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Gênesis 2.9 | Comentário Crítico-Exegético da Bíblia

Comentário ao Livro de Gênesis

Resumo:
Este artigo oferece uma exegese lexical, sintática e narrativa de Gênesis 2.9, com atenção à forma massorética do versículo, às versões antigas e à sua integração em Gênesis 2.8–17 e 3.1–24. O estudo examina a ação causativa de Yahweh em fazer brotar as árvores do solo, as expressões que as qualificam como agradáveis à vista e boas para alimento, a relação entre essas qualificações e Gênesis 3.6, e o valor de לְהַשְׂכִּיל62 no campo do discernimento. Em seguida, delimita o sentido narrativo da árvore da vida e da árvore do conhecimento do bem e do mal, avalia sua localização no jardim e pergunta se ambas pertencem ao conjunto de כָּל־עֵץ1. A análise conclui que a narrativa distingue qualidade criada, autorização normativa e aquisição cognitiva: a árvore proibida continua sendo descrita como atraente e apta para alimento, enquanto a árvore da vida é associada, no desfecho, à possibilidade de vida continuada. O artigo encerra separando resultados exegéticos demonstráveis das questões reservadas à interpretação teológica posterior.

Palavras-chave: Gênesis 2.9; Éden; árvore da vida; árvore do conhecimento; conhecimento do bem e do mal; desejo; alimento; Septuaginta.

Nota editorial: Na primeira ocorrência de cada fonte, o título é vinculado à editora oficial, ao DOI ou, quando a página editorial original não está disponível de modo confiável, a um catálogo bibliográfico autoritativo. Nas ocorrências subsequentes, emprega-se apenas autor–data–página.

Índice

Introdução

Gênesis 2.9 é um versículo breve, mas ocupa uma posição decisiva na narrativa do Éden. Nele, o narrador atribui a Yahweh a produção das árvores a partir do solo, caracteriza o conjunto arbóreo por sua aparência e função alimentar e, em seguida, singulariza a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal. Esses elementos serão reativados em momentos distintos do enredo: a árvore do conhecimento passa imediatamente ao campo do mandamento e da transgressão, enquanto a árvore da vida se torna decisiva no desfecho de Gênesis 3.

O problema exegético não pode ser resolvido por uma única glosa lexical. É necessário distinguir a estrutura sintática de Gênesis 2.9, o campo semântico de seus termos, a relação do versículo com Gênesis 2.8–17 e as retomadas narrativas de Gênesis 3.6 e 3.22–24. O texto massorético constitui a base da análise; a Septuaginta, a Vulgata e a Peshitta são utilizadas como testemunhos antigos de leitura, sem serem tratadas automaticamente como correções do hebraico. Paralelos canônicos são mobilizados apenas quando esclarecem um problema lexical ou semântico específico.

O percurso segue da constituição textual e sintática do versículo para seus componentes lexicais, depois para a comparação com Gênesis 3 e para a função das duas árvores na narrativa. Essa ordem permite separar três níveis que frequentemente se confundem: aquilo que Gênesis 2.9 afirma diretamente, aquilo que o desenvolvimento de Gênesis 2–3 permite concluir e as construções teológicas que dependem de uma etapa interpretativa posterior.

§ 1. Texto, delimitação e tradução de Gn 2.9

Gn 2.9 condensa três informações que serão desenvolvidas pelo restante da narrativa: a procedência das árvores, sua caracterização e a presença de duas árvores singularizadas pelo nome. O versículo possui uma sentença sintaticamente completa e pode ser isolado para análise lexical, mas sua função literária depende de Gn 2.8–17 e, posteriormente, de Gn 3.1–24. A análise começa pelo texto, sua delimitação, os principais testemunhos antigos e a tradução de trabalho. A estrutura sintática e a função literária recebem tratamento próprio nos § 2 e § 12.

§ 1.1. Texto hebraico

O texto massorético de Gn 2.9 lê:

וַיַּצְמַח יְהוָה אֱלֹהִים מִן־הָאֲדָמָה כָּל־עֵץ נֶחְמָד לְמַרְאֶה וְטוֹב לְמַאֲכָל וְעֵץ הַחַיִּים בְּתוֹךְ הַגָּן וְעֵץ הַדַּעַת טוֹב וָרָע׃103

A sentença apresenta uma ação divina, a procedência terrestre das árvores, duas qualificações do conjunto arbóreo e, ao final, duas árvores nomeadas. Essa descrição delimita os constituintes relevantes; a relação entre o verbo principal, כָּל־עֵץ1, os qualificadores e os dois grupos nominais é examinada no § 2.

§ 1.2. Delimitação literária

Gn 2.9 pertence à primeira cena da narrativa edênica, Gn 2.4b–17. Seu recorte é metodológico: o versículo concentra o vocabulário arbóreo e constitui uma sentença própria, mas não forma uma unidade literária autônoma. A árvore do conhecimento será retomada em Gn 2.16–17 e dominará a primeira parte de Gn 3, enquanto a árvore da vida terá sua função explicitada em Gn 3.22–24. O § 12 reúne essa arquitetura — vegetação → água → humano — e situa o v. 9 entre o plantio do jardim, a tarefa humana e o mandamento.

§ 1.3. Texto antigo e testemunhos das versões

O aparato e o comentário da BHQ não exigem, em Gn 2.9, a reconstrução de um texto hebraico substancialmente diferente do massorético. As observações mais relevantes concentram-se na maneira como as versões compreenderam certas expressões. No início do versículo, a LXX acrescenta ἔτι2, “ainda/novamente”, provavelmente para relacionar o surgimento das árvores aqui com sua produção já narrada em Gn 1.12. A BHQ entende o acréscimo como uma tentativa interpretativa do tradutor grego de conciliar as duas apresentações (Tal, Biblia Hebraica Quinta: Genesis, 2015: 82*).

A edição de Göttingen apresenta:

καὶ ἐξανέτειλεν ὁ θεὸς ἔτι ἐκ τῆς γῆς πᾶν ξύλον ὡραῖον εἰς ὅρασιν καὶ καλὸν εἰς βρῶσιν, καὶ τὸ ξύλον τῆς ζωῆς ἐν μέσῳ τῷ παραδείσῳ, καὶ τὸ ξύλον τοῦ εἰδέναι γνωστὸν καλοῦ καὶ πονηροῦ104 (Wevers, Genesis, 1974: 84–85).

A correspondência com o hebraico é próxima até a expressão final. נֶחְמָד לְמַרְאֶה3 torna-se ὡραῖον εἰς ὅρασιν4, enquanto טוֹב לְמַאֲכָל5 é vertido por καλὸν εἰς βρῶσιν6. Wevers observa que ὡραῖος7, cujo sentido mais antigo se relaciona ao que é oportuno ou maduro, é empregado aqui no sentido de agradável ou belo (Wevers, Notes on the Greek Text of Genesis, 1993: 26).

Mais significativa é a solução dada a עֵץ הַדַּעַת8. O grego não reproduz simplesmente uma construção nominal equivalente a “árvore do conhecimento”, mas oferece τὸ ξύλον τοῦ εἰδέναι γνωστὸν καλοῦ καὶ πονηροῦ9. A BHQ entende que o tradutor interpretou דַּעַת10 em sua possibilidade verbal e acrescentou γνωστόν11, “aquilo que pode ser conhecido”; Wevers considera igualmente a formulação uma tentativa de tornar inteligível uma construção difícil (Tal, 2015: 82*; Wevers, 1993: 26).

A Vulgata conserva uma construção nominal, lignumque scientiae boni et mali, e verte as qualificações anteriores por pulchrum visu et ad vescendum suave (Weber; Gryson, Biblia Sacra iuxta Vulgatam Versionem, 2007: Gn 2.9). A Peshitta preserva a mesma arquitetura geral, com árvores “lovely to look at and good to eat” e “the tree of the knowledge of good and evil” (Morrison, Genesis According to the Syriac Peshitta Version with English Translation, 2019: 11). As versões, portanto, confirmam a estabilidade global do versículo, ao mesmo tempo que mostram antigas decisões interpretativas sobre sua linguagem.

§ 1.4. Tradução adotada

Propõe-se como tradução de trabalho:

“Yahweh Deus fez brotar do solo toda árvore agradável à vista e boa para alimento, e a árvore da vida no meio do jardim, e a árvore do conhecimento do bem e do mal.”

“Fez brotar” preserva a força causativa de וַיַּצְמַח12; “do solo” mantém a referência a אֲדָמָה13; “agradável à vista” traduz idiomaticamente נֶחְמָד לְמַרְאֶה3; e “boa para alimento” evita restringir טוֹב לְמַאֲכָל5 ao sabor. A última parte conserva deliberadamente a ordem hebraica e não acrescenta “incluindo”, “também” ou uma segunda expressão locativa. Essas relações pertencem à análise sintática de § 2 e às discussões específicas dos §§ 10–11.

§ 2. A estrutura interna do versículo

Gn 2.9 possui uma arquitetura sintática relativamente nítida: um único verbo principal governa a sentença; segue-se um objeto abrangente, qualificado em dois eixos; por fim, duas árvores são individualizadas por designações próprias. A análise concentra-se na estrutura interna do versículo; o § 12 integra esses dados à macroestrutura de Gn 2.8–17.

§ 2.1. Um verbo principal e uma sequência de constituintes

O núcleo verbal encontra-se no início:

וַיַּצְמַח יְהוָה אֱלֹהִים14


“Yahweh Deus fez brotar”.

O verbo governa o restante da sentença. A estrutura pode ser representada assim:

  • וַיַּצְמַח יְהוָה אֱלֹהִים14 — ação + agente;

  • מִן־הָאֲדָמָה15 — procedência;

  • כָּל־עֵץ1 — objeto abrangente;

  • נֶחְמָד לְמַרְאֶה וְטוֹב לְמַאֲכָל16 — dupla caracterização;

  • וְעֵץ הַחַיִּים17 — primeiro grupo nominal particularizado;

  • בְּתוֹךְ הַגָּן18 — expressão locativa;

  • וְעֵץ הַדַּעַת טוֹב וָרָע19 — segundo grupo nominal particularizado.

וְעֵץ הַחַיִּים17 e וְעֵץ הַדַּעַת20 continuam dependentes do mesmo verbo: Yahweh é o agente do brotar das árvores gerais e das duas árvores nomeadas. A dependência do verbo não decide, contudo, se elas funcionam sintaticamente como membros incluídos em כָּל־עֵץ1 ou como elementos destacados após o conjunto; o § 11 examina especificamente essa relação.

