Teologia Natural: Introdução

Os céus proclamam a glória de Deus,
e o firmamento anuncia as obras das suas mãos.
Um dia declara isso a outro dia,
e uma noite revela conhecimento a outra noite.
(Sl 19.1,2)

Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos,
a lua e as estrelas que estabeleceste,
que é o homem, para que te lembres dele?
E o filho do homem, para que o visites?
(Sl 8.3,4)

Porque, assim como o céu é mais alto do que a terra,
os meus caminhos são mais altos que os vossos caminhos,
e os meus pensamentos mais altos que os vossos pensamentos.
(Is 55.9)

Essas palavras conhecidas das Escrituras hebraicas caracterizam toda a iniciativa e tarefa da teologia natural: elas confirmam sua possibilidade, ao mesmo tempo que indicam as contradições e tensões fundamentais que essa possibilidade cria. Se os céus realmente “proclamam a glória de Deus”,1 isso significa que se pode conhecer algo sobre Deus por meio deles, que a ordem natural é capaz de revelar algo do divino. Mas isso não implica automaticamente que os seres humanos, situados como estão na natureza, sejam capazes por si mesmos, ou até mesmo capazes em quaisquer condições, de compreender o divino por meio da ordem natural. E se os céus “proclamam a glória de Deus” em uma língua que não conseguimos entender? E se a glória de Deus realmente está presente na natureza, mas não conseguimos identificá-la?

A teologia natural pode ser amplamente entendida como a investigação sistemática de uma relação proposta entre o mundo cotidiano de nossa experiência2 e uma realidade transcendente afirmada,3 uma ideia antiga e universal que alcançou desenvolvimento significativo no pensamento dos primeiros pais cristãos4 e continua a ser o assunto de muita discussão hoje. Contudo, é essencial perceber que o envolvimento sério com a teologia natural do século 21 enfrenta dificuldades tanto por um miasma na definição quanto pelas memórias remanescentes de controvérsias do passado, que criaram um clima de desconfiança em relação a essa iniciativa em muitos círculos. Como Christoph Kock indica em seu excelente estudo recente acerca dos tesouros da teologia natural no protestantismo, quase parece haver uma pressuposição em alguns círculos de que a “teologia natural” representa um tipo de heresia.5

As sombras espessas que se projetam de debates históricos e circunstâncias culturais quase esquecidos deram origem a preconceitos e forjaram abordagens à teologia natural a partir de contextos específicos que se revelaram excepcionalmente mal adaptados à situação teológica contemporânea. A ideia de “teologia natural” se mostrou tão conceitualmente fluida, resistente à definição precisa, que seus críticos podem facilmente apresentá-la como uma subversão da revelação divina, e seus adeptos, com a mesma facilidade, como seu resultado evidente. Em vez de perpetuar essa situação insatisfatória, há muitos elementos que favorecem um novo começo, deixando realmente de lado definições, preconceitos, juízos e atitudes discriminatórias do passado, para permitir uma nova análise dessa ideia fascinante e significativa.

Este livro se propõe a desenvolver uma abordagem caracteristicamente cristã à teologia natural, recuperando e reformulando abordagens mais antigas, que foram marginalizadas ou consideradas antiquadas nos últimos anos, ao estabelecê-las em bases intelectuais mais seguras. Defendemos que, se a natureza deve revelar o transcendente, ela deve ser “percebida” ou “lida” de certas formas específicas — formas que não são em si necessariamente ordenadas pela própria natureza. Argumenta-se que a teologia cristã fornece um quadro interpretativo pelo qual a natureza pode ser “vista” de uma forma que se relacione com o transcendente. Portanto, a tarefa da teologia natural é de discernimento — ver a natureza de uma forma específica, vê-la através de óculos únicos e precisos.

Existem muitas formas de “teologia natural”, e a longa história de reflexão teológica cristã testemunha uma rica diversidade de abordagens, nenhuma delas alcançando a proeminência — até o surgimento do Iluminismo. Como veremos, o surgimento da “Idade da Razão” deu origem a um grupo de abordagens à teologia natural que defenderam sua capacidade de demonstrar a existência de Deus sem recorrer a quaisquer crenças religiosas ou pressuposições. Esse desenvolvimento, que reflete a ênfase do Iluminismo sobre a autonomia e soberania da razão humana sem ajuda externa, teve um impacto muito significativo na formação das atitudes cristãs à teologia natural. Sua influência foi tanta que, para muitos cristãos, agora há um pressuposto inconsciente de que a “teologia natural” designa a tarefa de defender e demonstrar a existência de Deus com base direta na observação da natureza.

Esta obra se opõe a essa abordagem, argumentando a favor de uma redefinição conceitual e uma relocação metodológica da teologia natural. Ao contrário das aspirações do Iluminismo por uma teologia natural universal, baseada na razão humana comum e na experiência da natureza, sustentamos que uma teologia natural cristã está fundamentada em um alicerce teológico cristão característico e é definida por ele. O entendimento cristão da natureza é o pré-requisito intelectual para uma teologia natural que revela o Deus cristão.

