (Allen P. Ross, in loc.). Eles ensinavam a outras pessoas, mas não a si mesmos. Ver Rom. 2.21-23. Cf. Atos 13.45.46 e Luc. 7.30. “A lei não fora dada somente para ser falada, mas também para ser cumprida (Rom. 2.13). Os ímpios faziam coisas contra a aliança e corrompiam a outros com suas lisonjas (I Macabeus 1.30)” (Fausset, in loc.).
50.18
Se vês um ladrão, tu te com prazes nele, e aos adúlteros te associas. Dois pecados, que quebravam violentamente a lei, são destacados neste versículo como ilustrações: o furto e o adultério. Ver Êxo. 20.14,15. Ver sobre Decálogo e sobre Dez Mandamentos, no Dicionário, quanto a um tratamento geral da lei e de seus requisitos. Os hipócritas tanto praticavam quanto aprovavam tais pecados da
parte de outras pessoas. Cf. Jó 34.9.
... não somente as fazem, m as também aprovam os que assim
procedem.
(Romanos 1.32)
Eles formavam uma geração adúltera, a despeito de possuírem e ensinarem a lei mosaica. Ver Mat. 12.39 e João 8.4-8, A infidelidade a Deus é adultério espiritual, porquanto a pessoa abandona seu companheiro e legítimo consorte espiritual, para aceitar os obreiros da iniquidade. E quem não é culpado disso? Além disso, o adultério também envolve pensamentos impuros (ver Mat. 5,28), e quem não se toma culpado disso? Mas os hipócritas são praticantes especiais de todos esses vícios.
50.19
Soltas a tua boca para o mal. Além desses, há também os males da língua, a calúnia e o ludíbrio. Ver no Dicionário o artigo intitulado Linguagem, Uso Apropriado da, quanto a ilustrações desse tipo de pecado. a língua arquiteta o ludíbrio, pondo e juntando palavras enganadoras de maneira esperta, mediante as quais mentes simples e instáveis são enganadas” (John Gill, In loc.).
Trama enganos. Traduzido literalmente do hebraico, este verbo significa “tecer” , algo concebido e executado com habilidade, como se fosse um tecido transformado em roupa.
M eu cérebro, m ais ocupado que uma aranha laboriosa,
Tece armadilhas tediosas, para prender
em uma armadilha os meus inimigos.
(Shakespeare)
50.20
Sentas-te para falar contra teu irmão. Calúnia. Esses homens ímpios, abusando do uso da língua, naturalmente tomavam-se culpados de calúnia, também chamada de falso testemunho e perjúrio em tribunal. Eles até falavam contra os “irmãos” que eram parentes próximos, e não meramente concidadãos hebreus, o que se vê no acréscimo das palavras “o filho da tua mãe”. Quanto à proibição a tais pecados, ver Êxo. 20.16.
Aqueles hipócritas eram culpados de pecados radicais ou de conduta vergonhosa.
O destino deles é a perdição, o deus deles é o ventre, e a
glória deles está na sua infâmia; visto que só se preocupam
com as cousas terrenas.
(Filipenses 3.19)
Para falar contra. Literalmente traduzida, esta expressão diria: “dar um golpe”, como vibrar um golpe com uma arma mortífera. A língua deles torna-se uma arma mortal, que eles usam com júbilo contra outras pessoas.
O filho de tua mãe. Em uma sociedade polígama, um homem teria muitos irmãos e muitas irmãs que não eram filhos da mãe dele. O comentário aqui fala de um irmão que tinha a mesma mãe, ou seja, um irmão mais próximo do que outros irmãos, mas que nem por isso deixara de ser molestado verbalmente.
50.21
Tens feito estas cousas, e eu me calei. A paciência divina tinha tolerado aqueles homens maus, que talvez tenham pensado que Yahweh era como eles, sem cuidado para com as pessoas e negligente quanto à retidão. Finalmente, a paciência divina acabou e veio a repreensão, seguida por decisivos atos de julgamento, podem os ter certeza. Eles tinham quebrado mandamentos que a lei dos hebreus infligia com a punição capital. Os hipócritas, tendo poder no governo e dinheiro para oferecer com o suborno, provavelmente haviam escapado da punição capital, m as isso não significa que pudessem escapar de um ataque celeste, sob a form a de enfermidade, acidente ou outra calam idade.
