Cristo e o Cosmo na Teologia de Paulo
Título: A Autoridade Apostólica de Paulo.
Subtítulo: Origem, legitimidade, exercício e limites da autoridade apostólica nas cartas paulinas.
Autor(a): Carlos E. Miguel.
Categoria: Estudos Paulinos; Teologia Paulina; Cristologia.
Submetido em: 15 ago. 2026.
Aceito em: 8 out. 2026.
Periódico: Paulus — Revista de Estudos Paulinos (PLS), vol. 1, nº 1 • 2026.
Problemática: Se todas as coisas procedem de Deus, qual é exatamente a posição de Cristo em relação ao cosmo? Como compreender sua mediação na criação, sua precedência, a coesão de todas as coisas nele e sua função escatológica sem transformá-lo em um segundo princípio criador concorrente ao Pai
Tese: Na teologia paulina, Cristo integra a própria estrutura do cosmo: todas as coisas procedem do Pai por meio dele, subsistem em relação a ele, estão submetidas ao seu senhorio e caminham para sua consumação nele. Sua centralidade cósmica não o torna rival do Pai, mas mediador singular da criação, reconciliação e consumação.
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Resumo: A cristologia paulina não situa Cristo apenas no interior da história da redenção, como aquele que surge posteriormente para reparar uma criação já constituída sem referência a ele. Em 1Co 8.6, a própria existência de “todas as coisas” é articulada mediante a relação entre o Pai, de quem elas procedem, e Jesus Cristo, por meio de quem elas existem. Cl 1.15–20 amplia essa estrutura ao apresentar Cristo como aquele em quem, por meio de quem e para quem a totalidade foi criada, enquanto Ef 1.9–10 projeta essa centralidade sobre o termo da história, quando todas as coisas são reunidas em Cristo. Esta seção examina, portanto, a posição de Cristo em relação à totalidade criada: sua mediação na criação, sua precedência, a coesão do cosmo nele, seu senhorio sobre os poderes e sua função escatológica na recapitulação de todas as coisas. O argumento central é que, na teologia paulina e em seu desenvolvimento imediato, Cristo não constitui um segundo princípio rival a Deus, mas pertence à própria estrutura segundo a qual o cosmo procede de Deus, subsiste, é governado e caminha para sua consumação.
Palavras-chave: Cristologia cósmica; Jesus Cristo; cosmologia paulina; criação; Colossenses; Efésios; 1 Coríntios.
I. Da origem do cosmo à posição de Cristo nele
§ 1 A pergunta pela origem do cosmo conduz inevitavelmente, em Paulo, à pergunta pela posição de Cristo em relação a ele. Se a realidade inteira procede de Deus e encontra em Deus seu termo, resta saber como deve ser compreendida a afirmação igualmente paulina de que “todas as coisas” existem por meio de Jesus Cristo. A questão é mais profunda do que perguntar simplesmente quem criou. Ela diz respeito à própria arquitetura teológica do real: se Deus é a fonte de tudo, qual é a função daquele que Paulo chama de “Senhor” dentro dessa relação entre Criador e criação?
§ 2 O problema aparece em sua forma mais concentrada em 1Co 8.6. Ali, Paulo não introduz Cristo depois de haver concluído sua doutrina da criação. A referência a Cristo ocorre dentro da própria formulação pela qual a criação é confessada. A totalidade do existente é referida ao Pai mediante a expressão ἐξ οὗ τὰ πάντα1 e a Cristo mediante δι’ οὗ τὰ πάντα2. O paralelismo não autoriza confundir as relações; tampouco permite separar Pai e Cristo em duas ordens teológicas independentes. É exatamente essa disposição que torna 1Co 8.6 um dos textos decisivos para qualquer reconstrução da cristologia cósmica paulina (Thiselton, The First Epistle to the Corinthians, 2000; Fee, The First Epistle to the Corinthians, 2014). Paulo afirma:
ἀλλ’ ἡμῖν εἷς θεὸς ὁ πατήρ,
ἐξ οὗ τὰ πάντα καὶ ἡμεῖς εἰς αὐτόν,
καὶ εἷς κύριος Ἰησοῦς Χριστός,
δι’ οὗ τὰ πάντα καὶ ἡμεῖς δι’ αὐτοῦ.3
“Para nós, contudo, há um só Deus, o Pai, de quem são todas as coisas e para quem nós existimos; e um só Senhor, Jesus Cristo, por meio de quem são todas as coisas e por meio de quem nós existimos.”