§ 2.2. Uma classe seguida de duas qualificações

כָּל־עֵץ1, “toda árvore”, introduz a classe abrangente. O substantivo singular após כָּל21 possui valor distributivo. Imediatamente depois, duas expressões coordenadas qualificam esse conjunto:

נֶחְמָד לְמַרְאֶה3
“agradável/desejável à vista”

וְטוֹב לְמַאֲכָל22
“e boa para alimento”.

As construções formam paralelismo semântico, embora não sejam morfologicamente idênticas. O primeiro predicado situa a árvore no domínio da aparência; o segundo a avalia em relação à alimentação. Seus campos lexicais serão examinados separadamente nos §§ 4–5.

§ 2.3. Da classe geral às duas árvores nomeadas

A repetição de עֵץ23 modifica o nível de especificidade da frase:

וְעֵץ הַחַיִּים17
“e a árvore da vida”

וְעֵץ הַדַּעַת טוֹב וָרָע19
“e a árvore do conhecimento do bem e do mal”.

O narrador passa de árvores caracterizadas por propriedades a duas árvores individualizadas por designações. Mettinger observa que a coordenação confere destaque ao par das árvores especiais (Mettinger, The Eden Narrative, 2007: 21–22). O texto, porém, ainda não explica suas funções: apenas as introduz. A árvore da vida será estudada no § 8 e a árvore do conhecimento no § 9.

§ 2.4. בְּתוֹךְ הַגָּן e a coordenação dividida

A expressão בְּתוֹךְ הַגָּן18, “no meio do jardim”, aparece entre os dois grupos nominais. Linearmente, liga-se primeiro à árvore da vida; sintaticamente, contudo, Mettinger, retomando Andreas Michel, identifica a possibilidade de “coordenação dividida”, na qual um constituinte interposto pode aplicar-se aos dois membros coordenados (Mettinger, 2007: 22–23).

Assim, a construção pode ser lida como:

[árvore da vida + árvore do conhecimento]
← no meio do jardim.

Essa possibilidade explica por que Gn 3.3 pode chamar a árvore proibida de “a árvore que está no meio do jardim” sem exigir uma segunda localização incompatível. A sintaxe, portanto, não obriga a restringir o locativo à primeira árvore; o § 10 retoma o problema espacial em conjunto com Gn 3.3.

§ 2.5. A coordenação não exige emenda

A disposição incomum levou parte da pesquisa histórico-crítica a considerar secundária uma das árvores. Mettinger documenta que a posição de בְּתוֹךְ הַגָּן18 foi usada, desde Budde, como argumento para reconstruções de uma forma anterior do texto. A análise da coordenação dividida, entretanto, mostra que a construção recebida possui explicação sintática plausível e paralelos no hebraico bíblico, como Êx 24.4 (Mettinger, 2007: 22–23).

A história composicional pode ser investigada separadamente; a forma final, porém, permanece sintaticamente inteligível sem emenda.

A estrutura resultante é clara: Gn 2.9 apresenta uma única ação verbal que progride de um conjunto abrangente para duas árvores individualizadas: ação divina → procedência → conjunto → dupla qualificação → dois referentes nomeados. A sintaxe distingue essas árvores sem ainda explicar suas funções; a abrangência de בְּתוֹךְ הַגָּן18 e sua relação com כָּל־עֵץ1 recebem tratamento específico nos §§ 10–11.

§ 3. “Yahweh Deus fez brotar do solo”

A primeira oração de Gn 2.9 identifica agente, processo e procedência: וַיַּצְמַח יְהוָה אֱלֹהִים מִן־הָאֲדָמָה24, “Yahweh Deus fez brotar do solo”. A análise lexical concentra-se em o contraste entre Qal e Hifil de צמח25, a agência atribuída a Yahweh e a função de אֲדָמָה13 na rede vocabular de Gn 2.

§ 3.1. De יִצְמָח a וַיַּצְמַח: Gn 2.5 e 2.9

A raiz צמח25 já aparece em Gn 2.5:

וְכָל־עֵשֶׂב הַשָּׂדֶה טֶרֶם יִצְמָח26

“e nenhuma erva do campo ainda havia brotado”.

Ali, יִצְמָח27, , é Qal e descreve o crescimento da vegetação como processo ainda não ocorrido. Gn 2.9 retoma a mesma raiz no Hifil:

וַיַּצְמַח יְהוָה אֱלֹהִים14

“Yahweh Deus fez brotar”.

A correspondência é precisa:

יִצְמָח27 — brotar
→ וַיַּצְמַח12 — fazer brotar.

O texto passa, portanto, da ausência do crescimento à identificação de seu agente causativo.

§ 3.2. O Hifil e a agência de Yahweh

O valor causativo do Hifil impede traduzir וַיַּצְמַח12 simplesmente como “brotou”. A estrutura é:

Yahweh Deus → sujeito
וַיַּצְמַח12 → ação causativa
מִן־הָאֲדָמָה15 → procedência
כָּל־עֵץ1 → objeto produzido.

A Peshitta preserva a mesma relação, “The Lord God made sprout up from the earth every tree” (Morrison, 2019: 11), e a Vulgata apresenta produxitque Dominus Deus de humo omne lignum (Weber; Gryson, 2007: Gn 2.9). A LXX também mantém Deus como sujeito e ἐκ τῆς γῆς28 como origem, embora acrescente ἔτι2, “ainda/novamente” (Wevers, 1993: 26).

§ 3.3. מִן־הָאֲדָמָה: procedência, não sujeito da ação

A preposição מִן29 expressa origem ou procedência. As árvores são feitas brotar “do solo”, mas הָאֲדָמָה30 não ocupa a posição de sujeito gramatical. O texto distingue, portanto, procedência terrestre e agência divina.

Dentro de Gn 2, אֲדָמָה13 forma uma rede lexical: em Gn 2.5 ainda não há humano para trabalhar o solo; Gn 2.6 descreve sua irrigação; Gn 2.7 forma o humano como עָפָר מִן־הָאֲדָמָה31, “pó do solo”; Gn 2.9 faz as árvores brotarem מִן־הָאֲדָמָה15. A recorrência não torna idênticos os processos descritos, mas estabelece o solo como domínio comum da cena.

§ 3.4. Humano, árvores e animais relacionados ao mesmo solo

Gn 2.19 volta a empregar מִן־הָאֲדָמָה15 para os animais. A forma final de Gn 2 apresenta, assim, três relações:

  • humano — עָפָר מִן־הָאֲדָמָה31, “pó do solo” (Gn 2.7);

  • árvores — מִן־הָאֲדָמָה15, feitas brotar do solo (Gn 2.9);

  • animais — מִן־הָאֲדָמָה15, formados do solo (Gn 2.19).

A correspondência não deve apagar as diferenças verbais. Humano e animais são descritos com יצר32, “formar”; as árvores, com צמח25, “brotar/fazer brotar”; e o humano recebe ainda a especificação עָפָר33 e o fôlego de vida. O resultado seguro é uma procedência terrestre compartilhada, não um processo material uniforme.

§ 3.5. Gn 1.11–12 e Gn 2.9: duas formulações da produção vegetal

Gn 1.11 ordena: תַּדְשֵׁא הָאָרֶץ דֶּשֶׁא34, “que a terra faça brotar vegetação”; Gn 1.12 afirma: וַתּוֹצֵא הָאָרֶץ35, “e a terra produziu”. Ali, a terra ocupa gramaticalmente a posição de sujeito executor da ordem divina. Gn 2.9 formula o processo de outro modo: Yahweh é sujeito direto do Hifil de צמח25, e הָאֲדָמָה30 aparece como procedência.

Os textos concordam em relacionar a vegetação ao domínio terrestre e à iniciativa criadora divina, mas distribuem a agência gramaticalmente de maneira diferente. A adição de ἔτι2 na LXX de Gn 2.9 mostra que o tradutor grego percebeu alguma relação entre as duas apresentações (Wevers, 1993: 26).

O encadeamento lexical é preciso: Gn 2.9 retoma צמח25 de Gn 2.5 em forma causativa: Yahweh faz brotar aquilo que antes ainda não brotara. מִן־הָאֲדָמָה15 indica a procedência terrestre das árvores e as conecta lexicalmente ao humano e aos animais, sem apagar as diferenças entre seus modos de formação.

§ 4. “Toda árvore agradável à vista”

A primeira qualificação das árvores em Gn 2.9 é visual: נֶחְמָד לְמַרְאֶה3, “desejável/agradável à vista”. Como כָּל־עֵץ1 e sua função distributiva já foram tratados na estrutura do versículo (§ 2), o problema aqui é exclusivamente lexical: o que נֶחְמָד36 afirma sobre as árvores e como לְמַרְאֶה37 delimita essa desejabilidade ao campo da percepção visual.

§ 4.1. נֶחְמָד: desejável, atraente, apreciável

נֶחְמָד36, , é particípio Nifal masculino singular da raiz חמד38. O campo lexical envolve desejar, considerar desejável e, conforme o contexto, cobiçar. A distribuição canônica mostra a mesma família em contextos tão diferentes quanto Êx 20.17, Js 7.21, Mq 2.2, Sl 19.11 e Is 53.2; por isso, o valor ético não pode ser deduzido do lexema isoladamente.

Essa distribuição impede atribuir à raiz uma carga moral negativa intrínseca. Em Êx 20.17 e Mq 2.2, חמד38 participa de desejos condenados; em Sl 19.11, porém, a instrução de Yahweh é descrita como mais desejável que ouro. Em Gn 2.9, a forma aparece antes da proibição e da transgressão, qualificando aquilo que Yahweh fez brotar. O valor moral do desejo depende, portanto, de objeto, contexto e ação, não do lexema isolado.

§ 4.2. לְמַרְאֶה: a desejabilidade é visual

מַרְאֶה39, , deriva de ראה40 e pode designar visão, aparência, aspecto ou aquilo que se apresenta aos olhos. Mounce distingue usos ligados a visões e aparições daqueles em que o substantivo indica aparência exterior; Gn 2.9 pertence claramente ao segundo grupo (Mounce, Mounce’s Complete Expository Dictionary of Old and New Testament Words, 2006: 29).

O sintagma preposicional לְמַרְאֶה37 delimita, assim, o tipo de desejabilidade expresso por נֶחְמָד36. O texto não afirma genericamente que as árvores são desejáveis; afirma que o são quanto à aparência. A construção pode ser representada de modo simples:

נֶחְמָד36 → desejável/atraente
לְמַרְאֶה37 → no domínio da aparência visual.

