Romanos 1.1: Comentário Crítico-Exegético do Texto Grego
Resumo: Romanos 1.1 constitui a primeira unidade da extensa abertura epistolar de Romanos e concentra, em uma única construção, os elementos fundamentais da autocompreensão apostólica de Paulo. O presente estudo examina o versículo mediante análise crítico-textual, lexical, semântica, morfológica, sintática, discursiva, histórico-social e exegético-teológica, com atenção especial às três qualificações que se seguem ao nome Παῦλος (Paulos, “Paulo”): δοῦλος Χριστοῦ Ἰησοῦ (doulos Christou Iēsou, “escravo de Cristo Jesus”), κλητὸς ἀπόστολος (klētos apostolos, “apóstolo chamado”) e ἀφωρισμένος εἰς εὐαγγέλιον θεοῦ (aphōrismenos eis euangelion theou, “separado para o evangelho de Deus”). A investigação demonstra que essas expressões não constituem simples ornamentação protocolar, mas uma expansão teologicamente programática da identificação do remetente, mediante a qual Paulo apresenta simultaneamente sua pertença a Cristo, o caráter derivado de sua autoridade e sua destinação ao evangelho de Deus. A designação δοῦλος é examinada tanto à luz das tradições bíblico-judaicas do servo de Deus quanto do universo social da escravidão greco-romana, incluindo criticamente a proposta de uma possível ressonância da familia Caesaris, sem tomá-la como significado exclusivo ou demonstrado do termo. A relação entre κλητός, ἀπόστολος e ἀφωρισμένος evidencia, por sua vez, importantes paralelos com a linguagem veterotestamentária de vocação profética e com a própria descrição paulina de seu chamado em Gl 1.15–16. A análise sintática identifica três caracterizações nominativas sucessivas e coreferenciais, em relação apositiva com Παῦλος (Paulos, “Paulo”), enquanto a construção participial final orienta toda a autodefinição para o εὐαγγέλιον θεοῦ (euangelion theou, “evangelho de Deus”). Assim, antes mesmo de definir o conteúdo do evangelho nos versículos seguintes, Rm 1.1 estabelece que a identidade, autoridade e missão do remetente derivam de uma iniciativa que Paulo atribui a Deus e a Cristo, antecipando temas estruturantes de toda a epístola.
Palavras-chave: Romanos 1.1; Paulo; δοῦλος; apostolado; chamado; evangelho de Deus.
I. Introdução
Veja: Comentário e Explicação Devocional de Romano 1
Romanos 1.1 deve ser interpretado, em primeiro lugar, como parte integrante do prescrito epistolar de Rm 1.1–7. A abertura da carta conserva os componentes fundamentais da correspondência greco-romana — identificação do remetente, identificação dos destinatários e saudação —, mas Paulo amplia extraordinariamente esses elementos. Stowers (1986: 20–21, cf. ref. Letter Writing in Greco-Roman Antiquity, ed. WJK) observa que a fórmula básica das cartas gregas e latinas consistia normalmente na indicação do remetente, do destinatário e de uma saudação; nas cartas paulinas, porém, essas fórmulas podiam ser modificadas para realizar funções específicas dentro da própria comunicação. Em Romanos, essa ampliação começa já na identificação do remetente e se estende por vários versículos.
A unidade sintática completa do prescrito é, portanto, Rm 1.1–7, não apenas o primeiro versículo. Byrskog (1997: 27–28, cf. ref. “Epistolography, Rhetoric and Letter Prescript”, ed. SAGE) insiste justamente em que o prescrito constitui uma categoria propriamente epistolar e que sua extensão incomum em Romanos exige investigar se, além da função protocolar, ele desempenha funções comunicativas mais amplas. Essa consideração impede que Rm 1.1 seja tratado como uma sentença autônoma sem relação com os versículos seguintes: o sintagma final εἰς εὐαγγέλιον θεοῦ (eis euangelion theou, “para o evangelho de Deus”) abre uma sequência de expansões que prossegue em 1.2–6 e só alcança o destinatário e a saudação propriamente ditos em 1.7.
Apesar dessa continuidade sintática, há razões exegéticas suficientes para analisar Rm 1.1 como unidade própria dentro do prescrito. Matera (2010: 27–28, cf. ref. Romans, ed. Baker Academic) divide a abertura de Rm 1.1–17 identificando 1.1 especificamente como a autopresentação de Paulo, seguida pela descrição do evangelho em 1.2–4, pela explicitação de seu apostolado em 1.5–6 e pela saudação aos destinatários em 1.7. O versículo possui, assim, relativa autonomia funcional: ele responde inicialmente à pergunta “quem escreve?”, embora a resposta de Paulo imediatamente conduza ao evangelho que fundamenta sua missão.
A. Contexto literário imediato
A posição de Rm 1.1 na carta é particularmente significativa porque Paulo não se limita à identificação nominal Παῦλος (Paulos, “Paulo”). O nome do remetente é imediatamente acompanhado por três qualificações: δοῦλος Χριστοῦ Ἰησοῦ (doulos Christou Iēsou, “escravo de Cristo Jesus”), κλητὸς ἀπόστολος (klētos apostolos, “apóstolo chamado”) e ἀφωρισμένος εἰς εὐαγγέλιον θεοῦ (aphōrismenos eis euangelion theou, “separado para o evangelho de Deus”). Byrskog (1997: 29) identifica precisamente essa estrutura como uma qualificação tríplice do remetente e demonstra que a última delas desencadeia a longa expansão sintática subsequente: o “evangelho de Deus” é explicado histórica e cristologicamente em 1.2–4, e a referência a Cristo conduz, por sua vez, novamente ao apostolado paulino em 1.5–6.
Isso significa que Rm 1.1 não funciona como uma simples etiqueta colocada antes da mensagem. O versículo fornece o primeiro impulso sintático e conceitual de toda a abertura. O leitor passa de Paulo para sua relação com Cristo, de sua relação com Cristo para sua vocação apostólica, e de sua vocação para o evangelho de Deus. A partir daí, 1.2–4 explicará esse evangelho, e 1.5–6 retornará à missão apostólica e à sua abrangência entre as nações. A sintaxe acompanha, portanto, uma progressão teológica.
Essa extraordinária expansão diferencia Romanos das aberturas epistolares mais simples. Kruse (2012: 35–36, cf. ref. Paul’s Letter to the Romans, ed. Eerdmans) observa que o cumprimento grego convencional podia assumir uma forma muito breve, equivalente a “A para B, saudações”, enquanto o primeiro elemento do prescrito de Romanos é amplamente desenvolvido para que Paulo possa apresentar seu apostolado e o evangelho ao qual foi separado. Stowers (1986: 21) chega a descrever a saudação de Romanos como uma expansão do nome do remetente em direção a um resumo do evangelho e da vocação de Paulo para ser apóstolo entre os gentios.
B. Função de Romanos 1.1 na abertura da carta
A densidade dessa autopresentação deve ser considerada à luz da relação particular entre Paulo e seus destinatários. Diferentemente de cartas dirigidas a comunidades cuja fundação estava diretamente ligada à sua atividade missionária, a carta aos Romanos é dirigida a cristãos de uma cidade que Paulo ainda não havia visitado, embora conhecesse pessoalmente vários indivíduos ligados às comunidades romanas (Rm 1.10–13; 15.22–24; 16.1–16). A apresentação inicial possui, portanto, especial relevância comunicativa: antes de desenvolver extensamente seu evangelho e manifestar seu propósito de exercer ministério entre os romanos, Paulo define a natureza da autoridade a partir da qual lhes escreve.
Não se deve, contudo, reduzir essa expansão a uma simples tentativa apologética de provar suas credenciais. Byrskog (1997: 34) ressalta que o prescrito antigo possuía fundamentalmente uma função relacional: sua configuração podia refletir e estabelecer a relação entre correspondentes. No caso de Romanos, a apresentação de Paulo simultaneamente estabelece sua relação com Cristo, define sua comissão diante dos destinatários e introduz o assunto que dominará a carta. A autopresentação é, portanto, ao mesmo tempo relacional, apostólica e programática.
A sequência dos três qualificativos é relevante nesse aspecto. Paulo não começa reivindicando posição social, formação, origem étnica ou prestígio pessoal. Ele define a si mesmo por relações e ações cuja origem se situa fora dele: pertence a Cristo como δοῦλος (doulos, “escravo”); é κλητός (klētos, “chamado”); encontra-se ἀφωρισμένος (aphōrismenos, “separado”) para determinada finalidade. A gramática da apresentação sugere, já antes de qualquer desenvolvimento teológico posterior, uma identidade recebida e uma missão conferida. Kruse (2012: 39–40) interpreta especialmente o último qualificativo como separação para uma finalidade — a proclamação do evangelho — e relaciona essa linguagem à própria compreensão paulina de seu chamado em Gl 1.15–16.
C. Função no argumento de Romanos
O elemento que estabelece a conexão mais evidente entre Rm 1.1 e o restante da epístola é εὐαγγέλιον (euangelion, “evangelho”). O termo aparece na primeira frase da carta e volta repetidamente na abertura: o evangelho é prometido previamente (1.2), diz respeito ao Filho de Deus (1.3), constitui a esfera da missão apostólica de Paulo (1.5), é aquilo que ele deseja anunciar em Roma (1.15), é o poder de Deus para a salvação (1.16) e é o âmbito em que a justiça de Deus se revela (1.17). Por isso, a expressão εὐαγγέλιον θεοῦ (euangelion theou, “evangelho de Deus”) em 1.1 constitui mais do que a indicação do campo de atividade de Paulo: introduz lexicalmente um dos conceitos estruturantes da abertura e da carta como um todo.
Matera (2010: 27–28) situa 1.1–17 como a grande abertura da carta e observa que 1.16–17 está intimamente ligado ao material precedente justamente porque retoma e desenvolve o evangelho anunciado anteriormente. Desse modo, existe uma linha facilmente perceptível entre ἀφωρισμένος εἰς εὐαγγέλιον θεοῦ (aphōrismenos eis euangelion theou, “separado para o evangelho de Deus”) em 1.1 e οὐ γὰρ ἐπαισχύνομαι τὸ εὐαγγέλιον (ou gar epaischynomai to euangelion, “pois não me envergonho do evangelho”) em 1.16. O remetente definido pelo evangelho em 1.1 apresentará, poucos versículos depois, a tese acerca do poder salvífico desse mesmo evangelho.
Isso também recomenda cautela metodológica contra a leitura de cada expressão de Rm 1.1 de maneira atomizada. δοῦλος, ἀπόστολος, ἀφωρισμένος e εὐαγγέλιον possuem histórias lexicais próprias, mas seu significado exegético deve ser determinado pela relação que mantêm entre si no versículo e pela expansão que recebem em 1.2–7. A análise lexical posterior deverá, portanto, distinguir cuidadosamente entre o campo semântico possível de cada termo e o sentido efetivamente ativado pela construção paulina.
D. Questões exegéticas principais
Rm 1.1 concentra vários problemas que exigem investigação independente. O primeiro diz respeito ao valor de δοῦλος Χριστοῦ Ἰησοῦ (doulos Christou Iēsou, “escravo de Cristo Jesus”). Será necessário avaliar tanto os antecedentes bíblico-judaicos da autodesignação “servo/escravo de Deus” quanto o universo concreto da escravidão greco-romana. A discussão moderna tornou-se especialmente relevante porque Brown (2001: 724, 731–732, cf. ref. “Paul’s Use of ΔΟΥΛΟΣ ΧΡΙΣΤΟΥ ΙΗΣΟΥ in Romans 1:1”, ed. SBL) propôs interpretar a expressão de Rm 1.1 também à luz da realidade social da familia Caesaris, hipótese que deverá ser confrontada com estudos históricos sobre escravidão e dependência no mundo romano, sobretudo Weaver, sem pressupor antecipadamente que essa ressonância constitui o referente primário da expressão.
O segundo problema reside em κλητὸς ἀπόστολος (klētos apostolos, “apóstolo chamado”). A construção exige determinar a relação sintática entre o adjetivo e o substantivo e, sobretudo, compreender que espécie de “chamado” está pressuposta. A linguagem deverá ser examinada em relação à própria narrativa paulina de vocação, particularmente Gl 1.15–16, mas também à linguagem bíblica de comissão profética e ao emprego de ἀπόστολος (apostolos, “apóstolo/enviado”) no corpus paulino.
O terceiro problema envolve ἀφωρισμένος εἰς εὐαγγέλιον θεοῦ (aphōrismenos eis euangelion theou, “separado para o evangelho de Deus”). Aqui será necessário estabelecer o valor do particípio perfeito passivo, a força semântica de ἀφορίζω (aphorizō, “separar, designar”), a função da preposição εἰς (eis) e a relação do genitivo θεοῦ (theou, “de Deus”) com εὐαγγέλιον. Também deverá ser considerada a relação dessa formulação com Gl 1.15, passagem em que Paulo emprega o mesmo verbo ao descrever sua vocação.
