Mago — Enciclopédia Bíblica Online

MAGO 

Nome próprio sem nenhum significado intrínseco reconhecido. Nos tempos helênicos e romanos, o termo foi corrompido para um substantivo comum que significava “mágico” ou “feiticeiro”. Rabe-Mague (ARA e ARC), “um dos chefes dos oficiais” (NVI) (Jeremias 39.3,13); “magos” (Mt 2.1,7); “mágico” (Atos 13.6, 8). Originalmente uma tribo da Média, os magos formavam uma classe sacerdotal hereditária, que muitas vezes possuía grande poder político nos Impérios Médio, Babilônico, Persa e Parto. Os magos apareceram pela primeira vez na história, sendo identificados como uma tribo da emergente nação da Média, no 1° séc. a.C. na qual havia uma forte tradição que promovia o exercício dos poderes sacerdotais e ocultistas na esfera do sistema religioso, por parte daqueles que eram capazes de realizar tais atividades. 

1. Religião. Parece que o sistema religioso original dos magos, possivelmente de origem cita, baseava-se em conceitos filosóficos que eram compartilhados com alguns segmentos do mundo helénico, ou seja, a primazia dos elementos: fogo, água, terra e ar. Aparentemente o fogo se tomou o principal elemento de adoração, a qual era centralizada num altar onde queimava um fogo perpétuo, que o povo acreditava ter sido aceso no céu. Sacrifícios de sangue de animais domésticos, incluindo cavalos, eram oferecidos num altar separado, usando-se o fogo do altar. Partes da vítima eram queimadas e o resto era consumido pelo ofertante e pelos sacerdotes. O elemento relevante do sacrifício era considerado como sua vida e não a sua carne. Os sacerdotes magos vestiam túnicas brancas e chapéus cônicos, feitos de feltro com longas abas laterais que cobriam as maçãs do rosto até a altura do queixo. Carregavam pequenos feixes de varas de adivinhação, conhecidas como barsoms, com as quais oficiavam nos sacrifícios; essas varas também eram empregadas nas adivinhações e nos encantamentos, quando eram arranjadas no chão em vários padrões, enquanto os sacerdotes pronunciavam as palavras mágicas. Os magos não admitiam nenhum deus pessoal e nenhuma imagem era permitida. Os templos, até onde se sabe, não tinham características monumentais e ao que parece eram apenas abrigos para o fogo sagrado. Os sacerdotes acreditavam na destruição de certas formas impuras de vida (como répteis e insetos) e se preocupavam com a manutenção da santidade dos elementos físicos já mencionados. Nesta atividade, a disposição dos corpos dos mortos era um grande problema, que era solucionado de duas maneiras diferentes. Os cadáveres podiam ser expostos às aves de rapina, ou então eram enterrados, desde que primeiro fossem totalmente lacrados numa cobertura de cera. A ausência de uma teologia sistemática foi remediada pela introdução do Zoroastrismo no 6° séc. a.C., e seu estabelecimento como religião oficial da Pérsia por Dario, o Grande. Os magos, ansiosos por manter seus privilégios religiosos e políticos, submeteram-se ao decreto real sem, contudo, negar sua filosofia elementar original e sem fazer grandes alterações em seus rituais. Na melhor das hipóteses, a religião sincretista, dos magos dos dias da dinastia Aquemênida, tinha muito em comum com a religião judaica. Cada um tinha seu conceito monoteísta de um criador beneficente, autor de todo o bem, o qual por sua vez sofria a oposição de um espírito malévolo. Cada um tinha seu sacerdócio hereditário, que era o principal mediador entre Deus e os homens, mediante um sacrifício de sangue. Cada um dependia da sabedoria do sacerdote na adivinhação (o Urim e o Tumim dos levitas eram usados de uma forma semelhante à dos barsoms dos magos) e a cada um eram atribuídas considerável revelação e autoridade proféticas. Os conceitos que compartilhavam sobre formas de vida puras e impuras (bem como vegetais), e a atitude positiva em relação aos quatro elementos na vida material e no simbolismo religioso, são dignos de nota. 

