Eclesiastes 1.8 ♱ O Olho Não se Sacia de Ver, nem o Ouvido de Ouvir
Eclesiastes 1.8
Todas as atividades humanas geram cansaço. Nenhum ser humano é capaz de dar uma boa explicação sobre isso. Mas os olhos nunca se saciam de ver, nem os ouvidos de escutar.
O Pregador chega agora ao efeito humano dos movimentos que acabou de contemplar. A terra permanece enquanto as gerações passam; o sol percorre novamente sua rota; o vento retorna aos seus circuitos; os rios correm sem que o mar se encha (Ecl 1.4-7). Depois de observar essa atividade incessante, ele já não descreve apenas o mundo: descreve o cansaço de quem tenta compreendê-lo e encontrar satisfação nele. A repetição que estava na paisagem alcança a consciência. O homem olha, escuta, procura, experimenta e continua desejando algo mais.
A primeira frase admite uma nuance importante. Ela pode transmitir a ideia de que “todas as coisas são cansativas” ou enfatizar que são tantas as coisas a considerar que a linguagem humana não consegue relatá-las adequadamente. O contexto permite que as duas percepções se encontrem. A realidade oferece mais fenômenos do que alguém consegue enumerar, e investigá-los não leva automaticamente ao repouso. Depois do sol, do vento e das águas, outros exemplos poderiam ser acrescentados indefinidamente; a enumeração seria tão interminável quanto os próprios ciclos observados. O homem encontra diante de si um mundo que excede sua capacidade de descrição, enquanto sua inteligência continua querendo penetrá-lo (Ecl 3.11; 8.16-17).
“Todas as coisas são fatigantes” não significa que cada aspecto da criação seja desagradável. O mesmo livro celebrará comida, bebida, trabalho, companhia e alegria como dons que podem ser recebidos da mão de Deus (Ecl 2.24-25; 5.18-19; 9.7-9). A fadiga descrita aqui nasce da tentativa de extrair da experiência criada uma conclusão que ela nunca entrega por si mesma. O homem termina uma tarefa e outra aparece; responde uma pergunta e surgem outras; satisfaz uma necessidade e logo precisa atendê-la novamente. A própria criação participa de uma condição marcada por sofrimento e expectativa, aguardando uma libertação que ainda não se consumou (Rm 8.20-23).
O olho fornece a primeira imagem dessa insatisfação: “não se sacia de ver”. Ver é uma dádiva extraordinária. Por meio da visão reconhecemos rostos, contemplamos beleza, aprendemos, trabalhamos e percebemos grande parte do mundo que nos cerca. O problema não está no olho, mas na impossibilidade de preenchê-lo de uma vez por todas. Sempre existe outra paisagem, outro objeto, outra pessoa, outra imagem, outra novidade. A satisfação produzida por aquilo que hoje prende nossa atenção pode desaparecer amanhã, e então procuramos algo diferente. A antiga sabedoria já aproximava essa capacidade insaciável dos apetites que nunca dizem “basta” (Pr 27.20; 30.15-16).
Há algo muito contemporâneo nessa observação, embora ela tenha sido formulada muito antes de qualquer cultura de imagens em massa. A quantidade daquilo que pode ser visto aumentou enormemente, mas a estrutura do desejo permanece reconhecível. Uma imagem conduz à seguinte; uma experiência estimula a busca de outra; aquilo que surpreendeu ontem rapidamente se torna comum. A abundância de estímulos pode aumentar sem produzir uma proporção correspondente de contentamento. Eclesiastes diagnostica uma diferença essencial entre estimulação e satisfação. O olho pode receber continuamente sem que o coração chegue ao repouso.
A Escritura conhece também o perigo de o desejo seguir aquilo que os olhos apresentam. Eva vê que o fruto é atraente e desejável antes de tomá-lo (Gn 3.6); Acã vê entre os despojos aquilo que cobiça antes de escondê-lo (Js 7.20-21); Davi vê Bate-Seba antes que o desejo seja transformado em ação (2Sm 11.2-4). O problema não é a faculdade visual, mas a capacidade humana de converter aquilo que vê em promessa de felicidade. João reunirá “a concupiscência dos olhos” entre os desejos pertencentes ao mundo que passa (1Jo 2.16-17). Eclesiastes toca uma raiz semelhante: aquilo que entra pelos olhos pode alimentar continuamente um desejo que nenhum objeto visto consegue finalmente encerrar.
O ouvido ocupa a segunda metade da imagem. Ele também “não se farta de ouvir”. Há sempre outra notícia, outra explicação, outra história, outra opinião. A própria curiosidade humana pode tornar-se uma busca interminável por novidade. Lucas descreve os atenienses como pessoas que empregavam seu tempo em contar ou ouvir alguma coisa nova (At 17.21). O interesse por conhecimento não é condenado; Eclesiastes é, afinal, produto de investigação sapiencial. O livro questiona a expectativa de que acumular informações seja equivalente a possuir sabedoria ou alcançar plenitude.
A diferença entre informação e sabedoria torna-se ainda mais importante porque ouvir muitas coisas não significa discerni-las corretamente. Um homem pode acumular notícias sobre o mundo e permanecer ignorante acerca de si mesmo. Pode conhecer acontecimentos distantes e não perceber aquilo que governa o próprio coração. Jesus insiste repetidamente que possuir ouvidos não garante verdadeira audição: é preciso “ouvir” de modo que a palavra recebida produza fruto (Mt 13.9,18-23). O ouvido pode permanecer ocupado enquanto a pessoa continua espiritualmente surda.