Finalmente, existe uma questão propriamente discursiva: por que Paulo escolhe essas três qualificações e nessa sequência? Byrskog (1997: 29–30) mostra que a estrutura não é uma acumulação aleatória de títulos; as expansões encontram-se hierarquicamente articuladas, e a referência ao evangelho de Deus fornece o ponto de partida para o desenvolvimento que ocupa os versículos seguintes. A interpretação deverá, portanto, explicar não apenas cada expressão isoladamente, mas a arquitetura completa da autopresentação paulina.
E. Objetivo da análise
A análise de Romanos 1.1 buscará reconstruir essa arquitetura mediante uma sequência metodológica controlada. Primeiramente será apresentado o texto da NA28, acompanhado de uma tradução literal e de uma tradução fluida; em seguida, a crítica textual examinará as variantes relevantes e a decisão adotada pelo texto crítico. A investigação lexical, semântica, morfológica, sintática e discursiva avaliará Παῦλος (Paulos, “Paulo”), δοῦλος (doulos, “escravo”), Χριστός (Christos, “Cristo/Messias”), κλητός (klētos, “chamado”), ἀπόστολος (apostolos, “apóstolo”), ἀφορίζω (aphorizō, “separar”), εὐαγγέλιον (euangelion, “evangelho”) e θεός (theos, “Deus”) somente na medida em que cada elemento contribua para o sentido da unidade e para sua articulação com Rm 1.2–7.
Uma seção dedicada à história da interpretação situará esses resultados dentro do desenvolvimento da exegese de Romanos, distinguindo continuidades, refinamentos e correções entre comentaristas clássicos, filólogos dos séculos XVIII–XIX e a pesquisa contemporânea. A comparação com versões antigas e modernas mostrará, depois, como diferentes tradições traduziram os problemas já estabelecidos pela análise do grego. Por fim, a síntese exegético-teológica reunirá os resultados sem confundir dado gramatical, reconstrução histórica e interpretação teológica. Desse modo, Rm 1.1 será tratado simultaneamente como fórmula epistolar, autodefinição apostólica e início programático da argumentação que se desenvolverá ao longo da carta.
II. Texto e tradução exegética
Texto grego — NA28
Παῦλος δοῦλος Χριστοῦ Ἰησοῦ, κλητὸς ἀπόστολος ἀφωρισμένος εἰς εὐαγγέλιον θεοῦ,
Transliteração: Paulos doulos Christou Iēsou, klētos apostolos aphōrismenos eis euangelion theou.
Tradução literal
Paulo, escravo de Cristo Jesus, apóstolo chamado, tendo sido separado para o evangelho de Deus.
Tradução fluida
Paulo, escravo de Cristo Jesus, chamado para ser apóstolo e separado para o evangelho de Deus.
A tradução literal procura conservar, tanto quanto o português permite, a compactação nominal do grego. Depois de Παῦλος (Paulos, “Paulo”), seguem três caracterizações do mesmo referente: δοῦλος Χριστοῦ Ἰησοῦ (doulos Christou Iēsou, “escravo de Cristo Jesus”), κλητὸς ἀπόστολος (klētos apostolos, “apóstolo chamado”) e ἀφωρισμένος εἰς εὐαγγέλιον θεοῦ (aphōrismenos eis euangelion theou, “separado para o evangelho de Deus”). A tradução fluida, por sua vez, explicita em português a relação entre κλητός (klētos, “chamado”) e ἀπόστολος (apostolos, “apóstolo”) mediante “chamado para ser apóstolo”, sem pressupor que o grego contenha um infinitivo correspondente a “ser”.
A. “Escravo de Cristo Jesus”
A opção por “escravo”, em vez do tradicional “servo”, preserva de modo mais transparente a força básica de δοῦλος (doulos, “escravo”) e a relação de pertencimento expressa por Χριστοῦ Ἰησοῦ (Christou Iēsou, “de Cristo Jesus”). A ordem “Cristo Jesus” também acompanha o texto adotado pela NA28; a variante Ἰησοῦ Χριστοῦ (Iēsou Christou, “Jesus Cristo”) será examinada na crítica textual.
B. “Apóstolo chamado” / “chamado para ser apóstolo”
A tradução literal “apóstolo chamado” mantém visível a estrutura adjetivo + substantivo de κλητὸς ἀπόστολος (klētos apostolos, “apóstolo chamado”). Na tradução fluida, “chamado para ser apóstolo” torna essa relação mais natural em português. O acréscimo de “para ser” é, portanto, uma explicitação idiomática, não a tradução de palavras independentes presentes no grego.
C. “Tendo sido separado” / “separado para o evangelho de Deus”
A tradução literal “tendo sido separado” procura tornar perceptível ao leitor português a morfologia de ἀφωρισμένος (aphōrismenos, “separado”), perf. part. pass. nom. sg. masc., enquanto a tradução fluida emprega simplesmente “separado”. O português “tendo sido”, contudo, é uma explicitação pedagógica da construção participial e não deve ser tratado como equivalente palavra por palavra do perfeito grego nem como prova, por si só, de uma sequência cronológica. Em ambas as traduções, εἰς εὐαγγέλιον (eis euangelion, “para o evangelho”) conserva a orientação final da construção, e θεοῦ (theou, “de Deus”) é mantido sem antecipar na própria tradução a classificação exata do genitivo. Essas questões serão estabelecidas na análise morfossintática, não por meio de paráfrases inseridas previamente na tradução.
III. Crítica textual
A. Delimitação do problema textual
Romanos 1.1 apresenta um quadro textual relativamente estável. Não há variantes que alterem a estrutura fundamental do versículo, isto é, a identificação de Paulo como δοῦλος (doulos, “escravo”), κλητὸς ἀπόστολος (klētos apostolos, “apóstolo chamado”) e ἀφωρισμένος (aphōrismenos, “separado”) para o evangelho de Deus. A variante realmente relevante encontra-se na primeira autodesignação e consiste na ordem dos elementos do nome/título de Jesus:
NA28:
δοῦλος Χριστοῦ Ἰησοῦ doulos Christou Iēsou “escravo de Cristo Jesus”
Leitura variante:
δοῦλος Ἰησοῦ Χριστοῦ doulos Iēsou Christou “escravo de Jesus Cristo”
A NA28, portanto, adota Χριστοῦ Ἰησοῦ (Christou Iēsou, “de Cristo Jesus”). A mesma leitura é adotada pela UBS5. Porter e Yoon (2023: 2, cf. ref. Romans: A Handbook on the Greek Text, ed. Baylor University Press) registram explicitamente que essa ordem é sustentada por 𝔓¹⁰, B e 81, além de algumas versões, enquanto a ordem inversa possui apoio documental numericamente muito mais amplo.
B. Evidência externa
A leitura Χριστοῦ Ἰησοῦ (Christou Iēsou, “Cristo Jesus”), apesar de minoritária em quantidade de testemunhos, conta com testemunhas de peso. Entre elas estão 𝔓¹⁰, o Códice Vaticano (B) e o minúsculo 81. Porter e Yoon (2023: 2) observam justamente essa assimetria: a leitura escolhida pela NA28 possui um conjunto menor de testemunhos, ao passo que Ἰησοῦ Χριστοῦ (Iēsou Christou, “Jesus Cristo”) aparece em 𝔓²⁶, א, A, G, K, L, P, Ψ, 33, 104, 630, 1175, 1241, 1505, 1506, 1739, 1881, 2464, no lecionário 249 e na tradição majoritária, além de versões antigas.
O aparato mais extenso reproduzido por Jewett (2006: 95, cf. ref. Romans: A Commentary, ed. Fortress Press) confirma a amplitude desse segundo grupo. Ἰησοῦ Χριστοῦ possui apoio de uma extensa série de maiúsculos, minúsculos, lecionários, testemunhos latinos, siríacos e coptas, bem como de autores patrísticos. Em contraste, Χριστοῦ Ἰησοῦ é sustentado por um conjunto sensivelmente menor, embora qualitativamente importante, que inclui 𝔓¹⁰ e B. O próprio Jewett reconhece expressamente que “Jesus Cristo” é a leitura mais amplamente atestada.
Isso impede uma argumentação simplista segundo a qual a leitura da NA28 venceria simplesmente por possuir “mais manuscritos” ou, inversamente, que a variante deveria ser preferida apenas por possuir maioria numérica. A crítica textual precisa considerar conjuntamente qualidade dos testemunhos, distribuição da leitura e probabilidade de desenvolvimento no processo de transmissão. Neste caso, a evidência externa, considerada isoladamente, não torna a decisão óbvia: a variante Ἰησοῦ Χριστοῦ é extraordinariamente bem difundida, enquanto Χριστοῦ Ἰησοῦ é sustentada por um grupo menor, porém significativo.
C. Evidência interna e probabilidade transcricional
É sobretudo a evidência interna que torna Χριστοῦ Ἰησοῦ (Christou Iēsou, “Cristo Jesus”) particularmente plausível. O dado decisivo é o contexto imediato. Nos poucos versículos seguintes, Paulo emprega repetidamente a ordem Ἰησοῦ Χριστοῦ (Iēsou Christou, “Jesus Cristo”): em Romanos 1.4, 1.6, 1.7 e 1.8. Consequentemente, um copista que encontrasse em 1.1 a ordem menos esperada Χριστοῦ Ἰησοῦ teria diante de si vários modelos próximos que poderiam favorecer, consciente ou inconscientemente, sua normalização para Ἰησοῦ Χριστοῦ.
É precisamente esse o argumento apresentado por Jewett (2006: 95): embora “Jesus Cristo” possua apoio documental mais amplo, “Cristo Jesus” constitui a leitura mais difícil no contexto, justamente porque a sequência contrária domina os versículos imediatamente seguintes. Porter e Yoon (2023: 2) chegam igualmente à conclusão de que, apesar da superioridade numérica dos manuscritos favoráveis a Ἰησοῦ Χριστοῦ, Χριστοῦ Ἰησοῦ representa a melhor leitura primitiva.
O princípio da lectio difficilior não deve ser aplicado mecanicamente, como se toda leitura menos comum fosse necessariamente original. Neste caso, porém, existe uma explicação transcricional concreta e direcional: é fácil compreender por que um escriba substituiria Χριστοῦ Ἰησοῦ por Ἰησοῦ Χριστοῦ, harmonizando Romanos 1.1 com a sequência encontrada em 1.4, 6, 7 e 8; é consideravelmente mais difícil explicar por que escribas teriam realizado espontaneamente o movimento contrário, introduzindo em 1.1 uma ordem menos representada no contexto imediato. Essa assimetria aumenta a probabilidade de Χριστοῦ Ἰησοῦ estar na origem das duas formas transmitidas.
A consideração do usus scribendi paulino reforça a decisão, embora deva permanecer argumento subsidiário. Harvey observa que, no corpus paulino, a sequência Χριστοῦ Ἰησοῦ (Christou Iēsou, “Cristo Jesus”) é amplamente atestada e registra que a UBS5 conserva essa leitura em Rm 1.1 com a classificação {B}; ele também chama atenção para a preferência estatística de Paulo por “Cristo Jesus” em comparação com “Jesus Cristo”. Esses dados mostram que a leitura da NA28 não é estranha ao uso paulino, mas não substituem a avaliação conjunta da evidência externa e da probabilidade transcricional (Harvey, 2017: comentário a Rm 1.1, cf. ref. Romans, ed. B&H Academic).
D. Avaliação
A combinação das evidências favorece, portanto, a leitura da NA28. A superioridade numérica de Ἰησοῦ Χριστοῦ não deve ser minimizada: trata-se de uma variante antiga, amplamente difundida e sustentada por testemunhos importantes. Por isso, não seria metodologicamente correto descrevê-la como uma corrupção tardia ou uma leitura textualmente insignificante. Entretanto, sua própria conformidade com a sequência dominante nos versículos seguintes fornece uma explicação bastante natural para sua expansão na tradição manuscrita.
Em contrapartida, Χριστοῦ Ἰησοῦ dispõe de importante testemunho externo e apresenta maior capacidade de explicar genealogicamente a existência da leitura concorrente. A direção provável da alteração é:
Χριστοῦ Ἰησοῦ → Ἰησοῦ Χριστοῦ
mais naturalmente do que:
Ἰησοῦ Χριστοῦ → Χριστοῦ Ἰησοῦ.
Assim, a decisão da NA28 não depende da mera preferência editorial pela formulação “Cristo Jesus”, mas de uma combinação entre testemunhos antigos relevantes e uma forte probabilidade transcricional de harmonização.