2. História. O antigo sistema dos magos foi decretado para ser a religião oficial da Média por Ciaxares, rei dos medos, no final do 6° séc. a.C., depois que alguns magos, que foram considerados especialistas na interpretação dos sonhos, foram incluídos na corte da Média. Foi nesta capacidade dupla, mediante a qual o conselho civil e político foi investido de autoridade religiosa, que os magos se tomaram figuras poderosas no império. Nergal-Sarezer, chefe dos magos na corte de Nabucodonosor da Babilônia, é mencionado pelo nome como um dos principais oficiais da corte (Jeremias 39.3,13). Tal proeminência não é de se estranhar, quando lembramos que se tratava de um governo de coalizão entre caldeus e medos. A ambição da Média (e consequentemente dos magos) era conquistar o antigo Império Persa. Ciro, o persa, usurpou o governo da antiga linhagem média de Ciaxares e Astíages e estabeleceu a supremacia persa sobre a Média. Na mesma época, ele reconheceu o papel dos magos como a suprema casta sacerdotal do império. Eles tiveram a oportunidade de restabelecer a supremacia média no reinado de Cambises e Bardiya (Smerdis), filhos de Ciro. Durante a intriga palaciana, que culminou no assassinato de Bardiya (e no suicídio de Cambises), os magos estavam numa posição suficientemente elevada para implementar sua própria conspiração. Um deles, Gaumata (pseudo Smerdis), usurpou o trono. Tal ato foi severamente punido por Dario, o Grande, fundador da dinastia aquemênida, que destruiu os conspiradores imediatos bem como o ambicioso Gaumata. Embora a ambição política tenha sido punida com severidade, os magos não foram destituídos do status sacerdotal e nem foram afastados das funções de adivinhos e conselheiros do rei. Xerxes, filho de Dario, é mencionado como tendo consultado os magos, quando formulava seus planos para a invasão da Grécia. Com a revolta dos partos contra os selêucidas em meados do 32 séc. a.C., os magos reapareceram, sendo incorporados ao governo institucional do Império. Assim como os medos (e os magos) tinham recebido considerável deferência ao serem incorporados ao governo, nos Impérios Babilónio e Persa, assim os persas (e os magos) receberam privilégios consideráveis dos seus menos sofisticados senhores partos. O Zoroastrismo dos magos foi reinstalado como religião oficial. Foi instituído um conselho constitucional conhecido como Megistanes, cuja tarefa era auxiliar na eleição (e, caso fosse necessário, na deposição) do monarca e para prestar assessoria no governo da nação. A hierarquia dos magos ocupava as posições mais elevadas neste concílio. A casa superior era composta do sacerdócio hereditário dos magos, enquanto a casa inferior era composta dos apontados, conhecidos coletivamente como Sophi (homens sábios). Aparentemente os partos, embora demonstrando considerável respeito pelos persas e pelos magos, jamais foram convertidos entusiastas do Zoroastrismo. Por volta do 32 séc. d.C., a grande maioria deles já havia retomado à idolatria original e à idolatria dos ancestrais, unidas a grande parte do sincretismo religioso da época. Os magos, por sua vez, perderam a maior parte da influência, exceto na própria Pérsia, onde ainda recebiam a veneração tradicional. Alguns dos reis vassalos poderiam ser magos. 

A sua maneira tradicional, os persas e os magos esperavam e planejavam. Eles derrubaram o governo persa e restabeleceram o governo dos monarcas persas nativos (sassânidas). Novamente foram concedidos aos magos os mais elevados poderes religiosos e governamentais. O Zoroastrismo foi reinstalado como religião oficial e esta situação perdurou até que o Império foi derrotado pelo Islamismo no 7° séc. Durante esses anos, refugiados zoroastristas, sem dúvida com magos entre eles, migraram para a índia, onde seus descendentes ainda podem ser encontrados entre os parsitas. 

