Palavra “unção” nos Evangelhos
Atualização:
UNÇÃO
Uso nos EvangelhosA Unção de Jesus
1. Uso nos Evangelhos.
Os atos de unção são descritos nos Evangelhos nos contextos de jejum (Mt 6,17), cura (Mc 6,13; Lc 10, 34; Jo 9, 6, 11), sepultamento (Mc 16,1; Mt 26:12) e convidados de honra (Lc 7:46). Cada contexto reflete um costume bem estabelecido (para a cura, cf. Is 1,6; sepultamento, cf. Lc 23,56; Jo 19,39). Honrar convidados ungindo-os era um costume associado à riqueza (cf. Amós 6:6; Miquéias 6:15). No caso do jejum, Jesus rompe com a tradição ao instruir aqueles que jejuam a assumir uma aparência festiva para desviar a atenção do seu ato de piedade (cf. 2Sm 12,20-23; Jdt 10,3; 16,7).
O verbo mais frequentemente empregado para “unção” é aleiphō. Refere-se ao ato externo de unção e aparece em vários contextos (Mt 6:17; Mc 6:13; 16:1; Lc 7:38, 46; Jo 11:2; 12:3). Chriō, do qual derivamos “Cristo” ou “o ungido”, aparece apenas uma vez nos Evangelhos, da unção de Jesus pelo Espírito Santo (Lc 4,18; Is 61,1 LXX). Embora epichriō, “manchar”, compartilhe uma raiz com “chriō”, ele não sugere nenhuma nuance messiânica; está associado à cura em João 9:6, 11.
2. A Unção de Jesus.
2.1. Os Quatro Evangelhos. Cada evangelista registra a unção de Jesus, embora suas ênfases sejam diferentes.
2.1.1. Marcos. Marcos 14,3-9, que aparece no início da narrativa da paixão de Marcos, ajuda a ligar essa narrativa ao resto do Evangelho, apresentando o ato da mulher e a morte de Jesus como parte integrante do evangelho (euangelion; cf. Mc 1,1, 14-15; 8:35; 10:29; 14:9; ver Evangelho [Boas Novas]). Alguns viram neste episódio uma unção real, notando como em Marcos Jesus vai para a morte como o Messias (Mc 14:61; 15:2,9,12,18,26,32). As palavras interpretativas de Jesus, no entanto, empregam a palavra rara myrizō (“ungir” - nunca usada na LXX para uma unção real) e designam explicitamente seu ato como uma unção para o sepultamento.
Esta história retrata a mulher anônima como uma discípula genuína. Primeiro, ela é contrastada com a liderança judaica e “um dos Doze”, Judas (Mc 14:1-2, 10-11). Em segundo lugar, porque ela reconhece a partida iminente de Jesus, até mesmo o uso deste óleo, que vale quase um ano de salário para um diarista, é “uma coisa linda”. As palavras de Jesus – “Tereis sempre os pobres” (v. 7) – foram por vezes lidas como fatalistas: a pobreza é inevitável. Isto é lamentável, uma vez que Jesus alude a Deuteronômio 15:11, que apela ao povo de Deus para ajudar os pobres. O seu acto de amor para com Jesus tem agora precedência sobre aqueles actos de piedade que devem continuar depois da sua partida (cf. Mc 2, 19-20). Finalmente, embora os outros seguidores de Jesus não consigam compreender as suas previsões de morte (por exemplo, Mc 8,31-33), ela reconhece que a cruz está no seu caminho.
2.1.2. Mateus. Mateus 26:6-13 marca um ponto de viragem no Evangelho de Mateus com o início da narrativa da paixão. Seguindo a quarta e última predição da morte de Jesus (Mt 26,2), a única que omite a referência à ressurreição (cf. Mt 16,21; 17,22-23; 20 :18-19), concentra a atenção na crucificação iminente de Jesus. No entanto, Mateus liga a unção à ressurreição ao declarar que aquele que “nem sempre tendes” (Mt 26,11) é ressuscitado para estar “sempre convosco” (Mt 28, 20; cf. 1,23).
A mulher anônima que unge Jesus cumpre para Mateus o papel de testemunha verdadeira no meio de testemunhas falsas (líderes religiosos; cf. Mt 23,2-3; 26,59) e testemunhas inconstantes (discípulos; cf. Mt 16,22). ; 26:14,56,75). Ao ungir Jesus para a sepultura, a mulher testemunha não só a morte de Jesus (cf. Mt 28,1; as mulheres não vêm embalsamar o corpo), mas também a sua realeza (cf. Mt 2,2; 16,28; 19:28; 21:5; 25:31; também Mt 2:11, os óleos usados na unção ritual) e messianismo (Mt 1:22; 2:4; 26:28). Os discípulos, como os fariseus legalistas do Evangelho de Mateus, vêem apenas o desperdício do ungüento e a castigam. Jesus responde chamando o que ela fez de “boa obra”, agradável a Deus (cf. Mt 5,16), e proclamando que o que ela fez será contado em todo o mundo.