E. Texto adotado
Mantém-se, portanto, o texto da NA28:
Παῦλος δοῦλος Χριστοῦ Ἰησοῦ, κλητὸς ἀπόστολος ἀφωρισμένος εἰς εὐαγγέλιον θεοῦ,
E, especificamente, a leitura:
δοῦλος Χριστοῦ Ἰησοῦ doulos Christou Iēsou “escravo de Cristo Jesus”
A tradução exegética anteriormente adotada — “Paulo, escravo de Cristo Jesus, chamado para ser apóstolo, separado para o evangelho de Deus” — permanece, portanto, textualmente justificada.
F. Relevância exegética da variante
A diferença entre as duas leituras não modifica o referente cristológico, nem altera a relação sintática básica entre δοῦλος (doulos, “escravo”) e Χριστοῦ Ἰησοῦ (Christou Iēsou, “de Cristo Jesus”). Em qualquer das duas formas, Paulo se apresenta como pertencente a e subordinado a Jesus Cristo. A variante tampouco produz qualquer diferença doutrinária substancial.
Entretanto, seria excessivo afirmar que a ordem é estilisticamente irrelevante. Porter e Yoon (2023: 2) observam que Χριστός (Christos, “Cristo/Messias”) conserva valor honorífico e não deve ser tratado automaticamente como se já fosse apenas um segundo nome próprio. Ao conservar a sequência Χριστοῦ Ἰησοῦ (Christou Iēsou, “Cristo Jesus”), a análise exegética deve ao menos permanecer aberta à possibilidade de que a colocação de Χριστός em primeiro lugar torne perceptível ao leitor antigo a identificação de Jesus como o Messias. A crítica textual, contudo, por si só não pode provar uma intenção enfática dessa natureza; essa questão pertence propriamente à análise lexical, sintática e discursiva subsequente.
Portanto, a conclusão textual pode ser formulada com segurança: Romanos 1.1 possui uma tradição textual muito estável; a única variante de real interesse no versículo é a inversão Χριστοῦ Ἰησοῦ / Ἰησοῦ Χριστοῦ. Embora a segunda leitura seja muito mais amplamente testemunhada, a combinação da qualidade da evidência em favor da primeira com sua maior dificuldade transcricional sustenta adequadamente a decisão da NA28 de imprimir Χριστοῦ Ἰησοῦ.
IV. Análise lexical, morfológica, sintática e discursiva
O segmento de identificação do remetente em Romanos 1.1 é uma construção nominal sem verbo finito, característica da abertura epistolar. Παῦλος (Paulos, “Paulo”) está no nominativo absoluto epistolar: identifica o remetente de maneira gramaticalmente independente, e não constitui um nominativus pendens. Wallace distingue precisamente o nominativo absoluto, próprio de títulos, saudações e expressões introdutórias, do nominativo pendente e inclui Rm 1.1 entre seus exemplos; Porter e Yoon analisam igualmente Παῦλος como nominativo absoluto no início de uma oração sem verbo (Wallace, 1996: 49–50, cf. ref. Greek Grammar Beyond the Basics, ed. Zondervan Academic; Porter; Yoon, 2023: 2). A esse nome seguem três grupos nominativos sucessivos e coreferenciais: δοῦλος Χριστοῦ Ἰησοῦ (doulos Christou Iēsou, “escravo de Cristo Jesus”), κλητὸς ἀπόστολος (klētos apostolos, “apóstolo chamado”) e ἀφωρισμένος εἰς εὐαγγέλιον θεοῦ (aphōrismenos eis euangelion theou, “separado para o evangelho de Deus”). A construção é altamente concentrada: pertencimento, comissão e finalidade ministerial são apresentados antes mesmo que Paulo identifique os destinatários da carta.
Thielman, em Romans, observa que Paulo segue a prática epistolar antiga ao colocar inicialmente o nome do remetente, mas expande esse elemento mediante três descrições que o apresentam como porta-voz autorizado de Cristo, chamado por Deus para uma tarefa específica (Thielman, 2018: 58, cf. ref. Romans, ed. Zondervan Academic). Longenecker, em The Epistle to the Romans, chama atenção para o caráter excepcional dessa expansão: em nenhuma outra saudação paulina Paulo se descreve de modo tão amplo, o que torna improvável tratar as três expressões como simples ornamentação epistolar (Longenecker, 2016: 14, cf. ref. The Epistle to the Romans, ed. Eerdmans).
A. Análise lexical e semântica
A.1. Παῦλος (Paulos, “Paulo”)
O primeiro elemento, Παῦλος (Paulos, “Paulo”), é nome próprio nom. sg. masc. e desempenha, na fórmula epistolar, a função de nominativo absoluto que identifica o remetente. As três caracterizações subsequentes permanecem no nominativo por serem coreferenciais com esse elemento introdutório e funcionarem apositivamente em relação a ele. A classificação como nominativo absoluto é preferível a nominativus pendens, porque Παῦλος não é retomado posteriormente por pronome em outro caso exigido pela sintaxe; ele constitui o elemento independente de identificação do remetente (Wallace, 1996: 49–50; Porter; Yoon, 2023: 2).
Do ponto de vista histórico-linguístico, deve-se evitar construir significado exegético a partir da etimologia latina de Paulus, frequentemente associada a “pequeno”. Não há no texto qualquer indicação de que Paulo explore semanticamente o significado etimológico de seu nome. Fitzmyer, em Romans, mostra que Παῦλος corresponde à forma grega do nome romano Paul(l)us, empregado como cognomen. É também o único nome que o próprio apóstolo emprega para si em suas cartas; a associação entre Saulo e Paulo é explicitada por Lucas em At 13.9 (Fitzmyer, 1993: 230, cf. ref. Romans: A New Translation with Introduction and Commentary, ed. Yale University Press).
Consequentemente, o papel de Παῦλος em Rm 1.1 é referencial e epistolar, não lexical-teológico: o peso semântico da autodesignação começa efetivamente nas expressões que se seguem.
A.2. δοῦλος Χριστοῦ Ἰησοῦ (doulos Christou Iēsou, “escravo de Cristo Jesus”)
A primeira caracterização de Paulo é a aposição δοῦλος (doulos, “escravo”). Trata-se de substantivo masculino, nominativo singular, concordando com Παῦλος (Paulos, “Paulo”). Porter e Yoon, em Romans: A Handbook on the Greek Text, identificam explicitamente δοῦλος como nominativo em aposição a Παῦλος e entendem Χριστοῦ Ἰησοῦ (Christou Iēsou, “de Cristo Jesus”) como o sintagma genitivo que o modifica (Porter; Yoon, 2023: 2).
Lexicalmente, “escravo” é mais preciso que o genérico “servo”. Fitzmyer (1993: 230–231) chama atenção para o fato de que, no ambiente greco-romano contemporâneo, δοῦλος designava propriamente alguém situado sob domínio de um senhor ou proprietário. Por isso, ao aplicar o termo a si mesmo, Paulo articula uma relação de sujeição integral a Cristo, e não simplesmente a ideia moderna de alguém que voluntariamente “presta um serviço” (Fitzmyer, 1993: 230–231). Porter e Yoon (2023: 2) formulam a relação em termos de pertencimento: a autodesignação expressa que Paulo é inteiramente pertencente a Cristo Jesus.
Isso, contudo, não significa que toda a realidade jurídica e social da escravidão romana seja automaticamente transferida para a metáfora paulina. O contexto bíblico acrescenta uma segunda camada. Na Septuaginta, a linguagem de δοῦλος κυρίου (doulos kyriou, “escravo/servo do Senhor”) é empregada para personagens investidos de particular relação com Deus, como Moisés, Josué, Davi e os profetas. Fitzmyer (1993: 230–231) relaciona, por isso, a autodesignação paulina também ao repertório bíblico dos “servos do Senhor”, sem apagar a força social básica de δοῦλος (doulos, “escravo”). Longenecker (2016: 14–15) considera insuficiente reduzir a expressão apenas à humildade, à submissão pessoal ou a uma metáfora social e entende que seu enraizamento bíblico comunica também a consciência profética de Paulo.
As duas dimensões não precisam ser colocadas em oposição. O substantivo conserva sua força fundamental de pertencimento e subordinação, enquanto sua inserção no repertório bíblico permite que essa própria sujeição se converta também em linguagem de comissão e representação. Paulo reivindica autoridade precisamente ao declarar que não possui autonomia: sua autoridade é derivada daquele a quem pertence.
O genitivo Χριστοῦ Ἰησοῦ (Christou Iēsou, “de Cristo Jesus”) explicita a relação. Porter e Yoon (2023: 2) classificam-no primariamente como genitivo possessivo, embora reconheçam que, dentro de classificações tradicionais mais refinadas, pode ser percebida também uma nuance objetiva: Cristo é aquele a quem Paulo serve. Não há necessidade de escolher rigidamente entre as duas categorias. Semanticamente, ambas convergem: Paulo pertence a Cristo e serve a Cristo.
A ordem Χριστοῦ Ἰησοῦ (Christou Iēsou, “Cristo Jesus”), já discutida na crítica textual, merece atenção lexical. Porter e Yoon (2023: 2) consideram Χριστός (Christos, “Cristo/Messias”) mais que um elemento puramente onomástico e entendem que conserva valor honorífico associado à identificação messiânica de Jesus. É importante, porém, não transformar a ordem das palavras, por si só, numa prova de ênfase messiânica deliberada: ela permite que o caráter titular de Χριστός permaneça perceptível, mas a intenção discursiva específica precisa ser estabelecida pelo contexto mais amplo.
Há ainda uma proposta contextual digna de registro. Michael Joseph Brown, no artigo “Paul’s Use of δοῦλος Χριστοῦ Ἰησοῦ in Romans 1:1”, desenvolve a possibilidade de que a expressão evocasse, para alguns leitores romanos, a Familia Caesaris, isto é, o universo de escravos e libertos ligados à casa imperial; Kruse resume essa proposta remetendo especialmente às páginas 724 e 731–732 do artigo (Brown, 2001: 724, 731–732; Kruse, 2012: 39). A realidade histórica dessa nomenclatura é independente da hipótese exegética: Weaver, em Familia Caesaris, documenta a associação de Caesaris à nomenclatura servil da casa imperial (Weaver, 1972: 299, cf. ref. Familia Caesaris: A Social Study of the Emperor’s Freedmen and Slaves, ed. Cambridge University Press). O dado histórico torna a ressonância possível, mas não demonstra que Paulo tenha construído deliberadamente uma antítese lexical entre César e Cristo.
Essa hipótese é historicamente possível, especialmente numa carta destinada a Roma, mas metodologicamente não deve ser elevada ao significado lexical primário de δοῦλος Χριστοῦ Ἰησοῦ. A expressão é plenamente inteligível sem essa alusão, tanto pela semântica comum da escravidão quanto pela tradição bíblica do “servo do Senhor”. Portanto, a Familia Caesaris deve permanecer como possível ressonância contextual, e não como significado codificado da expressão.
A.3. κλητὸς ἀπόστολος (klētos apostolos, “apóstolo chamado”)
A segunda autodesignação é κλητὸς ἀπόστολος (klētos apostolos, literalmente “apóstolo chamado”). κλητός (klētos, “chamado”) é adjetivo verbal, nom. sg. masc., enquanto ἀπόστολος (apostolos, “apóstolo/emissário”) é subst. nom. sg. masc.. Não há no grego um infinitivo equivalente a “ser”: a relação formal é a de um adjetivo verbal que modifica diretamente o substantivo. Haubeck e von Siebenthal registram κλητός como “chamado/vocacionado”, e Porter e Yoon descrevem κλητὸς ἀπόστολος como a unidade formada pelo adjetivo verbal e pelo substantivo (Haubeck; Siebenthal, 2009: 945, cf. ref. Nova chave linguística do Novo Testamento Grego, ed. Targumim; Porter; Yoon, 2023: 2).
Porter e Yoon (2023: 2) consideram preferível interpretar os dois termos como uma única unidade nominal, e não como duas aposições independentes: κλητός qualifica ἀπόστολος, e o conjunto κλητὸς ἀπόστολος funciona em aposição a Παῦλος (Porter; Yoon, 2023: 2). Essa análise explica por que a tradução portuguesa “chamado para ser apóstolo” é semanticamente adequada, embora introduza uma relação infinitiva que não está formalmente expressa no grego. A formulação literal “apóstolo chamado” é possível, mas menos natural em português e menos clara quanto à relação semântica entre os termos.
O adjetivo κλητός pertence à família de καλέω (kaleō, “chamar”). Entretanto, em Rm 1.1 não descreve simplesmente alguém que recebeu um convite. Thielman (2018: 58) entende a forma no horizonte de uma convocação divina para uma tarefa, enquanto Fitzmyer descreve o apostolado como comissão recebida, não assumida por iniciativa própria; Harvey chega à mesma conclusão ao tratar κλητὸς ἀπόστολος como uma designação de chamado e comissão (Fitzmyer, 1993: 228–231; Harvey, 2017: comentário a Rm 1.1).
