Sonhos no Novo Testamento

SONHOS

Uma sequência de pensamentos ou imagens que ocorrem durante o sono. Os sonhos têm sido objeto de intenso interesse e reflexão crítica desde tempos imemoriais. Os conceitos modernos de sonhos devem a Sigmund Freud (1856-1939), que estabeleceu os princípios básicos que orientam a pesquisa moderna dos sonhos. As Escrituras, entretanto, em nenhum lugar refletem um interesse pela psicanálise dos sonhos.

As principais referências a sonhos na Bíblia, incluindo os Evangelhos, são aqueles casos em que os sonhos funcionaram como veículos de revelação divina. Essas referências aparecem em três grupos principais: o período patriarcal inicial (Gn 20-41), a vida de Daniel (Dan 1-7) e a narrativa da infância do Evangelho de Mateus (Mt 1-2; ver Nascimento de Jesus). Como era comum no mundo antigo, os judeus acreditavam que Deus comunicava sua vontade por meio de sonhos (Nm 12:6: “Eu [o Senhor] falo com ele em sonhos” [NVI]).

As referências a sonhos nos Evangelhos limitam-se às seis ocorrências em Mateus. Significativamente, cada ocorrência diz respeito à pessoa de Jesus. Por meio de sonhos, a concepção de Maria foi explicada a José (1:20); os sábios foram avisados para não voltarem a Herodes (2:12); José foi instruído a fugir com sua família para o Egito (2:13); José foi advertido contra se estabelecer na Judéia (2:22); e a esposa de Pôncio Pilatos foi condenada por causa de Jesus (27:19). O fato de todos esses relatos serem escritos pelo evangelista é sugerido pelo uso da frase estereotipada kat’onar, “em um sonho”, que ocorre em cada uma dessas passagens.

Esses sonhos registrados em Mateus são de dois subtipos básicos. Os sonhos da narrativa da infância foram dados para orientação e eram claramente sobrenaturais, enquanto a fonte do sonho da esposa de Pilatos é menos clara; pode apontar para uma atividade mental perturbada ou pode ter sido um sinal sobrenatural da justiça de Jesus. Em Mateus, porém, o sonho da mulher de Pilatos desempenha um papel não menos importante do que o de José e dos magos. As preocupações são essencialmente as mesmas em ambos os subtipos: questões de destino, segurança, bem-estar pessoal, etc. Portanto, o sonho da mulher de Pilatos serve para reforçar com os outros o tema básico de Mateus de que Jesus é o escolhido de Deus. O próprio fato de que deveríamos ter um vislumbre de seu tormento emocional, um tormento tão severo que ela sentiu necessidade de interromper o marido enquanto ele estava sentado “no tribunal” (27:19), claramente reforça a ênfase de Mateus na inocência de Jesus e a traição de sua oposição.

Os detalhes dos sonhos na narrativa da infância seguem uma sequência relativamente significativa. Pode-se argumentar que esses detalhes desempenham um papel importante no propósito de Mateus de mostrar o cuidado divino exercido na vida de Jesus. Primeiro, houve a ordem de Deus para que José tomasse Maria como esposa e assim estabelecesse um lar com pai e mãe no qual Jesus seria protegido da acusação de ilegitimidade (1:19-23). Isso é seguido por um sonho no qual os magos que adoravam Jesus como “rei” são instruídos a retornar ao seu país, sem primeiro relatar a Herodes (2:12). Pode haver pouca dúvida de que Mateus pretende, assim, mostrar a provisão particular de Deus para o menino Jesus em face do perigo de vida.

Este tema da proteção divina se estende ao terceiro sonho da natividade, registrado em 2:13. Ao ordenar à sagrada família que buscasse refúgio de Herodes em uma província romana de cerca de um milhão de judeus, Deus toma uma ação soberana para preservar a criança do massacre em Belém e (potencialmente) em outras cidades da Judeia. Além disso, era função desse sonho tornar possível o cumprimento de Oseias 11:1, citado em Mateus 2:15: “Do Egito chamei o meu filho” (NVI). Na crônica de Mateus sobre os eventos que cercam o nascimento de Jesus, pode haver pouca dúvida de que esse tema de predição-cumprimento antecipa a oposição a Jesus ao longo de sua vida, culminando em sua morte em Jerusalém sob os olhos de outro Herodes (ver Antigo Testamento no Evangelhos).

Os dois últimos sonhos reveladores, relatados em 2:19-23, continuam o tema da preservação divina. José é informado de que os inimigos de Jesus estão mortos e que ele deve voltar “à terra de Israel” (2:20). Mas como José provavelmente pretendia criar o filho em Belém, a cidade de Davi, ele foi guiado por um quinto e último sonho de se estabelecer na desprezada Galileia. Mais uma vez, a Escritura é cumprida: Ao estabelecer a família na Galileia, José garante que Jesus será chamado (pejorativamente) “Nazareno” (2:23).

Da perspectiva de Mateus, então, Jesus, o filho recém-nascido de Maria, é ele próprio o Rei dos Judeus. Assim, afirma Mateus, por meio dos sonhos Deus intervém na história humana para dar a conhecer seus propósitos divinos para esta criança e para protegê-la.

Uma questão final é levantada pelo fato de que um “anjo do Senhor” é mencionado em conexão com quatro dos cinco sonhos na narrativa da infância (1:20, 24; 2:13, 19). Não está claro se devemos pensar apenas em anjos ou mais especificamente em uma manifestação de Javé. A falta de dados precisos sobre a identidade desta figura deu origem a várias conclusões. Sem dúvida, o anjo do Senhor deve ser identificado de alguma forma com Deus, mas ele parece ser distinto de Deus. Talvez a melhor visão seja ver o anjo do Senhor como uma automanifestação de Javé em uma forma que comunicaria sua presença e preocupação àqueles a quem ele apareceu.

BIBLIOGRAFIA. M. M. Bourke, “The Literary Genre of Matthew 1-2,” CBQ 22 (1960) pp. 160-75; P. J. Budd, “Dream,” NIDNTT 1.511-13; D. A Carson, “Matthew,” EBC 8.75-95; A. Oepke, “ôvap,” TDNT V. 220-38; W. Richter, “Traum und Traumbedeutung im Alten Testament,” BZ 7 (1963) pp. 202-19; J. H. Stek, “Dream,” ISBE 1.991-92.

D. A. Preto

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