Ir para o conteúdo principal

JSON Variables

Gênesis 2.20 — A lição que Adão aprendeu ao nomear os animais

Comentário Teológico ao livro de Gn
Índice

Gênesis 2.20

“E o humano deu nomes a todos os animais domésticos, às aves dos céus e a todos os animais do campo. Mas, para o humano, não se encontrou um auxílio que lhe correspondesse.”

§ 1 Quando Yahweh declara que “não é bom que o humano esteja só”, identifica uma necessidade que o próprio humano ainda não verbalizou. O jardim possui ordem, alimento, vocação e abundância de vida; nada sugere abandono ou escassez. Ainda assim, permanece uma insuficiência. A primeira realidade declarada “não boa” em Gênesis não é uma falha da terra, mas uma condição relacional: existe vida ao redor do humano, porém ainda não existe alguém que lhe corresponda.

§ 2 É precisamente nesse ponto que os animais entram na narrativa. Yahweh os conduz ao humano, e o humano os nomeia. O episódio não precisa ser reduzido a uma classificação primitiva da fauna nem a uma cerimônia de domínio. Nomear pressupõe perceber diferenças, reconhecer particularidades e inserir aquilo que se conhece no horizonte da linguagem. Ao distinguir o mundo vivo que lhe é apresentado, o humano começa também a perceber sua própria posição dentro dele.

§ 3 O resultado é narrativamente decisivo: depois da nomeação, “para o humano não se encontrou um auxílio que lhe correspondesse” (Gn 2.20). A conclusão da cena não é que a fauna recebeu nomenclatura, mas que nenhuma das criaturas apresentadas satisfaz a condição estabelecida em Gênesis 2.18. Há proximidade suficiente para convivência e relação, mas nenhuma delas ocupa diante do humano o lugar de sua contraparte.

§ 4 A narrativa repete então o gesto de Yahweh. Primeiro, os animais são trazidos ao humano; depois, a mulher é trazida ao humano. Na primeira apresentação, a linguagem distingue: o humano nomeia. Na segunda, a linguagem reconhece: “Esta, desta vez, é osso dos meus ossos e carne da minha carne” (Gn 2.23). A diferença entre as duas respostas constitui uma das chaves literárias da unidade.

§ 5 A antiga recepção judaica percebeu essa estrutura e, em diferentes formas, imaginou os animais passando diante do humano em suas correspondências de macho e fêmea ou mesmo em pares. O texto massorético não diz isso, e essa distinção precisa ser preservada. A tradição, contudo, revela que a relação entre observação animal e percepção da própria solidão é uma inferência antiga produzida pela própria disposição do relato.

§ 6 A hipótese desenvolvida neste estudo é, portanto, mais precisa do que a afirmação de que Yahweh levou os animais ao homem simplesmente para lhes dar nomes. A nomeação é real e significativa; porém, dentro da arquitetura de Gênesis 2.18–23, ela participa de uma experiência mais ampla. O humano conhece as outras criaturas, reconhece que nenhuma lhe corresponde e torna-se preparado para compreender a singularidade daquele encontro em que finalmente poderá dizer: “esta, desta vez”.

I. O problema narrativo de Gênesis 2.18–23

§ 1 A unidade de Gênesis 2.18–23 é construída em torno de uma falta já identificada antes da chegada dos animais. Yahweh declara o problema, define a espécie de relação necessária e somente então conduz as criaturas ao humano. Por isso, Gênesis 2.19–20 não deve ser isolado como episódio zoológico independente: sua função precisa ser determinada pela declaração que o antecede e pela formação da mulher que o sucede.

A. “Não é bom que o humano esteja só”

§ 1 A frase לֹא־טוֹב הֱיוֹת הָאָדָם לְבַדּוֹ1, “não é bom que o humano esteja só”, introduz uma ruptura deliberada na linguagem positiva da criação. A insuficiência não se encontra no jardim, no alimento ou no trabalho confiado ao humano. O “não bom” incide sobre sua condição relacional, e é justamente essa condição que desencadeia o movimento seguinte da narrativa (Wenham, 1987: 68).

§ 2 A palavra לְבַדּוֹ2, “sozinho, por si”, não significa ausência absoluta de toda presença. Yahweh está presente e o mundo criado está vivo. A solidão possui sentido mais específico: entre os seres que compõem seu horizonte, ainda não existe alguém capaz de ocupar a relação descrita imediatamente depois como עֵזֶר5 כְּנֶגְדּוֹ63 (עֵזֶר כְּנֶגְדּוֹ3). É possível estar cercado de vida e ainda não possuir correspondência.

§ 3 Também é significativo que a primeira percepção da falta pertença a Yahweh. O texto não registra lamento, pedido ou diagnóstico pronunciado pelo humano. A necessidade é inicialmente verbalizada pelo Criador. Isso não prova que o homem seja psicologicamente inconsciente de toda solidão, mas estabelece uma assimetria narrativa segura: Yahweh formula a insuficiência antes que o humano diga qualquer coisa sobre ela.

B. “Um auxílio que lhe corresponda”

§ 1 A resposta é definida antes de ser realizada: אֶעֱשֶׂה־לּוֹ עֵזֶר כְּנֶגְדּוֹ4, “farei para ele um auxílio que lhe corresponda”. עֵזֶר5 designa auxílio sem pressupor inferioridade; כְּנֶגְדּוֹ6 delimita a relação como correspondência, contraparte, alguém situado “diante dele” de maneira adequada (HALOT, s.v. עזר5; נגד7; Wenham, 1987: 68–69).

§ 2 Essa qualificação impede que a questão seja reduzida a utilidade. Um animal pode auxiliar o humano em diferentes sentidos sem, por isso, tornar-se seu עֵזֶר כְּנֶגְדּוֹ3. O problema de Gênesis 2.18 não é encontrar uma criatura funcionalmente vantajosa, mas uma presença capaz de reciprocidade dentro da mesma condição humana. É esse critério, e não simples capacidade de ajuda, que governa tudo o que segue.

§ 3 A confirmação aparece em Gênesis 2.20, quando a mesma expressão retorna em forma negativa: וּלְאָדָם לֹא־מָצָא עֵזֶר כְּנֶגְדּוֹ8, “mas para o humano não se encontrou um auxílio que lhe correspondesse”. Entre a formulação positiva de 2.18 e a negativa de 2.20 encontram-se precisamente a apresentação e a nomeação dos animais.

§ 4 Essa repetição fornece o vínculo literário essencial. Os animais não aparecem simplesmente depois da promessa de uma contraparte; aparecem dentro da unidade delimitada pela mesma expressão. A leitura da cena precisa, portanto, explicar por que a experiência animal desemboca numa constatação referente ao עֵזֶר כְּנֶגְדּוֹ3, e não apenas em informação sobre domínio ou linguagem (Cassuto, 1961: 129).