Essa leitura é reforçada pelo próprio contexto paulino. Em Gl 1.15–16, Paulo relaciona seu chamado à revelação do Filho e à missão entre os gentios. Em Rm 1.5, poucos versos depois, a referência ao recebimento de χάρις καὶ ἀποστολή (charis kai apostolē, “graça e apostolado”) explicará funcionalmente aquilo que κλητὸς ἀπόστολος anuncia de forma condensada no v. 1.
O substantivo ἀπόστολος (apostolos, “apóstolo”) não deve ser interpretado apenas pela decomposição etimológica relacionada a ἀποστέλλω (apostellō, “enviar”). Porter e Yoon (2023: 2) empregam “emissário” como descrição do seu valor no presente contexto. Fitzmyer (1993: 228) especifica que Paulo se apresenta como alguém comissionado para uma missão autorizada, relacionando a designação tanto ao chamado divino quanto à sua missão evangelizadora (Fitzmyer, 1993: 228).
Portanto, em Rm 1.1, ἀπόστολος não é apenas “alguém enviado” em sentido genérico. O termo possui aqui valor comissional e representativo: Paulo reivindica uma missão cuja origem não está em iniciativa própria. A presença de κλητός impede justamente que ἀπόστολος seja lido como mera descrição profissional. Ele é apóstolo porque foi chamado.
Há uma progressão importante entre as duas primeiras autodesignações. Em δοῦλος Χριστοῦ Ἰησοῦ, Paulo define sua relação vertical de pertencimento: a quem ele pertence. Em κλητὸς ἀπόστολος, define sua comissão: em que capacidade ele atua. A autoridade apostólica é, assim, cercada por duas declarações que limitam qualquer noção de autonomia: Paulo pertence a Cristo e foi chamado para aquilo que faz.
A.4. ἀφωρισμένος (aphōrismenos, “separado”)
A terceira caracterização é formada pelo particípio perfeito passivo ἀφωρισμένος (aphōrismenos, “separado”), seguido do sintagma preposicional εἰς εὐαγγέλιον θεοῦ (eis euangelion theou, “para o evangelho de Deus”).
O lema é ἀφορίζω (aphorizō, “separar, pôr à parte, designar”). A forma ἀφωρισμένος é perf. part. pass. nom. sg. masc.. Quanto à função, as taxonomias diferem sem alterar a relação sintática básica: Porter e Yoon a descrevem como particípio substantival em nominativo e em aposição a Παῦλος, ao passo que Haubeck e von Siebenthal a marcam como atrib. (“atributivo”). Em ambos os modelos, o particípio caracteriza o mesmo referente Παῦλος e constitui a terceira unidade modificadora da identificação do remetente (Haubeck; Siebenthal, 2009: 945; Porter; Yoon, 2023: 2–3).
A voz passiva apresenta Paulo como participante afetado ou recipiente da ação de “separar”; ela não nomeia, por si mesma, o agente. O agente que separou Paulo não aparece expresso como complemento na sintaxe de Rm 1.1. Em particular, θεοῦ (theou, “de Deus”) não pode ser tomado como agente de ἀφωρισμένος, pois modifica εὐαγγέλιον (euangelion, “evangelho”). Porter e Yoon descrevem a forma em termos de causalidade externa, mas a conclusão gramatical mínima e segura é esta: a passiva coloca Paulo do lado daquele que sofre/recebe a ação e deixa seu agente sem expressão nominal nesse sintagma (Porter; Yoon, 2023: 3).
No entanto, o contexto paulino torna Deus o agente implícito mais natural. Gl 1.15 apresenta explicitamente Deus como aquele que separou Paulo desde o ventre materno e o chamou pela graça. Fitzmyer (1993: 228, 232) relaciona diretamente Rm 1.1 a esse quadro de chamado e entende a separação como ação divina. Assim, é legítimo falar exegeticamente de uma separação realizada por Deus, desde que se preserve a distinção entre o que a sintaxe de Rm 1.1 expressa e o que o contexto paulino permite identificar como agente implícito.
A forma perfeita exige cautela semelhante. Não é necessário extrair dela, isoladamente, ideias teológicas como uma “separação irrevogável” ou “eterna”, nem reduzi-la à simples informação de uma ação passada. No contexto, o perfeito apresenta Paulo sob a condição vigente de alguém que foi separado e permanece caracterizado por essa separação; Thielman formula essa consequência dizendo que a ação de Deus continua a moldar quem Paulo é (Thielman, 2018: 59). Na abordagem aspectual específica de Porter e Yoon (2023: 3), o perfeito é descrito como estativo e recebe função de proeminência no conjunto das três qualificações. Essa proeminência pertence ao modelo discursivo dos autores e não deve ser convertida em uma regra universal segundo a qual todo perfeito seja automaticamente “mais importante” no discurso.
Lexicalmente, Kellermann, no verbete ἀφορίζω do Exegetical Dictionary of the New Testament, interpreta Rm 1.1 à luz da linguagem veterotestamentária de chamado profético, especialmente Is 49.1 e Jr 1.5, entendendo a “separação para o evangelho” como investidura para a missão evangelizadora (Kellermann, 1990: 183, cf. ref. Exegetical Dictionary of the New Testament, v. 1, ed. Eerdmans). Essa observação ganha força pela comparação com Gl 1.15–16, onde a linguagem do chamado desde o ventre materno aparece explicitamente ligada à proclamação do Filho entre os gentios.
Uma hipótese antiga e moderna relaciona ἀφωρισμένος ao passado farisaico de Paulo, pressupondo uma espécie de jogo verbal entre “separado” e “fariseu”. Fitzmyer (1993: 232) considera a possibilidade não inteiramente impossível, embora a apresente apenas como hipótese. Kellermann (1990: 183), ao contrário, rejeita a leitura, argumentando que uma alusão desse tipo ao passado farisaico não seria suficientemente inteligível para os destinatários romanos.
Neste ponto, a cautela é preferível. Não existe no texto qualquer marcador explícito que obrigue o leitor a perceber um trocadilho com “fariseu”. O contraste teologicamente atraente — “antes separado como fariseu, agora separado para o evangelho” — não deve ser transformado em significado lexical de ἀφωρισμένος. A conexão segura é outra: Paulo foi posto à parte para uma missão determinada por Deus, e sua própria descrição dessa vocação em Gl 1.15–16 utiliza linguagem profética.
A.5. εἰς εὐαγγέλιον θεοῦ (eis euangelion theou, “para o evangelho de Deus”)
O particípio é completado pela expressão εἰς εὐαγγέλιον θεοῦ (eis euangelion theou, “para o evangelho de Deus”). A preposição εἰς (eis, “para”) rege o acusativo εὐαγγέλιον (euangelion, “evangelho”), subst. ac. sg. neut.
Aqui εἰς possui valor télico ou final: indica a finalidade para a qual Paulo foi separado. Porter e Yoon (2023: 3) classificam explicitamente εἰς εὐαγγέλιον como expressão de propósito (Porter; Yoon, 2023: 3). Fitzmyer (1993: 232) chega à mesma conclusão: Paulo foi separado para o evangelho, e a preposição explicita a finalidade dessa separação (Fitzmyer, 1993: 232).
Esse dado impede que ἀφωρισμένος seja interpretado primariamente em sentido negativo, como “separado de” alguma realidade. O texto não diz de que Paulo foi separado; diz para que foi separado. O foco semântico não recai sobre abandono de uma condição anterior, mas sobre destinação positiva: εἰς εὐαγγέλιον (eis euangelion, “para o evangelho”).
O substantivo εὐαγγέλιον (euangelion, “boa notícia, evangelho”) é um dos conceitos centrais da abertura de Romanos. No uso paulino, o substantivo pode, conforme o contexto, focalizar a mensagem proclamada ou a própria atividade de proclamação. Em Rm 1.1–4, porém, a expansão imediatamente subsequente põe em primeiro plano o conteúdo: o evangelho foi previamente prometido e diz respeito ao Filho; em Rm 1.5, esse conteúdo volta a ser ligado à missão apostólica entre as nações. Assim, a expressão de Rm 1.1 comporta naturalmente a estreita união entre mensagem e missão sem exigir que se atribua ao substantivo um único valor abstrato em todas as ocorrências paulinas (Moo, 1996: comentário a Rm 1.1, cf. ref. The Epistle to the Romans, ed. Eerdmans; Fitzmyer, 1993: 232).
O genitivo θεοῦ (theou, “de Deus”) modifica εὐαγγέλιον. Como classificação sintática principal, genitivo de origem/fonte descreve adequadamente a relação: o evangelho procede de Deus. Porter e Yoon (2023: 3) e Thielman (2018: 59) adotam explicitamente essa análise. A taxonomia, contudo, não é inteiramente uniforme na história da exegese: encontram-se também classificações autorais/subjetivas, possessivas mais gerais e, em alguns intérpretes, propostas objetivas. Essas categorias não devem ser confundidas como se fossem morfologicamente marcadas pelo genitivo; elas são tentativas de explicitar a relação semântica entre os substantivos.
No encadeamento imediato de Rm 1.1–3, a leitura de origem/fonte é especialmente forte porque o v. 2 apresenta Deus como aquele que previamente prometeu o evangelho, enquanto o v. 3 introduz περὶ τοῦ υἱοῦ αὐτοῦ (peri tou huiou autou, “acerca de seu Filho”) para especificar seu foco cristológico. Assim, a distinção exegética pode ser formulada com cautela:
θεοῦ (theou, “de Deus”) — primariamente origem/fonte do evangelho;
περὶ τοῦ υἱοῦ αὐτοῦ (peri tou huiou autou, “acerca de seu Filho”) — especificação temática de seu conteúdo.
Consequentemente, “evangelho de Deus” não precisa ser lido primariamente como “uma mensagem a respeito de Deus”. A sintaxe de Rm 1.1, reforçada pela continuação do período, apresenta Deus sobretudo como origem da boa notícia; a identificação de Deus também como seu autor pertence à inferência semântica e contextual, não a uma marca formal exclusiva do caso genitivo.
B. Formação lexical e cautelas etimológicas
Romanos 1.1 contém vários termos cuja formação pode auxiliar a análise, mas somente se não se confundir etimologia com significado contextual.
Χριστός (Christos, “Cristo/Messias”) pertence à família de χρίω (chriō, “ungir”), mas o significado da expressão Χριστοῦ Ἰησοῦ não pode ser obtido simplesmente decompondo-se historicamente o termo: em Paulo, Χριστός já possui uma história de uso cristológico própria. Porter e Yoon (2023: 2) o tratam aqui como honorífico de caráter messiânico, e não como mero componente sem significado de um nome composto.
κλητός (klētos, “chamado”) relaciona-se a καλέω (kaleō, “chamar”), mas é o contexto de comissão divina que determina seu valor em κλητὸς ἀπόστολος, não simplesmente a ideia abstrata de “ser chamado”.
ἀπόστολος (apostolos, “apóstolo/emissário”) é lexicalmente relacionado a ἀποστέλλω (apostellō, “enviar”), mas a paráfrase etimológica “alguém enviado” é insuficiente para definir o estatuto apostólico paulino. O cotexto acrescenta comissão, autoridade delegada e esfera missionária.
ἀφορίζω (aphorizō, “separar, pôr à parte”) expressa demarcação ou separação, mas Rm 1.1 especifica semanticamente essa separação por meio de εἰς: ela é orientada para uma finalidade, o evangelho.
Finalmente, εὐαγγέλιον (euangelion, “evangelho/boa notícia”) pertence à família εὐαγγελ-, mas a simples decomposição em “bom” + “mensagem” seria insuficiente. O próprio Paulo começará imediatamente a preencher o termo: o evangelho foi previamente prometido (v. 2), diz respeito ao Filho de Deus (vv. 3–4), fundamenta a missão apostólica (v. 5) e será posteriormente descrito como poder de Deus para salvação (v. 16).
A regra metodológica é, portanto, clara: a formação das palavras pode explicar sua história lexical, mas o significado efetivo em Romanos 1.1 deve ser estabelecido pelo uso, pela sintaxe e pelo cotexto.