“A longanimidade de Deus, tencionada para efetuar o arrependimento (ver Rom. 2.4), foi mal compreendida. E os homens chegaram a pensar que Deus era indiferente para com o mal e para com o indivíduo maligno” (Ellicott, in loc.).
“Meus olhos têm estado continuamente sobre ti, embora meus julgamentos não tenham sido derramados... mas agora te reprovarei. Visitar-te-ei com o mal, por causa de tua maldade” (Adam Clarke, in loc., com alguma adaptação).
Este versículo tem sido cristianizado para referir-se, profeticamente, ao que aconteceu aos judeus que rejeitaram a Cristo, a começar pela destruição de Jerusalém, no ano 70 D. C. Todavia, isso é apenas uma aplicação do salmo, mas dificilmente uma interpretação.
50.22
Considerai, pois, n isto vós que vos esqueceis de Deus. Não praticar a lei é esquecer-se de Deus, mesmo que o indivíduo tenha a cautela de manter as formas religiosas externas. Esse discernimento que o poeta nos ofereceu é de ótima qualidade. Vice-versa, lembrar-se de Deus é praticar as coisas que demonstram té no coração, inspirada pelo Espírito Santo.
Para que não vos despedace. A figura simbólica é a da fera que apanha a presa de sobressalto, atacando-a, m atando-a e despedaçando-a. Os ímpios podem subitamente sofrer um julgamento que não esperavam receber e para o qual certamente estavam despreparados. “Asafe instruiu os hipócritas a considerar seus caminhos, antes que se tornasse tarde demais” (Allen P. Ross, in loc.).
Sou, pois, para eles como leão; com o leopardo espreito no
caminho. Como ursa, roubada de seus filhos, eu os atacarei, e
lhes romperei a envoltura do coração; e como leão ali os
devorarei, as feras do campo os despedaçarão.
(Oséias 13.7,8)
50.23
O que me oferece sacrifício de ações de graças. O autor sagrado volta agora a mencionar as coisas que agradam a Deus, que vão além do espetáculo da fé religiosa, e entre elas está glorificar a Deus por tudo quanto Ele tem feito, agradecendo por Sua bondade. Ver o vs. 15, onde isso é mencionado. O vs. 22 revisa, em uma única declaração, o aspecto do salmo que fala sobre os ímpios; o vs. 23 revisa o aspecto do salmo que fala sobre os piedosos. Aquele que é agradecido honra a Deus. Esse homem ordena corretamente a sua vereda. Ele pratica as coisas mencionadas nos vss. 14 e 15. Quanto ao ato de andar {incluindo seus sentidos metafóricos), ver o artigo no Dicionário. O homem bom põe em prática os preceitos da lei, e não faz somente oferecer sacrifícios para que outras pessoas vejam que ele é um homem “religioso”.
A salvação de Deus. É apenas natural cristianizar este versículo e fazer desta a salvação evangélica, uma vida abençoada para além da morte biológica; não é provável, contudo, que a teologia do autor sacro avançasse para muito além desse ponto. Talvez ele tivesse em mente viver bem e por muito tempo, evitando a morte prematura, e, finalmente, descansar de suas boas realizações. Dessa maneira,
Deus teria livrado aquele homem dos juízos divinos, que perturbariam o curso de sua vida e, provavelmente, a abreviariam. Esse homem observaria a aliança com Deus e se beneficiaria das promessas feitas a Abraão e a Moisés. Ele obteria a vida mediante a obediência à lei. Quanto a esse conceito, ver Deu. 4.1; 5.33; 6.2 e Eze. 20.1. A teologia posterior dos hebreus, entretanto, fazia dessa a vida pós-túmulo. Cf. Isa. 52.10 e Luc. 2.25-30. Ver no Dicionário o artigo intitulado Salvação.