§ 4.3. “Agradável” ou “desejável”?

“Agradável à vista” é uma tradução idiomática natural, mas suaviza parcialmente a força de חמד38. “Desejável à vista” conserva melhor a relação com a raiz, enquanto “atraente à vista” evita que o português sugira imediatamente cobiça moral. Bauks reproduz a nuance com “pleasant” ao tratar de Gn 2.9 (Bauks, One, Two, or Three … ? The Confusion of the Trees in Genesis 2–3 and Its Hermeneutical Background, 2016: 100).

Para a tradução corrente, “agradável à vista” continua adequada. Para a análise exegética, porém, deve-se registrar que o hebraico emprega um termo pertencente ao campo do desejo. Esse dado será importante quando a narrativa reutilizar נֶחְמָד36 em Gn 3.6, mas a comparação completa pertence ao § 6.

§ 4.4. A LXX: ὡραῖον εἰς ὅρασιν

A LXX verte a expressão por πᾶν ξύλον ὡραῖον εἰς ὅρασιν41, “toda árvore bela para contemplação”. Muraoka registra ὡραῖος7 em Gn 2.9 no sentido de beleza ou agradabilidade exterior e ὅρασις42 como o ato de ver/contemplar, traduzindo a expressão como “tree beautiful to gaze at” (Muraoka, A Greek-English Lexicon of the Septuagint, 2009: 748, 502).

A versão grega preserva, portanto, o eixo visual, mas desloca levemente a ênfase. O hebraico חמד38 mantém mais explicitamente a noção de desejabilidade; o grego ὡραῖος7 enfatiza a beleza do objeto contemplado. A tradução não contradiz o TM, mas mostra uma antiga escolha interpretativa dentro do mesmo campo perceptivo.

§ 4.5. Limite exegético

Gn 2.9 permite afirmar que Yahweh faz brotar árvores cuja aparência é positivamente avaliada e capaz de suscitar apreciação ou desejo visual. McDowell traduz a expressão como “trees desirable in appearance” e descreve o jardim como repleto de árvores belas e frutíferas (McDowell, The Image of God in the Garden of Eden, 2015: 142–143).

Isso ainda não constitui, por si só, uma teoria estética da criação nem uma psicologia do desejo. O dado demonstrável é mais restrito: a atração visual pertence à descrição do jardim antes de qualquer transgressão. Gn 3.6 retomará esse eixo com outro vocabulário; basta aqui antecipar que a narrativa não precisa criar em Gn 3 uma qualidade visual inexistente em Gn 2.9.

§ 5. “Boa para alimento”

A segunda qualificação geral das árvores é וְטוֹב לְמַאֲכָל22, , “e boa para alimento”. Diferentemente da qualificação visual, esta expressão avalia a árvore em relação ao uso alimentar. O hebraico não menciona aqui sabor, paladar ou doçura; sua afirmação é mais ampla e mais concreta.

§ 5.1. טוֹב: uma avaliação delimitada pelo complemento

טוֹב43, , possui campo semântico amplo: bom, favorável, adequado, conveniente, belo ou moralmente correto, conforme o contexto. Mounce registra mais de quinhentas ocorrências e destaca essa amplitude (Mounce, 2006: 299). Em Gn 2.9, porém, o complemento seguinte restringe a avaliação: a árvore é טוֹב43 para מַאֲכָל44.

Desse modo, não há razão lexical para ler aqui “moralmente boa”. A construção descreve qualidade ou adequação no domínio alimentar. O sentido deve ser determinado pela relação inteira, não por uma glosa abstrata de טוֹב43.

§ 5.2. מַאֲכָל: alimento, aquilo que se come

מַאֲכָל44, , pertence à família de אכל45, “comer”, e designa alimento ou aquilo que serve para alimentação. Gn 6.21 fala de provisões recolhidas para a arca; Pv 6.8 do alimento armazenado pela formiga; Lv 19.23 emprega a construção עֵץ מַאֲכָל46 para árvores destinadas à alimentação. Esses paralelos confirmam o sentido concreto do substantivo.

Assim, מַאֲכָל44 não significa “sabor” nem “paladar”. “Agradável ao paladar” pode ser uma paráfrase interpretativa de uma árvore frutífera apetecível, mas não traduz o substantivo. “Boa para alimento” ou “boa para comer” preservam melhor o alcance lexical.

§ 5.3. O valor funcional de לְמַאֲכָל

A preposição לְ47 introduz a esfera em que טוֹב43 é afirmado: “boa para/com relação a alimento”. O texto descreve positivamente a árvore enquanto recurso alimentar, sem decidir ainda se cada árvore pode ser efetivamente consumida pelo humano. Essa distinção se tornará necessária quando Gn 2.16–17 estabelecer permissão geral e proibição específica.

O paralelo mais próximo fora dessa sequência é Ez 47.12, onde o fruto das árvores é לְמַאֲכָל48, “para alimento”, enquanto as folhas recebem outra finalidade. O emprego confirma que a construção indica função alimentar, não experiência gustativa.

§ 5.4. A LXX: καλὸν εἰς βρῶσιν

A LXX traduz טוֹב לְמַאֲכָל5 por καλὸν εἰς βρῶσιν6. Muraoka classifica εἰς49 em Gn 2.9 entre construções de destinação ou uso e verte a expressão por “good for eating” (Muraoka, 2009: 196). βρῶσις50 pode designar alimento ou ato de comer; aqui o contexto é claramente alimentar (Muraoka, 2009: 123–124).

A mesma combinação funcional aparece na LXX de Gn 1.29, onde a vegetação é dada εἰς βρῶσιν51, “para alimento”. O paralelo confirma uma leitura simples: a expressão descreve algo adequado à alimentação.

§ 5.5. Qualidade alimentar não é autorização normativa

Gn 2.9 descreve uma propriedade; Gn 2.16–17 regulamenta a ação humana. Os enunciados não devem ser fundidos:

טוֹב לְמַאֲכָל5 → qualidade alimentar
אָכֹל תֹּאכֵל52 → autorização para comer
לֹא תֹאכַל53 → proibição de comer.

Uma árvore pode, portanto, ser boa como alimento sem que daí se siga automaticamente permissão para comê-la. Matskevich chama atenção para essa tensão entre a autorização ampla e a exceção específica em Gn 2.16–17 (Matskevich, Double-Plotting in the Garden: Stylistics of Ambiguity in Genesis 2–3, 2016: 171–172). A distinção é gramaticalmente suficiente; sua interpretação teológica ficará para a etapa posterior.

§ 5.6. A retomada em Gn 3.6

Gn 3.6 repetirá quase literalmente a expressão: כִּי טוֹב הָעֵץ לְמַאֲכָל54, “que a árvore era boa para alimento”. Isso confirma que o eixo alimentar de Gn 2.9 permanece ativo na percepção da árvore proibida. O § 6 compara esse eixo diretamente com a reformulação visual de Gn 3.6.

A formulação resultante é precisa: טוֹב לְמַאֲכָל5 significa que as árvores são positivamente avaliadas enquanto alimento. A expressão não lexicaliza sabor e não equivale a permissão normativa. O paralelo decisivo para sua função narrativa é Gn 3.6, onde a mesma avaliação reaparece sem que o texto indique qualquer alteração física da árvore.

§ 6. Gn 2.9 e Gn 3.6: correspondências lexicais

Depois de examinar separadamente a atração visual (§ 4) e a qualidade alimentar (§ 5), é possível comparar Gn 2.9 e 3.6 sem reabrir a lexicografia já estabelecida. A relação entre os textos é uma combinação de continuidade e acréscimo: Gn 3.6 preserva os dois eixos descritivos de Gn 2.9 e acrescenta uma terceira avaliação de natureza cognitiva.

§ 6.1. A correspondência estrutural

Gn 2.9Gn 3.6
נֶחְמָד לְמַרְאֶה3תַאֲוָה־הוּא לָעֵינַיִם55
desejável/agradável à vistaobjeto de desejo para os olhos
וְטוֹב לְמַאֲכָל22כִּי טוֹב הָעֵץ לְמַאֲכָל54
e boa para alimentoque a árvore era boa para alimento
—וְנֶחְמָד הָעֵץ לְהַשְׂכִּיל56
—e a árvore era desejável para adquirir discernimento

McDowell reproduz a sequência de Gn 3.6 nesses três movimentos: “good for food”, “a delight to the eyes” e “desired to make one wise”. A comparação mostra que as duas primeiras avaliações não são criações ex nihilo da percepção da mulher; uma repete a formulação de Gn 2.9 e a outra permanece no mesmo campo visual. A terceira é a novidade formal.

§ 6.2. Continuidade alimentar

A correspondência mais exata é טוֹב ... לְמַאֲכָל57. Em Gn 2.9 a construção qualifica o conjunto arbóreo; em Gn 3.6 o sujeito é explicitamente הָעֵץ58, “a árvore” que a mulher observa. O relato não descreve uma passagem de “imprópria para alimento” a “boa para alimento”. A mesma avaliação básica está presente antes e durante a cena da transgressão.

Isso também preserva a distinção já estabelecida no § 5: a árvore pode ser percebida como boa para alimento e, simultaneamente, ser aquela da qual Yahweh disse לֹא תֹאכַל53. A comparação não exige refazer o debate normativo; apenas mostra que a proibição não elimina a caracterização alimentar.

§ 6.3. Continuidade visual com mudança de vocabulário

No eixo visual, Gn 3.6 não repete נֶחְמָד לְמַרְאֶה3 palavra por palavra. O texto emprega תַאֲוָה־הוּא לָעֵינַיִם55, “era objeto de desejo para os olhos”. מַרְאֶה39, “aparência”, cede lugar a עֵינַיִם59, “olhos”, e נֶחְמָד36 é substituído nesse eixo por תַאֲוָה60.

תַאֲוָה60, , designa desejo, anseio ou objeto desejado e, como חמד38, não possui valor moral negativo intrínseco. O cânon pode empregá-lo para desejos condenáveis (Sl 10.3) ou legítimos (Sl 10.17; Sl 21.3; Pv 10.24; Pv 11.23). Em Gn 3.6, sua função imediata é descrever a atração da árvore no campo visual. A avaliação moral da ação não pode ser deduzida do substantivo isolado.

Bauks observa que תַאֲוָה + עֵינַיִם61 ocupa em Gn 3.6 o espaço semântico da desejabilidade visual que חמד38 expressava em Gn 2.9 (Bauks, 2016: 105). O texto reformula, portanto, uma qualidade já presente no jardim em vez de narrar uma transformação estética da árvore.

