Romanos 6.4 ♱ Sepultados com Cristo para uma nova vida
Romanos 6.4
O sepultamento aprofunda a imagem da morte introduzida nos versículos anteriores. Não basta dizer que Cristo morreu: ele foi sepultado, e seu sepultamento confirmou que aquela vida havia chegado realmente ao fim (1Co 15.3-4). Paulo aplica essa imagem à existência cristã. Ter sido “sepultado com ele” significa que nossa antiga relação com o domínio do pecado não deve ser tratada como algo do qual saímos apenas parcialmente. O evangelho não reforma o velho cativeiro para torná-lo mais suportável; ele marca uma ruptura. O passado pode ainda deixar cicatrizes, hábitos e tentações, mas deixou de ser o lugar ao qual pertencemos.
O batismo aparece novamente como expressão visível dessa passagem. Ao ser batizado, o cristão confessa sua vinculação ao Cristo que morreu e foi sepultado (Cl 2.12). A imagem da descida e da saída da água pode representar com grande força morte, sepultamento e retorno à vida, embora o argumento de Paulo não dependa de transformar cada detalhe do rito numa correspondência física. Seu interesse está na realidade significada: aquele que entra em Cristo não acrescenta simplesmente uma religião à vida que já possuía. Ele é chamado a reconhecer que uma existência terminou e outra começou.
“Sepultados com ele” também torna mais radical a linguagem da separação. Um morto sepultado já não participa da ordem de vida à qual anteriormente pertencia. É essa impossibilidade moral que responde à pergunta de Rm 6.1. Se fomos associados à morte de Cristo, voltar a considerar o pecado nossa residência normal seria negar aquilo que o próprio batismo confessou. Pedro descreve mudança semelhante quando contrapõe o tempo já vivido segundo as paixões humanas à existência agora dirigida pela vontade de Deus (1Pe 4.2-3). A antiga vida não é apresentada como uma propriedade que conservamos para visitar quando desejarmos.
Paulo, contudo, não se detém no túmulo. O sepultamento de Cristo conduz imediatamente à sua ressurreição. O cristianismo não é uma espiritualidade dedicada apenas a morrer para desejos, prazeres e pecados; sua finalidade é vida. A renúncia possui sentido porque algo novo foi concedido em seu lugar. Quem abandona as obras das trevas é chamado a revestir-se do Senhor Jesus Cristo (Rm 13.12-14); quem faz morrer aquilo que pertence à antiga existência é chamado a buscar as coisas do alto, onde Cristo está (Cl 3.1-5). Deus não esvazia uma vida para deixá-la vazia.
A expressão “pela glória do Pai” amplia o horizonte da ressurreição. Jesus não saiu do túmulo por simples recuperação de forças, nem sua ressurreição pertence à ordem comum dos acontecimentos naturais. Nela se manifestou a majestade ativa de Deus. O mesmo Pai cuja glória foi antecipada na ressurreição de Lázaro (Jo 11.40-44) levantou Jesus dentre os mortos, e o Novo Testamento apresenta essa ação como demonstração de extraordinário poder (Ef 1.19-20). A nova vida cristã é colocada, assim, sob o horizonte de uma ação divina que já venceu a própria morte.
Isso impede que “novidade de vida” seja entendida como mera melhora de comportamento. Paulo não está dizendo apenas que uma pessoa anteriormente impaciente deve tornar-se um pouco mais paciente, ou que alguém desonesto deve simplesmente corrigir determinados hábitos. Tais mudanças pertencem à vida cristã, mas procedem de algo mais profundo: se alguém está em Cristo, existe uma nova criação (2Co 5.17). A fonte da transformação não é uma versão moralmente aperfeiçoada do antigo ser humano, mas uma existência que passa a receber sua direção daquele que ressuscitou.
A palavra “andar” traz essa realidade para o cotidiano. Na Escritura, andar descreve o curso habitual da vida: escolhas, relações, pensamentos, desejos e práticas. A novidade recebida de Deus deve aparecer nessa caminhada. Paulo empregará a mesma linguagem para dizer que não devemos andar segundo a carne, mas segundo o Espírito (Rm 8.4), e em outra carta conclamará os cristãos a viver de maneira coerente com sua vocação (Ef 4.1). A ressurreição de Cristo alcança, desse modo, coisas tão concretas quanto o modo de falar, usar o corpo, lidar com dinheiro, responder a ofensas e tratar outras pessoas.