C. Da falta ao reconhecimento

§ 1 A arquitetura da passagem pode ser condensada numa progressão simples: Gênesis 2.18 declara a solidão e define a correspondência necessária; 2.19 apresenta os animais; 2.19–20 descreve a nomeação; 2.20 registra que nenhum correspondente foi encontrado; 2.21–22 narra a formação e apresentação da mulher; e 2.23 oferece a primeira resposta verbal humana à resolução do problema.

§ 2 Um segundo elo reforça essa construção. Sobre os animais, lê-se וַיָּבֵא אֶל־הָאָדָם9, “e os trouxe ao humano” (Gn 2.19); sobre a mulher, וַיְבִאֶהָ אֶל־הָאָדָם10, “e a trouxe ao humano” (Gn 2.22). O mesmo gesto de apresentação recebe duas respostas distintas. A repetição verbal não apenas aproxima os episódios; ela convida o leitor a comparar aquilo que cada apresentação produz.

§ 3 Na primeira apresentação, o humano atribui nomes e a voz narrativa conclui: não se encontrou correspondência. Na segunda, a voz humana irrompe com זֹאת הַפַּעַם11, “esta, desta vez”, expressão que carrega força contrastiva e pode ser vertida “esta, finalmente” (Alter, 1996: 9). O contraste entre 2.20 e 2.23 é mais importante que qualquer reconstrução psicológica não explicitada pelo texto.

§ 4 A questão que passa a governar o episódio é, portanto, por que Yahweh coloca essa experiência entre sua declaração sobre a solidão e a apresentação da mulher. A resposta deverá surgir das próprias ações narradas: nomear, distinguir, constatar ausência de correspondência e, finalmente, reconhecer aquela que pertence à mesma carne. A sequência não interrompe a história da mulher; prepara sua inteligibilidade.

II. Nomear em Gênesis: taxonomia, autoridade ou reconhecimento?

§ 1 A nomeação é o ato humano mais destacado em Gênesis 2.19–20, mas seu significado não pode ser definido por uma única categoria moderna. “Taxonomia”, “autoridade” e “reconhecimento” não precisam funcionar como alternativas excludentes. O texto permite reconhecer uma prerrogativa humana real, ao mesmo tempo em que apresenta a nomeação como resposta cognitiva e relacional a criaturas cuja existência e identidade antecedem o ato humano.

A. Elohim nomeia aquilo que distingue em Gênesis 1

§ 1 A primeira atividade de nomeação em Gênesis não pertence ao humano. Depois de separar luz e trevas, Elohim chama a luz “Dia” e as trevas “Noite” (Gn 1.5); chama o firmamento “Céus” (Gn 1.8); e, depois da separação entre terra seca e águas, chama uma “Terra” e as outras “Mares” (Gn 1.10). Em cada caso, a realidade já está diferenciada quando recebe nome.

§ 2 O verbo קָרָא12 possui amplo campo semântico, e sua construção com nome designa “chamar”, “dar nome”. O léxico não contém por si mesmo qualquer noção de classificação zoológica científica; essa função, se existir, precisará ser demonstrada pelo contexto (HALOT, s.v. קרא12). A continuidade lexical entre Gênesis 1 e 2 permite, contudo, perceber que a nomeação humana acontece num livro em que o próprio Criador já nomeou realidades diferenciadas.

§ 3 Isso não significa que os dois atos sejam equivalentes em todos os aspectos. Elohim ordena a criação soberanamente; o humano recebe um mundo já formado. Ainda assim, existe uma analogia: o nome segue o reconhecimento de uma distinção. A luz não começa a existir quando é chamada “Dia”, e os animais não começam a existir quando recebem nomes humanos. Nomear responde a uma realidade anterior ao nome.

§ 4 Essa relação foi observada também na literatura especializada sobre animais: a atividade humana em Gênesis 2 pode ser lida em continuidade com a nomeação divina de Gênesis 1, como prerrogativa recebida e não como criação autônoma de realidade (Hausoul, 2021: 38). A dignidade humana está justamente em responder inteligentemente a um mundo que não produziu.

B. “Para ver que nome lhe daria”

§ 1 Gênesis 2.19 afirma que Yahweh traz as criaturas לִרְאוֹת מַה־יִּקְרָא־לוֹ13, literalmente “para ver o que lhe chamaria”, isto é, que nome o humano lhe daria. A construção não descreve critérios classificatórios; concentra-se no ato de atribuição. Em seguida, o narrador confirma que aquilo que o humano chamasse cada criatura vivente se tornaria seu nome.

§ 2 É notável que nenhum desses nomes seja preservado. Não possuímos uma lista, uma hierarquia de gêneros, uma divisão por espécies ou qualquer sistema criado pelo humano. Se o interesse principal estivesse na taxonomia produzida, o silêncio sobre o conteúdo dessa classificação seria difícil de explicar. O narrador considera decisivo o fato de nomear, não o vocabulário resultante da nomeação.

§ 3 Por isso, o encontro com a particularidade da criatura merece maior peso. A nomeação sugere atenção ao animal enquanto realidade distinta, e não prioritariamente sua absorção num esquema abstrato (Clough, 2012: 64). O mundo vivo não comparece como massa indiferenciada. O humano responde linguisticamente a seres que precisam ser percebidos como diferentes uns dos outros.

§ 4 Nomear, nesse sentido, envolve conhecimento. Não porque o texto descreva um estudo zoológico minucioso, mas porque a diferenciação é condição do ato. O humano deve reconhecer suficientemente aquilo que está diante dele para tratá-lo como esta criatura e não outra. A linguagem torna pública essa percepção e, ao mesmo tempo, introduz o animal no horizonte relacional humano.

C. Autoridade sem redução à dominação

§ 1 Seria igualmente inadequado eliminar toda dimensão de autoridade. Lido ao lado de Gênesis 1.26–28, o ato de nomear participa da posição singular concedida ao humano dentro da criação. A questão não é se existe prerrogativa, mas que espécie de prerrogativa pode ser inferida. A literatura exegética registra justamente o debate entre nomeação como soberania e nomeação como integração da criatura no mundo humano (Clough, 2012: 52, citando Westermann, 1974: 228).

§ 2 Conhecimento e autoridade não precisam competir. Uma criatura sobre a qual o humano exerce responsabilidade continua pertencendo primeiro a Yahweh. Nesse quadro, governar não significa poder redescrever arbitrariamente aquilo que se recebeu. A autoridade é delegada e, por isso, deve responder à realidade e ao valor do outro vivente.

  • autoridade, porque o humano recebe uma prerrogativa singular;
  • discernimento, porque as criaturas são percebidas em sua diferença;
  • conhecimento, porque o ato linguístico pressupõe reconhecimento;
  • relação, porque aquilo que recebe nome entra no horizonte humano;
  • responsabilidade, porque o mundo nomeado continua pertencendo ao Criador.

§ 3 Essas dimensões se reforçam em vez de se anularem. Reduzir a nomeação a domínio perde seu aspecto cognitivo e relacional; reduzi-la apenas a contemplação ignora a prerrogativa que o texto atribui ao humano. A leitura mais adequada preserva ambas e pergunta como essa atividade contribui para a conclusão antropológica de Gênesis 2.20.