§ 6.4. A redistribuição de נֶחְמָד

O dado mais revelador é que נֶחְמָד36 não desaparece. Em Gn 2.9, ele está ligado a לְמַרְאֶה37; em Gn 3.6, passa a reger לְהַשְׂכִּיל62:

נֶחְמָד לְמַרְאֶה3 → desejável quanto à aparência
נֶחְמָד ... לְהַשְׂכִּיל63 → desejável em vista de uma capacidade cognitiva.

A continuidade lexical é, portanto, acompanhada por uma mudança de complemento. Em termos estruturais, Gn 2.9 apresenta visão + alimento; Gn 3.6 apresenta alimento + visão + um terceiro componente ligado a שׂכל64. O § 7 delimita lexicalmente o valor desse verbo.

§ 6.5. A LXX e a mesma reorganização

A LXX conserva o eixo alimentar por καλὸν τὸ ξύλον εἰς βρῶσιν65 e reformula o visual por ἀρεστὸν τοῖς ὀφθαλμοῖς ἰδεῖν66, “agradável aos olhos para ver”. Muraoka registra ἀρεστός67 nesse contexto como agradável aos sentidos, especificamente à visão.

Ao mesmo tempo, o grego reutiliza ὡραῖος7, empregado em Gn 2.9 para a beleza visual, na terceira cláusula de Gn 3.6, associado a κατανοῆσαι68. A versão grega, portanto, também reorganiza os elementos da descrição. Ela não prova a intenção do hebraico, mas mostra que um tradutor antigo percebeu a terceira cláusula como distinta das duas primeiras.

§ 6.6. O que muda entre os dois textos

Não há indicação de transformação botânica, estética ou alimentar entre Gn 2.9 e 3.6. O que muda é a estrutura da avaliação narrada. Duas dimensões já presentes permanecem, e uma terceira é acrescentada:

Gn 2.9: aparência desejável + qualidade alimentar.
Gn 3.6: qualidade alimentar + desejo visual + desejabilidade em função de לְהַשְׂכִּיל62.

Essa é a conclusão própria desta seção. O texto não exige explicar a transgressão pela novidade do prazer sensorial; sua inovação lexical decisiva é a relação entre a árvore e שׂכל64. O alcance exato dessa capacidade deve ser estabelecido antes de qualquer interpretação psicológica ou teológica.

§ 7. לְהַשְׂכִּיל: o que a mulher percebe em Gn 3.6

Gn 3.6 acrescenta às avaliações alimentar e visual uma terceira cláusula: וְנֶחְמָד הָעֵץ לְהַשְׂכִּיל56. Estabelecida no § 6 a relação entre os três membros, resta delimitar לְהַשְׂכִּיל62: sua forma, seu campo semântico, seus controles canônicos e os limites do que o lexema permite afirmar.

§ 7.1. Forma gramatical

לְהַשְׂכִּיל62, , combina a preposição לְ47 com o infinitivo construto Hifil de שׂכל64. Na oração, o infinitivo completa נֶחְמָד36 e expressa a finalidade ou o resultado em vista do qual a árvore é considerada desejável.

Não é adequado, porém, fazer a morfologia decidir sozinha a tradução. O Hifil de שׂכל64 possui usos lexicalizados em que não significa simplesmente “fazer alguém sábio”; seu valor precisa ser determinado a partir da distribuição efetiva da raiz, examinada a seguir.

§ 7.2. O campo de שׂכל

Mounce registra cerca de sessenta ocorrências e resume o campo por valores como “ser sábio”, “compreender” e “prosperar/ser bem-sucedido” (Mounce, 2006: 794). Bauks observa que a raiz pode reunir razoabilidade, reconhecimento, conduta racional e êxito, com diferentes componentes em primeiro plano conforme o contexto (Bauks, 2016: 105).

Esses sentidos não precisam ser tratados como desconexos. Em muitos contextos, שׂכל64 descreve capacidade de perceber adequadamente uma situação e agir de modo correspondente. A sequência semântica pode ser representada como:

compreender → discernir → agir inteligentemente → alcançar resultado apropriado.

Desse modo, “discernimento”, “sagacidade” e “proceder sabiamente” podem ser traduções legítimas em contextos diferentes, enquanto “prosperar” frequentemente foregrounda o resultado de uma atuação competente.

§ 7.3. Controles canônicos: conduta, competência e êxito

1Sm 18 fornece um controle particularmente claro. Davi é descrito repetidamente como מַשְׂכִּיל69 em sua atuação (1Sm 18.5; 1Sm 18.14–15; 1Sm 18.30): ele compreende a situação, conduz-se com competência e alcança êxito. A raiz não indica simples posse de informação.

Nos Salmos e Provérbios, a mesma família pode descrever prudência e conduta inteligente. Sl 2.10 exorta os reis a procederem com entendimento; Sl 101.2 relaciona o verbo ao modo de conduzir-se; Pv 16.20 associa o trato inteligente de uma questão a resultado favorável. Esses usos mostram que compreensão e ação permanecem próximas.

O controle canônico permite, assim, excluir duas reduções: שׂכל64 não é mero acúmulo de informação, mas também não significa simplesmente prosperidade material. Seu campo envolve compreensão eficaz, discernimento e atuação competente.

§ 7.4. Daniel e o limite da ideia de “conhecimento técnico”

Dn 1.4 descreve jovens מַשְׂכִּילִים בְּכָל־חָכְמָה70, dentro de um contexto que menciona sabedoria, conhecimento, literatura e língua dos caldeus; Dn 1.17 volta a situar capacidades intelectuais dentro da formação cortesã. Esses textos mostram que שׂכל64 pode participar de contextos de competência intelectual especializada.

Isso permite falar, com cautela, em inteligência aplicada ou competência técnica como parte possível do campo mais amplo. Não permite, porém, traduzir לְהַשְׂכִּיל62 por “adquirir ciência”. “Ciência” em sentido moderno não constitui glosa da raiz, e Gn 3.6 não identifica um corpus técnico específico que a mulher esperasse obter.

§ 7.5. לְהַשְׂכִּיל não é לָדַעַת

A diferença lexical em relação à fala da serpente é decisiva. Em Gn 3.5, a promessa é que os humanos se tornariam יֹדְעֵי טוֹב וָרָע71, “conhecedores do bem e do mal”, com a raiz ידע72. Gn 3.6 não repete לָדַעַת טוֹב וָרָע73; o narrador escreve לְהַשְׂכִּיל62.

A sequência é, portanto:

Gn 2.9 → דַּעַת טוֹב וָרָע74, “conhecimento do bem e do mal”;
Gn 3.5 → יֹדְעֵי טוֹב וָרָע71, “conhecedores do bem e do mal”;
Gn 3.6 → לְהַשְׂכִּיל62, uma capacidade formulada por outro lexema.

Isso impede uma paráfrase na qual a mulher apenas repete mentalmente as palavras da serpente. Bauks entende o deslocamento como uma formulação sapiencial da vantagem esperada: aquilo que a serpente apresenta em termos de semelhança divina e conhecimento é percebido pela mulher como possibilidade de tornar-se sábia (Bauks, 2016: 105–106). Lexicalmente, pode-se formular de modo ainda mais cauteloso: ela representa a árvore como meio de alcançar discernimento ou competência cognitiva.

§ 7.6. Decisão de tradução

“Sabedoria” é possível, mas aproxima שׂכל64 de חָכְמָה75; “entendimento” pode soar excessivamente intelectual; “prudência” privilegia a conduta; “prosperidade” privilegia o resultado. Para Gn 3.6, “adquirir discernimento” ou “obter sagacidade” preservam melhor a combinação entre compreensão e capacidade de agir.

Uma tradução de trabalho equilibrada é: “e a árvore era desejável para adquirir discernimento”. Ela evita atribuir automaticamente ao fruto um mecanismo causal definido e não transforma o termo em “ciência”, “tecnologia” ou “onisciência”.

§ 7.7. A LXX: κατανοῆσαι

A LXX não traduz לְהַשְׂכִּיל62 por um verbo inequívoco de “tornar sábio”, como σοφίζω76. Ela apresenta καὶ ὡραῖόν ἐστιν τοῦ κατανοῆσαι77. κατανοέω78 pode alcançar o campo de compreender, mas Muraoka classifica especificamente Gn 3.6 sob o sentido de observar atentamente para conhecer ou descobrir (Muraoka, 2009: 378).

A versão grega, portanto, torna menos explícita a dimensão sapiencial do hebraico e aproxima a terceira cláusula novamente da contemplação do objeto. Esse testemunho é importante para a história da interpretação, mas não substitui o valor de שׂכל64 no TM.

§ 7.8. O que o léxico permite afirmar

O texto afirma diretamente que a mulher relaciona a árvore a שׂכל64. A distribuição canônica permite compreender essa capacidade em termos de discernimento, inteligência prática, atuação competente e, em alguns contextos, êxito decorrente dessa competência. Também permite reconhecer que o verbo pode aparecer em ambientes de formação intelectual.

O texto não afirma, porém, que ela desejava “ciência”, “tecnologia” ou um saber técnico específico; tampouco identifica שׂכל64 sem resto com “conhecimento do bem e do mal”. A mudança de ידע72 para שׂכל64 deve permanecer visível.

לְהַשְׂכִּיל62 apresenta a árvore como desejável em razão de uma capacidade cognitivo-prática que pode ser descrita como discernimento ou sagacidade. Determinar se essa expectativa representa autonomia intelectual, emancipação normativa, competência técnica ou alguma combinação dessas possibilidades pertence à interpretação teo-filo-científica posterior.

§ 8. A árvore da vida

A expressão עֵץ הַחַיִּים79, , “a árvore da vida”, é introduzida em Gn 2.9 sem explicação de seu funcionamento. O versículo apenas a nomeia e a situa בְּתוֹךְ הַגָּן18. Por isso, sua função não deve ser deduzida somente do nome: o controle decisivo é Gn 3.22–24, onde a narrativa explicita o que está em jogo no acesso à árvore.

§ 8.1. O nome: עֵץ הַחַיִּים

A construção reúne עֵץ23, “árvore”, e הַחַיִּים80, “a vida”. O segundo elemento determina a expressão inteira, daí “a árvore da vida”. Não se trata de “árvore viva”, mas de uma árvore definida por sua relação com חַיִּים81. O campo de חיה82 abrange viver, permanecer vivo e preservação da vida; o nome, porém, ainda não especifica em Gn 2.9 se essa relação significa longevidade, renovação ou vida sem término (Mounce, 2006: 403).