2.1.3. Lucas. Lucas 7:36-50 situa a unção de Jesus durante seu ministério na Galileia. Em vez de focar no sepultamento de Jesus, esta história amplia as afirmações feitas sobre Jesus em Lucas 7:33-35: alguém que gosta de uma refeição festiva, amigo dos pecadores e Sabedoria reconhecida pelos seus filhos. Lucas narra uma interação surpreendente e complexa de interações sociais: Simão – o anfitrião de Jesus, um fariseu com visão religiosa, preocupado com a limpeza – falha em agir como anfitrião ou em reconhecer a importância de Jesus, e não mostra nenhuma preocupação com a limpeza (ver Limpo e Impuro); uma mulher pecadora (uma prostituta?) abraça o perdão, funciona como anfitriã de Jesus (Lc 7,44) e realiza um generoso ato de amor; e Jesus, amigo dos pecadores, não obstante estende a graça a Simão partilhando a sua mesa, então, contrariamente à opinião de Simão, exerce uma visão profética dos pensamentos de Simão.
No centro do palco com Jesus está esta mulher, que lava os pés de Jesus com as suas lágrimas e os unge (em vez da sua cabeça – cf. Sl 23,5) com óleo valioso. Destinatária do perdão, ela responde espontânea e graciosamente a Jesus, reconhecendo nele a redenção de Deus (Lc 1,68; 7,29-30; 19,44).
2.1.4. João. João 12:1-8 marca o início da narrativa da paixão de João. Passada em Betânia, onde Lázaro foi ressuscitado (Jo 11), a narrativa está assim enraizada na proclamação de Jesus: “Eu sou a ressurreição e a vida” (Jo 11,25). É obscurecida pela conspiração do Sinédrio contra Jesus, uma consequência direta de ele ter ressuscitado Lázaro. João difere dos outros Evangelhos ao identificar a mulher que unge Jesus como Maria de Betânia (cf. Jo 11, 2). Há alguma confusão em torno do motivo pelo qual Maria unge os pés de Jesus (cf. Jo 11,32) e depois limpa imediatamente o caro óleo com os cabelos. Visto que a mulher não é designada “pecadora”, como em Lucas, sua ação parece inadequada. Alguns sugeriram que Maria unge os pés de Jesus como se preparasse seu corpo para o sepultamento. Esta seria, então, uma unção profética, pois é Nicodemos, e não Maria, quem mais tarde traz especiarias para ungir o corpo de Jesus (Jo 19,39-40). Outra interpretação liga a unção dos pés de Jesus com a lavagem dos pés dos discípulos por Jesus (Sabbe). Neste contexto, o ato de unção de Maria exemplifica a atitude de serviço e devoção à qual Jesus chamará os discípulos (Jo 13, 12-15). A ação e a atitude de Maria contrastam fortemente com as de Judas, destacando o seu papel como verdadeira discípula.
2.2. História da Tradição. Apesar destas diferenças, estas quatro histórias são notavelmente semelhantes no que diz respeito à forma (isto é, cenário, a mulher e o unguento, a reação, resposta de Jesus) e detalhes (Green, 106-8). Dois detalhes merecem especial atenção. O primeiro é o principal acordo entre Lucas e João contra Mateus e Marcos no que diz respeito ao objeto da atenção da mulher (pés versus cabeça). Em segundo lugar, existem acordos verbais entre Marcos e João: o tipo e o custo do unguento (Mc 14:3, 5; Jo 12:3, 5); A ordem de Jesus: “Deixe-a em paz!” (Mc 14,6; Jo 12,7); e o contraste entre os pobres (que sempre tereis) e Jesus (que nem sempre tereis) (Mc 14,7; Jo 12,8; cf. Mt 26,11). Isto sugere que Marcos/Mateus representa uma forma da tradição, Lucas outra, sendo a história de João uma fusão das duas. Alguns argumentaram nesta base que João conhecia e usava os Sinópticos como fontes, mas então a atividade redacional de João torna-se inexplicável. É mais provável que João tivesse a sua própria fonte, que já refletia uma fertilização cruzada entre as tradições por trás dos Sinópticos. Se os sinópticos representam dois incidentes separados no ministério de Jesus - um centrado na mulher penitente interrompendo uma refeição na casa de um fariseu na Galileia (Lucas), o outro uma unção pré-sepultamento em Betânia (Marcos-Mateus) - continua a ser debatido.
BIBLIOGRAFIA. J. B. Green, The Death of Jesus: Tradition and Interpretation in the Passion Narrative (WUNT 2:33; Tübingen: J. C. Β. Mohr [Paul Siebeck], 1988); F. J. Matera, Passion Narratives and Gospel Theologies: Interpreting the Synoptics through Their Passion Stories (TI; New York/Mahwah: Paulist, 1986); R.Pesch, "Die Salbung Jesu im Bethanien (Mk 14,3-9). Eine Studie zur Passionsgeschichte," em Orientierung an Jesus. Zur Theologie der Synoptiker: Fur Josef Schmid, ed. P. Hoff-mann (Freiburg: Herder, 1973) 267-85; M. Sabbe, "The Footwashing in Jn 13 and Its Relation to the Synoptic Gospels," ETL 58 (1982) 279-308; D. Senior, The Passion of Jesus in the Gospel of Mark (Wilmington, DE: Michael Glazier, 1984); R F Thiemann, "The Unnamed Worn-an at Bethany," Today 44 (1987) 179-88.
J. B. Green e H. E. Hearon