O cristianismo apresenta uma redefinição do “natural”, com implicações muito importantes para uma “teologia natural”. Pode-se dizer que o “evento Cristo” definitivo, como interpretado pela doutrina cristã distintiva e característica da encarnação, redime a categoria do “natural”, permitindo que ele seja visto de uma nova maneira. Em nossa compreensão, uma “teologia natural” possível é, na verdade, uma “teologia natural cristã”, à medida em que ela é formulada e possibilitada pelas ideias normativas da fé cristã. Uma teologia natural devidamente cristã aponta para o Deus da fé cristã, não para alguma ideia generalizada de divindade separada da vida e do testemunho da igreja.6

O conceito de discernimento cristão — de ver as coisas à luz de Cristo — é muitas vezes encontrado em todo o Novo Testamento. Paulo exorta seus leitores a não se amoldarem “ao esquema deste mundo”, mas a serem “transformados pela renovação da [sua] mente” (Rm 12.2) — afirmando assim a capacidade da fé cristã de produzir uma mudança radical na forma que entendemos e habitamos o mundo.7

O Novo Testamento usa uma ampla variedade de imagens para descrever essa mudança, muitas delas sugerem uma mudança na forma de ver as coisas: nossos olhos são abertos, e um véu é removido (At 9.9-19; 2Co 3.13-16). Essa “transformação pela renovação da mente” torna possível ver e interpretar as coisas de uma nova maneira. Por exemplo, as Escrituras hebraicas passaram a ser entendidas como um texto que aponta para seu cumprimento final em Cristo, ou seja, ultrapassando seu contexto histórico imediato.8 De forma semelhante, o mundo passa a ser visto como algo que aponta para Cristo, seu Criador supremo, ou seja, para além da esfera da experiência cotidiana.9

Uma teologia natural cristã, portanto, está relacionada à observação da natureza de uma maneira específica, que torna possível identificar a verdade, a beleza e a bondade de Deus e que reconhece a natureza como um indicador legítimo, autorizado e limitado do divino. Isso não significa que a teologia natural “prove” a existência de Deus ou de uma esfera transcendente com base na razão pura nem que veja a natureza como meio de acesso a um sistema teísta completo.10 Em vez disso, a teologia natural aborda questões fundamentais sobre a revelação divina e a cognição e percepção humanas. De que maneira os seres humanos, refletindo sobre a natureza por meio de processos naturais, podem identificar o transcendente?

Este livro representa um ensaio — no sentido clássico francês de essai, “uma tentativa” — que objetiva estabelecer as bases para a renovação e a revalidação da teologia natural, essencialmente como um aspecto legítimo da teologia cristã, mas também como uma contribuição para uma discussão cultural mais ampla. A teologia natural trata de algumas das grandes questões da filosofia e, portanto, da vida. O que podemos saber? O que aquilo que sabemos sugere sobre a própria realidade? Como isso influi na maneira de nos comportarmos e o que podemos nos tornar? Essas perguntas se recusam a serem limitadas aos domínios da investigação acadêmica, à medida que são relevantes para a cultura como um todo.

Portanto, o livro apresenta um reexame de toda a questão dos fundamentos intelectuais, utilidade espiritual e limites conceituais da teologia natural. Essa tarefa implica uma análise crítica do estado atual do debate, mas também se baseia em uma análise histórica. Para isso, é central a observação de que a definição de teologia natural foi modificada no século 18 a fim de conformar-se aos interesses do Iluminismo. Consequentemente, a teologia natural passou a ser entendida principalmente como uma tentativa um pouco frustrada de provar a existência de Deus com base em considerações não religiosas, sobretudo por meio de um apelo à “natureza”.

O livro está dividido em três partes principais. Ele começa com a análise do interesse humano incessante pelo transcendente, ilustrando sua persistência em tempos supostamente seculares e descrevendo os métodos e as técnicas que surgiram à medida que a humanidade tentou se elevar acima de sua existência terrena e descobriu algo identificado como de importância e valor duradouros. Isso está correlacionado com os entendimentos contemporâneos da psicologia da percepção.

A segunda parte vai além da busca humana comum pelo transcendente e a identifica no contexto de um engajamento com a esfera natural, sustentado e influenciado pelas ideias específicas da tradição cristã. A teologia natural é interpretada nessa parte não como busca comum pela divindade da perspectiva de nossa própria escolha, mas como um engajamento com a natureza que é dirigido por uma visão cristã da realidade, com base em uma ontologia trinitária e encarnacional. Essa parte inclui uma investigação detalhada das origens históricas e dos erros conceituais do grupo de teologias naturais que surgiram em resposta ao Iluminismo, que dominou a discussão do assunto no século 20.