Desse modo, “árvore da imortalidade” é uma paráfrase interpretativa forte demais para o primeiro aparecimento. A duração indefinida só é explicitada posteriormente, quando חיה82 aparece ligado a לְעֹלָם83 em Gn 3.22.

§ 8.2. Gn 2.9 nomeia; Gn 3.22 explica

Em Gn 2.9 não se diz que alguém tenha comido da árvore, nem se descreve seu fruto ou seu efeito. A árvore do conhecimento volta imediatamente em Gn 2.17; a árvore da vida, ao contrário, permanece em suspensão narrativa até o desfecho. Essa assimetria é importante: uma árvore move o conflito central; a outra se torna decisiva quando o relato passa da transgressão à questão da continuidade da vida (Bauks, 2016: 100–102).

Gn 3.22 fornece então a explicação funcional:

וְלָקַח גַּם מֵעֵץ הַחַיִּים וְאָכַל וָחַי לְעֹלָם84

“tome também da árvore da vida, coma e viva para sempre”.

A sequência é narrativa e causalmente relevante: tomar → comer → וָחַי לְעֹלָם85. O humano já era vivente desde Gn 2.7; a árvore não cria a primeira vida, mas está relacionada à possibilidade de sua continuidade indefinida.

§ 8.3. וָחַי לְעֹלָם: vida continuada indefinidamente

O elemento que amplia o sentido não é חיה82 isoladamente, mas sua combinação com לְעֹלָם83. A LXX traduz a expressão por εἰς τὸν αἰῶνα86, “para sempre”; Muraoka registra Gn 3.22 justamente entre os usos prospectivos dessa fórmula de duração prolongada ou indefinida (Muraoka, 2009: 18–19).

O texto, portanto, permite distinguir:

vida já possuída em Gn 2.7
→ possibilidade de vida continuada לְעֹלָם83 em Gn 3.22.

Isso torna inadequado afirmar simplesmente que o humano já possuía, de modo irrevogável, uma imortalidade intrínseca. Também seria excessivo concluir o oposto, isto é, que Gn 2 ensina uma mortalidade inevitável independentemente do acesso à árvore. A formulação mais segura é que o humano vive, mas a narrativa associa à árvore uma possibilidade adicional de continuidade da vida.

§ 8.4. O texto não explica o mecanismo

Gn 3.22 não esclarece se uma única ingestão bastaria ou se a vida seria mantida mediante acesso continuado. A forma “tome [...] coma [...] e viva para sempre” admite a primeira leitura; a guarda permanente do caminho em Gn 3.24 também é compatível com a segunda. A narrativa não escolhe explicitamente entre elas.

Do mesmo modo, não há base para definir o fruto como objeto “mágico” autônomo; mas reduzi-lo a símbolo sem eficácia narrativa também vai além do texto. O dado demonstrável é mais simples: comer da árvore está ligado à possibilidade de viver לְעֹלָם83.

§ 8.5. Gn 3.24: o problema é o acesso

O encerramento confirma a leitura de Gn 3.22:

לִשְׁמֹר אֶת־דֶּרֶךְ עֵץ הַחַיִּים87

“para guardar o caminho da árvore da vida” (Gn 3.24).

O objeto guardado é o דֶּרֶךְ88, “caminho”, que conduz à árvore. Assim, o relato não apenas anuncia uma possibilidade de viver para sempre; impede concretamente que o humano alcance o meio associado a essa possibilidade. A recorrência de שמר89 também produz um contraste literário com Gn 2.15: o humano havia recebido a tarefa de guardar no jardim; no desfecho, outros guardiões passam a impedir seu acesso.

§ 8.6. O controle de Provérbios

Fora de Gênesis, עֵץ חַיִּים90 aparece em Provérbios como metáfora: a sabedoria é “árvore de vida” (Pv 3.18), assim como o fruto do justo (Pv 11.30), o desejo realizado (Pv 13.12) e a língua que cura (Pv 15.4). Esses usos mostram que a expressão pode designar, metaforicamente, algo que promove vitalidade e bem-estar; não significam automaticamente “imortalidade” (Bauks, 2016: 102–103).

Gênesis, contudo, possui um dado que esses provérbios não têm: a sequência concreta de tomar, comer e וָחַי לְעֹלָם85. O contexto, portanto, impede que a árvore edênica seja reduzida ao uso metafórico sapiencial.

Gn 2.9, assim, apenas nomeia a árvore da vida; Gn 3.22–24 explicita sua função. O humano já possui vida, mas comer dessa árvore é relacionado a וָחַי לְעֹלָם85, e o acesso a ela é posteriormente bloqueado. O relato não explica o mecanismo nem decide entre ingestão única e acesso continuado; por isso, Gn 3.22–24 permanece o controle exegético decisivo.

§ 9. A árvore do conhecimento do bem e do mal

A expressão עֵץ הַדַּעַת טוֹב וָרָע91, , “a árvore do conhecimento do bem e do mal”, concentra o principal problema semântico de Gn 2.9. Diferentemente da árvore da vida, cuja função é explicitada em Gn 3.22, o complemento “conhecimento do bem e do mal” precisa ser delimitado pela sintaxe, pelo campo de ידע72, pela própria narrativa e pelos paralelos canônicos mais próximos.

§ 9.1. דַּעַת טוֹב וָרָע: estrutura e alcance

דַּעַת10, “conhecimento”, deriva de ידע72, cuja gama semântica inclui percepção, reconhecimento, compreensão, experiência e habilidade. O par טוֹב וָרָע92, “bem e mal”, também não deve ser reduzido de saída a uma terminologia técnica de ética: טוֹב43 e רַע93 podem expressar avaliações morais, práticas, experienciais ou de benefício e prejuízo, conforme o contexto.

Desse modo, “conhecimento do bem e do mal” é tradução adequada, mas não interpretação completa. O ponto a decidir é que tipo de capacidade avaliativa a fórmula representa.

§ 9.2. O enredo exclui a origem de toda cognição

Antes de comer, os humanos já demonstram cognição: o humano compreende uma ordem, executa uma tarefa, nomeia animais e reconhece correspondência; a mulher conversa, recorda a proibição e avalia a árvore. Em Gn 3.6, ela a considera טוֹב43, “boa”, antes da ingestão.

Consequentemente, o fruto não pode ser explicado como origem da primeira inteligência, da primeira capacidade de avaliar ou da simples passagem de irracionalidade para racionalidade. O conhecimento adquirido precisa ser mais específico.

§ 9.3. A narrativa confirma que uma aquisição real ocorreu

A fórmula percorre quatro momentos decisivos. O narrador nomeia a árvore em Gn 2.9; Yahweh repete seu nome em 2.17; a serpente promete que os humanos serão יֹדְעֵי טוֹב וָרָע71, “conhecedores do bem e do mal”, em 3.5; e Yahweh declara em 3.22 que o humano se tornou “como um de nós” לָדַעַת טוֹב וָרָע73.

Gn 3.22 impede reduzir a promessa da serpente a mera falsidade factual. Alguma transformação cognitiva ocorreu. Gn 3.7 fornece sua primeira manifestação concreta: os olhos se abrem e ambos “sabem” (ידע72) que estão nus. A nudez não esgota a fórmula “bem e mal”, mas mostra que o novo estado cognitivo se manifesta imediatamente como conhecimento reflexivo de sua própria condição.

§ 9.4. Paralelos canônicos: maturidade, discriminação e julgamento

Os paralelos mais próximos convergem para capacidade de discernir e avaliar. Dt 1.39 descreve crianças que “não conhecem hoje bem e mal”, associando a fórmula à maturidade responsável. Em 2Sm 14.17–20, a mulher de Tecoa atribui a Davi capacidade de discernir bem e mal e liga essa competência à sabedoria régia; George e George destacam precisamente a relação entre discernimento, responsabilidade e condição régia nesses textos (George; George, The Mythology of Eden, 2014: 246–247).

1Rs 3.9 torna a função ainda mais explícita: Salomão pede um coração capaz de discernir entre bem e mal para julgar o povo. A capacidade não é apresentada como má; é necessária ao governo. Em 2Sm 19.35, por outro lado, Barzilai emprega a oposição em contexto de discriminação experiencial — comida, bebida e canto. Is 7.15–16 associa novamente bem/mal a desenvolvimento e escolha.

Os textos não são idênticos, mas delimitam um campo comum:

maturidade responsável → discriminação → avaliação → julgamento.

§ 9.5. O merismo: amplitude sem onisciência

Uma interpretação influente entende טוֹב וָרָע92 como merismo: polos opostos representam uma totalidade. A proposta é linguisticamente possível e ajuda a explicar por que a fórmula pode sugerir competência abrangente. Bauks registra essa leitura, mas observa também que o par pode funcionar como oposição graduada, isto é, como capacidade geral de discriminar valores sem equivaler a conhecimento absoluto (Bauks, 2016: 104–107).

Assim, “bem e mal” pode ter força totalizante dentro de um domínio avaliativo sem significar onisciência. Nada em Gn 3 mostra que os humanos passem a conhecer todos os fatos do cosmos.

§ 9.6. Avaliação das principais interpretações

As principais propostas podem ser avaliadas de modo cumulativo:

  1. Conhecimento sexual. Explora um sentido real de ידע72 e a nudez de Gn 3.7, mas não explica os paralelos de Dt 1.39, 2Sm 14.17, 1Rs 3.9 nem a comparação com a esfera divina em Gn 3.22.

  2. Maturidade. Tem apoio importante em Dt 1.39 e Is 7.15–16, mas não pode significar que os protagonistas fossem cognitivamente infantis antes do fruto.

  3. Consciência moral. Capta a dimensão avaliativa, mas é insuficiente se significar a primeira capacidade de compreender normas, pois essa capacidade já está presente antes da ingestão.

  4. Onisciência. Leva a sério o possível merismo, mas excede os efeitos narrados.

  5. Discernimento abrangente. Integra melhor os dados: capacidade ampliada de discriminar, avaliar e julgar entre polos de valor e experiência.

A quinta formulação é a mais parcimoniosa no nível exegético.

§ 9.7. A relação com לְהַשְׂכִּיל

Gn 3.6 não repete a expressão “conhecer bem e mal”. O narrador diz que a árvore era desejável לְהַשְׂכִּיל62. No § 7, שׂכל64 pertence ao campo de discernimento, compreensão e atuação competente. A mudança de vocabulário não torna ידע72 e שׂכל64 sinônimos, mas mostra que a promessa da serpente é apropriada pela mulher como expectativa de capacidade discernente.