A relação entre o v. 7 e o v. 8 é especialmente sugestiva. O mar recebe todos os rios e não fica cheio; logo depois, o ouvido recebe continuamente e também não fica “cheio”. A paisagem torna-se uma metáfora possível da experiência humana. Há um fluxo permanente entrando no homem pelos sentidos, mas a recepção de mais conteúdo não resolve necessariamente a falta interior. Eclesiastes voltará ao mesmo padrão quando falar daquele que ama dinheiro e não se sacia com dinheiro (Ecl 5.9), ou do homem solitário cujo trabalho não possui fim porque seus olhos nunca se satisfazem com riqueza (Ecl 4.8). O objeto muda; a estrutura permanece.
A insatisfação revela que o desejo humano possui uma capacidade maior que muitos dos objetos aos quais se dirige. O alimento satisfaz a fome por algum tempo; uma bela paisagem satisfaz o olhar por um momento; uma resposta satisfaz determinada pergunta. Nenhum desses bens foi feito para absorver toda a necessidade de significado que existe na pessoa. O salmista desloca essa linguagem de saciedade para Deus: “como de gordura e tutano minha alma se saciará” quando sua alegria está nele (Sl 63.6). A diferença é teologicamente decisiva. Eclesiastes expõe a incapacidade dos objetos finitos de produzir plenitude ilimitada; outros textos mostram para onde a sede humana pode ser corretamente orientada.
Jesus emprega essa mesma lógica ao falar de uma água após a qual a pessoa volta a ter sede e de outra que se torna fonte de vida (Jo 4.13-14). A água comum não é desprezada; continua necessária. Seu limite apenas é reconhecido. Algo semelhante acontece com visão, audição, conhecimento, prazer e posses: todos podem ser bons em seu lugar, mas tornam-se cruéis senhores quando lhes exigimos que curem uma sede para a qual não foram criados. A idolatria não necessita transformar algo mau em objeto de desejo; basta exigir de uma coisa boa uma função absoluta.
O cansaço do versículo possui também uma dimensão intelectual. “O homem não pode exprimi-lo.” Há limites para o discurso humano. Podemos observar muito, formular teorias, estabelecer relações e ampliar o conhecimento; ainda assim, a totalidade da realidade escapa à nossa capacidade de descrição. Jó termina sua longa busca reconhecendo que havia falado de coisas que ultrapassavam seu conhecimento (Jó 42.3), e Paulo, ao contemplar a profundidade dos caminhos de Deus, reconhece que seus juízos excedem a investigação humana (Rm 11.33-34). A sabedoria bíblica não é hostil ao pensamento; ela recusa a fantasia de que pensar suficientemente transformará a criatura em possuidora da totalidade.
Essa limitação pode produzir humildade ou inquietação. Quem acredita que precisa compreender tudo para descansar viverá constantemente ameaçado por aquilo que ainda não conhece. O Pregador conhece bem essa tensão: quanto mais investiga a realidade, mais encontra questões que não consegue dominar completamente (Ecl 1.17-18). A maturidade não consiste em abandonar a busca pela verdade, mas em aprender a diferença entre aquilo que podemos conhecer e aquilo que permanece além de nossos limites. “As coisas escondidas pertencem ao Senhor”, enquanto aquilo que foi revelado nos é confiado para que vivamos responsavelmente (Dt 29.28).
A exaustão pode aparecer igualmente na tentativa de consumir experiências. O homem imagina que a vida plena depende de ver mais lugares, conhecer mais pessoas, possuir mais histórias para contar e experimentar aquilo que ainda não experimentou. Há beleza legítima na descoberta, mas nenhuma quantidade de experiências consegue impedir a mortalidade. O rico pode possuir oportunidades inacessíveis a outros e ainda descobrir que a quantidade de coisas experimentadas não responde à pergunta sobre o significado de sua existência. O próprio Pregador testará prazeres, propriedades, arte, empreendimentos e riqueza em escala extraordinária e descobrirá que o aumento da experiência não aboliu a vaidade (Ecl 2.1-11).
Isso ajuda a compreender por que descanso, na Escritura, é mais profundo do que ausência de atividade. É possível parar fisicamente e continuar interiormente correndo atrás da próxima coisa a ver, ouvir ou possuir. Jesus convida os cansados não simplesmente para uma interrupção de tarefas, mas para encontrar descanso nele (Mt 11.28-30). O coração precisa de algo que interrompa a obrigação de extrair das criaturas a justificativa da própria vida. Quando Deus deixa de ser o centro, cada novo objeto precisa prometer que talvez seja ele aquilo que finalmente satisfará; quando essa promessa falha, inicia-se outra procura.
O versículo não pede que fechemos os olhos nem que tapemos os ouvidos. Ele ensina a olhar e ouvir sem esperar que os sentidos sejam portas para uma plenitude produzida pela acumulação. A beleza pode ser contemplada como beleza; conhecimento pode ser recebido como conhecimento; música pode ser apreciada como música. Quando essas coisas são recebidas como dons, seus limites não precisam ser escondidos. O problema começa quando o coração transforma o próximo estímulo em candidato a salvador.
O movimento iniciado com o sol, o vento e os rios chega, portanto, ao interior da pessoa. O mundo não cessa de se mover, e os sentidos não cessam de receber. Ainda assim, a satisfação procurada não emerge automaticamente dessa circulação. O v. 9 dará o passo seguinte: aquilo que aconteceu voltará a acontecer, e a incessante procura por novidade será confrontada com a afirmação de que “não há nada de novo debaixo do sol” (Ecl 1.9). O cansaço do v. 8 prepara essa conclusão: quando o coração espera que a próxima visão ou a próxima notícia lhe ofereça aquilo que todas as anteriores não conseguiram proporcionar, a novidade transforma-se em mais uma volta dentro do mesmo circuito.