§ 3 O que está em jogo não é uma divisão quantitativa da causalidade. Paulo não atribui parte do universo ao Pai e parte a Cristo. O mesmo τὰ πάντα4 aparece nas duas relações. A totalidade que procede do Pai é a totalidade que existe por meio de Cristo. O Pai permanece fonte; Cristo é mediação. A distinção é real, mas ocorre no interior de uma única confissão acerca da estrutura da realidade, precisamente no contexto em que Paulo contrapõe a fé cristã aos “muitos deuses” e “muitos senhores” do ambiente religioso coríntio (Ciampa e Rosner, The First Letter to the Corinthians, 2010; Keener, 1–2 Corinthians, 2005).
II. Um só Deus, um só Senhor e uma só ordem do real
§ 1 A força cosmológica de 1Co 8.6 nasce justamente de sua inserção numa controvérsia sobre idolatria. Paulo não oferece uma especulação sobre o universo desligada da vida religiosa; ele redefine o universo dentro do qual a vida religiosa deve ser vivida. Se há um só Deus e um só Senhor, então o espaço aparentemente dividido entre poderes, deuses e senhorios concorrentes é, na verdade, uma criação cuja origem e mediação possuem unidade. A ética do alimento oferecido aos ídolos pressupõe, portanto, uma ontologia: os cristãos não habitam um cosmo teologicamente fragmentado (Garland, 1 Corinthians, 2003).
§ 2 O paralelismo entre εἷς θεός5 e εἷς κύριος6 deve ser ouvido sobre o fundo da confissão monoteísta de Israel. A linguagem paulina permanece suficientemente judaica para que não seja plausível ler “Deus” e “Senhor” como duas divindades coordenadas; ao mesmo tempo, a inclusão de Jesus Cristo na fórmula impede que “Senhor” seja reduzido a um título meramente honorífico. A confissão recebida é reorganizada cristologicamente sem ser abandonada. Esse procedimento pertence ao modo mais amplo pelo qual Paulo reinscreve as Escrituras de Israel dentro da linguagem cristã (Heil, The Rhetorical Role of Scripture in 1 Corinthians, 2005; Mitchell, Paul, the Corinthians and the Birth of Christian Hermeneutics, 2010).
§ 3 A relação com tradições sapienciais também merece atenção. O judaísmo helenístico já possuía linguagens mediante as quais a Sabedoria divina podia ser descrita em relação à criação sem se transformar num segundo Deus. Isso oferece uma gramática conceitual para compreender como uma função mediadora pode ser afirmada sem dissolver a unicidade divina. O paralelo não deve ser transformado numa genealogia simples, como se 1Co 8.6 pudesse ser inteiramente derivado de um único modelo sapiencial; ele mostra, porém, que a mediação criacional de Cristo não surge num vazio conceitual (Barrett, The First Epistle to the Corinthians, 1968; Schreiner, 1 Corinthians, 2018).
§ 4 Também não convém fazer da frase uma demonstração automática de toda a metafísica cristológica posterior. O texto exige mais sobriedade. A questão imediata é cosmológica e soteriológica ao mesmo tempo: Cristo pertence à forma pela qual a comunidade confessa tanto sua existência como sua redenção. A antiga oposição entre uma leitura “cosmológica” e outra “soteriológica” de 1Co 8.6 tornou-se precisamente um dos pontos em que a exegese mostrou a inadequação de separar rigidamente criação e salvação. A própria reconsideração dessa alternativa reconhece que a linguagem criacional não pode ser simplesmente removida da sentença (Murphy-O’Connor, “1 Corinthians 8:6: Cosmology or Soteriology?”, 2009).
§ 5 Isso ajuda a perceber a peculiar densidade do texto. Cristo não é simplesmente aquele por meio de quem Deus, num segundo momento, salva algumas criaturas. O mesmo Cristo é referido à totalidade criada. A redenção não introduz no universo um personagem que lhe era anteriormente estranho; ela manifesta, dentro da história, aquele por meio de quem a criação já é teologicamente compreendida.