A inferência precisa permanecer limitada: “conhecimento técnico”, “ciência” ou “civilização” não são traduções lexicais de דַּעַת טוֹב וָרָע74. Podem ser discutidos posteriormente como desenvolvimentos interpretativos, especialmente em relação a Gn 4, mas não devem ser introduzidos como significado do nome da árvore.

Os dados convergem: דַּעַת טוֹב וָרָע74 não designa simplesmente inteligência, sexualidade, moralidade elementar, técnica ou onisciência. O enredo e os paralelos canônicos favorecem uma capacidade ampliada de discernir, avaliar e julgar. Por que essa capacidade aparece em Gênesis ligada a uma proibição pertence à interpretação posterior, não à definição lexical da expressão.

§ 10. Onde estão as duas árvores?

A dificuldade espacial de Gn 2.9 concentra-se em בְּתוֹךְ הַגָּן18, “no meio/no interior do jardim”. A expressão aparece entre os dois nomes: עֵץ הַחַיִּים בְּתוֹךְ הַגָּן וְעֵץ הַדַּעַת טוֹב וָרָע94. A questão é se o locativo modifica apenas a árvore da vida ou se, numa coordenação descontínua, alcança também a árvore do conhecimento.

§ 10.1. בְּתוֹךְ: interior ou região central

תּוֹךְ95 designa o interior ou meio de um domínio; com בְּ96, a construção pode significar “no meio de” ou “dentro de”. Nada na expressão exige um ponto geométrico exato. A LXX preserva esse valor com ἐν μέσῳ τῷ παραδείσῳ97.

Assim, o dado espacial seguro é centralidade/interioridade, não uma cartografia capaz de localizar uma única árvore num centro matemático.

§ 10.2. A leitura linear de Gn 2.9

Na ordem superficial da frase, בְּתוֹךְ הַגָּן18 segue imediatamente עֵץ הַחַיִּים79. Por isso, a primeira leitura possível é simples: Gn 2.9 localiza explicitamente a árvore da vida no meio do jardim e não repete uma localização para a árvore do conhecimento.

Essa leitura, porém, não pode ser isolada de Gn 3.3, onde a mulher fala da árvore proibida como הָעֵץ אֲשֶׁר בְּתוֹךְ־הַגָּן98, “a árvore que está no meio do jardim”. Gn 2.17 e 3.11 identificam a árvore proibida como a árvore do conhecimento. Na forma final do relato, portanto, também ela é associada ao “meio” do jardim.

§ 10.3. A coordenação dividida

Uma solução sintática importante é a análise de “coordenação dividida”: dois membros coordenados podem ser separados por um constituinte que semanticamente vale para ambos. Mettinger aplica essa possibilidade a Gn 2.9 e entende que בְּתוֹךְ הַגָּן18 pode localizar conjuntamente as duas árvores (Mettinger, 2007: 22–23). Bauks adota análise semelhante ao falar de uma locução interposta entre os membros coordenados e de um “centro relativo” do jardim (Bauks, 2016: 101).

O esquema é:

[árvore da vida] + [no meio do jardim] + [árvore do conhecimento]

com o locativo podendo ter alcance sobre o par. Essa leitura harmoniza Gn 2.9 e 3.3 sem exigir que a mulher tenha deslocado ou confundido a árvore.

§ 10.4. Gn 3.3 não precisa ser tratado como erro

A mulher altera a formulação do mandamento ao acrescentar “nem tocareis nele”, mas isso não obriga a considerar incorreta sua localização da árvore. A narrativa prossegue sem corrigir a identidade do objeto, e Gn 3.11 continua remetendo à árvore proibida de Gn 2.17.

Desse modo, é metodologicamente preferível tratar a referência espacial de Gn 3.3 como dado da forma final, e não como erro presumido da personagem.

§ 10.5. Uma árvore ou duas? A questão composicional

A peculiaridade sintática e o deslocamento de foco entre as árvores alimentaram propostas histórico-críticas segundo as quais a narrativa teria conhecido originalmente apenas uma árvore, ou teria reunido duas tradições arbóreas. Essas hipóteses pertencem à história da composição e explicam por que a distribuição atual parece assimétrica.

Elas, porém, não devem governar a exegese sincrônica. Na forma final, Gn 3.22 distingue inequivocamente as duas funções: o humano já adquiriu o conhecimento e ainda poderia tomar גַּם99, “também”, da árvore da vida. Mesmo que uma história redacional anterior fosse demonstrada, o texto recebido opera com duas árvores distintas.

§ 10.6. Centralidade espacial e centralidade narrativa

Duas árvores podem ocupar a mesma região central sem compartilhar uma coordenada única. O dado relevante é que as duas árvores nominalmente especiais pertencem ao núcleo espacial do jardim e, progressivamente, ao núcleo narrativo do relato.

A árvore do conhecimento ocupa a posição final de Gn 2.9 e é retomada em 2.17; a árvore da vida reaparece decisivamente apenas em 3.22–24. A centralidade espacial, portanto, acompanha uma distribuição narrativa assimétrica: uma domina o conflito, a outra o desfecho.

A leitura mais econômica, portanto, associa linearmente בְּתוֹךְ הַגָּן18 à árvore da vida, enquanto Gn 3.3 aplica a localização à árvore proibida. A coordenação dividida permite que o locativo alcance as duas, entendendo “meio” como região central, não como ponto geométrico único. Hipóteses de uma tradição com uma única árvore pertencem à crítica composicional; a forma final distingue duas árvores e duas funções.

§ 11. As árvores especiais pertencem ao conjunto das árvores “agradáveis” e “boas”?

A última questão estrutural de Gn 2.9 é se a árvore da vida e a árvore do conhecimento pertencem semanticamente ao conjunto introduzido por כָּל־עֵץ1, “toda árvore”, e, em caso afirmativo, em que medida compartilham as qualificações נֶחְמָד לְמַרְאֶה3 e טוֹב לְמַאֲכָל5. A resposta exige distinguir alcance gramatical direto de inclusão no conjunto.

§ 11.1. O que a sintaxe afirma diretamente

Os dois qualificadores seguem imediatamente כָּל־עֵץ1. Depois deles aparecem novos grupos nominais coordenados: וְעֵץ הַחַיִּים17 e וְעֵץ הַדַּעַת טוֹב וָרָע19. Por isso, a sintaxe isolada não obriga a expandir a frase como “toda árvore, incluindo as duas árvores especiais, todas elas agradáveis e boas para alimento”. A palavra “incluindo” não está expressa.

Ao mesmo tempo, nada marca as duas árvores como pertencentes a outra classe botânica. O mesmo וַיַּצְמַח12 governa toda a sentença: Yahweh faz brotar o conjunto arbóreo e, dentro dessa mesma ação, nomeia duas árvores particulares. McDowell traduz a primeira expressão por “all kinds of trees” e depois focaliza as duas árvores, preservando justamente essa passagem do conjunto aos exemplares nomeados (McDowell, 2015: 142).

§ 11.2. Gn 2.16–17: conjunto e exceção

O contexto seguinte reforça a inclusão. Gn 2.16 autoriza comer מִכֹּל עֵץ־הַגָּן100, “de toda árvore do jardim”; Gn 2.17 seleciona a árvore do conhecimento como exceção específica. Matskevich observa corretamente a relação entre conjunto e elemento: uma autorização abrangente é seguida pela exclusão de um membro particular (Matskevich, 2016: 171–172).

Essa estrutura não significa que a árvore proibida estivesse primeiro autorizada e depois contraditoriamente proibida. É a forma normal de uma regra com exceção: todos os membros do conjunto, salvo um determinado.

§ 11.3. A árvore do conhecimento: o próprio relato confirma as duas qualidades

Os resultados dos §§ 4–6 podem ser tomados como premissas: Gn 3.6 afirma explicitamente que a árvore do conhecimento é טוֹב ... לְמַאֲכָל57, “boa para alimento”, e visualmente desejável. Portanto, mesmo que Gn 2.9 não distribua gramaticalmente os dois qualificadores de maneira explícita a cada árvore nomeada, a narrativa posterior confirma para a árvore proibida precisamente os dois eixos já apresentados no conjunto geral.

Permanece, assim, a distinção estabelecida no § 5: qualidade alimentar e permissão normativa não são equivalentes. O relato não precisa transformar a árvore proibida em objeto venenoso, repulsivo ou fisicamente inadequado.

§ 11.4. A árvore da vida: comestibilidade explícita, beleza provável

Para a árvore da vida, Gn 3.22 confirma diretamente a comestibilidade: o humano poderia tomar dela e comer. Gn 2.16 também não a exclui da permissão geral. Sua atratividade visual, porém, não é reafirmada posteriormente com a mesma clareza.

Os graus de segurança são distintos:

  • árvore do conhecimento — boa para alimento: explícito em Gn 3.6;

  • árvore do conhecimento — visualmente desejável: explícito em Gn 3.6;

  • árvore da vida — comestível: explícito em Gn 3.22 e compatível com Gn 2.16;

  • árvore da vida — agradável à vista: provável se incluída em כָּל־עֵץ1, mas não reafirmado por outro versículo.

§ 11.5. A recepção antiga como controle secundário

Jubileus oferece um testemunho antigo de leitura inclusiva. Van Ruiten observa que sua reescrita associa as árvores especiais à vegetação frutífera e aproxima Gn 1.12 de Gn 2.9, inclusive no eixo de prazer e alimento (Van Ruiten, The Garden of Eden and Jubilees 3:1–31, 1996: 307). Esse dado não resolve a sintaxe massorética, mas mostra que uma leitura antiga podia tratar as duas árvores como integrantes da vegetação frutífera do jardim, não como objetos de natureza botânica separada.

A LXX igualmente preserva a sequência “toda árvore [...] e a árvore da vida [...] e a árvore do conhecimento” sem marcador explícito de exclusão. Sua estrutura continua compatível com uma focalização de membros particulares depois da caracterização do conjunto.

O conjunto dos dados favorece a inclusão: os qualificadores de Gn 2.9 recaem diretamente sobre כָּל־עֵץ1, mas o contexto posterior confirma que as árvores especiais pertencem à mesma vegetação do jardim: Gn 3.6 atribui à árvore do conhecimento atração visual e aptidão alimentar, e Gn 3.22 confirma a comestibilidade da árvore da vida. A inclusão é, portanto, a leitura mais provável, sem exigir que sua especialização narrativa corresponda a uma natureza botânica distinta.

§ 12. Gn 2.9 dentro de Gn 2.8–17

O versículo integra a primeira cena da narrativa edênica e ocupa a passagem entre o ambiente constituído por Yahweh e a atividade humana que será exercida e regulamentada dentro dele.

