Estudo Crítico do Novo Testamento

O NT não contém nenhuma narrativa da extensão e escopo daquelas do AT, mas os quatro Evangelhos e os Atos dos Apóstolos apresentam problemas que são, de certa forma, análogos às composições do AT. Os métodos pelos quais os estudiosos tentaram resolvê-los foram, em parte, semelhantes. Os estudiosos do século XIX tentaram resolver o “problema sinóptico” – por que Mateus, Marcos e Lucas são em alguns lugares semelhantes a ponto de terem redação idêntica, enquanto em outros aspectos diferem substancialmente – descobrindo quais fontes cada escritor dos Evangelhos usou. A hipótese que surgiu como explicação dominante foi chamada de “Hipótese das Duas Fontes”. De acordo com ele, Mateus e Lucas usaram independentemente o antigo Evangelho de Marcos, mantendo quase inteiramente seu esboço narrativo, mas ajustando seu estilo aos seus gostos um pouco mais literários e acrescentando a ele grandes blocos de material que tinham de outras fontes. Entre essas outras fontes havia uma que Mateus e Lucas tinham em comum (a segunda das “duas fontes”), da qual extraíram as declarações de Jesus que não foram encontradas em Marcos. Convencionalmente, esta segunda fonte hipotética tem sido chamada de “Q”, presumivelmente da palavra alemã Quelle, “fonte”.

A Hipótese das Duas Fontes ainda é considerada a hipótese de trabalho pela maioria dos estudiosos críticos do NT, embora todos reconheçam que ela não explica todas as peculiaridades das relações entre os três primeiros Evangelhos. As tentativas de reviver hipóteses anteriores, como a proposta que Mateus escreveu primeiro, que Lucas adaptou o Evangelho de Mateus e que Marcos extraiu de forma bastante idiossincrática de ambos, não obtiveram ampla aceitação. Também não foram convincentes as muitas tentativas de aperfeiçoar a hipótese das duas fontes, acrescentando ainda outras fontes hipotéticas. Os restantes problemas com a hipótese são melhor resolvidos considerando o impacto da tradição oral, por um lado, e a habilidade e liberdade dos escritores dos Evangelhos, por outro.

A crítica da forma também foi empregada pelos estudantes do NT na tentativa de reconstruir o processo pelo qual as histórias sobre Jesus e os ditos atribuídos a ele foram moldados, transmitidos e modificados pelo seu uso na vida das primeiras comunidades cristãs. Aplicadas às Cartas do NT, técnicas semelhantes isolaram algumas passagens que pareciam trechos de poesia litúrgica ou de simples credos ou fórmulas confessionais.

Também nos estudos do NT tem havido reações contra o que muitos passaram a ver como uma ênfase exagerada na hipotética pré-história dos escritos, negligenciando as qualidades retóricas e literárias dos livros tal como os temos. Muitos comentaristas recentes enfatizaram o papel dos escritores dos Evangelhos como autores, totalmente no comando de quaisquer fontes que usaram e criando a partir delas conjuntos literários coerentes. Outros alertaram contra forçar esses escritos antigos em categorias modernas, impondo-lhes teorias literárias derivadas do estudo do romance moderno ou da poesia moderna. Ao mesmo tempo, o estudo extensivo de gêneros antigos de escrita e padrões de retórica forneceu modelos mais robustos para comparar os documentos bíblicos.

Fonte: The HarperCollins Study Bible, de Harold W. Attridge.

Pesquisar mais estudos