3. Referências bíblicas — Antigo Testamento. Como notamos anteriormente, o título não traduzido de Nergal-Sarezer, o chefe dos magos da corte de Nabucodonosor, Rabe-Mague, é encontrado em Jeremias 39.3,13. Magos de escalões inferiores, servindo na mesma corte como conselheiros e intérpretes dos sonhos, são, com toda probabilidade, mencionados nos relatos de Daniel 2.10, 27; 4.7,9; 5.11. Nessas referências o nome próprio não é empregado. No lugar dele, encontramos um termo hebraico que, por sua vez, é traduzido como “mago”. Como vimos antes nas definições, o conceito de mago, na forma de um substantivo comum, foi desenvolvido como uma corrupção do nome próprio mais antigo Magus ou Mago. A despeito do uso mais antigo, do termo hebraico, não é improvável que, neste contexto, os oficiais mencionados sejam da tribo dos magos e não magos propriamente dito. Devemos lembrar que a corte babilónica da época estava sob a influência combinada de caldeus e medos e que, ao nomear os encantadores de cada grupo, os caldeus são simplesmente referidos como tais. O autor, porém, obviamente sendo pró-medos em suas simpatias, dificilmente teria deixado de mencionar suas contrapartes. Devemos notar que Jeremias, escrevendo objetivamente de fora do ambiente da corte, emprega o termo não traduzido Rabe-Mague, ao se referir ao chefe dos magos. Daniel, por outro lado, escrevendo de dentro da corte, escolheu fazer uma distinção, trocando o substantivo próprio medo por um substantivo comum hebraico. Seu motivo pode ter sido duplo: o rei, como recompensa por serviços prestados, aparentemente nomeou Daniel para a função de Mestre dos Magos, i.e., Rabe-Mague. Deve-se notar que o prefixo Rabe é encontrado no hebraico (Daniel 4.9; 5.11). Embora Daniel fosse pró-medos, também era profundamente orgulhoso de sua identidade judaica e escolheu descrever a função de mago, para a qual fora nomeado mediante decreto oficial (e não por direito hereditário), com um termo judaico apropriado. Se agisse de outra forma, teria se identificado tacitamente como um medo, descendente dos ancestrais magos. Isso também poderia ter sérias repercussões entre os próprios magos, que sem dúvida teriam se ressentido da apropriação de seu nome hereditário por um indivíduo de fora. Nesta situação, é evidente que Daniel tentou deixar bem claro que reconhecia a distinção. E digno de nota que, quando Daniel se tomou vítima de um complô fomentado por causa da inveja (Daniel 6), foi nas mãos dos governadores regionais (sátrapas) e não nas mãos dos magos que dominavam a hierarquia da corte. 

4. Referências bíblicas — Mateus 2. Na identificação dos magos no relato do nascimento de Cristo (Mt 2.1,7,16), é necessário chamar atenção para alguns antecedentes históricos significativos. Desde os dias do profeta Daniel, no 2° séc. a.C., o destino da Pérsia e da nação judaica estavam intimamente interligados. Há uma forte probabilidade de que uma conspiração judaico-média tinha culminado com a queda da Babilônia e conquistado para Ciro, o Persa uma inquestionável supremacia no mundo antigo. A gratidão persa era magnânima. Com exceção do interlúdio do reinado de Cambises, a política persa, em relação à nação judaica que se restabelecia, foi de espantoso apoio. Ambas as nações tinham caído sob o domínio selêucida no início das conquistas de Alexandre. Subsequentemente, as duas também reconquistaram a independência — os judeus sob a liderança dos Macabeus e os persas como o governo dominante dentro do Império Parto. Foi nesta época que os magos, em seu duplo ofício sacerdotal e governamental, formaram o concílio superior dos Magistanes, cujas funções incluíam a indicação irrestrita e a eleição do rei. Portanto, foi um grupo de “fazedores de reis” persas-medos que entrou em Jerusalém nos últimos dias do reinado de Herodes. A reação de Herodes foi de medo — o que é compreensível, levando-se em conta o antecedente de rivalidade entre romanos e partos, que prevaleceu durante sua vida. Pompeu, primeiro conquistador romano de Jerusalém em 63 a.C., tinha atacado a guarnição armênia da Pártia. Em 55 a.C. Crassus liderou as legiões romanas no saque de Jerusalém e no subsequente ataque da Pártia. Os romanos foram totalmente derrotados na batalha de Carrhae, com perda de 30.000 soldados, inclusive os comandantes. Em retribuição, os partos contra-atacaram com uma invasão da Armênia, Síria e Palestina. O governo romano nominal foi restabelecido sob Antípater, pai de Herodes, o qual por sua vez recuou sob outra invasão parta em 40 a.C. Marco Antonio restabeleceu a soberania romana em 37 a.C. e, como Crassus antes dele, também embarcou numa fatídica campanha contra os partos. Seu recuo desastroso foi seguido por outra onda de invasões partas, que varreram completamente toda a oposição romana na Palestina (o próprio Herodes fugiu para Alexandria e de lá, para Roma). Com a colaboração parta, a soberania judaica foi restabelecida e Jerusalém foi fortificada com uma guarnição de judeus. 