D. Por que “taxonomia” é insuficiente

§ 1 “Taxonomia” pode servir como metáfora moderna para discernimento de diferenças, mas se torna enganosa quando apresentada como função principal do episódio. Gênesis 2 não registra critérios classificatórios nem preserva os nomes atribuídos. Além disso, como veremos, nem sequer enumera todos os grandes domínios animais apresentados em Gênesis 1. O interesse narrativo está em outro lugar.

§ 2 Esse lugar aparece na frase que encerra a cena: “para o humano não se encontrou um auxílio que lhe correspondesse” (Gn 2.20). O narrador não conclui que o mundo animal agora possui nomenclatura; conclui que uma necessidade humana permanece aberta. A nomeação, qualquer que seja sua dimensão de autoridade, está literariamente subordinada a essa constatação.

§ 3 A relação pode então ser formulada sem exagero psicológico: ao distinguir o animal como animal, o humano encontra uma criatura próxima e, simultaneamente, não correspondente. Nenhum nome transforma o outro vivente em עֵזֶר כְּנֶגְדּוֹ3. A mesma atividade que integra o animal no mundo humano preserva a diferença que impede sua identificação com a contraparte procurada.

§ 4 Nomear é, portanto, um ato de autoridade cognitiva e relacional. O humano contempla, distingue e dá expressão linguística a um mundo já criado por Yahweh. A importância antropológica da experiência nasce justamente daí: conhecer corretamente os outros seres torna possível reconhecer, sem desprezá-los, o limite da relação que eles podem oferecer.

III. Quais animais são apresentados ao humano?

§ 1 A fórmula popular “Adão nomeou todos os animais” precisa ser refinada quando passamos à exegese. Gênesis 2 não oferece um inventário completo da fauna criada. O texto nomeia categorias específicas e deixa outras ausentes. Essa seletividade enfraquece a ideia de uma classificação zoológica universal e reforça a leitura da cena como apresentação narrativa do mundo vivo que entra no horizonte imediato do humano.

A. Animais do campo e aves dos céus

§ 1 Gênesis 2.19 menciona כָּל־חַיַּת הַשָּׂדֶה14, “todo animal do campo”, e כָּל־עוֹף הַשָּׁמַיִם15, “toda ave dos céus”. חַיַּת הַשָּׂדֶה16 designa fauna associada ao campo e ao espaço não domesticado; עוֹף18 refere-se às criaturas aladas (HALOT, s.v. חיה17; עוף18). A enumeração já mostra que o narrador trabalha com categorias de experiência, e não com uma lista científica exaustiva.

§ 2 A linguagem organiza o mundo segundo espaços percebidos, e não segundo uma taxonomia científica posterior. Há criaturas do campo e criaturas dos céus. A perspectiva é concreta e experiencial: o texto fala do mundo como ele comparece diante de um observador terrestre, não segundo categorias biológicas construídas para ordenar todas as formas de vida.

§ 3 Também é preciso respeitar o alcance contextual de כֹּל19, “todo”. O termo universaliza aquilo que pertence à categoria mencionada, mas não obriga o leitor a transformar “todo animal do campo” em “todo organismo animal existente no planeta”. A extensão é definida pelo próprio universo narrativo da expressão.

B. O aparecimento de בְּהֵמָה em Gênesis 2.20

§ 1 Ao resumir a nomeação, Gênesis 2.20 acrescenta בְּהֵמָה20, termo frequentemente associado a quadrúpedes e sobretudo a animais domésticos ou gado, embora seu alcance possa variar conforme o contexto (HALOT, s.v. בהמה20). O resumo menciona, assim, בְּהֵמָה20, aves dos céus e animais do campo.

§ 2 A diferença entre a enumeração de 2.19 e a de 2.20 já aconselha cautela contra a leitura de uma lista zoológica tecnicamente rígida. O texto trabalha com categorias reconhecíveis dentro do mundo antigo e de sua experiência cotidiana. A função da enumeração é representar diversidade animal suficiente para a cena, não fornecer uma chave científica de classificação.

§ 3 Essa diversidade também amplia a dimensão relacional. Diante do humano estão animais associados mais diretamente à vida doméstica, criaturas do espaço aberto e aves. São diferentes formas de vida com diferentes possibilidades de proximidade; contudo, nenhuma delas altera a avaliação introduzida em 2.18 e retomada em 2.20.

C. A ausência da fauna aquática

§ 1 A ausência mais significativa é a dos animais aquáticos. Gênesis 2.19–20 não menciona דָּג21, “peixe”, nem qualquer categoria equivalente aos seres do mar. A observação é reconhecida também em estudo especializado sobre os animais de Gênesis 2 (Hausoul, 2021: 40). A cena, portanto, não descreve literalmente a apresentação de toda a fauna criada.

§ 2 O contraste se torna mais claro quando se considera Gênesis 1.20–22. Ali, os seres aquáticos recebem atenção própria e incluem as grandes criaturas marinhas, תַּנִּינִם הַגְּדֹלִים22. No nível da forma final do livro, o leitor sabe perfeitamente que a criação animal excede aquilo que é conduzido ao humano em Gênesis 2.

§ 3 Não é necessário apagar as diferenças literárias entre as duas narrativas para reconhecer esse dado. Basta observar que Gênesis 2 seleciona. Se o episódio pretendesse explicar a origem de uma nomenclatura zoológica universal, a ausência de um domínio inteiro da vida seria difícil de compreender. Como cena relacional, porém, a seletividade é inteiramente funcional.

D. Uma totalidade narrativa

§ 1 “Todos os animais”, portanto, deve ser compreendido nos limites impostos pelo próprio episódio. A narrativa reúne uma representação ampla do mundo animal acessível ao horizonte humano sem pretender uma enciclopédia da biosfera. O que interessa é a suficiência da experiência: criaturas diversas chegam ao humano, recebem nomes e nenhuma delas se revela sua contraparte.

§ 2 Essa leitura evita dois excessos. Não precisamos imaginar uma procissão biologicamente exaustiva de todas as espécies terrestres; tampouco precisamos enfraquecer o valor de כֹּל19. A totalidade é real dentro das categorias narrativamente designadas. O texto fala de maneira compreensível dentro de seu próprio mundo sem assumir perguntas que pertencem à ciência classificatória moderna.

§ 3 O efeito literário permanece o mesmo: o mundo está cheio de vida e, ainda assim, alguma coisa falta. A diversidade das criaturas não dissolve a solidão anunciada em Gênesis 2.18. A abundância prepara precisamente o contraste que será resolvido não por mais um animal, mas pela apresentação de outro humano.

IV. Duas apresentações diante do humano

§ 1 O elo literário mais forte entre os animais e a mulher é o gesto repetido de Yahweh. Em Gênesis 2.19 ele conduz as criaturas ao humano; em 2.22 conduz a mulher ao humano. Essa correspondência verbal permite comparar as duas cenas sem transformar os animais em “candidatos” defeituosos. O narrador coloca dois encontros em paralelo e deixa que seus resultados revelem a diferença.

