Eclesiastes 1.7 ♱ O Mar Nunca se Enche: Uma Imagem da Insatisfação Humana
Eclesiastes 1.7
Todos os rios correm para o mar, e o mar nunca se enche; ao lugar para onde os rios correm, para lá continuam a correr.
A terceira imagem da natureza completa a sequência iniciada com o sol e o vento. O sol percorre sua rota e recomeça; o vento gira por seus circuitos; os rios correm continuamente para o mar sem alcançar um estado em que possam declarar concluída a tarefa (Ecl 1.5-7). O Pregador constrói uma paisagem dominada por atividade incessante. Nada está parado, mas o movimento não produz um ponto final. A pergunta formulada anteriormente permanece por trás de toda a cena: que “proveito” resulta de tanto esforço (Ecl 1.3)? Os rios oferecem a imagem de uma atividade que jamais chega a dizer: basta.
“Todos os rios correm para o mar” sugere direção. Diferentemente do vento que gira em várias direções, as águas parecem possuir um destino definido. Elas descem, atravessam a terra e encontram o mar. Seria razoável esperar que uma atividade tão constante produzisse finalmente algum resultado perceptível; entretanto, o texto acrescenta: “o mar nunca se enche”. A natureza parece trabalhar sem completar sua obra. A imagem não pretende oferecer uma aula sobre hidrologia, mas tornar visível a percepção que governa essa unidade: há processos que continuam indefinidamente sem produzir a espécie de conclusão que o observador espera deles. A própria descrição bíblica da criação reconhece que águas, fontes e mares pertencem a uma ordem continuamente sustentada por Deus (Sl 104.9-13).
Essa ausência de saciedade prepara um tema que aparecerá repetidamente em Eclesiastes. O mar recebe incessantemente e ainda não está “cheio”; pouco depois, o Pregador dirá que os olhos não se fartam de ver nem os ouvidos de ouvir (Ecl 1.8). Mais adiante, aquele que ama o dinheiro não se satisfaz com dinheiro (Ecl 5.9). Existe uma correspondência inquietante entre a paisagem e o coração humano: receber mais não significa necessariamente chegar ao estado de satisfação. A capacidade de adquirir pode crescer continuamente sem que cresça na mesma proporção a capacidade de dizer que já se possui o suficiente.
O problema não está nos desejos enquanto tais. Fome conduz ao alimento, sede conduz à água e o desejo de conhecimento pode conduzir à sabedoria. A dificuldade surge quando um desejo finito se converte numa procura sem termo. O livro de Provérbios compara certos apetites humanos a realidades que nunca dizem “basta” (Pr 30.15-16). Eclesiastes coloca diante de nós um mar que recebe rios inteiros sem alcançar plenitude e prepara o leitor para reconhecer fenômeno semelhante na vida humana. O coração pode imaginar que a próxima aquisição completará aquilo que falta, apenas para descobrir que a aquisição aumentou seu patrimônio sem curar sua inquietação.
A riqueza oferece um exemplo evidente. Alguém pode começar desejando apenas segurança; alcançada a segurança, passa a desejar conforto, depois distinção, depois maior independência, e finalmente proteção para tudo aquilo que acumulou. O alvo se desloca à medida que a pessoa se aproxima dele. Jesus apresenta um homem cuja abundância não conduz ao repouso propriamente dito, mas à construção de celeiros ainda maiores (Lc 12.16-21). O problema daquele homem não consiste em seus campos produzirem bem; encontra-se na esperança de finalmente dizer à própria alma que a abundância acumulada garantirá muitos anos. O mar de seus desejos continua recebendo rios.
Essa dinâmica pode ocorrer também onde não existe riqueza material. Reconhecimento, experiências, conhecimento, influência e até produtividade podem assumir a mesma estrutura. Uma aprovação produz desejo por outra; uma realização estabelece um novo padrão que precisa ser ultrapassado; uma resposta suscita outras perguntas. A Escritura não condena crescimento, aprendizado ou boa reputação, mas recusa transformá-los em fontes de plenitude. O sábio continua aprendendo (Pr 9.9), porém sua sabedoria inclui saber que o conhecimento humano possui limites (Ecl 8.16-17). Existe diferença entre crescer porque a vida possui novas possibilidades e correr porque a alma acredita que não poderá repousar enquanto não alcançar algo que sempre se afasta.
O movimento das águas também se conecta à sucessão descrita desde o v. 4. Uma geração vai, outra vem; o sol nasce novamente; o vento retorna a seus circuitos; os rios continuam correndo. O mundo não espera por ninguém. O curso que observamos começou antes de nós e continuará depois de nossa participação nele. Jó contempla as águas gastando pedras e carregando a terra, enquanto a esperança humana parece vulnerável diante do tempo (Jó 14.18-20). A natureza possui ritmos cuja duração ultrapassa largamente a experiência individual. Isso relativiza a impressão de que nossos projetos particulares constituem o centro da história.