III. O Cristo da criação é também o Senhor do fim
§ 1 Essa posição torna-se mais clara quando 1Co 8.6 é lido em conexão com 1Co 15.24–28. A mediação criacional não permanece estática: ela desemboca em senhorio escatológico. Cristo aparece ali submetendo todo principado, autoridade e poder, até que o último inimigo, a morte, seja destruído. O horizonte volta a ser o da totalidade, mas agora considerado em movimento para sua consumação. O texto declara:
“Depois, o fim, quando ele entregar o reino a Deus, o Pai, quando tiver abolido todo principado, toda autoridade e poder. Pois é necessário que ele reine até que tenha posto todos os inimigos debaixo de seus pés. [...] E, quando todas as coisas lhe estiverem sujeitas, então também o próprio Filho se sujeitará àquele que lhe sujeitou todas as coisas, para que Deus seja tudo em todos.”
§ 2 A sequência é teologicamente notável. O Cristo por meio de quem são “todas as coisas” é também aquele sob cujo domínio os poderes do presente cosmo são progressivamente subordinados. O senhorio não introduz um dualismo entre Cristo e Deus, porque o movimento termina na entrega do reino ao Pai. A soberania de Cristo é cósmica sem ser concorrencial; sua vitória não termina com Cristo constituindo um princípio independente, mas com a ordem inteira reconduzida a Deus. A cristologia cósmica paulina possui, desse modo, uma estrutura simultaneamente elevada e relacional (van Kooten, Cosmic Christology in Paul and the Pauline School, 2003).
§ 3 A comparação com cosmologias do Mediterrâneo antigo pode iluminar esse vocabulário, especialmente quando Paulo fala de poderes, elementos e entidades supra-humanas. Ela não deve, contudo, converter o apóstolo num filósofo estoico disfarçado. O valor dessas comparações está em mostrar que “cosmo” para um leitor antigo não era simplesmente matéria inerte, mas uma ordem povoada de relações, forças, seres e níveis de agência. A leitura de Paulo em diálogo com a física estoica torna esse aspecto particularmente visível, ainda que a moldura apocalíptica e bíblica continue a modificar profundamente o material recebido (Engberg-Pedersen, Cosmology and Self in the Apostle Paul, 2010).
§ 4 É justamente nesse ambiente que a afirmação “um só Senhor” adquire sua amplitude. O senhorio de Cristo não é apenas eclesial, como se fosse exercido exclusivamente sobre a comunidade cristã; tampouco é apenas futuro. A igreja confessa no presente aquele cuja relação com o universo inteiro antecede a própria existência da igreja e cujo reinado será manifestado plenamente no fim. O Cristo confessado liturgicamente é, ao mesmo tempo, o Cristo inscrito na estrutura da criação.
IV. Colossenses 1.15–20 e a concentração da cristologia cósmica
§ 1 Se 1Co 8.6 fornece a âncora segura no corpus paulino indiscutido, Cl 1.15–20 oferece a formulação mais concentrada da cristologia cósmica no corpus paulino em sentido amplo. A questão de autoria não precisa ser artificialmente resolvida para que a importância histórica e teológica do texto seja reconhecida. Para uma reconstrução estrita do Paulo histórico, a distinção permanece necessária; para compreender o desenvolvimento imediato da tradição paulina, entretanto, a passagem é incontornável. A passagem afirma:
“Ele é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação, porque nele foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam autoridades. Todas as coisas foram criadas por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as coisas, e nele todas as coisas subsistem.”
§ 2 A primeira designação, “imagem do Deus invisível”, já estabelece que a relação de Cristo com o cosmo não pode ser isolada de sua relação com Deus. Cristo torna visível, dentro da linguagem da carta, aquilo que permanece invisível em Deus. A expressão seguinte, πρωτότοκος πάσης κτίσεως7, deve ser interpretada dentro do movimento argumentativo que imediatamente a explica. A razão oferecida para a primogenitura é que “nele foram criadas todas as coisas”. Por isso, a expressão dificilmente pode ser isolada do conjunto e lida como simples classificação de Cristo no interior da série das criaturas. A linguagem de primogenitura carrega precedência e supremacia precisamente porque o restante da passagem coloca a criação inteira em relação a ele (Dunn, The Epistles to the Colossians and to Philemon, 1996; Moo, The Letters to the Colossians and to Philemon, 2008).
