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Romanos 6.15 ♱ A graça não é licença para pecar

Romanos 6.1 ♱ Salvos para uma Nova Vida: Combatendo a Distorção da Graça

Romanos 6.15

A frase anterior — “vocês não estão debaixo da lei, mas debaixo da graça” (Rm 6.14) — poderia ser torcida numa direção oposta à intenção de Paulo. Se a aceitação diante de Deus não depende de cumprir perfeitamente a lei e se a graça oferece perdão ao pecador, alguém poderia perguntar se determinados pecados ainda fariam tanta diferença. A objeção já não é exatamente a de permanecer deliberadamente numa existência dominada pelo pecado, como em Rm 6.1; agora a pergunta focaliza o próprio ato de pecar: seria possível aproveitar a liberdade concedida pela graça para fazer aquilo que a lei proibia?

A resposta é uma recusa imediata e absoluta. Paulo não admite sequer que a graça possa ser logicamente transformada em licença moral. A liberdade cristã jamais foi liberdade para entregar-se ao pecado. Ela é libertação da condenação e do antigo senhorio para que a vida possa pertencer a Deus. A mesma lógica aparece quando os cristãos são advertidos a não usar a liberdade como ocasião para a carne (Gl 5.13) nem como cobertura para o mal (1Pe 2.16). Uma liberdade que conduz novamente à escravidão destrói a si mesma.

A diferença entre Rm 6.1 e Rm 6.15 merece atenção. No início do capítulo, a pergunta era se alguém poderia continuar vivendo no pecado para produzir maior manifestação da graça. Aqui, a formulação alcança algo mais sutil: se não estamos debaixo da lei, não poderíamos ao menos permitir-nos pecar em determinadas ocasiões, confiando que a graça resolverá depois o problema? A primeira perversão transforma o pecado em modo de vida; a segunda o transforma em privilégio ocasional. Paulo rejeita ambas.

Essa segunda tentação talvez seja ainda mais fácil de esconder dentro da linguagem cristã. Poucos diriam abertamente: “quero viver em rebelião contra Deus”. É mais comum pensar: “Deus me perdoará”, “a salvação é pela graça”, “ninguém é perfeito”. Cada uma dessas afirmações pode expressar uma verdade, mas se for usada antes do pecado como autorização para praticá-lo, a misericórdia foi convertida em instrumento daquilo que veio destruir. Judas já advertia contra transformar a graça de Deus em pretexto para libertinagem (Jd 4).

O problema não está na abundância da graça, mas no coração que tenta explorá-la. Uma criança que recebe perdão do pai não conclui, se compreendeu o amor recebido, que agora possui mais liberdade para feri-lo. O perdão verdadeiro desperta gratidão e reconciliação. A bondade de Deus conduz ao arrependimento (Rm 2.4); não foi revelada para tornar o arrependimento desnecessário. Quanto mais profundamente a graça é conhecida, mais estranho se torna desejar aquilo que exigiu tamanho custo para ser perdoado.

A cruz torna essa perversão especialmente grave. O pecado que alguém pretende trivializar é precisamente aquilo pelo qual Cristo foi entregue (Rm 4.25; 1Co 15.3). Usar a morte de Jesus como argumento para pecar equivaleria a transformar o remédio em autorização para conservar a doença. Pedro descreve Cristo levando nossos pecados para que, mortos para eles, vivamos para a justiça (1Pe 2.24). A finalidade da obra redentora é incompatível com a ideia de que ela possa oferecer segurança para continuar escolhendo o mal.

“Não estar debaixo da lei” também não significa que deixou de existir diferença entre bem e mal. Paulo acabara de ordenar que os membros fossem apresentados a Deus como instrumentos de justiça (Rm 6.13), e continuará falando de obediência, justiça e santificação. O Deus da graça continua sendo o Deus cuja vontade é santa. A lei pode deixar de ocupar determinada função na relação pactual e condenatória do cristão sem que aquilo que Deus chama de pecado se transforme subitamente em virtude (Rm 7.12).

A graça, na verdade, aumenta a profundidade da obediência. A lei pode dizer “não matarás”; Cristo alcança a ira que alimenta a violência (Mt 5.21-22). Pode dizer “não adulterarás”; Jesus alcança o olhar e o desejo que precedem o ato (Mt 5.27-28). Ser liberto de um regime de condenação não significa receber uma ética menos exigente. A vida sob a graça procura uma justiça que chega ao coração, porque é justamente ali que Deus começa sua obra transformadora.

Também não existe contradição entre graça e mandamento. Jesus pode oferecer descanso ao cansado e, na mesma passagem, falar de seu jugo (Mt 11.28-30). Pode libertar seus discípulos e ainda dizer: “se vocês me amam, guardarão os meus mandamentos” (Jo 14.15). A graça não elimina o senhorio de Cristo; ela nos introduz nele sem que precisemos comprar nosso lugar mediante desempenho moral. Somos recebidos gratuitamente e, porque fomos recebidos, aprendemos uma nova obediência.

O erro combatido em Rm 6.15 nasce muitas vezes de imaginar que somente o medo da punição consegue impedir o pecado. Se a ameaça da lei é removida, pensa-se, a pessoa perderá qualquer razão para obedecer. Paulo possui uma visão mais elevada da graça. O amor de Cristo pode constranger de maneira mais profunda do que o medo externo (2Co 5.14-15), e o Espírito pode produzir no coração aquilo que simples proibição não consegue criar (Gl 5.22-23). A santidade cristã não depende apenas de uma cerca em torno do pecador; envolve uma nova disposição dentro dele.