A. “E os trouxe ao humano”

§ 1 Depois de formar os animais, Yahweh וַיָּבֵא אֶל־הָאָדָם9, “os trouxe ao humano” (Gn 2.19). A iniciativa pertence a Yahweh. O humano não parte em busca de uma solução para sua solidão; recebe diante de si as criaturas que deverá reconhecer e nomear. O movimento é, portanto, recebido antes de ser interpretado: a criatura chega ao humano por iniciativa divina.

§ 2 A experiência termina com uma informação que remete diretamente ao problema já formulado: não se encontrou עֵזֶר כְּנֶגְדּוֹ3. A formulação hebraica permite discussão sobre o sujeito de מָצָא23, e por isso a tradução impessoal “não se encontrou” preserva adequadamente a ambiguidade sem sobrecarregar a sintaxe (Cassuto, 1961: 129).

§ 3 O ponto narrativo, porém, é inequívoco. A apresentação não produz a relação descrita em 2.18. Isso não rebaixa os animais nem os converte em tentativas malsucedidas de humanidade. Apenas delimita o tipo de relação que existe entre eles e o humano. A diferença é determinada pelo tipo de vínculo exigido, não por uma insuficiência ontológica das criaturas.

B. “E a trouxe ao humano”

§ 1 Depois da formação da mulher, o mesmo movimento retorna: וַיְבִאֶהָ אֶל־הָאָדָם10, “e a trouxe ao humano” (Gn 2.22). A proximidade lexical entre 2.19 e 2.22 vincula deliberadamente as cenas. Yahweh apresenta; o humano recebe diante de si; a diferença aparece na resposta. A repetição verbal faz da mulher a segunda apresentação da unidade e prepara o contraste com a primeira.

§ 2 Os animais são reconhecidos na diversidade e recebem nomes. A mulher é reconhecida em parentesco: “osso dos meus ossos e carne da minha carne”. A primeira apresentação termina em ausência de correspondência; a segunda produz uma fala que manifesta correspondência sem que o narrador precise repetir formalmente “encontrou-se um auxílio”.

§ 3 Assim, a mulher não é simplesmente a última criatura de uma série. Ela inaugura uma relação qualitativamente distinta. A proximidade que existia entre humano e animais é agora ultrapassada por uma identidade compartilhada de carne e osso, sem que a alteridade seja anulada. É essa forma de pertença comum que torna a segunda apresentação qualitativamente nova.

C. “Esta, desta vez”

§ 1 זֹאת הַפַּעַם11 concentra a força do contraste. זֹאת24, “esta”, singulariza aquela que está diante do humano; הַפַּעַם25 confere à expressão o sentido de “desta vez”, com força que pode ser percebida como “finalmente” (Alter, 1996: 9). A exclamação olha retrospectivamente para tudo o que a precedeu.

§ 2 Não é necessário reconstruir uma sequência de animais conscientemente rejeitados pelo homem. Basta a oposição literária: antes, várias criaturas foram apresentadas e nenhuma correspondia; agora, outra apresentação produz imediatamente reconhecimento. O texto oferece o contraste sem precisar descrever todos os processos internos pelos quais o humano o compreendeu.

§ 3 A linguagem corporal é igualmente significativa. “Osso dos meus ossos e carne da minha carne” não identifica apenas utilidade comum, mas pertencimento à mesma humanidade. O correspondente procurado em 2.18 não é simplesmente alguém capaz de colaborar; é alguém diante de quem o humano reconhece continuidade de natureza e reciprocidade pessoal.

D. O sentido das duas apresentações

§ 1 As duas cenas podem, portanto, ser resumidas sem acrescentar psicologia ao texto: animais são trazidos → são nomeados → não se encontra correspondência; a mulher é trazida → é reconhecida → a fala humana celebra parentesco. O paralelismo é textual; a interpretação pedagógica que dele deriva será desenvolvida na seção seguinte.

§ 2 Essa distinção metodológica é importante. A arquitetura narrativa pode ser demonstrada diretamente; afirmar o que se passa na consciência do humano exige inferência. A força da tese não depende de apagar essa diferença. Ao contrário, ela se torna mais sólida quando parte do que o texto diz e somente depois pergunta pelo significado provável da sequência.

§ 3 Gênesis 2.19–23 apresenta, assim, duas formas de alteridade. O animal é outro vivente que pode ser conhecido sem se tornar correspondente; a mulher é outra pessoa em quem o humano reconhece a mesma carne. A primeira apresentação estabelece diferença; a segunda revela reciprocidade. A narrativa progride da alteridade criatural para a correspondência humana sem negar o valor de nenhuma delas.

V. A experiência dos animais como pedagogia antropológica

§ 1 Se a seção anterior estabeleceu o paralelismo textual, esta pode formular a inferência que dele emerge. A hipótese pedagógica não depende de imaginar emoções que Gênesis não descreve. Ela parte de uma assimetria observável: Yahweh verbaliza a necessidade em 2.18, o humano atravessa a experiência dos animais e, em 2.23, finalmente verbaliza reconhecimento diante daquela que lhe corresponde.

A. Do conhecimento divino ao reconhecimento humano

§ 1 A ordem narrativa começa com Yahweh, não com uma queixa humana. É Yahweh quem declara que a solidão “não é boa” e quem define de antemão a necessidade de um עֵזֶר כְּנֶגְדּוֹ3. Isso torna desnecessário interpretar os animais como mecanismo pelo qual Deus descobriria qual tipo de companhia seria adequado.

§ 2 Ao mesmo tempo, o texto não diz explicitamente que o humano desconhecia por completo sua solidão. Convém, portanto, formular a tese com precisão: o que é conhecimento verbalizado por Yahweh em 2.18 torna-se, depois da experiência intermediária, reconhecimento verbalizado pelo humano em 2.23. A passagem de uma voz à outra é textual; seu caráter pedagógico é uma interpretação dessa progressão.

§ 3 Essa leitura encontra apoio direto na observação de que a nomeação conduz o humano à descoberta de que permanece só e que a apresentação dos animais pode, por isso, ser entendida como escolha educativa de Yahweh (Hausoul, 2021: 40). A experiência não supre uma ignorância divina; forma o horizonte humano no qual a dádiva posterior poderá ser reconhecida.

B. Conhecer o outro para perceber o próprio lugar

§ 1 A nomeação exige diferenciação. Cada criatura recebe identidade linguística precisamente porque não é confundida com as demais. Nesse processo, o humano entra em contato com uma multiplicidade de vidas que compartilham com ele terra, vitalidade e mundo criado, mas não a relação de correspondência definida em Gênesis 2.18.

§ 2 O autoconhecimento surge aqui por contraste, não por introspecção isolada. Ao reconhecer o outro como outro, o humano localiza também a si mesmo. A mesma proximidade que permite relação revela o limite dessa relação. O animal não precisa ser inferior ou inútil para que se perceba que não é a contraparte humana procurada.