§ 3 A extensão do catálogo é deliberadamente abrangente: céu e terra, visível e invisível, tronos, dominações, principados e autoridades. A totalidade não é apenas espacial, mas hierárquica. Tudo o que poderia ser imaginado como ocupando uma posição elevada no universo religioso antigo é inserido sob a mesma afirmação criacional. Nenhum poder é deixado fora para constituir um domínio ontológico independente. A enumeração não pretende oferecer uma taxonomia exata do mundo angélico; sua função retórica é totalizante (Bruce, The Epistles to the Colossians, to Philemon, and to the Ephesians, 1984).
§ 4 É nesse ponto que a expressão τὰ πάντα4 alcança sua máxima densidade. Não designa apenas o conjunto indistinto das coisas materiais. Abrange tudo aquilo que compõe a ordem criada, inclusive aquelas potências que, para a imaginação religiosa do período, poderiam parecer intermediárias entre Deus e o mundo. O texto lhes retira qualquer autonomia absoluta: se existem, existem dentro de uma criação já referida a Cristo (Barth e Blanke, Colossians, 1994).
V. “Nele, por meio dele e para ele”: a gramática cristológica da criação
§ 1 O centro de Cl 1.16 não está apenas na repetição de “todas as coisas”, mas na rede preposicional que a envolve. A criação é situada ἐν αὐτῷ8, ocorre δι’ αὐτοῦ9 e é orientada εἰς αὐτόν10. A passagem não deve ser submetida a uma tabela filosófica rígida de causas, como se cada preposição correspondesse conscientemente a uma categoria aristotélica. Ainda assim, a combinação é teologicamente carregada. Cristo não se encontra em apenas um ponto do processo criacional.
§ 2 ἐν αὐτῷ situa a criação em relação a Cristo; δι’ αὐτοῦ o apresenta como mediação; εἰς αὐτόν introduz uma direção teleológica. A totalidade não é apenas criada “por meio” dele e depois entregue a finalidades estranhas a ele: ela é criada “para” ele. Essa última preposição impede reduzir a cristologia cósmica a um papel instrumental. Cristo pertence tanto à mediação quanto ao horizonte para o qual a criação é orientada (Harris, Colossians and Philemon, 2010).
§ 3 A análise gramatical, entretanto, serve justamente para impedir que a densidade teológica se transforme em licença exegética. A sintaxe deve permanecer anterior à sistematização. O valor de ἐν, διά e εἰς depende de seus complementos e do movimento da frase, e não de significados metafísicos fixos atribuídos de antemão a cada preposição (Campbell, Colossians and Philemon: A Handbook on the Greek Text, 2013). Precisamente por isso, a força da passagem é ainda mais impressionante: mesmo quando se evita sobrecarregar cada palavra, o conjunto continua colocando a criação em múltiplas relações com Cristo.
§ 4 A linguagem de “metafísica preposicional” é útil desde que seja entendida como descrição da estrutura relacional do texto, não como imposição de um sistema estranho sobre ele. A antiguidade conhecia formulações cosmológicas construídas por preposições, e esse dado ajuda a medir como uma audiência helenística poderia ouvir a linguagem da carta. Em Colossenses, porém, essas relações são cristologicamente concentradas: a linguagem disponível no mundo antigo é reorganizada para afirmar a posição singular de Cristo diante do todo (van Kooten, Cosmic Christology in Paul and the Pauline School, 2003).
VI. Antes de todas as coisas e a coesão do cosmo
§ 1 A afirmação seguinte radicaliza o quadro: αὐτός ἐστιν πρὸ πάντων11, “ele é antes de todas as coisas”. O enunciado complementa a linguagem de primogenitura. Cristo não apenas possui precedência funcional dentro da história; a carta o situa “antes” da totalidade que acaba de enumerar. O sentido exato da anterioridade precisa ser discutido dentro da cristologia da passagem, mas o texto deliberadamente estabelece uma assimetria entre Cristo e o conjunto das coisas criadas (Wilson, A Critical and Exegetical Commentary on Colossians and Philemon, 2005).