Nesta época Herodes tinha assegurado para si o título de rei dos judeus, concedido por César Augusto. No entanto, só depois de três anos, incluindo um cerco de cinco meses por tropas romanas, o rei judeu foi capaz de ocupar sua própria capital. Assim, Herodes conquistou o trono de um estado vassalo rebelde, situado entre dois impérios poderosos em conflito. A qualquer momento seus súditos poderiam ser novamente instrumentos de uma quinta coluna, trazendo os partos de volta em seu auxílio. Na época do nascimento de Cristo (provavelmente 4 a.C.), é certo que Herodes já estava próximo de sua morte; Augusto também já era bem idoso; Roma, desde a aposentadoria de Tibério, não tinha nenhum comandante militar experiente. A Armênia pró-Pártia estava fomentando uma revolta contra Roma (a qual foi realizada com sucesso dois anos mais tarde). O tempo era propício para outra invasão parta nas províncias vassalas, exceto pelo fato de que a própria Pártia estava dividida por dissensões internas. Frates IV, o rei velho e impopular, tinha sido deposto uma vez e não era improvável que os magos persas já estivessem envolvidos nas manobras políticas necessárias para se escolher seu sucessor. E possível que os magos tenham tirado vantagem da falta de popularidade do rei, para buscar seus próprios interesses com o estabelecimento de uma nova dinastia, que só poderia ser implementada se fosse encontrado um candidato suficientemente forte. Neste ponto da história é inteiramente possível que as profecias messiânicas do AT, culminando com os escritos de Daniel, um dos principais magos entre eles, tivessem um significado profundo e motivador. A promessa de um domínio mundial, divinamente entregue nas mãos de um monarca judeu, era mais do que aceitável para eles. Sua própria história persa e medo/persa estava repleta de nobres, ministros e conselheiros judeus; nos dias da grande dinastia Aquemênida, alguns dos seus reis ao que parece tinham sangue parcialmente judeu. Em Jerusalém, a súbita aparição dos magos, provavelmente viajando com toda a pompa oriental imaginável, em companhia de uma escolta adequada de cavalaria que garantisse sua entrada segura em território romano, certamente alarmou Herodes e a população de Jerusalém, conforme registrado no Evangelho de Mateus. Pareceria que os magos estavam tentando perpetrar um incidente de fronteira, que traria a rápida represália das tropas partas. A pergunta deles a Herodes, em relação ao paradeiro do “recém-nascido Rei dos judeus” (Mt 2.2), era um insulto deliberado contra aquele que conquistara o trono por meio de intrigas e subornos. Na providência divina, a profecia messiânica do reino ainda não se cumprira; os magos, “sendo prevenidos em sonho” (um tipo de comunicação muito aceitável para eles) “regressaram por outro caminho à sua terra” (Mt 2.12), com as mãos vazias. Dentro de dois anos, Frataces, o filho parricida de Frates IV, foi devidamente instalado pelos magos como o novo governante da Pártia. 

5. Referências bíblicas — Atos 13. No mundo oriental helênico e romano, o substantivo magus era usado como descrição geral de qualquer ilusionista, mágico ou astrólogo. Tal implicação pode ter sido pretendida em Atos 13.6,8. Alguns desses magos poderiam ser descendentes de medos e persas e poderiam reivindicar algum grau de autoridade mística. Também é possível que alguns deles fossem judeus descendentes dos magos nomeados nos dias de Daniel. Elimas poderia ter sido um desses. E duvidoso que o procônsul, sendo descrito como um “homem inteligente”, teria empregado um total impostor. 


BIBLIOGRAFIA: F. Josefo, Antiquities of the Jews, The Jewish Wars (Havercamp, trad. Whiston org.) (1853); Heródoto; The History of Herodotus (Rawlinson trad.) (1858); G. Rawlinson, The Seven Great Monarchies of the Ancient World (2 ed. 1870); A. Olmstead, History of the Persin Empire (1948); R. Frye, The Heritage of Persia (1963). D. B. Jayne

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