§ 3 A progressão pode ser formulada sem transformá-la em descrição psicológica explícita: percepção da criatura → diferenciação → relação → constatação de não correspondência. O resultado de Gênesis 2.20 demonstra que a experiência animal está ligada a essa última conclusão, ainda que o narrador não relate cada etapa do processo mental.

§ 4 É justamente por isso que a pedagogia não exige desvalorização dos animais. Eles ajudam a revelar o humano porque são reconhecidos corretamente em sua própria alteridade. A diferença não é deficiência. Cada criatura permanece boa enquanto criatura, mesmo não podendo ocupar a relação particular descrita como עֵזֶר כְּנֶגְדּוֹ3.

C. Abundância de vida e especificidade da comunhão

§ 1 Há uma tensão literária fecunda entre abundância e falta. O humano está inserido num mundo vivo, mas o simples número de relações possíveis não resolve o “não bom”. A passagem distingue companhia em sentido amplo de correspondência em sentido específico. Nem toda presença é intercambiável com todas as demais.

§ 2 Isso impede que a relacionalidade humana seja tratada como preferência tardia ou sinal de defeito. A necessidade do outro aparece antes da transgressão de Gênesis 3. O humano é criado com dignidade e vocação, mas não como ser autossuficiente; sua condição relacional pertence à própria maneira pela qual Yahweh avalia sua existência (Wenham, 1987: 68–69).

§ 3 Os animais participam dessa descoberta sem serem reduzidos a instrumentos pedagógicos. Eles possuem lugar próprio no mundo de Yahweh e, exatamente por isso, podem tornar visível uma distinção real. O humano aprende que comunhão não é a dissolução de diferenças, mas encontro entre seres cuja relação possui uma forma determinada.

D. A formação do olhar

§ 1 O aspecto mais fecundo da leitura pedagógica está, portanto, menos numa suposta emoção de solidão e mais na formação da percepção. Antes da mulher, o humano conhece diferenças; diante dela, reconhece correspondência. A dádiva torna-se inteligível porque o olhar já atravessou um mundo no qual nenhuma outra criatura suscitou a mesma resposta.

§ 2 Essa leitura também explica por que “esta, desta vez” possui tanta força sem exigir que cada animal tenha sido conscientemente avaliado como possível cônjuge. O contraste não precisa funcionar como seleção conjugal literal. Basta que a experiência anterior tenha estabelecido o campo da diferença no qual a correspondência humana se torna finalmente evidente.

§ 3 Yahweh, assim, não apenas oferece aquilo de que sua criatura necessita; permite que essa necessidade seja reconhecida dentro da própria experiência do mundo. O humano não recebe somente uma solução externa. Recebe também a possibilidade de compreender por que aquela presença é distinta de todas as anteriores.

VI. Os animais em pares: texto bíblico e recepção judaica

§ 1 A hipótese de que o humano tenha percebido sua solidão ao observar correspondências macho–fêmea entre os animais possui antiga história interpretativa. Contudo, ela precisa permanecer em seu nível correto de evidência. O texto massorético de Gênesis 2.19–20 não afirma que os animais vieram em pares; essa imagem pertence à recepção. Sua antiguidade torna a inferência relevante, mas não a transforma em dado lexical ou sintático de Gênesis.

A. O que o texto hebraico não diz

§ 1 Gênesis 2.19–20 não emprega זָכָר26, “macho”, nem נְקֵבָה27, “fêmea”. Tampouco aparece a fórmula “dois a dois”, utilizada explicitamente no relato do dilúvio (Gn 7.8–9). O hebraico diz que animais e aves são conduzidos ao humano, recebem nomes e não fornecem um עֵזֶר כְּנֶגְדּוֹ3. O silêncio terminológico é importante porque impede que a tradição posterior seja retrojetada como detalhe explícito do relato.

§ 2 A inferência dos pares, portanto, não pertence ao primeiro nível da exegese. Ela surge quando se pergunta o que, dentro da experiência animal, poderia explicar a transição para a percepção de falta. Essa pergunta foi feita por antigos leitores judeus, e suas respostas constituem história da interpretação, não reconstrução automática do texto original.

§ 3 Essa distinção protege a tese de um argumento circular. Não se deve pressupor que os animais vieram em pares para provar que o homem percebeu sua solidão e depois usar essa percepção para provar que vieram em pares. O que se pode demonstrar é que a estrutura bíblica permitiu a antigos intérpretes construir justamente essa leitura.

B. Jubileus torna explícita a comparação

§ 1 Em Jubileus 3.1–5, a releitura da criação faz com que o humano contemple os animais “macho e fêmea segundo cada espécie” e perceba sua própria ausência de correspondente. A obra reorganiza elementos de Gênesis, tornando explícita uma relação que o texto bíblico apenas permite inferir. Por isso, seu testemunho é particularmente valioso como recepção antiga.

§ 2 A reorganização também impede que Jubileus seja utilizado como simples depósito de detalhes “perdidos” de Gênesis. Trata-se de interpretação. O episódio dos animais passa a exercer função ainda mais claramente antropológica: sua pareação torna visível, por contraste, a singularidade da condição humana naquele momento. A releitura interpreta uma lacuna narrativa; não transmite uma informação que Gênesis tenha explicitado.

§ 3 Essa estratégia foi identificada precisamente como releitura interpretativa da narrativa: os animais não apenas recebem nomes, mas contribuem para que o humano reconheça sua situação (van Ruiten, 1998: 316). A importância do testemunho está, portanto, no modo como um antigo leitor compreendeu a lógica de Gênesis 2.

C. Josephus e a percepção da falta

§ 1 A mesma associação aparece em outra antiga recontagem judaica. As criaturas são apresentadas “segundo suas espécies, macho e fêmea”, recebem nomes, e o humano percebe que não possui companheira feminina correspondente (Josephus, Ant. 1.35). Nomeação e consciência da falta tornam-se, assim, partes de uma única experiência.

§ 2 A convergência com Jubileus é significativa, embora não prove que Gênesis contenha implicitamente as palavras “macho e fêmea”. Ela demonstra algo mais modesto e historicamente seguro: leitores judeus antigos encontraram na passagem uma abertura natural para interpretar a experiência animal como contraste relacional. Essa recepção reforça a plausibilidade da hipótese pedagógica sem substituí-la por prova textual. A história da interpretação funciona aqui como testemunho de legibilidade: mostra que a sequência narrativa foi entendida dessa maneira muito antes das discussões exegéticas modernas.

D. Genesis Rabbah e os animais “em pares”

§ 1 Genesis Rabbah 17.5 desenvolve a imagem de modo ainda mais explícito. Os animais passam diante do humano aos pares, e a tradição atribui-lhe a percepção de que todos possuem parceiros enquanto ele permanece sem um. A forma midráshica concretiza visualmente o contraste entre a ordem relacional observada e sua própria situação.

§ 2 Essa tradição é também registrada na discussão moderna sobre Gênesis 2, que identifica Genesis Rabbah 17.5 como fonte da imagem dos animais apresentados em pares (Hausoul, 2021: 40). O midrash, porém, acrescenta fala e circunstâncias não encontradas no texto massorético, e por isso deve ser utilizado como recepção, não como testemunho independente da intenção autoral.