Há, contudo, uma diferença decisiva entre o curso natural e a vida humana. O rio pode continuar sendo descrito como rio porque novas águas ocupam seu leito; o indivíduo que chega ao fim de seus dias não simplesmente retorna à infância para percorrer novamente sua existência. Essa assimetria já estava implícita quando a geração passava enquanto a terra permanecia (Ecl 1.4). Os processos naturais parecem renovar continuamente seus agentes; nossos dias, porém, são consumidos de maneira irreversível. Por isso, a sabedoria bíblica associa a consciência da brevidade ao uso responsável do tempo (Sl 90.12; Ef 5.15-16). Não podemos impedir o rio de correr nem recuperar o dia de ontem; podemos perguntar em que direção estamos gastando aquilo que nos foi confiado.
O versículo contém também uma correção para a fantasia de conclusão absoluta dentro da existência presente. Muitas pessoas imaginam um momento futuro em que finalmente todos os elementos estarão organizados: problemas resolvidos, patrimônio suficiente, relações sem tensão, saúde segura e nenhuma pendência importante. Eclesiastes observa um mundo em que os rios nunca terminam de correr. A existência criada contém necessidades recorrentes. O corpo alimentado hoje precisará comer novamente; uma casa limpa tornará a precisar de cuidado; uma geração educada será seguida por outra que também precisará aprender. Jesus ensinou seus discípulos a pedir o pão “de cada dia”, não uma independência que abolisse para sempre a condição de criaturas dependentes (Mt 6.11).
Essa recorrência não significa que o cuidado cotidiano seja inútil. Alimentar alguém hoje é verdadeiramente bom mesmo que ele volte a sentir fome amanhã. Ensinar uma criança tem valor mesmo que outra geração também precise ser ensinada. O erro seria medir todo bem pelo critério de encerramento definitivo. Deus estabeleceu uma criação na qual muitas bênçãos são recebidas novamente: a chuva retorna, a colheita se repete, o dia amanhece e o alimento precisa ser produzido outra vez (Gn 8.22; At 14.17). Eclesiastes não destrói o valor dessas coisas; destrói a expectativa de que elas consigam produzir, por acumulação, uma plenitude que transcenda sua própria natureza.
A frase “o mar nunca se enche” também ilumina a diferença entre usufruir e possuir como absoluto. Quando uma dádiva é recebida, pode ser desfrutada; quando é transformada em resposta definitiva para a existência, exige-se dela aquilo que não pode conceder. O próprio livro insistirá que comer, beber e encontrar satisfação no trabalho podem ser dons de Deus (Ecl 2.24; 5.18-19). O paradoxo é notável: a pessoa pode desfrutar mais serenamente do que recebeu quando deixa de esperar que aquilo a complete. O coração que exige infinitude de coisas finitas permanecerá semelhante ao mar que recebe rios e continua aberto para mais.
A Escritura desloca essa sede para outro horizonte. O salmista descreve sua alma como sedenta não simplesmente de bens, mas do próprio Deus (Sl 42.2). Jesus emprega a imagem da sede para distinguir uma água que exige consumo repetido de uma vida que procede de Deus (Jo 4.13-14). Não se deve transformar Eclesiastes 1.7 numa profecia direta dessa passagem; a conexão canônica, porém, evidencia uma diferença profunda. Se o coração humano possui uma capacidade que os bens criados nunca conseguem preencher definitivamente, multiplicar os bens não resolve necessariamente o problema da capacidade. A questão passa a ser aquilo para o qual essa capacidade foi feita.
Há ainda uma dimensão de confiança na estabilidade descrita pelo versículo. O fato de os rios continuarem seus cursos e de o mar conservar seus limites testemunha, dentro da perspectiva mais ampla das Escrituras, uma ordem que o homem não estabeleceu. Deus pergunta a Jó quem colocou limites ao mar e determinou até onde suas ondas poderiam chegar (Jó 38.8-11). O ser humano observa processos vastos cujo equilíbrio não depende dele. A mesma paisagem que expõe nossa pequenez também pode corrigir nossa ansiedade: não somos responsáveis por sustentar o mecanismo inteiro da criação. Existem movimentos que prosseguem enquanto dormimos porque o mundo não repousa sobre nossa capacidade de administrá-lo.
O Pregador conduzirá essa observação diretamente ao cansaço do v. 8. Sol, vento e rios formaram uma pequena sequência: movimento no céu, movimento no ar e movimento nas águas. Cada esfera da paisagem parece ocupada, mas nenhuma produz a novidade ou a satisfação que o homem deseja encontrar. A natureza torna-se, desse modo, um enorme espelho diante do leitor. O mar não se enche; logo veremos que os sentidos humanos também não. A questão deixada pelo v. 7 já ultrapassa os rios: quantas coisas precisam continuar chegando até nós antes que reconheçamos que talvez a plenitude que procuramos não possa ser produzida apenas acrescentando mais?