§ 2 É por isso que as tentativas de reconstruir uma tradição ou um hino anterior à carta, embora importantes para a história da composição, não podem substituir a exegese da forma final do texto. Mesmo se elementos de Cl 1.15–20 possuírem história prévia, eles agora funcionam dentro de uma argumentação que atribui a Cristo precedência, mediação criacional e supremacia. A questão histórico-tradicional esclarece como o texto chegou à sua forma; não dissolve aquilo que essa forma agora afirma (Schweizer, The Letter to the Colossians, 1982).
§ 3 A frase seguinte acrescenta algo ainda mais ousado: τὰ πάντα ἐν αὐτῷ συνέστηκεν12. Não se trata apenas de origem. A relação com Cristo alcança a permanência e a coesão da realidade criada. O verbo não deve ser convertido anacronicamente numa teoria física sobre forças que mantêm partículas ou galáxias unidas; seu alcance é ontológico e relacional. Aquilo que foi criado não se torna, uma vez existente, independente daquele em relação ao qual foi criado. A criação conserva uma estrutura de dependência (Sumney, Colossians, 2008).
§ 4 Essa coesão inclui também aquilo que o texto chama de tronos, dominações, principados e autoridades. A cristologia cósmica não elimina a complexidade do universo religioso antigo; subordina-a. Se tais poderes são pessoais, cósmicos, políticos, espirituais ou apresentam sobreposição entre essas categorias, nenhum deles escapa ao âmbito do Cristo em relação ao qual a totalidade é pensada. Por isso, a posterior afirmação da vitória sobre os poderes em Cl 2 não é um apêndice estranho à cristologia de Cl 1; é consequência dela.
VII. Da criação à reconciliação: o mesmo Cristo no princípio e no fim
§ 1 Cl 1.15–20 possui uma arquitetura ainda mais ampla do que uma doutrina da criação. O texto desloca-se da criação para a nova criação, da primogenitura sobre a criação para a primogenitura dentre os mortos, e finalmente para a reconciliação de “todas as coisas”. O Cristo colocado no horizonte do princípio reaparece no horizonte do restabelecimento. O texto afirma:
“Porque aprouve que nele habitasse toda a plenitude e, por meio dele, reconciliar consigo todas as coisas, fazendo a paz pelo sangue de sua cruz — por meio dele —, sejam as coisas sobre a terra, sejam as coisas nos céus.”
§ 2 O paralelismo é decisivo. As “todas as coisas” da criação reaparecem como as “todas as coisas” da reconciliação. Isso não permite inferir automaticamente uma doutrina de salvação universal de todos os seres racionais; o campo semântico da reconciliação e a diversidade dos modos pelos quais poderes hostis podem ser “pacificados” exigem maior precisão. Mas a extensão cósmica da obra de Cristo não pode ser reduzida à interioridade individual. A cruz pertence, na lógica da passagem, à história da totalidade criada (Moo, The Letters to the Colossians and to Philemon, 2008).
§ 3 Desse modo, criação e redenção não aparecem como dois projetos divinos desconexos. O Cristo por meio de quem a criação é pensada é o Cristo por meio de quem a reconciliação é realizada. A soteriologia não corrige uma cosmologia anterior que nada soubesse de Cristo; ela revela o significado daquele cuja relação com o mundo já estava inscrita no princípio. A análise do conjunto da carta confirma que a supremacia de Cristo serve precisamente para impedir que os leitores atribuam a outros poderes aquilo que pertence àquele em quem possuem sua plenitude (Barth e Blanke, Colossians, 1994).
§ 4 É por isso que a posição de Cristo não pode ser descrita adequadamente apenas como “agente da criação”. O termo é verdadeiro, mas incompleto. Ele é mediador, antecedente, horizonte, princípio de coesão e centro da reconciliação. A cristologia cósmica não depende de uma única expressão isolada; resulta da convergência dessas relações.
VIII. Efésios 1.9–10 e a recapitulação de todas as coisas em Cristo
§ 1 Ef 1.9–10 desloca o olhar do princípio e da conservação do cosmo para sua consumação. Novamente, a autoria da carta deve ser distinguida da questão de sua importância para a tradição paulina. Se 1Co 8.6 constitui o ponto de partida seguro e Cl 1.15–20 desenvolve a estrutura criacional, Efésios explicita o que essa centralidade significa para o destino do universo. A passagem declara:
“Ele nos fez conhecer o mistério de sua vontade, segundo seu beneplácito que nele propôs, para a administração da plenitude dos tempos: reunir em Cristo todas as coisas, as que estão nos céus e as que estão sobre a terra.”