§ 3 Seu valor está em tornar visível uma possibilidade latente na narrativa: o mundo animal pode ser observado não apenas como diversidade de espécies, mas como mundo relacional. A comparação com o humano, então, oferece uma explicação antiga para a colocação dos animais entre o “não é bom” e a formação da mulher.

E. O alcance da tradição dos pares

§ 1 O argumento correto não é “Gênesis diz que os animais vieram em pares”, mas “antigas releituras judaicas entenderam a passagem dessa maneira”. Essa distinção preserva tanto a integridade do texto bíblico quanto a relevância de sua recepção. A tradição não cria a estrutura de Gênesis; interpreta a estrutura que encontrou.

§ 2 Como apoio à tese deste estudo, seu peso é confirmatório, não fundacional. A leitura pedagógica já pode ser construída a partir de Gênesis 2.18–23; Jubileus, Josephus e Genesis Rabbah mostram que a associação entre animais, correspondência e consciência da solidão possui raízes antigas e múltiplas.

§ 3 A imagem dos pares continua, assim, teologicamente sugestiva sem precisar ser promovida a dado do texto massorético. Ela oferece uma antiga maneira de visualizar a verdade narrativa mais segura: o humano encontra diante de si muitas formas de vida, mas a experiência termina com uma ausência que somente a apresentação seguinte resolverá.

VII. Onde está a verdadeira divergência interpretativa?

§ 1 Depois dessas distinções, fica claro que a principal disputa não ocorre entre “autoridade”, “conhecimento” e “reconhecimento”. Essas dimensões podem coexistir no ato de nomear. A divergência decisiva diz respeito ao papel de Yahweh na sequência: os animais representam uma primeira tentativa divina de solucionar a solidão ou uma experiência pela qual o humano é conduzido até o reconhecimento daquilo que lhe corresponde?

A. A leitura da tentativa divina

§ 1 Uma leitura acompanha a sucessão dos atos como desenvolvimento aberto também para Yahweh. Ele declara que fará um עֵזֶר כְּנֶגְדּוֹ3, forma e apresenta os animais, verifica que nenhum corresponde e somente então produz a mulher. Nesse modelo, os animais constituem uma primeira solução que não alcança o resultado esperado (Noort, 2000: 10).

§ 2 Levado às suas consequências, o modelo entende a diferenciação homem–mulher como solução que emerge apenas depois da inadequação animal. A mulher seria, portanto, uma segunda resposta, bem-sucedida, após uma possibilidade anterior que não resolveu o “não bom” (Noort, 2000: 13). É essa leitura que transforma a sequência narrativa numa sequência de tentativas divinas.

§ 3 A força dessa leitura está em levar a sério a temporalidade da narrativa. Ela não dissolve a sequência num plano abstrato previamente concluído. Contudo, sua conclusão exige um passo adicional: transformar a sucessão de ações narradas em sucessão de aquisições cognitivas por Yahweh. É justamente esse passo que precisa ser avaliado.

B. A dificuldade da interpretação experimental

§ 1 Gênesis 2.18 já apresenta Yahweh identificando não apenas o problema, mas a espécie de relação requerida: עֵזֶר כְּנֶגְדּוֹ3. A necessidade não é formulada vagamente como “qualquer companhia”. Existe desde o início um critério de correspondência que será retomado negativamente em 2.20. O critério antecede, portanto, a experiência dos animais e não nasce dela.

§ 2 Por isso, a leitura pedagógica clássica argumenta que seria estranho supor que Yahweh precisasse descobrir aquilo que o humano logo perceberia ao encontrar os animais. A apresentação pode ser compreendida como meio de fazer o homem experimentar a diferença, em vez de como experimento de Deus para determinar a solução (Cassuto, 1961: 129).

§ 3 Também é necessário distinguir demora narrativa de ignorância divina. Uma história pode retardar a solução para que sua necessidade seja percebida pelo personagem e pelo leitor. O fato de a mulher não ser formada imediatamente depois de 2.18 não obriga a concluir que Yahweh desconheça aquilo que fará; pode servir para intensificar o sentido da solução (Wenham, 1987: 68–69).

§ 4 Essa explicação possui uma vantagem metodológica: não precisa introduzir uma mudança de conhecimento em Yahweh que o texto nunca afirma. O suspense permanece real, mas pode pertencer à experiência humana e à organização literária da narrativa sem ser convertido automaticamente em incerteza divina. A economia explicativa do modelo é, por isso, uma de suas principais vantagens.

C. Quem aprende na sequência?

§ 1 A assimetria das vozes fornece a melhor pista. Antes dos animais, Yahweh fala sobre a condição humana. Depois deles, o narrador registra que não se encontrou correspondência. Depois da mulher, o próprio humano finalmente fala sobre o que reconhece. A progressão desloca o conhecimento verbalizado da voz divina para a voz humana.

§ 2 É nesse espaço que a leitura pedagógica se torna plausível. A nomeação oferece ao humano contato com a alteridade animal; o resultado deixa intacta sua necessidade; a segunda apresentação provoca reconhecimento imediato. A experiência pode, portanto, ser entendida como formação do olhar, e essa formulação encontra apoio explícito na leitura educativa da passagem (Hausoul, 2021: 40).

§ 3 Não é preciso afirmar que o homem desconhecia absolutamente sua solidão. Basta sustentar algo mais cauteloso: a narrativa conduz da necessidade declarada por Yahweh à correspondência reconhecida pelo humano. O episódio dos animais ocupa precisamente o espaço entre esses dois polos. Essa formulação basta para sustentar a tese sem reconstruir estados mentais não narrados.

D. O limite da própria leitura pedagógica

§ 1 A interpretação adotada também não deve dizer mais do que o texto permite. Gênesis não afirma literalmente: “Yahweh trouxe os animais para ensinar ao homem que ele estava sozinho”. Essa formulação é uma inferência construída a partir da estrutura, do resultado de 2.20 e do contraste de 2.23.

§ 2 Reconhecer seu caráter inferencial não enfraquece a leitura; impede apenas que argumento e conclusão sejam confundidos. O dado textual é a sequência. A função pedagógica é a explicação proposta para essa sequência. Sua plausibilidade deve ser medida por sua capacidade de explicar mais elementos com menos suposições adicionais.

§ 3 Nesse sentido, ela preserva também a realidade dos animais. Eles não constituem cenografia vazia montada para produzir uma lição. São criaturas conhecidas e nomeadas em sua própria particularidade. A experiência ensina justamente porque o encontro com o outro é real. A função pedagógica não esvazia a realidade própria daqueles que participam da cena.

E. A posição adotada

§ 1 Entre as duas leituras, a hipótese pedagógica explica melhor o conjunto da unidade. Ela leva a sério a antecipação de עֵזֶר כְּנֶגְדּוֹ3 em 2.18, sua retomada negativa em 2.20, o paralelismo entre as duas apresentações e a força contrastiva de “esta, desta vez” em 2.23. Esses elementos convergem sem exigir que o texto descreva uma aprendizagem divina.