C. Análise morfológica
A análise morfológica de Romanos 1.1 permite visualizar, de forma sintética, a classificação de cada elemento do texto e sua função dentro da estrutura da autodesignação paulina.
| Forma | Lema | Morfologia | Função em Romanos 1.1 |
|---|---|---|---|
| Παῦλος (Paulos, “Paulo”) | Παῦλος | nome próprio, nom. sg. masc. | nominativo absoluto epistolar; identifica o remetente |
| δοῦλος (doulos, “escravo”) | δοῦλος | subst. nom. sg. masc. | primeira unidade apositiva/coreferencial a Παῦλος |
| Χριστοῦ (Christou, “de Cristo”) | Χριστός | subst./título gen. sg. masc. | com Ἰησοῦ, forma o sintagma genitivo que modifica δοῦλος |
| Ἰησοῦ (Iēsou, “de Jesus”) | Ἰησοῦς | nome próprio, gen. sg. masc. | integra com Χριστοῦ a designação do possuidor/senhor a quem Paulo pertence |
| κλητός (klētos, “chamado”) | κλητός | adj. verbal nom. sg. masc. | modifica diretamente ἀπόστολος |
| ἀπόστολος (apostolos, “apóstolo”) | ἀπόστολος | subst. nom. sg. masc. | núcleo de κλητὸς ἀπόστολος, segunda unidade apositiva/coreferencial |
| ἀφωρισμένος (aphōrismenos, “separado”) | ἀφορίζω | perf. part. pass. nom. sg. masc. | terceira unidade modificadora; caracteriza Παῦλος; Porter–Yoon: substantival; Haubeck–Siebenthal: atrib. |
| εἰς (eis, “para”) | εἰς | prep. + ac. | rege εὐαγγέλιον e introduz relação de finalidade |
| εὐαγγέλιον (euangelion, “evangelho”) | εὐαγγέλιον | subst. ac. sg. neut. | complemento de εἰς |
| θεοῦ (theou, “de Deus”) | θεός | subst. gen. sg. masc. | modifica εὐαγγέλιον; primariamente gen. de origem/fonte |
Nos pontos estruturais principais, a análise converge com Porter e Yoon (2023: 2–3), mas convém registrar a diferença terminológica no tratamento de ἀφωρισμένος (aphōrismenos, “separado”): Porter e Yoon o descrevem como particípio substantival em aposição a Παῦλος, enquanto Haubeck e von Siebenthal o marcam como atrib.. A divergência é taxonômica, não estrutural: em ambos os casos, a forma é perf. part. pass. nom. sg. masc. e caracteriza o mesmo referente Παῦλος (Haubeck; Siebenthal, 2009: 945; Porter; Yoon, 2023: 2–3).
D. Análise sintática
Sintaticamente, a estrutura fundamental pode ser representada assim:
nominativo absoluto Παῦλος (Paulos, “Paulo”)
→ primeira unidade apositiva δοῦλος Χριστοῦ Ἰησοῦ (doulos Christou Iēsou, “escravo de Cristo Jesus”)
→ segunda unidade apositiva κλητὸς ἀπόστολος (klētos apostolos, “apóstolo chamado”)
→ terceira unidade modificadora ἀφωρισμένος εἰς εὐαγγέλιον θεοῦ (aphōrismenos eis euangelion theou, “separado para o evangelho de Deus”).
As três unidades nominativas são coreferenciais com Παῦλος (Paulos, “Paulo”) e ampliam sucessivamente a identificação do remetente. Não existe conjunção coordenativa entre elas, de modo que “coordenação” não é a melhor descrição formal; trata-se de uma série de modificações nominativas aposicionais. Porter e Yoon (2023: 2–3) analisam explicitamente δοῦλος, o grupo κλητὸς ἀπόστολος e ἀφωρισμένος como as três expansões da identificação inicial.
Na primeira, núcleo apositivo δοῦλος (doulos, “escravo”) recebe o genitivo possessivo Χριστοῦ Ἰησοῦ (Christou Iēsou, “de Cristo Jesus”). A classificação possessiva é a principal em Porter e Yoon; uma nuance objetiva — Cristo como aquele a quem Paulo serve — pode ser reconhecida em taxonomias que admitem essa categoria, sem alterar o dado semântico fundamental de pertencimento e subordinação.
Na segunda, adjetivo verbal κλητός (klētos, “chamado”) modifica diretamente o núcleo ἀπόστολος (apostolos, “apóstolo”). O grupo forma mais naturalmente uma única unidade: literalmente, “apóstolo chamado”. A paráfrase portuguesa “chamado para ser apóstolo” explicita a relação semântica, mas o grego não contém verbo copulativo nem infinitivo “ser”.
Na terceira, particípio ἀφωρισμένος (aphōrismenos, “separado”) é perf. part. pass. nom. sg. masc. e caracteriza o mesmo Παῦλος. A voz passiva apresenta Paulo como recipiente da ação, sem complemento de agente expresso. O particípio é expandido pelo sintagma preposicional de finalidade εἰς εὐαγγέλιον (eis euangelion, “para o evangelho”): εἰς rege o acusativo εὐαγγέλιον e responde semanticamente à pergunta “para que finalidade?”. O genitivo θεοῦ (theou, “de Deus”) modifica εὐαγγέλιον e é melhor classificado, no contexto imediato, como genitivo de origem/fonte.
É importante perceber, portanto, aquilo que não está sintaticamente expresso. Paulo não escreve “chamado por Deus” nem acrescenta agente explícito a ἀφωρισμένος. A identificação de Deus como agente do chamado e da separação é fortemente sustentada pelo cotexto paulino, sobretudo Gl 1.15–16, mas deve ser distinguida daquilo que a forma de Rm 1.1 codifica diretamente. Em contraste, a finalidade da separação é formalmente expressa por εἰς εὐαγγέλιον (eis euangelion, “para o evangelho”).
A sintaxe do versículo, portanto, organiza um nominativo absoluto epistolar ampliado por três grupos nominativos coreferenciais: pertencimento a Cristo → chamado/ofício apostólico → separação/finalidade para o evangelho de Deus. O agente da separação permanece sem expressão nominal no v. 1; a finalidade é explicitada; e o último termo da cadeia, εὐαγγέλιον (euangelion, “evangelho”), fornece o ponto de conexão sintática e discursiva com o v. 2.
E. Análise discursiva
A organização discursiva de Rm 1.1 é mais significativa do que uma simples sequência de títulos. As três caracterizações apresentam uma progressão conceitual:
(a) pertencimento → (b) comissão → (c) finalidade.
Primeiro, Paulo define-se relativamente a Cristo: ele é δοῦλος Χριστοῦ Ἰησοῦ (doulos Christou Iēsou, “escravo de Cristo Jesus”). Depois define a natureza de sua função: κλητὸς ἀπόστολος (klētos apostolos, “apóstolo chamado”; idiomaticamente, “chamado para ser apóstolo”). Finalmente, define o horizonte para o qual essa função foi determinada: ἀφωρισμένος εἰς εὐαγγέλιον θεοῦ (aphōrismenos eis euangelion theou, “separado para o evangelho de Deus”).
Não há razão para transformar essa sequência em cronologia de três acontecimentos distintos. Paulo não está narrando: “primeiro tornei-me escravo, depois fui chamado e por fim fui separado”. Trata-se antes de três perspectivas simultâneas sobre sua identidade apostólica.
O terceiro membro é, entretanto, mais expansivo que os anteriores. δοῦλος recebe um complemento genitivo; ἀπόστολος recebe um modificador adjetival; ἀφωρισμένος recebe uma expressão de finalidade que introduz εὐαγγέλιον, palavra que passa imediatamente a dominar o desenvolvimento do período. Essa característica torna a terceira qualificação uma espécie de ponte entre a apresentação do remetente e o conteúdo teológico da carta.
Porter e Yoon (2023: 3), dentro de seu próprio modelo aspectual-discursivo, atribuem ao perfeito ἀφωρισμένος (aphōrismenos, “separado”) aspecto estativo e uma função de proeminência textual; os autores ressaltam que isso não significa superioridade intrínseca da terceira designação, mas destaque no fluxo do discurso. A observação encontra confirmação estrutural no que acontece imediatamente depois: Paulo não começa a explicar δοῦλος nem ἀπόστολος; ele começa a explicar εὐαγγέλιον.
O primeiro termo do v. 2 é precisamente o pronome relativo ὃ (ho, “o qual”), cujo antecedente é εὐαγγέλιον (euangelion, “evangelho”). Porter e Yoon (2023: 3) identificam explicitamente essa retomada anafórica. Assim, o movimento discursivo é:
(a) εὐαγγέλιον θεοῦ — v. 1 ↓
(b) ὃ προεπηγγείλατο — “o qual ele prometeu previamente” — v. 2 ↓
(c) περὶ τοῦ υἱοῦ αὐτοῦ — “acerca de seu Filho” — v. 3.
Esse encadeamento demonstra que “evangelho de Deus” é o verdadeiro pivô lexical entre a autodesignação de Paulo e a exposição cristológica dos vv. 2–4. Paulo começa falando de si, mas a construção é desenhada para deslocar rapidamente o foco de Paulo para o evangelho e, do evangelho, para o Filho.
A mesma estrutura também prepara o retorno ao apostolado no v. 5. O v. 1 apresenta κλητὸς ἀπόστολος; os vv. 2–4 definem o evangelho; o v. 5 retoma a comissão mediante ἐλάβομεν χάριν καὶ ἀποστολήν (elabomen charin kai apostolēn, “recebemos graça e apostolado”) e lhe atribui finalidade entre os gentios. Portanto, a abertura possui uma arquitetura discursiva bastante precisa:
Paulo → sua comissão → evangelho → Filho → apostolado → gentios → destinatários romanos.
Isso ajuda a explicar por que Longenecker (2016: 14) considera as três autodesignações funcionalmente importantes para uma comunidade que Paulo não havia fundado e cuja maioria de membros ele não conhecia pessoalmente. Elas não constituem uma apresentação autobiográfica gratuita. Antes de dirigir-se aos cristãos romanos, Paulo estabelece o caráter derivado de sua autoridade e a esfera de sua responsabilidade.
F. Síntese linguístico-discursiva
A análise lexical, morfológica, sintática e discursiva conduz a uma leitura bastante precisa de Romanos 1.1. Παῦλος (Paulos, “Paulo”) identifica o remetente, sem que seja necessário atribuir significado teológico à etimologia do nome. A primeira aposição, δοῦλος Χριστοῦ Ἰησοῦ (doulos Christou Iēsou, “escravo de Cristo Jesus”), expressa pertencimento integral e subordinação a Cristo, sem perder as ressonâncias bíblicas honoríficas da linguagem do “servo do Senhor”. A hipótese de uma alusão adicional à Familia Caesaris é historicamente possível, mas deve permanecer secundária.
A segunda unidade, κλητὸς ἀπόστολος (klētos apostolos, “apóstolo chamado”; idiomaticamente, “chamado para ser apóstolo”), não apresenta o apostolado como ocupação autoconferida. κλητός qualifica a própria condição apostólica: Paulo exerce uma missão porque foi convocado para ela. Por isso, “chamado para ser apóstolo” continua sendo uma tradução idiomática adequada.
A terceira unidade, ἀφωρισμένος εἰς εὐαγγέλιον θεοῦ (aphōrismenos eis euangelion theou, “separado para o evangelho de Deus”), apresenta Paulo na condição vigente de alguém que foi separado e continua caracterizado por essa separação. A voz passiva não explicita sintaticamente o agente, embora o contexto paulino permita identificá-lo como Deus. A construção εἰς + ac. concentra a atenção na finalidade: Paulo foi posto à parte para o evangelho.
Finalmente, θεοῦ (theou, “de Deus”) é melhor entendido, como análise principal, em relação de origem/fonte com εὐαγγέλιον (euangelion, “evangelho”). O texto estabelece assim uma rede de relações densamente compacta:
Cristo Jesus é aquele a quem Paulo pertence; Deus é apresentado contextualmente como origem da iniciativa e como fonte do evangelho; Paulo é o escravo, apóstolo chamado e separado; o apostolado é sua comissão; o evangelho é a finalidade de sua separação; e o Filho, introduzido no v. 3, será o foco temático central dessa mensagem.
A tradução exegética adotada continua, portanto, a representar adequadamente as relações fundamentais da sintaxe:
“Paulo, escravo de Cristo Jesus, chamado para ser apóstolo, separado para o evangelho de Deus.”
Esses resultados estabelecem o ponto de partida linguístico da interpretação. Antes de passar às traduções, porém, convém situá-los na história da exegese, a fim de observar quais aspectos do versículo já haviam sido percebidos por intérpretes anteriores e em que medida a filologia, a crítica textual, a investigação histórico-social e a linguística contemporânea refinaram ou corrigiram essas leituras.