§ 2 O verbo ἀνακεφαλαιώσασθαι13 é notoriamente denso. “Recapitular”, “sumariar”, “reunir” ou “trazer sob uma cabeça” captam aspectos diferentes de seu campo semântico, sem que nenhuma tradução isolada resolva inteiramente a questão. O elemento seguro é o objeto: τὰ πάντα ἐν τῷ Χριστῷ14. O projeto divino da plenitude dos tempos possui a totalidade como extensão e Cristo como centro (Best, Ephesians, 1998).
§ 3 Efésios não deixa a extensão de “todas as coisas” indeterminada. Acrescenta τὰ ἐπὶ τοῖς οὐρανοῖς καὶ τὰ ἐπὶ τῆς γῆς15. O movimento é novamente totalizante. O propósito divino não culmina meramente na reunião de indivíduos religiosos, mas na recomposição da ordem inteira sob Cristo. A igreja terá papel importante nessa teologia, mas não constitui o limite da ação divina; ela aparece dentro de um drama cuja escala é cósmica (Thielman, Ephesians, 2010).
§ 4 A sintaxe de Ef 1.9–10 recomenda cautela contra uma leitura excessivamente pictórica de “cabeça”. O verbo pode carregar a ideia de sumarização ou reunião sem que se precise derivar todo o seu sentido da metáfora anatômica de κεφαλή. Ainda assim, no horizonte mais amplo da carta, em que Cristo é exaltado acima de todo principado e autoridade e dado como cabeça sobre todas as coisas, a dimensão de soberania não é acidental (Hoehner, Ephesians: An Exegetical Commentary, 2002). O controle gramatical permite conservar essa força sem fazer o verbo dizer mais do que sua construção permite (Merkle, Ephesians, 2016).
§ 5 A recapitulação também fornece uma resposta ao problema da dispersão do cosmo. A multiplicidade de poderes, domínios e esferas não constitui o destino final das coisas. A plenitude dos tempos não termina em fragmentação, mas em convergência. Tudo aquilo que agora parece dividido entre céu e terra é referido a um único centro cristológico. A tradição paulina transforma, desse modo, a cristologia da mediação em cristologia da consumação (Bruce, The Epistles to the Colossians, to Philemon, and to the Ephesians, 1984).
§ 6 Essa ampliação de Colossenses em Efésios pode ser observada precisamente na passagem da criação e coesão do cosmo à sua reunião final em Cristo. O que em Cl 1 é expresso por meio das relações ἐν, διά e εἰς reaparece em Ef 1 como projeto histórico de Deus para a plenitude dos tempos. A cristologia cósmica torna-se escatologia cósmica (van Kooten, Cosmic Christology in Paul and the Pauline School, 2003).
IX. Cristo como estrutura, não como acréscimo ao cosmo
§ 1 O percurso permite formular a questão com maior precisão. Na teologia paulina, Cristo não é colocado ao lado do cosmo como um personagem cuja relevância começa apenas após a queda. Sua relação com a totalidade antecede a reparação do pecado. Em 1Co 8.6, todas as coisas existem por meio dele; em Cl 1.15–20, a totalidade é criada nele, por meio dele e para ele, encontra nele sua coesão e é reconciliada por meio dele; em Ef 1.9–10, todas as coisas caminham para sua reunião em Cristo.
§ 2 Isso não significa que Pai e Cristo sejam intercambiáveis. A diferenciação paulina permanece decisiva. O Pai é confessado como fonte; Cristo como mediador e Senhor. A cristologia elevada não precisa apagar essa ordem para ser elevada. Ao contrário, sua peculiaridade está em atribuir a Cristo funções de alcance cósmico sem criar, ao lado de Deus, um segundo princípio rival. A unidade do cosmo corresponde à unidade da ação divina que o origina, governa e conduz ao fim.
§ 3 A síntese teológica de Paulo torna-se mais inteligível quando criação, cristologia, soteriologia e escatologia não são tratadas como compartimentos estanques. O Cristo crucificado e ressuscitado é o mesmo em cuja linguagem Paulo consegue pensar a criação, a nova criação e a consumação. Por isso, sua centralidade não é meramente honorífica; ela estrutura a maneira pela qual o evangelho reorganiza a compreensão do mundo (Dunn, A teologia do apóstolo Paulo, 2003).