§ 2 Isso não exige transformar Yahweh num professor que verbaliza cada etapa da lição. A pedagogia está na experiência organizada: o humano encontra a diversidade animal antes de encontrar sua correspondente. O mundo criado torna-se o meio pelo qual a diferença pode ser conhecida antes que a correspondência seja reconhecida.

§ 3 A verdadeira divergência, portanto, não é entre nomear para governar ou nomear para conhecer. É entre interpretar a sequência como descoberta de Yahweh ou como formação do humano. A segunda leitura preserva melhor a assimetria narrativa já presente no primeiro enunciado: Yahweh declara a falta; o humano percorre o caminho que culminará no reconhecimento.

VIII. O que o episódio afirma sobre humanidade e animalidade?

§ 1 A cena não esclarece apenas a formação da mulher; ela produz uma antropologia em relação ao mundo animal. Gênesis 2 evita tanto a separação absoluta quanto a indistinção. Humano e animais compartilham terra, vitalidade e mundo criado, mas não são intercambiáveis. A singularidade humana emerge de dentro dessa proximidade, não de uma negação dela.

A. Da mesma terra e entre os mesmos viventes

§ 1 O humano é formado do pó da terra e torna-se נֶפֶשׁ חַיָּה28, “criatura vivente” (Gn 2.7). Os animais, por sua vez, são formados מִן־הָאֲדָמָה29, “da terra”, e também recebem a designação נֶפֶשׁ חַיָּה28 em Gênesis 2.19. O vocabulário aproxima antes de distinguir. A humanidade é diferenciada a partir dessa base compartilhada, não mediante negação dela.

§ 2 Essa continuidade está de acordo com a proximidade mais ampla entre humanos e animais na criação: ambos pertencem ao mesmo mundo e participam da condição de viventes. A literatura especializada formula bem essa tensão ao observar que a Bíblia não os separa do conjunto da criação, embora os distinga (Hausoul, 2021: 16).

§ 3 A dignidade humana, portanto, não precisa ser construída mediante desprezo do animal. Gênesis pode afirmar proximidade material e vital e, ainda assim, reservar ao humano uma posição particular. A diferença não requer a negação da comunidade criatural. A continuidade criatural é, portanto, o ponto de partida da diferença, e não seu contrário.

B. Distinção sem desvalorização

§ 1 A assimetria aparece claramente quando Yahweh conduz os animais e o humano os nomeia. Existe uma prerrogativa humana de discernimento e responsabilidade. Contudo, o mesmo episódio impede que essa posição seja confundida com licença para reduzir os outros viventes a objetos sem valor próprio (Clough, 2012: 52, 64).

§ 2 O “não se encontrou” também não constitui julgamento negativo sobre os animais. A frase avalia a adequação a uma relação específica. Um animal não fracassa por não ser humano; simplesmente não ocupa o lugar de עֵזֶר כְּנֶגְדּוֹ3. Sua alteridade permanece legítima dentro da criação de Yahweh.

§ 3 Essa distinção permite evitar uma escala simplista em que a singularidade humana só possa ser afirmada mediante inferiorização de tudo o que não é humano. O episódio trabalha com diferença relacional: os animais podem entrar profundamente no mundo humano sem se tornarem sua contraparte. A distinção preserva o outro em vez de convertê-lo numa versão incompleta do humano.

C. Os animais possuem significado além de sua utilidade

§ 1 A pedagogia da cena não significa que os animais existam somente para ensinar uma lição ao homem. Eles já são criaturas de Yahweh antes de serem apresentados e antes de receberem nomes. O encontro revela algo ao humano justamente porque aquilo que está diante dele possui identidade própria. Seu valor criatural antecede, portanto, a função que desempenham na experiência humana.

§ 2 Isso também qualifica a autoridade da nomeação. Conhecer uma criatura não é o mesmo que reduzi-la ao uso que se pode fazer dela. A atenção à particularidade animal, enfatizada na discussão contemporânea da passagem (Clough, 2012: 64), oferece uma correção necessária à leitura puramente instrumental.

§ 3 A alteridade animal torna-se, assim, teologicamente significativa. O humano aprende com seres que não existem apenas como projeções de sua necessidade. Sua diferença é preservada e, por isso mesmo, pode revelar ao homem os limites de sua própria autossuficiência. Sua alteridade possui valor antes de qualquer benefício que dela resulte para o homem.

D. A humanidade como existência relacional

§ 1 Gênesis 2 também impede que a humanidade seja definida por autossuficiência. O homem possui jardim, trabalho, alimento e linguagem, mas sua condição continua “não boa”. A necessidade de outro humano não aparece como consequência do pecado; antecede Gênesis 3 e pertence à própria condição criatural. O “não bom” descreve uma condição relacional originária, não uma punição ou falha moral.

§ 2 Isso não significa que toda forma de solitude humana seja moralmente inadequada nem que cada pessoa individual precise realizar a mesma estrutura conjugal para possuir plenitude diante de Deus. A narrativa fala da origem relacional da humanidade e da diferenciação que funda a comunidade humana, não de uma sentença sobre todas as vocações pessoais posteriores.

§ 3 O ponto antropológico permanece: nenhuma criatura humana é concebida como totalidade fechada em si mesma. A existência é recebida em relações — com Yahweh, com a terra, com os demais viventes e com outros humanos. A necessidade de relação não diminui a dignidade; pertence à forma finita e criada da humanidade.

E. Singularidade como responsabilidade

§ 1 A singularidade humana aparece, portanto, dentro da comunhão da criação. O humano pode nomear animais e reconhecer diferenças, mas aprende simultaneamente que não é autossuficiente e que o mundo não existe apenas como extensão de suas necessidades. Sua prerrogativa é acompanhada por limite. Seu lugar distinto vem acompanhado de deveres correspondentes diante do restante da criação.

§ 2 Esse equilíbrio transforma autoridade em responsabilidade. Aquilo que o humano conhece e nomeia continua pertencendo a Yahweh. Quanto mais profundamente percebe a particularidade do outro vivente, menos justificável se torna tratá-lo como coisa indiferenciada. Conhecimento deveria ampliar responsabilidade, não anulá-la. A prerrogativa de nomear deve, assim, ser lida sob a soberania daquele que cria.

§ 3 Há, finalmente, uma reciprocidade silenciosa na cena: os animais recebem nomes do humano, mas o humano recebe deles uma forma de autoconhecimento. Ele os distingue e, por meio dessa distinção, percebe algo acerca de si. A criação não lhe oferece sua correspondente, mas participa do caminho pelo qual ele aprende a reconhecê-la.

IX. Conclusão

§ 1 A pergunta “por que Yahweh levou os animais ao humano?” não recebe em Gênesis 2.18–23 uma resposta isolada da formação da mulher. A apresentação dos animais está enquadrada pelo problema de 2.18 e pela resolução de 2.21–23. Eles são trazidos, nomeados e reconhecidos; ao final, contudo, permanece intacta a ausência de um עֵזֶר כְּנֶגְדּוֹ3. Essa conclusão liga estruturalmente a cena animal ao drama da solidão humana.