§ 12.1. A sequência das ações de Yahweh

Walsh delimita Gn 2.4b–17 como a primeira grande cena de Gn 2.4b–3.24 e observa a sucessão de ações cujo sujeito é Yahweh Deus em Gn 2.7; Gn 2.8; Gn 2.9; Gn 2.15; Gn 2.16 (Walsh, Genesis 2:4b–3:24: A Synchronic Approach, 1977: 161–163). O movimento é progressivo: Yahweh forma o humano, planta o jardim, coloca-o ali, faz brotar as árvores, volta a situá-lo no jardim para uma tarefa e, por fim, regula sua relação com as árvores. Gn 2.9 pertence, portanto, à constituição do ambiente, mas introduz justamente os objetos sobre os quais o mandamento incidirá.

§ 12.2. Vegetação, água e humano

Walsh identifica ainda uma retomada ampliada da tríade vegetação → água → humano: Gn 2.9 descreve as árvores; Gn 2.10–14, a água e os rios; Gn 2.15, o humano em sua posição funcional (Walsh, 1977: 163). Isso explica por que o bloco dos rios não é simples digressão entre as árvores e a tarefa. Os vv. 9–15 descrevem, em conjunto, o ambiente no qual o humano será situado.

As duas referências à colocação do humano, em Gn 2.8 e 2.15, enquadram essa descrição: primeiro ele é colocado no jardim; entre as duas referências aparecem árvores e rios; depois retorna ao primeiro plano já associado à tarefa de trabalhar e guardar. A repetição, portanto, acrescenta função à localização.

§ 12.3. Do ambiente à tarefa

Gn 2.15 marca a passagem da constituição do espaço para a ação humana dentro dele. Os infinitivos לְעָבְדָהּ וּלְשָׁמְרָהּ101, “para trabalhá-lo/cultivá-lo e guardá-lo”, definem a finalidade da presença humana no jardim. Para a função literária da unidade, basta notar a ordem: aquilo que Yahweh prepara e faz brotar antecede aquilo que o humano deverá fazer. Gn 2.9 pertence ao primeiro movimento e prepara o segundo.

§ 12.4. Das árvores descritas às árvores regulamentadas

Gn 2.16–17 retoma diretamente o campo arbóreo introduzido em 2.9. Primeiro vem a autorização abrangente — מִכֹּל עֵץ־הַגָּן אָכֹל תֹּאכֵל102, “de toda árvore do jardim certamente poderás comer” — e depois a exceção particular: da árvore do conhecimento não se deve comer. A progressão é, portanto, descrição → permissão → proibição. Qualidade alimentar e autorização normativa, distinguidas no § 5, pertencem a níveis diferentes; aqui importa a ordem narrativa que conecta as árvores descritas ao mandamento.

§ 12.5. Duas árvores, dois tempos narrativos

As duas árvores nomeadas em Gn 2.9 são ativadas em momentos diferentes. A árvore do conhecimento reaparece imediatamente em Gn 2.17 e organiza o conflito de Gn 3.1–7; a árvore da vida permanece em suspensão até Gn 3.22–24. O versículo contém, assim, duas antecipações: uma conduz ao centro da transgressão, a outra ao desfecho da expulsão. Sua nomeação conjunta em Gn 2.9 prepara a arquitetura inteira do episódio.

§ 12.6. Integração literária

A sequência de Gn 2.8–17 pode ser condensada assim: jardim plantado → humano colocado → árvores feitas brotar → água e rios → humano situado para trabalhar e guardar → permissão alimentar abrangente → proibição particular. Gn 2.9 ocupa o ponto em que o jardim deixa de ser apenas um lugar nomeado e passa a fornecer os referentes concretos que serão posteriormente objeto de ação, permissão e limite. Essa progressão — espaço → provisão → tarefa → permissão → limite — fornece a base textual para a interpretação teo-filo-científica posterior, sem integrar ainda seu conteúdo à exegese.

§ 13. Síntese exegética

Os resultados acumulados permitem distinguir o que a análise demonstrou das questões que ainda exigem interpretação. As conclusões seguintes registram apenas os dados cumulativamente estabelecidos.

§ 13.1. Conclusões cumulativas

  1. Yahweh Deus é o agente de וַיַּצְמַח12: as árvores são feitas brotar מִן־הָאֲדָמָה15, o mesmo domínio terrestre ao qual o relato também relaciona o humano e os animais, embora por processos verbais distintos.

  2. כָּל־עֵץ1 apresenta o conjunto arbóreo de forma abrangente e o caracteriza por dois eixos anteriores à transgressão: נֶחְמָד לְמַרְאֶה3, atração visual, e טוֹב לְמַאֲכָל5, aptidão alimentar.

  3. Gn 3.6 não introduz pela primeira vez essas duas qualidades. A avaliação alimentar é retomada quase verbalmente e a atração visual é reformulada; a novidade é a terceira avaliação, לְהַשְׂכִּיל62, que associa a árvore à aquisição de discernimento ou sagacidade.

  4. שׂכל64 abrange compreensão, prudência, competência e atuação eficaz, mas não significa lexicalmente “ciência”. Do mesmo modo, דַּעַת טוֹב וָרָע74 não equivale à primeira inteligência humana: os protagonistas já compreendem, avaliam e decidem antes da ingestão.

  5. Os paralelos canônicos favorecem a compreensão de “conhecer bem e mal” como capacidade ampliada de discriminar, avaliar e julgar. O texto não exige reduzi-la à sexualidade, à moralidade elementar, ao conhecimento técnico ou à onisciência.

  6. A árvore da vida é apenas nomeada em Gn 2.9; Gn 3.22–24 explicita sua função ao relacionar seu consumo a וָחַי לְעֹלָם85 e ao bloquear posteriormente o acesso a ela. O relato não explica o mecanismo dessa eficácia.

  7. A forma final da narrativa distingue duas árvores e permite situá-las na região central do jardim. A hipótese de uma única árvore pertence à história composicional e não elimina a distinção funcional do texto recebido.

  8. As árvores especiais pertencem à mesma vegetação produzida por Yahweh. A árvore do conhecimento é explicitamente atraente e boa para alimento em Gn 3.6; a árvore da vida é explicitamente comestível em Gn 3.22. Especialização narrativa não implica uma classe botânica separada.

  9. Dentro de Gn 2.8–17, Gn 2.9 liga a constituição do ambiente à ação humana posteriormente regulada: jardim → árvores e rios → tarefa → permissão → proibição. O versículo prepara tanto o conflito em torno da árvore do conhecimento quanto o desfecho envolvendo a árvore da vida.

§ 13.2. Questões reservadas à interpretação

A exegese não determina por que Yahweh relaciona uma capacidade de discernimento a uma proibição, por que um objeto alimentarmente bom pode ser normativamente interditado, nem qual significado antropológico deve ser atribuído à passagem de ידע72 para שׂכל64. Também não decide se a árvore da vida pressupõe uma ingestão única ou acesso continuado. Essas questões são legítimas, mas não devem ser apresentadas como conteúdo lexical de Gn 2.9.

A base textual para a etapa seguinte pode ser condensada assim: solo → árvores feitas brotar → atração visual e alimento → duas árvores singularizadas → tarefa → permissão e limite → percepção da árvore proibida → לְהַשְׂכִּיל62 → ingestão → conhecimento adquirido → perda do acesso à árvore da vida. A interpretação teo-filo-científica deverá explicar essa sequência sem retrojetar suas categorias sobre os dados que a exegese estabeleceu.

Transliteração: kol-ʿēṣ. Tradução: “toda árvore”.

Transliteração: eti. Tradução: “ainda; novamente”.

Transliteração: neḥmād ləmarʾeh. Tradução: “desejável/agradável à vista”.

Transliteração: hōraion eis horasin. Tradução: “bela/agradável para contemplação”.

Transliteração: ṭôb ləmaʾăkāl. Tradução: “boa para alimento”.

Transliteração: kalon eis brōsin. Tradução: “boa para alimento; boa para comer”.

Transliteração: hōraios. Tradução: “belo; agradável quanto à aparência”.

Transliteração: ʿēṣ haddaʿat. Tradução: “árvore do conhecimento”.

Transliteração: to xylon tou eidenai gnōston kalou kai ponērou. Tradução: “a árvore de conhecer o que é cognoscível do bem e do mal”.

Transliteração: daʿat. Tradução: “conhecimento”.

Transliteração: gnōston. Tradução: “conhecido; cognoscível”.

Transliteração: wayyaṣmaḥ. Tradução: “e fez brotar”.

Transliteração: ʾădāmâ. Tradução: “solo; terra cultivável”.

Transliteração: wayyaṣmaḥ YHWH ʾĕlōhîm. Tradução: “Yahweh Deus fez brotar”.

Transliteração: min-hāʾădāmâ. Tradução: “do solo”.

Transliteração: neḥmād ləmarʾeh wəṭôb ləmaʾăkāl. Tradução: “agradável/desejável à vista e boa para alimento”.

Transliteração: wəʿēṣ haḥayyîm. Tradução: “e a árvore da vida”.

Transliteração: bətôk haggan. Tradução: “no meio/no interior do jardim”.

Transliteração: wəʿēṣ haddaʿat ṭôb wārāʿ. Tradução: “e a árvore do conhecimento do bem e do mal”.

Transliteração: wəʿēṣ haddaʿat. Tradução: “e a árvore do conhecimento”.

Transliteração: kol. Tradução: “todo; toda; cada”.

Transliteração: wəṭôb ləmaʾăkāl. Tradução: “e boa para alimento”.

Transliteração: ʿēṣ. Tradução: “árvore”.

Transliteração: wayyaṣmaḥ YHWH ʾĕlōhîm min-hāʾădāmâ. Tradução: “Yahweh Deus fez brotar do solo”.

Transliteração: ṣmḥ. Tradução: “brotar; crescer”.

Transliteração: wəkol-ʿēśeb haśśādeh ṭerem yiṣmaḥ. Tradução: “e nenhuma erva do campo ainda havia brotado”.

Transliteração: yiṣmaḥ. Tradução: “brotará; brote”.

Transliteração: ek tēs gēs. Tradução: “da terra”.

Transliteração: min. Tradução: “de; desde; a partir de”.

Transliteração: hāʾădāmâ. Tradução: “o solo”.

Transliteração: ʿāpār min-hāʾădāmâ. Tradução: “pó do solo”.

Transliteração: yṣr. Tradução: “formar; modelar”.