V. História da interpretação e desenvolvimento exegético
A leitura de Romanos 1.1 possui uma história muito anterior ao desenvolvimento da exegese neotestamentária moderna. As três autodesignações de Paulo — δοῦλος Χριστοῦ Ἰησοῦ (doulos Christou Iēsou, “escravo de Cristo Jesus”), κλητὸς ἀπόστολος (klētos apostolos, “apóstolo chamado”) e ἀφωρισμένος εἰς εὐαγγέλιον θεοῦ (aphōrismenos eis euangelion theou, “separado para o evangelho de Deus”) — foram objeto de reflexão desde os primeiros comentários cristãos sobre Romanos. O desenvolvimento posterior da filologia, da crítica textual, da história social do mundo greco-romano e, mais recentemente, da linguística do grego não tornou essas leituras anteriores simplesmente obsoletas; em vários casos, permitiu distinguir com maior precisão uma intuição teológica antiga daquilo que a forma linguística do texto realmente codifica.
A. A autodesignação paulina como credencial apostólica
Muito antes da exegese moderna já se percebia que a abertura de Romanos não é uma acumulação casual de títulos. Calvino entende a sequência como fundamentação da autoridade com que Paulo se dirige aos romanos: ele é primeiramente servo de Cristo, depois especifica o caráter particular desse serviço mediante o apostolado e, por fim, indica a finalidade para a qual foi separado, o evangelho. O chamado é decisivo porque impede que o apostolado apareça como dignidade apropriada por iniciativa pessoal; a comissão tem sua origem em Deus (Calvino, 1849: comentário a Rm 1.1, cf. ref. Commentaries on the Epistle of Paul the Apostle to the Romans).
A exegese filológica do século XIX refinou essa percepção. Heinrich A. W. Meyer igualmente percebe um movimento do geral para o particular na identificação do remetente, e Sanday lê a abertura como apresentação solene das credenciais e da comissão de Paulo diante de uma igreja que ele não fundou (Meyer, 1884: comentário a Rm 1.1, cf. ref. Critical and Exegetical Hand-Book to the Epistle to the Romans; Sanday, 1878: comentário a Rm 1.1, cf. ref. “The Epistle to the Romans”, in A New Testament Commentary for English Readers). É necessário, contudo, registrar uma diferença sintática importante: Meyer não constrói ἀφωρισμένος (aphōrismenos, “separado”) como uma terceira expansão perfeitamente simétrica, mas como determinação mais estreita de κλητὸς ἀπόστολος (klētos apostolos, “apóstolo chamado”). A análise contemporânea de Porter e Yoon (2023: 2–3) permite representar as três caracterizações como sucessivas e coreferenciais, sem apagar a relação particularmente estreita entre “apóstolo chamado” e “separado para o evangelho”.
A percepção clássica de que Paulo apresenta suas credenciais, portanto, permanece válida, mas hoje pode ser formulada com categorias mais precisas. O nominativo absoluto Παῦλος (Paulos, “Paulo”) recebe qualificações que definem pertencimento, comissão e finalidade; a autoridade paulina é apresentada como autoridade derivada, e não autônoma. Longenecker (2016: 14) relaciona justamente a extensão incomum dessa autodescrição à situação de Paulo diante de cristãos romanos que não constituíam uma comunidade fundada por ele.
B. δοῦλος Χριστοῦ Ἰησοῦ: da humildade e do serviço ao pertencimento e à escravidão
A história da interpretação de δοῦλος Χριστοῦ Ἰησοῦ (doulos Christou Iēsou, “escravo de Cristo Jesus”) mostra com clareza como uma tradição teologicamente fecunda pode ser ampliada por instrumentos históricos e lexicais. Orígenes já enfrenta a aparente tensão entre Paulo se chamar “escravo de Cristo” e, em outros lugares, falar da liberdade cristã. Sua solução é cristológica: a escravidão a Cristo não anula a verdadeira liberdade, porque servir a Cristo é submeter-se àquele que encarna sabedoria, justiça e verdade (Orígenes, 2001: 60–62, cf. ref. Commentary on the Epistle to the Romans, Books 1–5, ed. Catholic University of America Press).
A linha continua nos comentaristas posteriores. Calvino lê o termo como relação de serviço a Cristo; Gill acentua pertencimento e submissão ao senhorio de Cristo; o Cambridge Bible for Schools and Colleges chama atenção para a força de bondservant; Meyer fala de dependência integral do senhor. Em comum, esses intérpretes recusam compreender δοῦλος (doulos, “escravo”) como mera ocupação ocasional e reconhecem uma relação abrangente entre Paulo e Cristo (Calvino, 1849: comentário a Rm 1.1; Gill, 1809: comentário a Rm 1.1, cf. ref. An Exposition of the New Testament; Moule, 1891: comentário a Rm 1.1, cf. ref. The Epistle of Paul the Apostle to the Romans, with Introduction and Notes, ed. Cambridge University Press; Meyer, 1884: comentário a Rm 1.1).
A pesquisa moderna recupera com maior força a concretude social do vocábulo. Fitzmyer (1993: 230–231) observa que δοῦλος designava no mundo greco-romano alguém pertencente a um senhor ou proprietário e entende que Paulo emprega a palavra para expressar submissão e compromisso totais com Cristo. Penna (2004: 85–87, cf. ref. Lettera ai Romani, ed. EDB) igualmente sublinha o pertencimento: Paulo não se apresenta como agente autônomo, mas como alguém cuja identidade está determinada por Cristo. Ao mesmo tempo, Longenecker (2016: 14–15) insiste que o pano de fundo bíblico dos “servos do Senhor” impede reduzir a expressão a uma metáfora social; para ele, o enraizamento veterotestamentário sinaliza também a consciência profética de Paulo.
O ambiente romano introduziu uma proposta adicional. Brown desenvolve a hipótese de que δοῦλος Χριστοῦ Ἰησοῦ pudesse ressoar, entre alguns leitores, com o universo da Familia Caesaris; Kruse resume a proposta remetendo especialmente às páginas 724 e 731–732 do artigo de Brown (Brown, 2001: 724, 731–732; Kruse, 2012: 39). Weaver demonstra que Caesaris se associava de modo característico à nomenclatura dos escravos e libertos imperiais (Weaver, 1972: 299). A hipótese não é, porém, consenso: Longenecker (2016: 14–15) a inclui entre possibilidades defensáveis, mas considera mais provável que a expressão seja compreendida a partir da consciência profética e do enraizamento bíblico de Paulo. A formulação metodologicamente mais segura é, portanto, tratar a Familia Caesaris como possível ressonância sociocultural, não como significado lexical primário nem como alusão demonstrada.
C. κλητὸς ἀπόστολος: da vocação divina à precisão sintática
Uma continuidade ainda mais nítida aparece na interpretação de κλητὸς ἀπόστολος (klētos apostolos, “apóstolo chamado”). Os comentaristas clássicos perceberam cedo que a expressão exclui a ideia de apostolado autoconferido. Calvino insiste que Paulo não se introduziu presunçosamente no ofício; Gill afirma igualmente que ele não tomou para si essa honra; o Pulpit Commentary considera a vocação divina ao ofício a ideia dominante da expressão (Calvino, 1849: comentário a Rm 1.1; Gill, 1809: comentário a Rm 1.1; Spence-Jones; Exell, 1880–1897: comentário a Rm 1.1, cf. ref. The Pulpit Commentary: Acts & Romans, v. 18).
Bengel formula essa tradição de maneira particularmente incisiva: o chamado divino não é simples convite abstrato, mas corresponde à condição na qual Paulo efetivamente se encontra. Meyer, em tratamento mais filológico, relaciona κλητὸς ἀπόστολος à chegada de Paulo ao apostolado por chamado, e não por escolha própria ou acaso (Bengel, 1860: comentário a Rm 1.1, cf. ref. Gnomon of the New Testament; Meyer, 1884: comentário a Rm 1.1). A formulação clássica antecipa, assim, uma distinção que a análise moderna consegue descrever de forma mais controlada.
Gramaticalmente, κλητός (klētos, “chamado”) é adjetivo verbal, não particípio, e modifica diretamente ἀπόστολος (apostolos, “apóstolo”). Não existe no texto um infinitivo correspondente a “ser”. Porter e Yoon (2023: 2) tratam κλητὸς ἀπόστολος como uma unidade nominal; Harvey igualmente chama atenção para a diferença entre a forma grega compacta e traduções desenvolvidas como “called to be an apostle” (Harvey, 2017: comentário a Rm 1.1). A exegese clássica, portanto, captou corretamente a consequência teológica — o apostolado é recebido —, enquanto a pesquisa linguística atual descreve com maior exatidão a forma que comunica essa ideia.
D. ἀφωρισμένος: da identificação biográfica à análise do estado vigente
A expressão ἀφωρισμένος εἰς εὐαγγέλιον θεοῦ (aphōrismenos eis euangelion theou, “separado para o evangelho de Deus”) produziu maior diversidade interpretativa. Orígenes aproxima Rm 1.1 de Gl 1.15–16 e relaciona a separação à eleição divina, discutindo-a em termos de presciência; a edição de Scheck localiza essa discussão no início do livro 1, especialmente nas páginas 64–65 (Orígenes, 2001: 64–65). Gill e Bengel também colocam Gl 1.15 e At 13.2 no horizonte da expressão e acolhem, em graus diferentes, a antiga associação entre ἀφωρισμένος (aphōrismenos, “separado”) e o passado farisaico de Paulo (Gill, 1809: comentário a Rm 1.1; Bengel, 1860: comentário a Rm 1.1).
Calvino oferece uma cautela importante: o interesse principal do texto não exige identificar a “separação” com um único momento biográfico. Meyer rejeita o trocadilho com “fariseu” e prefere relacionar a linguagem ao chamado de Paulo por Cristo. A pesquisa lexical moderna tornou ainda mais explícita a necessidade de cautela. Kellermann (1990: 183) interpreta ἀφορίζω (aphorizō, “separar”) em Rm 1.1 à luz dos chamados proféticos de Is 49.1 e Jr 1.5 e rejeita a referência ao passado farisaico por considerá-la pouco inteligível para os leitores romanos.
A análise gramatical contemporânea reorganiza a pergunta antes de qualquer reconstrução biográfica. ἀφωρισμένος (aphōrismenos, “separado”) é perf. part. pass. nom. sg. masc.. A voz passiva apresenta Paulo como participante afetado pela ação sem nomear formalmente o agente; o contexto paulino torna Deus a identificação mais natural. O perfeito, por sua vez, apresenta a separação como condição vigente na caracterização do remetente. Thielman (2018: 59) exprime a consequência dizendo que a ação de Deus continua moldando a identidade de Paulo; Porter e Yoon (2023: 3), dentro de sua própria teoria aspectual, descrevem o perfeito como estativo. Essas descrições convergem na relevância presente da separação, mas não devem ser tratadas como categorias teóricas idênticas.
A mesma precisão alcança εἰς εὐαγγέλιον θεοῦ (eis euangelion theou, “para o evangelho de Deus”). Calvino já percebia a ideia de finalidade; Barnes descreve o evangelho como a obra particular para a qual Paulo foi designado, e Meyer entende θεοῦ (theou, “de Deus”) em termos de autor/origem da mensagem (Calvino, 1849: comentário a Rm 1.1; Barnes, 1834: comentário a Rm 1.1, cf. ref. Notes, Explanatory and Practical, on the Epistle to the Romans; Meyer, 1884: comentário a Rm 1.1). A análise atual pode separar os níveis: εἰς (eis, “para”) + ac. exprime finalidade; θεοῦ modifica εὐαγγέλιον e é classificado primariamente como genitivo de origem/fonte por Porter e Yoon (2023: 3), Thielman (2018: 59) e Fitzmyer (1993: 232). A diferença terminológica entre “autor”, genitivo subjetivo e genitivo de origem não elimina a convergência semântica fundamental: Paulo não apresenta o evangelho como mensagem de sua própria criação.
E. A variante Χριστοῦ Ἰησοῦ / Ἰησοῦ Χριστοῦ na história da crítica textual
A variante Χριστοῦ Ἰησοῦ (Christou Iēsou, “Cristo Jesus”) / Ἰησοῦ Χριστοῦ (Iēsou Christou, “Jesus Cristo”) oferece um pequeno caso revelador da progressão da crítica textual. Meyer preferia Ἰησοῦ Χριστοῦ e julgava insuficiente a decisão de Tischendorf em favor da ordem inversa. As edições críticas atuais, ao contrário, imprimem Χριστοῦ Ἰησοῦ. Porter e Yoon (2023: 2) registram o apoio de 𝔓¹⁰, B e 81 a essa ordem, ao passo que Ἰησοῦ Χριστοῦ possui apoio numericamente muito mais amplo; Jewett (2006: 95) confirma essa assimetria e ainda assim considera “Cristo Jesus” a leitura mais difícil no contexto imediato.
