A Doutrina da Graça

A Doutrina da Graça 


A doutrina da graça não foi uma questão significativa no desenvolvimento da teologia na igreja oriental de língua grega. No entanto, uma intensa controvérsia eclodiu sobre essa questão na segunda década do século V. Pelágio, um monge asceta britânico baseado em Roma, defendeu vigorosamente a necessidade da responsabilidade moral humana. Alarmado com a frouxidão moral da igreja romana, ele insistiu na necessidade de constante auto-aperfeiçoamento, à luz da lei do Antigo Testamento e do exemplo de Cristo. Ao fazer isso, ele parecia a seus oponentes - o principal entre os quais Agostinho - negar qualquer lugar real para a graça divina no início ou na continuação da vida cristã. O pelagianismo passou a ser visto como uma religião da autonomia humana, segundo a qual o ser humano é capaz de tomar a iniciativa de sua própria salvação.

Agostinho reagiu energicamente contra o pelagianismo, insistindo na prioridade da graça de Deus em todas as fases da vida cristã, do início ao fim. O ser humano não possuía, segundo Agostinho, a liberdade necessária para dar os primeiros passos rumo à salvação. Longe de possuir “liberdade de vontade”, os humanos possuíam uma vontade corrompida e maculada pelo pecado, e que os tendia para o mal e para longe de Deus. Somente a graça de Deus poderia neutralizar essa tendência ao pecado. Tão forte foi a defesa da graça de Agostinho que mais tarde ele ficou conhecido como “o doutor da graça (doutor gratiae). Um tema central do pensamento de Agostinho é a queda da natureza humana. A imagem da “Queda” deriva de Gênesis 3 e expressa a ideia de que a natureza humana “caiu” de seu estado original. O estado atual da natureza humana não é, portanto, o que Deus pretendeu que fosse. A ordem criada não corresponde mais diretamente à “bondade” de sua integridade original. Ele prescreveu. Foi estragado e arruinado - mas não irremediavelmente, como afirmam as doutrinas da salvação e da justificação. A imagem de uma “queda” transmite a ideia de que a criação agora existe em um nível inferior ao pretendido por Deus.

De acordo com Agostinho, segue-se que todos os seres humanos estão contaminados pelo pecado desde o momento de seu nascimento. Em contraste com muitas filosofias existencialistas do século XX (como a de Martin Heidegger), que afirmam que a “queda (Verfallenheit) é uma opção que escolhemos (em vez de algo que é escolhido para nós), Agostinho retrata o pecado como inerente a natureza humana. É um aspecto integral, não opcional, de nosso ser. Essa percepção, que recebe expressão mais rigorosa na doutrina do pecado original de Agostinho, é de importância central para suas doutrinas do pecado e da salvação. Todos são pecadores, todos requerem redenção. Visto que todos carecem da glória de Deus, todos precisam ser redimidos. Para Agostinho, a humanidade, entregue a seus próprios recursos e recursos, nunca poderia entrar em um relacionamento com Deus. Nada que um homem ou mulher pudesse fazer era suficiente para quebrar o domínio do pecado. Para usar uma imagem que Agostinho teve a sorte de nunca ter encontrado, é como um viciado em entorpecentes tentando se libertar das garras da heroína ou da cocaína. A situação não pode ser transformada de dentro - e então, se a transformação deve ocorrer, ela deve vir de fora da situação humana. Segundo Agostinho, Deus intervém no dilema humano. Ele não precisava ter feito isso, mas por seu amor pela humanidade caída, ele entrou na situação humana na pessoa de Jesus Cristo a fim de redimi-la. Agostinho considerou “graça” o dom imerecido ou imerecido de Deus, pelo qual Deus voluntariamente quebra o domínio do pecado sobre a humanidade. A redenção só é possível como um dom divino. Não é algo que possamos alcançar por nós mesmos, mas é algo que deve ser feito por nós. Agostinho enfatiza, portanto, que os recursos da salvação estão localizados fora da humanidade, no próprio Deus. É Deus quem inicia o processo de salvação, não homens ou mulheres. Para Pelágio, entretanto, a situação parecia muito diferente. Pelágio ensinou que os recursos da salvação estão localizados na humanidade. Os seres humanos individuais têm a capacidade de se salvar. Eles não estão presos pelo pecado, mas têm a habilidade de fazer tudo o que é necessário para serem salvos. A salvação é algo conquistado por meio de boas obras, que colocam Deus em obrigação para com a humanidade. Pelágio marginaliza a ideia de graça, entendendo-a em termos de exigências feitas à humanidade por Deus para que a salvação seja alcançada - como os Dez Mandamentos, ou o exemplo moral de Cristo. O ethos do Pelagianismo pode ser resumido como salvação pelo mérito, enquanto Agostinho ensinou salvação pela graça.

Será óbvio que essas duas teologias diferentes envolvem entendimentos muito diferentes da natureza humana. Para Agostinho, a natureza humana é fraca, decaída e impotente; para Pelágio, é autônomo e autossuficiente. Para Agostinho, a humanidade deve depender de Deus para a salvação; para Pelágio, Deus meramente indica o que deve ser feito se a salvação deve ser alcançada, e então deixa os homens e mulheres enfrentarem essas condições sem ajuda. Para Agostinho, a salvação é um dom imerecido; para Pelágio, a salvação é uma recompensa merecida com justiça. Um aspecto da compreensão de Agostinho da graça precisa de mais comentários. Como os seres humanos eram incapazes de salvar a si mesmos, e como Deus deu seu dom da graça a alguns (mas não a todos), seguiu-se que Deus “pré-selecionou” aqueles que seriam salvos. Desenvolvendo indícios dessa ideia a serem encontrados no Novo Testamento, Agostinho desenvolveu uma doutrina da predestinação. O termo “predestinação se refere à decisão original ou eterna de Deus de salvar alguns, e não outros. Foi esse aspecto do pensamento de Agostinho que muitos de seus contemporâneos, para não mencionar seus sucessores, consideraram inaceitável. Nem é preciso dizer que não há equivalente direto no pensamento de Pelágio.

O Concílio de Cartago (418) decidiu pelas opiniões de Agostinho sobre a graça e o pecado, e condenou o Pelagianismo em termos inflexíveis. No entanto, o pelagianismo, em várias formas, continuou a ser um ponto de discórdia por algum tempo. Quando a era patrística chegou ao fim, com a Idade das Trevas se estabelecendo na Europa ocidental, muitas das questões permaneceram sem solução. Eles seriam retomados durante a Idade Média, e de forma suprema na época da Reforma.





Fonte: McGrath, Alister E., Historical Theology, 2° ed.,  1953. pp. 33-35

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