Transliteração: ʿāpār. Tradução: “pó”.

Transliteração: tadšēʾ hāʾāreṣ dešeʾ. Tradução: “que a terra faça brotar vegetação”.

Transliteração: wattôṣēʾ hāʾāreṣ. Tradução: “e a terra produziu”.

Transliteração: neḥmād. Tradução: “desejável; atraente”.

Transliteração: ləmarʾeh. Tradução: “à vista; quanto à aparência”.

Transliteração: ḥmd. Tradução: “desejar; considerar desejável; cobiçar”.

Transliteração: marʾeh. Tradução: “aparência; aspecto; visão”.

Transliteração: rʾh. Tradução: “ver”.

Transliteração: pan xylon hōraion eis horasin. Tradução: “toda árvore bela para contemplação”.

Transliteração: horasis. Tradução: “visão; contemplação”.

Transliteração: ṭôb. Tradução: “bom; boa”.

Transliteração: maʾăkāl. Tradução: “alimento; aquilo que se come”.

Transliteração: ʾkl. Tradução: “comer”.

Transliteração: ʿēṣ maʾăkāl. Tradução: “árvore para alimento”.

Transliteração: lə-. Tradução: “para; a; em relação a”.

Transliteração: ləmaʾăkāl. Tradução: “para alimento”.

Transliteração: eis. Tradução: “para; em direção a”.

Transliteração: brōsis. Tradução: “alimento; ato de comer”.

Transliteração: eis brōsin. Tradução: “para alimento; para comer”.

Transliteração: ʾākōl tōʾkēl. Tradução: “certamente comerás”.

Transliteração: lōʾ tōʾkal. Tradução: “não comerás”.

Transliteração: kî ṭôb hāʿēṣ ləmaʾăkāl. Tradução: “que a árvore era boa para alimento”.

Transliteração: taʾăwâ-hûʾ lāʿênayim. Tradução: “era objeto de desejo para os olhos”.

Transliteração: wəneḥmād hāʿēṣ ləhaśkîl. Tradução: “e a árvore era desejável para adquirir discernimento”.

Transliteração: ṭôb ... ləmaʾăkāl. Tradução: “boa ... para alimento”.

Transliteração: hāʿēṣ. Tradução: “a árvore”.

Transliteração: ʿênayim. Tradução: “olhos”.

Transliteração: taʾăwâ. Tradução: “desejo; anseio; objeto desejado”.

Transliteração: taʾăwâ + ʿênayim. Tradução: “desejo + olhos”.

Transliteração: ləhaśkîl. Tradução: “adquirir discernimento; agir com entendimento”.

Transliteração: neḥmād ... ləhaśkîl. Tradução: “desejável ... para adquirir discernimento”.

Transliteração: śkl. Tradução: “ter discernimento; agir com entendimento; proceder com êxito”.

Transliteração: kalon to xylon eis brōsin. Tradução: “a árvore era boa para alimento”.

Transliteração: areston tois ophthalmois idein. Tradução: “agradável aos olhos para ver”.

Transliteração: arestos. Tradução: “agradável; aprazível”.

Transliteração: katanoēsai. Tradução: “observar atentamente; compreender”.

Transliteração: maśkîl. Tradução: “aquele que age com entendimento; que procede com êxito”.

Transliteração: maśkîlîm bəkol-ḥokmâ. Tradução: “entendidos em toda sabedoria”.

Transliteração: yōdəʿê ṭôb wārāʿ. Tradução: “conhecedores do bem e do mal”.

Transliteração: ydʿ. Tradução: “conhecer; saber”.

Transliteração: lādaʿat ṭôb wārāʿ. Tradução: “conhecer o bem e o mal”.

Transliteração: daʿat ṭôb wārāʿ. Tradução: “conhecimento do bem e do mal”.

Transliteração: ḥokmâ. Tradução: “sabedoria”.

Transliteração: sophizō. Tradução: “tornar sábio; instruir”.

Transliteração: kai hōraion estin tou katanoēsai. Tradução: “e é atraente/bela para observar atentamente/compreender”.

Transliteração: katanoeō. Tradução: “observar atentamente; considerar; compreender”.

Transliteração: ʿēṣ haḥayyîm. Tradução: “árvore da vida”.

Transliteração: haḥayyîm. Tradução: “a vida”.

Transliteração: ḥayyîm. Tradução: “vida”.

Transliteração: ḥyh. Tradução: “viver; permanecer vivo”.

Transliteração: ləʿōlām. Tradução: “para sempre; por duração indefinida”.

Transliteração: wəlāqaḥ gam mēʿēṣ haḥayyîm wəʾākal wāḥay ləʿōlām. Tradução: “tome também da árvore da vida, coma e viva para sempre”.

Transliteração: wāḥay ləʿōlām. Tradução: “e viva para sempre”.

Transliteração: eis ton aiōna. Tradução: “para sempre”.

Transliteração: lišmōr ʾet-derek ʿēṣ haḥayyîm. Tradução: “para guardar o caminho da árvore da vida”.

Transliteração: derek. Tradução: “caminho”.

Transliteração: šmr. Tradução: “guardar; vigiar; conservar”.

Transliteração: ʿēṣ ḥayyîm. Tradução: “árvore de vida”.

Transliteração: ʿēṣ haddaʿat ṭôb wārāʿ. Tradução: “árvore do conhecimento do bem e do mal”.

Transliteração: ṭôb wārāʿ. Tradução: “bem e mal”.

Transliteração: rāʿ. Tradução: “mau; mal”.

Transliteração: ʿēṣ haḥayyîm bətôk haggan wəʿēṣ haddaʿat ṭôb wārāʿ. Tradução: “a árvore da vida no meio do jardim e a árvore do conhecimento do bem e do mal”.

Transliteração: tôk. Tradução: “meio; interior”.

Transliteração: bə-. Tradução: “em; dentro de”.

Transliteração: en mesō tō paradeisō. Tradução: “no meio do jardim/paraíso”.

Transliteração: hāʿēṣ ʾăšer bətôk-haggan. Tradução: “a árvore que está no meio do jardim”.

Transliteração: gam. Tradução: “também”.

Transliteração: mikkol ʿēṣ-haggan. Tradução: “de toda árvore do jardim”.

Transliteração: ləʿobdāh ûləšomrāh. Tradução: “para trabalhá-lo/cultivá-lo e guardá-lo”.

Transliteração: mikkol ʿēṣ-haggan ʾākōl tōʾkēl. Tradução: “de toda árvore do jardim certamente comerás”.

Transliteração: wayyaṣmaḥ YHWH ʾĕlōhîm min-hāʾădāmâ kol-ʿēṣ neḥmād ləmarʾeh wəṭôb ləmaʾăkāl wəʿēṣ haḥayyîm bətôk haggan wəʿēṣ haddaʿat ṭôb wārāʿ. Tradução: “Yahweh Deus fez brotar do solo toda árvore agradável à vista e boa para alimento, e a árvore da vida no meio do jardim, e a árvore do conhecimento do bem e do mal”.

Transliteração: kai exaneteilen ho theos eti ek tēs gēs pan xylon hōraion eis horasin kai kalon eis brōsin, kai to xylon tēs zōēs en mesō tō paradeisō, kai to xylon tou eidenai gnōston kalou kai ponērou. Tradução: “e Deus fez ainda brotar da terra toda árvore bela para contemplação e boa para alimento, e a árvore da vida no meio do jardim, e a árvore de conhecer o que é cognoscível do bem e do mal”.

Bibliografia

A bibliografia abaixo reúne apenas as edições, obras de referência e estudos efetivamente empregados na argumentação do artigo.

Edições textuais e versões antigas

  1. Morrison, Craig E. (trad.). Genesis According to the Syriac Peshitta Version with English Translation. Texto siríaco preparado por George Anton Kiraz e Joseph Bali. Surath Kthob 1. Piscataway, NJ: Gorgias Press, 2019.

  2. Tal, Abraham (prep.). Biblia Hebraica Quinta. Fasc. 1: Genesis. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 2015.

  3. Weber, Robert; Gryson, Roger (eds.). Biblia Sacra iuxta Vulgatam Versionem. 5. ed. rev. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 2007.

  4. Wevers, John William (ed.). Genesis. Septuaginta: Vetus Testamentum Graecum, vol. I. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1974.

  5. Wevers, John William. Notes on the Greek Text of Genesis. Septuagint and Cognate Studies 35. Atlanta, GA: Scholars Press, 1993.

Léxicos e obras de referência

  1. Mounce, William D. (ed.). Mounce’s Complete Expository Dictionary of Old and New Testament Words. Grand Rapids, MI: Zondervan, 2006.

  2. Muraoka, Takamitsu. A Greek-English Lexicon of the Septuagint. Leuven; Paris; Walpole, MA: Peeters, 2009.

Estudos

  1. Bauks, Michaela. “One, Two, or Three … ? The Confusion of the Trees in Genesis 2–3 and Its Hermeneutical Background.” In: Hayes, Elizabeth R.; Vermeulen, Karolien (eds.). Doubling and Duplicating in the Book of Genesis: Literary and Stylistic Approaches to the Text. Winona Lake, IN: Eisenbrauns, 2016, p. 99–112.

  2. George, Arthur; George, Elena. The Mythology of Eden. Lanham, MD: Hamilton Books, 2014.

  3. Matskevich, Karalina. “Double-Plotting in the Garden: Stylistics of Ambiguity in Genesis 2–3.” In: Hayes, Elizabeth R.; Vermeulen, Karolien (eds.). Doubling and Duplicating in the Book of Genesis: Literary and Stylistic Approaches to the Text. Winona Lake, IN: Eisenbrauns, 2016, p. 167–182.

  4. McDowell, Catherine L. The Image of God in the Garden of Eden: The Creation of Humankind in Genesis 2:5–3:24 in Light of the mīs pî, pīt pî, and wpt-r Rituals of Mesopotamia and Ancient Egypt. Siphrut 15. Winona Lake, IN: Eisenbrauns, 2015.

  5. Mettinger, Tryggve N. D. The Eden Narrative: A Literary and Religio-Historical Study of Genesis 2–3. Winona Lake, IN: Eisenbrauns, 2007.

  6. Van Ruiten, Jacques T. A. G. M. “The Garden of Eden and Jubilees 3:1–31.” Bijdragen: International Journal for Philosophy and Theology 57.3 (1996): 305–317.

  7. Walsh, Jerome T. “Genesis 2:4b–3:24: A Synchronic Approach.” Journal of Biblical Literature 96.2 (1977): 161–177.

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