A terceira e última parte vai além do conceito de teologia natural como tentativa de produzir sentido, apresentando uma visão mais ampla e rica de suas atribuições e possibilidades. Argumenta-se que as abordagens racionalistas à teologia natural representam uma redução de seu alcance, refletindo a influência persistente dos interesses e preocupações da “Idade da Razão”. A teologia natural deve ser reformulada para envolver todos os aspectos do encontro humano com a natureza — racional, imaginativo e moral.

Como este volume oferece uma nova abordagem, que representa um desafio para muitas concepções existentes da natureza e possibilidades de teologia natural, realizaremos a seguir um breve relato de seus temas principais, que serão expandidos e desenvolvidos nos capítulos posteriores.

Notas
1 O termo hebraico em Salmos 19.1 traduzido por “proclamar” pode ter outros significados como “declarar”, “anunciar” e “enumerar”. Veja tb. James Barr, “Do we perceive the speech of the heavens? A Question in Psalm 19”, in: Jack C. Knight; Lawrence A. Sinclair, orgs., The Psalms and other studies on the Old Testament (Nashotah: Nashotah House Seminary, 1990), p. 11-7. Alguns autores cristãos medievais interpretaram esse salmo de modo alegórico, sustentando que a citação de Paulo do salmo em Romanos 10.18 indicava que o salmo inteiro era uma profecia da pregação apostólica mediante a alegoria ou imagem dos céus criados. Essa perspectiva foi rejeitada por Martin Bucer, que considerou a abordagem exegeticamente improvável. Veja R. Gerald Hobbs, “How firm a foundation: Martin Bucer’s historical exegesis of the Psalms”, Church History 53 (1984): 477-91.

2 Ao longo desta obra, assumiremos uma cosmovisão realista, sem apresentar uma defesa detalhada dela. Para uma defesa dessa hipótese veja Alister E. McGrath, A scientific theology (London: T&T Clark, 2002), vol. 2: Reality, p. 121-313.

3 A existência dessa realidade transcendente não é universalmente aceita: veja, e.g., a posição defendida por Bertrand Russell, “On denoting”, Mind 14 (1905): 479-93.

4 Veja esp. Jaroslav Pelikan, Christianity and classical culture: the metamorphosis of natural theology in the Christian encounter with Hellenism (New Haven: Yale University Press, 1993).

5 Christoph Kock, Natürliche Theologie: ein evangelischer Streitbegriff (Neukirchen-Vluyn: Neukirchener, 2001), p. 392-5, sugere que antes de qualquer reconstrução da disciplina ser possível, há a necessidade de fazer “die Enthäretisierung natürlicher Theologie” (p. 392), uma expressão de difícil compreensão e artificial, que é provavelmente mais bem parafraseada como “a remoção do estigma de heresia da teologia natural”.

6 Esse aspecto foi ressaltado por Stanley Hauerwas em suas recentes palestras Gifford: Stanley Hauerwas, With the grain of the universe: the church’s witness and natural theology (London: SCM, 2002), p. 15-6: “A teologia natural separada de uma doutrina [cristã] completa sobre Deus invariavelmente distorcerá o caráter de Deus e, consequentemente, também do mundo em que nos encontramos […] Devo ressaltar que o Deus que move o sol e as estrelas é o mesmo que se encarnou em Jesus de Nazaré” (grifo do autor).

7 Isso significa mais do que uma mudança cognitiva ou intelectual. Portanto, João Crisóstomo argumenta (Homilies on Romans, p. 20) que o sentido do texto de Paulo não é que os cristãos devem observar o mundo de uma maneira nova, mas que a transformação deles pela graça leva-os a observar o mundo dessa nova maneira. Veja a excelente análise em Demetrios Trakatellis, “Being transformed: Chrysostom’s exegesis of the Epistle to the Romans”, Greek Orthodox Theological Review 36 (1991): 211-29.

8 Veja Gordon J. Hamilton, “Augustine’s methods of biblical interpretation”, in: H. A. Meynell, org., Grace, politics and desire: essays on Augustine (Calgary: University of Calgary Press, 1990), p. 103-19; John Barton, “The Messiah in Old Testament theology”, in: John Day, org., King and Messiah in Israel and the ancient Near East (Sheffield: Sheffield Academic, 1998), p. 365-79, esp. p. 371-2.

9 João 1.14-18; Colossenses 1.15-19; Hebreus 1.1-8. Há paralelos importantes aqui com a busca do Renascimento por uma “linguagem natural”, fundamentada na ordem natural, capaz de representar “o que é”, e não apenas “o que é dito”. Veja Allison Coudert, “Some theories of a natural language from the Renaissance to the seventeenth century”, in: Albert Heinekamp; Dieter Mettler, orgs., Magia Naturalis und die Entstehung der modernen Naturwissenschaften (Wiesbaden: Steiner, 1978), p. 56-118.

10 Veja os comentários de Barr sobre o âmbito dos conceitos bíblicos da teologia natural: James Barr, Biblical faith and natural theology (Oxford: Clarendon, 1993), p. 138.

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