§ 2 A nomeação, portanto, possui mais de uma dimensão. Ela expressa prerrogativa humana, exige discernimento e estabelece relação, mas não funciona como taxonomia científica nem como simples ato de dominação. Ao responder linguisticamente ao mundo criado, o humano conhece criaturas próximas de si e, ao mesmo tempo, percebe a diferença que impede qualquer delas de ocupar o lugar de sua correspondente.

§ 3 A leitura pedagógica surge dessa arquitetura, não de uma frase explícita sobre o estado psicológico do homem. Yahweh verbaliza a necessidade antes da experiência animal; o humano, depois dessa experiência, verbaliza reconhecimento diante da mulher. Entre uma palavra e outra encontra-se o percurso pelo qual a diversidade criada torna perceptível a especificidade da comunhão humana.

§ 4 A tradição judaica dos animais em pares intensifica essa leitura sem constituir sua prova. Jubileus, Josephus e Genesis Rabbah mostram que antigos intérpretes perceberam no encontro com o mundo animal um contraste entre correspondência existente na criação e solidão humana. Seu testemunho confirma uma trajetória interpretativa antiga, desde que permaneça claramente distinguido do que o texto massorético afirma.

§ 5 O episódio termina, assim, não com uma teoria sobre animais, mas com uma descoberta sobre relação. O humano pertence à mesma criação que os outros viventes, sem ser indistinguível deles; possui autoridade, sem ser proprietário absoluto; conhece o outro e, nesse conhecimento, aprende algo acerca de si. Quando finalmente diz “esta, desta vez”, a abundância do mundo criado não é negada. Ela se torna o cenário através do qual uma forma singular de correspondência pode ser reconhecida.

Transliteração: lōʾ-ṭôb hĕyôt hāʾādām lĕbaddô. Tradução: “não é bom que o humano esteja só”.

Transliteração: lĕbaddô. Tradução: “sozinho, por si”.

Transliteração: ʿēzer kĕnegdô. Tradução: “um auxílio que lhe corresponda”.

Transliteração: ʾeʿĕśeh-lô ʿēzer kĕnegdô. Tradução: “farei para ele um auxílio que lhe corresponda”.

Transliteração: ʿēzer. Tradução: “auxílio”.

Transliteração: kĕnegdô. Tradução: “correspondente a ele; diante dele”.

Transliteração: neged. Tradução: “diante de; em frente de”.

Transliteração: ûlĕʾādām lōʾ-māṣāʾ ʿēzer kĕnegdô. Tradução: “mas para o humano não se encontrou um auxílio que lhe correspondesse”.

Transliteração: wayyāvēʾ ʾel-hāʾādām. Tradução: “e os trouxe ao humano”.

Transliteração: wayĕviʾehā ʾel-hāʾādām. Tradução: “e a trouxe ao humano”.

Transliteração: zōʾt happaʿam. Tradução: “esta, desta vez”; contextualmente, “esta, finalmente”.

Transliteração: qārāʾ. Tradução: “chamar; dar nome”.

Transliteração: lirʾôt mah-yiqrāʾ-lô. Tradução: “para ver o que lhe chamaria”, isto é, “que nome lhe daria”.

Transliteração: kol-ḥayyat haśśādeh. Tradução: “todo animal do campo”.

Transliteração: kol-ʿôp haššāmayim. Tradução: “toda ave dos céus”.

Transliteração: ḥayyat haśśādeh. Tradução: “animal do campo; fauna do campo”.

Transliteração: ḥayyâ. Tradução: “ser vivo; animal”.

Transliteração: ʿôp. Tradução: “ave; criatura alada”.

Transliteração: kol. Tradução: “todo”.

Transliteração: bĕhēmâ. Tradução: “animal doméstico; gado”.

Transliteração: dāg. Tradução: “peixe”.

Transliteração: tannînîm haggĕdōlîm. Tradução: “grandes criaturas marinhas”.

Transliteração: māṣāʾ. Tradução: “encontrar”.

Transliteração: zōʾt. Tradução: “esta”.

Transliteração: happaʿam. Tradução: “desta vez”; contextualmente, “finalmente”.

Transliteração: zākār. Tradução: “macho”.

Transliteração: nĕqēbâ. Tradução: “fêmea”.

Transliteração: nepeš ḥayyâ. Tradução: “criatura vivente”.

Transliteração: min-hāʾădāmâ. Tradução: “da terra”.

Abreviaturas e siglas

Ant. — Antiquitates Judaicae / Jewish Antiquities. HALOT — The Hebrew and Aramaic Lexicon of the Old Testament.

Bibliografia

Alter, Robert. Genesis: Translation and Commentary. New York: W. W. Norton, 1996. Cassuto, Umberto. A Commentary on the Book of Genesis. Part I: From Adam to Noah: Genesis I–VI 8. Trad. Israel Abrahams. Jerusalem: Magnes Press, Hebrew University, 1961. Clough, David L. On Animals. Volume I: Systematic Theology. London: T&T Clark, 2012. Freedman, H.; Simon, Maurice (eds.). Midrash Rabbah. Vols. 1–2: Genesis. Trad. H. Freedman. London: Soncino Press, 1939. Hausoul, Raymond R. God’s Future for Animals: From Creation to New Creation. Eugene, OR: Wipf and Stock, 2021. Josephus, Flavius. Jewish Antiquities. Volume I: Books 1–3. Trad. H. St. J. Thackeray. Loeb Classical Library 242. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1930. Köhler, Ludwig; Baumgartner, Walter; Stamm, Johann Jakob. The Hebrew and Aramaic Lexicon of the Old Testament. Trad. e ed. sob supervisão de M. E. J. Richardson. 5 vols. Leiden: Brill, 1994–2000. Noort, Ed. “The Creation of Man and Woman in Biblical and Ancient Near Eastern Traditions.” In: Luttikhuizen, Gerard P. (ed.). The Creation of Man and Woman: Interpretations of the Biblical Narratives in Jewish and Christian Traditions. Themes in Biblical Narrative 3. Leiden; Boston; Köln: Brill, 2000, p. 1–18. Ruiten, J. T. A. G. M. van. “Biblical Interpretation in Jubilees 3:1–31.” In: Schunck, Klaus-Dietrich; Augustin, Matthias (eds.). “Lasset uns Brücken bauen…”: Collected Communications to the XVth Congress of the International Organization for the Study of the Old Testament, Cambridge 1995. Beiträge zur Erforschung des Alten Testaments und des Antiken Judentums 42. Frankfurt am Main: Peter Lang, 1998, p. 315–319. VanderKam, James C. (ed. e trad.). The Book of Jubilees. 2 vols. Corpus Scriptorum Christianorum Orientalium 510–511; Scriptores Aethiopici 87–88. Leuven: Peeters, 1989. Wenham, Gordon J. Genesis 1–15. Word Biblical Commentary 1. Waco, TX: Word Books, 1987.
Pro Blogger Templates
-->