Harvey acrescenta dois dados úteis para o cross-check: a UBS5 conserva Χριστοῦ Ἰησοῦ com classificação {B}, e a sequência “Cristo Jesus” é plenamente compatível com o uso paulino geral (Harvey, 2017: comentário a Rm 1.1). Penna também prefere Χριστοῦ Ἰησοῦ, ao mesmo tempo em que evita atribuir à inversão uma diferença cristológica substancial. Assim, a história da exegese recorda que intérpretes de períodos distintos nem sempre partiram do mesmo texto crítico e que a divergência pode decorrer tanto de hermenêutica quanto de avaliação textual.
F. Continuidade e refinamento na história da exegese
A trajetória interpretativa de Romanos 1.1 não confirma uma oposição simples entre uma exegese antiga “teológica” e uma exegese moderna supostamente “científica”. Orígenes já percebeu problemas de liberdade, escravidão e eleição; Calvino reconheceu a progressão entre serviço, apostolado e finalidade; Bengel explorou a eficácia do chamado; Gill, Meyer e outros discutiram a referência histórica da separação; e os comentaristas filológicos do século XIX procuraram especificar relações gramaticais com os instrumentos de seu tempo.
A pesquisa contemporânea modificou principalmente o grau de controle das afirmações. A história social do Império Romano devolveu a δοῦλος (doulos, “escravo”) sua concretude institucional; a análise linguística distingue κλητός (klētos, “chamado”) como adjetivo verbal de uma construção infinitiva que não existe no texto; a morfologia e a análise aspectual permitem descrever ἀφωρισμένος (aphōrismenos, “separado”) sem transformar automaticamente o perfeito em uma doutrina de irrevogabilidade; a sintaxe explicita a finalidade de εἰς εὐαγγέλιον (eis euangelion, “para o evangelho”) e a relação de origem/fonte em θεοῦ (theou, “de Deus”); a crítica textual, por fim, permite estabelecer com maior controle a forma grega que antecede todas essas decisões interpretativas.
O desenvolvimento exegético resulta, portanto, tanto em continuidade quanto em correção. A tradição estava substancialmente correta ao perceber em Rm 1.1 uma identidade definida por submissão a Cristo, chamada divina e destinação ao evangelho; a pesquisa posterior tornou possível demonstrar com maior precisão como a gramática comunica essas ideias e quais elementos pertencem à inferência teológica ou à reconstrução histórica. Essa história interpretativa prepara a comparação das traduções, pois escolhas como “servo”/“escravo”, “apóstolo chamado”/“chamado para ser apóstolo” e “separado”/“enviado para anunciar” não são apenas estilísticas: cada uma manifesta uma decisão sobre a relação entre forma grega e inteligibilidade na língua de chegada.
VI. Comparação com as versões da Bíblia
A comparação versional parte dos resultados já estabelecidos e, por isso, funciona como teste das decisões exegéticas, não como substituto da análise do grego. O texto adotado é Παῦλος δοῦλος Χριστοῦ Ἰησοῦ, κλητὸς ἀπόστολος ἀφωρισμένος εἰς εὐαγγέλιον θεοῦ (Paulos doulos Christou Iēsou, klētos apostolos aphōrismenos eis euangelion theou, “Paulo, escravo de Cristo Jesus, apóstolo chamado, tendo sido separado para o evangelho de Deus”). As versões são especialmente úteis para observar quatro dificuldades: o valor de δοῦλος, a relação entre κλητός e ἀπόστολος, a representação do particípio ἀφωρισμένος e o grau de explicitação introduzido na fórmula epistolar.
A. Versões inglesas
A NASB apresenta: “Paul, a bond-servant of Christ Jesus, called as an apostle, set apart for the gospel of God” (“Paulo, um escravo/servo vinculado de Cristo Jesus, chamado como apóstolo, separado para o evangelho de Deus”). É uma solução particularmente equilibrada. Bond-servant procura conservar a relação de sujeição de δοῦλος sem empregar diretamente slave; “called as an apostle” evita introduzir tão fortemente a ideia de um estado futuro e a própria edição registra em nota a forma mais literal “a called apostle”. A ordem “Christ Jesus” acompanha a leitura da NA28.
A ESV e a NRSVue convergem quase palavra por palavra: “Paul, a servant of Christ Jesus, called to be an apostle, set apart for the gospel of God” (“Paulo, servo de Cristo Jesus, chamado para ser apóstolo, separado para o evangelho de Deus”). A NIV apresenta a mesma estrutura fundamental e acrescenta a conjunção antes de “set apart”. As três são claras e formalmente próximas do grego, mas “servant” atenua a dimensão social de δοῦλος e “called to be” desenvolve κλητὸς ἀπόστολος mediante um infinitivo inexistente na superfície grega. A expansão é idiomática e legítima; não deve, porém, ser confundida com a morfologia do original.
A YLT é particularmente instrutiva por conservar “a called apostle, having been separated to the good news of God” (“um apóstolo chamado, tendo sido separado para a boa notícia de Deus”). Ela torna muito visíveis tanto o adjetivo κλητός quanto a natureza participial de ἀφωρισμένος. Em contrapartida, lê “a servant of Jesus Christ”, acompanhando a ordem Ἰησοῦ Χριστοῦ (Iēsou Christou, “Jesus Cristo”), e não a leitura da NA28. A KJV e a ASV igualmente trazem “servant of Jesus Christ, called to be an apostle, separated unto the gospel of God” (“servo de Jesus Cristo, chamado para ser apóstolo, separado para o evangelho de Deus”), representando uma tradição inglesa formal, mas baseada na ordem textual “Jesus Cristo”.
As versões mais funcionais tornam explícitas relações que o grego deixa compactas. A CEV começa “From Paul, a servant of Christ Jesus” (“Da parte de Paulo, servo de Cristo Jesus”) e em seguida explicita: “God chose me to be an apostle, and he appointed me to preach the good news” (“Deus me escolheu para ser apóstolo e me designou para pregar a boa notícia”). A GNT faz movimento semelhante: “From Paul, a servant of Christ Jesus and an apostle chosen and called by God to preach his Good News” (“Da parte de Paulo, servo de Cristo Jesus e apóstolo escolhido e chamado por Deus para pregar sua Boa Notícia”). Essas versões comunicam adequadamente a interpretação global do versículo, mas incorporam no texto traduzido decisões exegéticas que no grego dependem de inferência: nomeiam Deus como agente de κλητός/ἀφωρισμένος e transformam “separado para o evangelho” em comissão explícita para pregar.
B. Versões portuguesas
Entre as versões portuguesas, a NVI oferece uma das soluções mais equilibradas: “Paulo, servo de Cristo Jesus, chamado para ser apóstolo, separado para o evangelho de Deus”. A ordem “Cristo Jesus” acompanha a NA28, e a estrutura de κλητὸς ἀπόστολος e ἀφωρισμένος εἰς εὐαγγέλιον é preservada com pouca expansão. A tradução principal emprega “servo”, mas a nota de Rm 1.1 esclarece: “Isto é, escravo”. Essa nota é exegeticamente importante, pois mostra que a versão reconhece a força lexical de δοῦλος mesmo optando por uma formulação tradicional no corpo do texto.
A NVT torna explícita essa força já no texto principal: “Eu, Paulo, escravo de Cristo Jesus, chamado para ser apóstolo e enviado para anunciar as boas-novas de Deus, escrevo esta carta.” A versão acerta simultaneamente a ordem “Cristo Jesus” e a tradução de δοῦλος por “escravo”. Em ἀφωρισμένος, porém, abandona a equivalência lexical direta: “enviado para anunciar” é uma interpretação funcional da missão de Paulo, não uma tradução formal de “separado”. Também acrescenta “Eu”, “escrevo esta carta” e o verbo “anunciar” para reconstruir em português a função epistolar e missionária da frase.
A NTLH desenvolve ainda mais a estrutura: “Eu, Paulo, servo de Cristo Jesus, escrevo esta carta. Deus me chamou e me separou para ser seu apóstolo, a fim de que eu anuncie a boa notícia do evangelho de Deus.” A vantagem é conservar verbalmente “me separou” e explicitar com grande clareza o agente divino que o contexto paulino pressupõe. O custo é que a construção nominal do grego desaparece quase por completo: κλητός e ἀφωρισμένος são convertidos em verbos finitos, e a relação entre “separado” e “evangelho” recebe a paráfrase final “a fim de que eu anuncie”.
A ARA lê: “Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para ser apóstolo, separado para o evangelho de Deus”, enquanto a ACF apresenta: “Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para apóstolo, separado para o evangelho de Deus.” Ambas conservam de modo bastante formal κλητός/ἀπόστολος e ἀφωρισμένος/εἰς, mas seguem a ordem “Jesus Cristo”. Em termos de forma, a ACF é ligeiramente mais compacta em “chamado para apóstolo”; em termos de naturalidade portuguesa, “chamado para ser apóstolo” é mais idiomático, ainda que acrescente o infinitivo explicativo.
C. δοῦλος (doulos, “escravo”): onde as versões mais divergem
O principal contraste lexical encontra-se em δοῦλος (doulos, “escravo”). NASB tenta uma solução intermediária com bond-servant; ESV, NIV, NRSVue, YLT, KJV e ASV usam servant; NVT usa diretamente “escravo”; NVI, ARA, ACF e NTLH mantêm “servo”, embora a NVI registre em nota “Isto é, escravo”. Nenhuma escolha é neutra. “Servo” possui forte tradição bíblica e comunica serviço e submissão, mas pode sugerir ao leitor moderno uma relação voluntária ou ocupacional mais branda do que a semântica social de δοῦλος. “Escravo” restitui essa assimetria de pertencimento, embora o contexto cristológico e veterotestamentário impeça reduzir a metáfora a todos os aspectos jurídicos da escravidão romana.
Para uma tradução exegética, “escravo de Cristo Jesus” continua sendo preferível porque torna visível a relação fundamental de pertencimento que Fitzmyer, Penna e Porter–Yoon reconhecem no sintagma. Para uma tradução eclesiástica de circulação ampla, “servo” pode ser mantido se acompanhado de nota explicativa — exatamente a estratégia adotada pela NVI.
D. κλητὸς ἀπόστολος (klētos apostolos, “apóstolo chamado”)
A YLT é a que mais diretamente espelha a superfície grega com “a called apostle”; a nota da NASB também registra essa forma literal. A maioria das versões, porém, prefere “called to be an apostle” / “chamado para ser apóstolo”. Essa solução não é errada: ela explicita em inglês ou português a relação semântica entre o chamado e o ofício. O ponto metodológico é apenas reconhecer que “to be” / “para ser” não corresponde a um infinitivo grego expresso. A leitura não deve ser usada para sugerir que, no momento da redação, Paulo ainda aguardava tornar-se apóstolo; o próprio contexto o apresenta exercendo a comissão apostólica.
CEV, GNT e NTLH vão além, nomeando Deus como sujeito do chamado. Essa explicitação é exegeticamente defensável à luz de Gl 1.15–16 e do restante do prescrito, mas deve ser classificada como informação contextual introduzida pela tradução. O grego de Rm 1.1 contém κλητός (klētos, “chamado”), não um agente expresso junto ao adjetivo.
E. ἀφωρισμένος εἰς εὐαγγέλιον θεοῦ (aphōrismenos eis euangelion theou, “separado para o evangelho de Deus”)
NASB, ESV, NIV e NRSVue convergem em “set apart for the gospel of God”, enquanto KJV e ASV preservam a formulação mais antiga “separated unto the gospel of God”. A YLT torna a morfologia participial particularmente visível com “having been separated”. Em português, NVI e ARA apresentam “separado para o evangelho de Deus”, a ACF conserva a mesma estrutura com mínima diferença, e a NTLH verbaliza “Deus me chamou e me separou”. Essas traduções preservam, em graus diferentes, a relação básica entre ἀφωρισμένος e εἰς.
A NVT representa o caso mais interpretativo: “enviado para anunciar as boas-novas de Deus”. A formulação comunica adequadamente a função missionária que a separação possui no contexto, mas substitui tanto o lexema “separar” quanto a estrutura final εἰς + ac. por uma paráfrase de comissão. Para análise exegética, portanto, ela é valiosa como interpretação do sentido global, mas menos útil para observar a forma grega.
Quanto a θεοῦ (theou, “de Deus”), praticamente todas as versões formais conservam “of God” / “de Deus”. Isso é metodologicamente saudável porque nenhuma expressão curta da língua de chegada consegue codificar sozinha se o genitivo deve ser classificado como origem, fonte, autoria, posse ou outra nuance. A determinação de que Deus é primariamente a fonte/origem do evangelho decorre da sintaxe e do contexto de Rm 1.1–3, não de uma tradução diferente do genitivo.