Essa nova caminhada não significa simplesmente imitar externamente a ressurreição de Jesus. O vínculo é mais profundo. Cristo é o modelo da nova vida porque é também sua fonte. Sua ressurreição inaugura uma ordem de existência na qual a morte já não exerce domínio sobre ele (Rm 6.9), e aqueles que lhe pertencem recebem vida em relação com o Ressuscitado. Paulo pode dizer que fomos vivificados juntamente com Cristo (Ef 2.4-6) porque a vida cristã não nasce da contemplação distante de um exemplo, mas da comunhão com uma pessoa viva.
Surge daqui uma maneira diferente de pensar a santificação. O cristão não luta para conseguir algum dia tornar-se alguém que Deus possa associar a Cristo. Ele é chamado a viver de maneira correspondente à união que recebeu. O imperativo moral nasce de uma realidade anterior. Quando Paulo exorta os colossenses a abandonar ira, maldade, mentira e práticas semelhantes, primeiro lhes recorda que morreram e que sua vida está escondida com Cristo em Deus (Cl 3.3-9). A transformação ética cresce a partir da identidade concedida pela graça.
A “novidade” também precisa permanecer realmente nova. O coração humano possui uma capacidade surpreendente de introduzir os antigos padrões dentro da própria religião: orgulho pode reaparecer como orgulho espiritual, desejo de aprovação pode esconder-se atrás de boas obras, e domínio sobre os outros pode vestir a linguagem da piedade. A vida que procede do Ressuscitado exige renovação que alcance o interior da pessoa. Por isso Paulo associa a entrega do corpo a Deus à renovação da mente (Rm 12.1-2) e descreve a transformação cristã como obra que alcança progressivamente nossa conformidade com a imagem do Senhor (2Co 3.18).
Existe também esperança para quem percebe quanta coisa velha ainda carrega consigo. Rm 6.4 não afirma que todos os vestígios da antiga existência desapareceram no instante da conversão. O próprio capítulo ainda ordenará resistência ao reinado do pecado (Rm 6.12-13). A novidade de vida descreve uma nova realidade e um novo caminho, não uma maturidade instantânea. Uma criança possui vida antes de possuir pleno desenvolvimento; de maneira semelhante, aquilo que Deus inicia precisa crescer. Somos chamados a avançar, deixando para trás aquilo que pertence ao velho modo de existir (Fp 3.12-14), porque a fonte desse crescimento não está morta: Cristo vive.
A ressurreição também impede que a santidade seja concebida apenas em termos negativos. Não pecar é insuficiente para descrever a nova vida. O Ressuscitado nos chama a uma existência voltada para Deus: oferecer o corpo como instrumento de justiça, servir, amar, perdoar, produzir fruto e buscar o bem (Rm 6.13; Gl 5.22-23). O homem que apenas abandona determinados vícios, mas continua vivendo para si mesmo, ainda não expressa toda a direção de Rm 6.4. Cristo morreu e ressuscitou para que aqueles que vivem já não vivam centrados em si mesmos, mas naquele que morreu e ressuscitou por eles (2Co 5.15).
A menção conjunta ao sepultamento e à ressurreição cria também uma esperança escatológica. A novidade de vida já começa no presente, mas a ressurreição de Jesus garante algo maior do que renovação moral. O Deus que ressuscitou Cristo também dará vida aos corpos mortais daqueles em quem habita seu Espírito (Rm 8.11). A existência cristã encontra-se, então, entre duas manifestações da vida: já caminhamos sob o poder do Ressuscitado, mas ainda aguardamos a redenção plena do corpo (Rm 8.23). A santificação presente é sinal de uma obra cuja expressão final ainda está à frente.
“Como Cristo foi ressuscitado”, escreve Paulo, “também nós” somos chamados a andar nessa nova condição. A correspondência prepara o que ele desenvolverá imediatamente: a relação com Cristo não termina na semelhança de sua morte. Se o sepultamento confirma que a velha relação com o pecado chegou ao seu termo, a ressurreição abre a questão daquilo que significa estar unido ao Cristo vivo. É justamente essa passagem da morte compartilhada para a vida compartilhada que o próximo movimento do argumento começa a explorar (Rm 6.5).