§ 4 A mesma integração aparece quando a cristologia paulina é lida no quadro da história da salvação. A exaltação de Cristo, sua condição de “imagem de Deus”, sua primogenitura e seu senhorio não constituem títulos acumulados sem conexão. Eles pertencem a uma estrutura na qual o advento escatológico de Cristo revela o significado do próprio projeto criacional. A criação tem uma história porque possui um fim; e esse fim é inseparável daquele por meio de quem Deus conduz sua obra à consumação (Ridderbos, A teologia do apóstolo Paulo, 2004).
§ 5 Por isso, “cristologia cósmica” não deve sugerir a projeção de Jesus para regiões abstratas do universo, como se o desenvolvimento cristológico consistisse simplesmente em aumentar espacialmente sua importância. O adjetivo “cósmica” descreve algo mais profundo: a relação de Cristo com a totalidade do que existe. Trata-se da pergunta pelo lugar de Cristo na gramática da criação, do poder, da reconciliação e da consumação. As categorias tradicionais dos estudos paulinos — Cristo, criação, poderes, senhorio, corpo, nova criação, escatologia — convergem justamente nesse ponto (Hawthorne, Martin e Reid, eds., Dicionário de Paulo e suas Cartas, 1993).
§ 6 A pergunta inicial pode, portanto, receber uma resposta mais definida. Se “todas as coisas” procedem de Deus, Cristo não ocupa diante delas a posição de um segundo criador independente. Ele é aquele por meio de quem a criação procedente do Pai é mediada, aquele em relação ao qual ela recebe sua ordenação, aquele diante de quem seus poderes perdem qualquer pretensão de autonomia e aquele no qual seu destino final é concentrado. A cristologia não é acrescentada posteriormente à cosmologia paulina. Ela pertence à sua estrutura.
§ 7 O cosmo paulino possui, assim, uma forma cristológica: vem do Pai por meio de Cristo, encontra em Cristo sua coesão, é submetido ao senhorio de Cristo e caminha para sua recapitulação nele. O movimento não termina em Cristo como termo isolado, pois o próprio senhorio do Filho conduz finalmente à confissão de Deus como “tudo em todos”. Mas é precisamente por isso que a posição de Cristo é tão singular: ele se encontra no interior do movimento pelo qual a totalidade procede de Deus e retorna à finalidade divina. Entre origem e consumação, a criação inteira é pensada cristologicamente.
Transliteração: ex hou ta panta. Tradução: “de quem são todas as coisas”.
Transliteração: di’ hou ta panta. Tradução: “por meio de quem são todas as coisas”.
Transliteração: all’ hēmin heis theos ho patēr, ex hou ta panta kai hēmeis eis auton, kai heis kyrios Iēsous Christos, di’ hou ta panta kai hēmeis di’ autou. Tradução: “para nós, contudo, há um só Deus, o Pai, de quem são todas as coisas e para quem nós existimos; e um só Senhor, Jesus Cristo, por meio de quem são todas as coisas e por meio de quem nós existimos”.
Transliteração: ta panta. Tradução: “todas as coisas”, “a totalidade”.
Transliteração: heis theos. Tradução: “um só Deus”.
Transliteração: heis kyrios. Tradução: “um só Senhor”.
Transliteração: prōtotokos pasēs ktiseōs. Tradução: “primogênito de toda a criação”.
Transliteração: en autō. Tradução: “nele”.
Transliteração: di’ autou. Tradução: “por meio dele”.
Transliteração: eis auton. Tradução: “para ele”, “em direção a ele”.
Transliteração: autos estin pro pantōn. Tradução: “ele é antes de todas as coisas”.
Transliteração: ta panta en autō synestēken. Tradução: “todas as coisas subsistem nele”, “todas as coisas mantêm sua coesão nele”.
Transliteração: anakephalaiōsasthai. Tradução: “recapitular”, “reunir”, “sumariar sob um princípio unificador”.
Transliteração: ta panta en tō Christō. Tradução: “todas as coisas em Cristo”.
Transliteração: ta epi tois ouranois kai ta epi tēs gēs. Tradução: “as coisas nos céus e as coisas sobre a terra”.
Bibliografia
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