F. Síntese da comparação moderna
Nenhuma versão reproduz simultaneamente todas as nuances do grego. A NASB oferece excelente equilíbrio formal em inglês e registra em nota a literalidade de κλητὸς ἀπόστολος; a YLT deixa particularmente visível a compactação nominal e participial, mas segue “Jesus Christ” e suaviza δοῦλος com servant. Em português, a NVI preserva muito bem a estrutura global e, graças à nota “Isto é, escravo”, reconhece a força de δοῦλος; a NVT é mais precisa nesse vocábulo e acompanha “Cristo Jesus”, mas interpreta ἀφωρισμένος por “enviado para anunciar”; ARA e ACF conservam de modo bastante formal a relação “separado para o evangelho”, porém seguem “Jesus Cristo”.
A comparação confirma, portanto, a utilidade de manter duas formas no estudo. Como representação morfossintática, “Paulo, escravo de Cristo Jesus, apóstolo chamado, tendo sido separado para o evangelho de Deus” torna visíveis as estruturas do grego. Como tradução exegética fluida, “Paulo, escravo de Cristo Jesus, chamado para ser apóstolo e separado para o evangelho de Deus” comunica o mesmo conteúdo em português natural sem incorporar explicações desnecessárias no corpo da tradução.
G. Testemunho de versões antigas
As versões antigas são úteis aqui sobretudo como testemunhas da recepção antiga do texto, não como autoridades superiores ao grego crítico. A Vulgata lê: Paulus servus Christi Iesu vocatus apostolus segregatus in evangelium Dei. A estrutura é notavelmente próxima do grego adotado: Christi Iesu corresponde à ordem “Cristo Jesus”; vocatus apostolus mantém a compactação “apóstolo chamado”; segregatus in evangelium Dei conserva o particípio/passivo e a orientação para o evangelho. O latim servus, contudo, como qualquer equivalente versional, deve ser interpretado em seu próprio campo semântico e não simplesmente retrovertido como se fosse uma glosa unívoca de δοῦλος.
A Peshitta siríaca apresenta: ܦܘܠܘܤ ܥܒܕܐ ܕܝܫܘܥ ܡܫܝܚܐ ܩܪܝܐ ܘܫܠܝܚܐ ܕܐܬܦܪܫ ܠܐܘܢܓܠܝܘܢ ܕܐܠܗܐ ܀. Em tradução aproximada: “Paulo, escravo/servo de Jesus Messias, chamado e apóstolo, que foi separado para o evangelho de Deus”. A versão preserva claramente a linguagem de sujeição e de separação, mas organiza κλητός e ἀπόστολος de forma própria e segue a ordem “Jesus Messias”. Essas diferenças mostram precisamente por que uma versão antiga não deve ser retrovertida mecanicamente para reconstruir a ordem ou a sintaxe de seu exemplar grego.
O copta saídico oferece outra configuração: ⲠⲀⲨⲖⲞⲤ ⲠϨⲘϨⲀⲖ ⲚⲒⲎⲤⲞⲨⲤ ⲠⲈⲬⲢⲒⲤⲦⲞⲤ ⲠⲀⲠⲞⲤⲦⲞⲖⲞⲤ ⲈⲦⲦⲀϨⲘ ⲠⲈⲚⲦⲀⲨⲠⲞⲢϪϤ ⲈⲂⲞⲖ ⲈⲠⲈⲨⲀⲄⲄⲈⲖⲒⲞⲚ ⲘⲠⲚⲞⲨⲦⲈ. Em termos funcionais, a versão apresenta Paulo como servo/escravo de Jesus Cristo, apóstolo chamado e alguém separado para o evangelho de Deus. O interesse não está em forçar correspondência morfema por morfema, mas em observar que as grandes relações semânticas — pertencimento, chamado/apostolado e separação para o evangelho — permanecem reconhecíveis.
O testemunho versional antigo, portanto, confirma a antiguidade das principais relações interpretativas do versículo, mas também adverte contra inferências excessivas. Vulgata, Peshitta e copta reorganizam elementos de acordo com suas próprias línguas; coincidência de ordem pode ser significativa, mas não prova por si só a forma exata da Vorlage. Para crítica textual, elas devem ser consideradas em conjunto com os manuscritos gregos e com a história de transmissão de cada tradição versional.
A comparação das versões completa, assim, o percurso iniciado pela análise do texto grego. As divergências entre as traduções não alteram o núcleo semântico de Rm 1.1, mas tornam visíveis os pontos nos quais o intérprete precisa decidir entre conservar a compactação formal do original e explicitar relações que o grego deixa condensadas. Com esses resultados estabelecidos, é possível reunir as dimensões textual, linguística, histórica e teológica do versículo numa síntese final.
VII. Síntese exegético-teológica e conclusão
Romanos 1.1 apresenta muito mais do que a identificação convencional do remetente de uma carta. A fórmula epistolar é ampliada de modo a situar Paulo inteiramente dentro de uma rede de relações que precede qualquer reivindicação pessoal de autoridade. O nome Παῦλος (Paulos, “Paulo”) é seguido por três caracterizações sucessivas e coreferenciais que definem quem ele é, em que condição exerce sua missão e para que finalidade foi posto à parte. A sintaxe não narra três acontecimentos em sequência; descreve, de perspectivas complementares, uma única identidade apostólica.
A primeira dessas caracterizações, δοῦλος Χριστοῦ Ἰησοῦ (doulos Christou Iēsou, “escravo de Cristo Jesus”), estabelece a relação fundamental de pertencimento. A escolha de “escravo” na tradução exegética preserva a assimetria social inscrita em δοῦλος (doulos), sem negar as ressonâncias bíblicas honoríficas da linguagem do servo do Senhor. Paulo não começa sua apresentação pela autonomia, pelo prestígio ou pela competência, mas pela dependência: sua autoridade é precisamente a autoridade de alguém que pertence a outro. As leituras clássicas enfatizaram sobretudo serviço, submissão e representação; a pesquisa moderna recolocou essas ideias no ambiente concreto da escravidão greco-romana e mostrou por que “servo”, embora tradicional, pode suavizar parte da força lexical do termo. A possível ressonância da Familia Caesaris permanece sugestiva, mas não é necessária para explicar a expressão.
A segunda caracterização, κλητὸς ἀπόστολος (klētos apostolos, “apóstolo chamado”), define a origem da comissão. κλητός (klētos, “chamado”) é um adjetivo verbal que modifica diretamente ἀπόστολος (apostolos, “apóstolo”); não há no grego um infinitivo equivalente a “ser”. A tradução fluida “chamado para ser apóstolo” comunica adequadamente a relação semântica, desde que não se projete sobre a construção grega uma ideia de condição ainda futura. Paulo se apresenta como apóstolo cuja condição deriva de um chamado recebido. Nesse ponto, a exegese clássica e a análise linguística contemporânea convergem: o apostolado não aparece como posição autoatribuída, mas como comissão cuja legitimidade está fora do próprio Paulo.
A terceira caracterização, ἀφωρισμένος εἰς εὐαγγέλιον θεοῦ (aphōrismenos eis euangelion theou, “separado para o evangelho de Deus”), desloca a atenção do estatuto de Paulo para a finalidade de sua missão. O particípio perfeito passivo apresenta-o sob a condição vigente de alguém que foi posto à parte; a voz passiva não nomeia o agente, embora o cotexto paulino torne Deus sua identificação mais natural. O ponto gramatical mais explícito, porém, não é de quem Paulo foi separado, mas para que foi separado: εἰς εὐαγγέλιον (eis euangelion, “para o evangelho”) exprime finalidade. A autodefinição do remetente termina, assim, não em Paulo, mas no evangelho.
O genitivo θεοῦ (theou, “de Deus”) completa esse deslocamento. Em Rm 1.1–3, a leitura de origem ou fonte é particularmente adequada: o evangelho procede de Deus e, nos versículos seguintes, será especificado como mensagem acerca de seu Filho. Forma-se, desse modo, uma arquitetura teológica que acompanha a própria sintaxe: Paulo pertence a Cristo, recebe sua comissão por chamado e é posto à parte para um evangelho cuja origem está em Deus. O remetente não é a fonte da mensagem nem o fundamento último de sua autoridade; sua identidade é derivada, e sua missão é orientada para uma realidade que o antecede.
A história da interpretação reforça a importância dessa arquitetura sem exigir que a exegese contemporânea simplesmente repita os comentaristas anteriores. Orígenes, Calvino, Bengel, Gill, Meyer e outros perceberam, em diferentes linguagens e contextos, dimensões de submissão, vocação, comissão e separação que continuam relevantes. A filologia, a crítica textual, a história social e a linguística moderna tornaram possível especificar melhor onde termina o dado gramatical e onde começa a inferência teológica ou a reconstrução histórica. O desenvolvimento da exegese aparece, por isso, menos como substituição de uma tradição por outra e mais como processo de continuidade, correção e refinamento.
As traduções modernas e antigas tornam visível esse mesmo problema sob outra perspectiva. “Servo” ou “escravo”, “apóstolo chamado” ou “chamado para ser apóstolo”, “separado” ou “enviado para anunciar” são soluções que revelam diferentes graus de proximidade formal e de explicitação interpretativa. Nenhuma versão isolada reproduz simultaneamente todas as nuances morfológicas, sintáticas e semânticas do grego. Por isso, a comparação versional confirma a utilidade de distinguir uma tradução literal, destinada a expor a estrutura, de uma tradução fluida, destinada à leitura corrente.
Considerado em sua forma final, Romanos 1.1 funciona, portanto, como uma declaração programática condensada. Antes de explicar o evangelho, Paulo define-se por ele; antes de reivindicar autoridade, declara pertencimento; antes de desenvolver sua missão, apresenta-a como recebida. A progressão pertencimento a Cristo → chamado apostólico → separação para o evangelho de Deus fornece a chave para a primeira linha da epístola e prepara o movimento dos versículos seguintes, nos quais o evangelho será apresentado como previamente prometido, centrado no Filho e destinado às nações. A abertura de Romanos começa com o nome de Paulo, mas sua sintaxe é construída para deslocar rapidamente o centro de gravidade do remetente para Cristo, para Deus e para o evangelho.
VIII. Abreviaturas e siglas
Abreviaturas gerais
ac. = acusativo
adj. = adjetivo
atrib. = atributivo
gen. = genitivo
masc. = masculino
neut. = neutro
nom. = nominativo
p. / pp. = página / páginas
part. = particípio
pass. = passivo
perf. = perfeito
prep. = preposição
sg. = singular
subst. = substantivo
v. / vv. = versículo / versículos
Edições críticas e textos antigos
LXX = Septuaginta
NA28 = Novum Testamentum Graece, 28ª edição, Nestle–Aland
UBS5 = The Greek New Testament, 5ª edição, United Bible Societies
Livros da Bíblia
1Co = 1 Coríntios
At = Atos
Gl = Gálatas
Is = Isaías
Jr = Jeremias
Rm = Romanos
Versões bíblicas em inglês
ASV = American Standard Version
CEV = Contemporary English Version
ESV = English Standard Version
GNT = Good News Translation
KJV = King James Version
NASB = New American Standard Bible
NIV = New International Version
NRSVue = New Revised Standard Version Updated Edition
YLT = Young’s Literal Translation
Versões bíblicas em português
ACF = Almeida Corrigida Fiel
ARA = Almeida Revista e Atualizada
NTLH = Nova Tradução na Linguagem de Hoje
NVI = Nova Versão Internacional
NVT = Nova Versão Transformadora
Siglas e símbolos de manuscritos
𝔓 = sigla usada para papiros do Novo Testamento
𝔓¹⁰ / 𝔓²⁶ = Papiros 10 e 26
א, A, B, G, K, L, P, Ψ = siglas convencionais de códices gregos maiúsculos no aparato crítico
33, 81, 104 etc. = numerais que designam manuscritos minúsculos
lecionário 249 = testemunho lecionário correspondente
IX. Referências bibliográficas
A. Textos primários e edições críticas
ALAND, Barbara; ALAND, Kurt; KARAVIDOPOULOS, Johannes; MARTINI, Carlo M.; METZGER, Bruce M. (ed.). Novum Testamentum Graece. 28. ed. rev. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 2012. (NA28).
ALAND, Barbara; ALAND, Kurt; KARAVIDOPOULOS, Johannes; MARTINI, Carlo M.; METZGER, Bruce M. (ed.). The Greek New Testament. 5. ed. rev. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 2014. (UBS5).
RAHLFS, Alfred; HANHART, Robert (ed.). Septuaginta: id est Vetus Testamentum graece iuxta LXX interpretes. 2. ed. rev. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 2006. (LXX).
B. Estudos, comentários e obras de referência
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C.2. Versões em português
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C.3. Versões antigas utilizadas
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Citação acadêmica:
MARTINS, Lucas A. “Romanos 1.1”. In: GALVÃO, Eduardo (ed.) et al. Comentário Crítico Exegético do Novo Testamento. [S. l.], 29 ago. 2026. Disponível em: [inserir URL do artigo]. Acesso em: 29 ago. 2026.