Isso não torna o temor de Deus irrelevante. A graça não produz familiaridade irreverente com aquele que nos salvou. Aquele que chama Deus de Pai também é chamado a conduzir-se com santo temor durante sua peregrinação (1Pe 1.15-17). O amor não torna a santidade menos séria; oferece outra razão para buscá-la. Pecar contra um juiz é grave; pecar deliberadamente contra aquele que nos amou e nos reconciliou acrescenta a dimensão da ingratidão.

A pergunta de Paulo também revela que nenhum pecado é verdadeiramente isolado da questão do senhorio. Podemos imaginar um ato como episódio pequeno, desconectado de todo o restante da vida. O versículo seguinte destruirá essa ilusão: aquilo a que nos entregamos para obedecer começa a exercer relação de senhor e servo (Rm 6.16). O pecado deseja sempre mais do que o instante oferecido. Ele pede uma ação, depois procura transformar a ação em hábito; o hábito começa a moldar desejos, e desejos repetidamente obedecidos fortalecem uma forma de servidão.

Jesus havia expressado o mesmo princípio ao dizer que todo aquele que pratica o pecado torna-se escravo dele (Jo 8.34). O pecado promete autonomia, mas cobra obediência. Começa dizendo: “faça o que você quer”, e termina dizendo: “faça o que eu quero”. É por isso que a pergunta “posso pecar porque estou debaixo da graça?” contém uma contradição: o pecador pretende usar sua liberdade para entregar-se novamente ao poder do qual foi libertado.

Nenhum ato de pecado deve, por isso, ser tratado com indiferença. Isso não significa que uma queda individual transforme instantaneamente um cristão em alguém novamente escravizado, mas significa que todo consentimento aponta numa direção. Davi foi restaurado depois de grave pecado (2Sm 12.13; Sl 51.1-12), e Pedro encontrou restauração após negar Jesus (Lc 22.61-62; Jo 21.15-17). A graça possui lugar para o pecador que cai e retorna; Rm 6.15 nega que ela ofereça lugar para planejar a queda contando antecipadamente com o perdão.

Existe enorme diferença entre pecar e correr para a graça e correr para o pecado porque existe graça. No primeiro caso, a misericórdia é refúgio do arrependido; no segundo, ela foi transformada em cúmplice imaginária da rebelião. O filho pródigo encontra braços abertos quando retorna (Lc 15.17-24), mas seria perverso usar a certeza do amor paterno como argumento para financiar outra partida.

Essa diferença também protege a consciência sensível. O cristão que luta, cai, confessa e volta a resistir não deve interpretar Rm 6.15 como se qualquer falha provasse ausência de graça. João escreve a crentes precisamente para que não pequem e, ao mesmo tempo, lhes assegura que, se alguém pecar, há um advogado junto ao Pai (1Jo 2.1-2). A Escritura consegue manter juntas a seriedade da santidade e a realidade do perdão sem transformar nenhuma das duas em inimiga da outra.

A recusa paulina alcança ainda a maneira como pensamos sobre segurança espiritual. Segurança em Cristo não significa segurança para pecar; significa segurança enquanto lutamos contra o pecado. Nenhuma condenação há para os que estão em Cristo (Rm 8.1), mas essa mesma vida em Cristo é descrita como existência conduzida pelo Espírito, na qual as obras da carne são mortificadas (Rm 8.12-14). A certeza da aceitação fornece terreno firme para combater, em vez de autorização para desistir do combate.

Há uma liberdade que consiste em poder fazer o que se deseja, e há uma liberdade mais profunda: deixar de ser obrigado a desejar aquilo que nos destrói. O evangelho procura a segunda. Uma pessoa escravizada pela cobiça pode possuir liberdade econômica e ainda não ser livre; alguém dominado pela aprovação alheia pode ter inúmeras escolhas e continuar prisioneiro; quem não consegue dizer “não” a determinado prazer não possui a autonomia que imagina. Cristo promete liberdade precisamente no ponto em que o pecado havia convertido desejo em senhor (Jo 8.35-36).

Por isso estar debaixo da graça significa encontrar uma nova fonte de obediência. A pessoa não diz apenas: “não posso fazer isso porque uma regra proíbe”; começa a dizer: “não quero oferecer novamente minha vida àquilo de que fui resgatado”. O amor recebido reorganiza lealdades. A graça de Deus não apenas perdoa o passado; ensina a dizer “não” à impiedade e a viver de maneira sensata, justa e piedosa no presente (Tt 2.11-14).

A pergunta de Rm 6.15 prepara uma nova figura para explicar essa realidade. Até aqui o capítulo falou de morte, sepultamento, ressurreição e reinado. Agora Paulo recorrerá à experiência social da escravidão. A questão decisiva já não será simplesmente se determinado ato é permitido, mas a quem esse ato entrega nossa obediência. Cada escolha possui uma direção de lealdade, e a repetição dessa obediência revela quem está sendo tratado como senhor. É essa relação entre entrega, obediência e servidão que começa a ser desenvolvida em Rm 6.16.

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