Romanos 8.19 ♱ A Criação Aguarda a Revelação dos Filhos de Deus
Romanos 8.19
Depois de comparar o sofrimento presente com a glória futura, Paulo alarga subitamente o campo de visão. A esperança não pertence somente aos cristãos que aguardam sua glorificação; a própria criação é apresentada como inclinada para o futuro, esperando a “revelação dos filhos de Deus”. A imagem comunica expectativa intensa, quase como alguém que estende o rosto para avistar no horizonte aquilo que está chegando. O universo que agora testemunha corrupção, desgaste e morte não representa a forma definitiva da obra divina. Desde que o pecado entrou no mundo, a história humana e a história da criação passaram a carregar juntas as marcas da ruptura (Gn 3.17-19; Rm 5.12). Agora Paulo anuncia que o destino delas também volta a encontrar-se na redenção: quando os filhos de Deus forem manifestados em glória, a criação entrará na etapa de libertação que os versículos seguintes desenvolverão (Rm 8.21-23).
A identificação dessa “criação” foi historicamente discutida. Ela já foi entendida como humanidade em geral, mundo gentílico, humanidade renovada e até como referência mais restrita aos crentes. O movimento de Rm 8.19-23, porém, favorece compreender aqui a ordem criada distinta dos próprios filhos de Deus. A criação espera por eles no v. 19, é descrita como sujeita à corrupção nos vv. 20-21 e, no v. 23, Paulo acrescentará: “e não somente ela, mas também nós”, distinguindo os cristãos daquela realidade que vinha personificando. Trata-se, portanto, do mundo criado considerado sob os efeitos da queda — a natureza em sua condição presente, sujeita à deterioração, à desordem e à morte — aguardando o desfecho da obra redentora (Gn 3.17-18; Rm 8.20-23). Paulo não ensina que árvores, animais ou montanhas possuam consciência humana; utiliza a mesma liberdade poética pela qual rios batem palmas e montes cantam de alegria diante de Yahweh (Sl 96.11-13; 98.7-9).
Essa personificação contém uma afirmação teológica importante: o pecado humano nunca foi uma questão exclusivamente privada. Quando o ser humano, colocado por Deus dentro da criação e encarregado de administrá-la, rompeu com seu Criador, sua queda teve repercussões sobre o ambiente no qual sua vocação deveria ser exercida. A terra aparece amaldiçoada por causa dele (Gn 3.17), o trabalho passa a encontrar resistência e a existência corporal culmina no retorno ao pó (Gn 3.18-19). Romanos 8 apresenta essa condição numa escala ainda maior: a criação foi envolvida numa ordem de frustração e corrupção da qual não consegue libertar-se sozinha. Isso nos ajuda a compreender por que a Bíblia não descreve a salvação como simples retirada de almas de um mundo que Deus resolveu abandonar. O propósito divino alcança aquilo que o pecado atingiu; a redenção caminha para novos céus e nova terra, onde justiça habita e a morte já não governa (Is 65.17; 2Pe 3.13; Ap 21.1-4).
Há, portanto, algo profundamente cristão em olhar para a beleza da criação e perceber simultaneamente sua grandeza e sua incompletude. Uma floresta pode revelar extraordinária ordem e, ao mesmo tempo, conter morte, competição e decomposição. O nascimento de um animal manifesta vida; seu envelhecimento recorda corrupção. O mar pode proclamar a majestade do Criador (Sl 95.5), mas pode também tornar-se cenário de destruição. Paulo não exige que escolhamos entre chamar a criação boa ou reconhecer que ela está ferida. Ambas as coisas são verdadeiras: aquilo que Deus criou era bom (Gn 1.31), mas aquilo que contemplamos agora é uma criação boa submetida a uma condição que não corresponde à sua consumação. O cristão pode maravilhar-se diante do mundo sem confundir o mundo presente com o mundo finalmente restaurado.
A expectativa da criação está ligada especificamente à “revelação dos filhos de Deus”. Esse detalhe mostra que a própria filiação cristã possui uma dimensão ainda escondida. Os crentes já são filhos — o Espírito testemunha isso agora (Rm 8.16) — mas aquilo que essa condição significará em sua plenitude ainda não está exposto diante do universo. “Agora somos filhos de Deus”, escreve outra passagem, “e ainda não se manifestou o que haveremos de ser” (1Jo 3.2). A vida dos redimidos continua marcada por mortalidade, fraqueza e humilhação; podem parecer pessoas comuns, envelhecer como todos e morrer como todos. Quando Cristo se manifestar, porém, aqueles cuja vida agora está escondida nele também serão manifestados com ele em glória (Cl 3.3-4). A adoção presente caminha para uma manifestação pública.
Isso esclarece por que Paulo não diz que os homens se tornarão filhos nesse momento, mas que os filhos serão revelados. A glorificação não cria uma relação que nunca existiu; torna visível aquilo que a graça já estabeleceu. Hoje um filho de Deus pode estar num leito hospitalar, fragilizado e dependente; pode viver desconhecido, enfrentar desprezo ou não possuir qualquer importância segundo as escalas sociais. Nada em sua aparência necessariamente anuncia aquilo que Deus está fazendo nele. A ressurreição desfará essa discrepância. O corpo da humilhação será conformado ao corpo glorioso de Cristo (Fp 3.20-21), e aquilo que agora conhecemos pela fé aparecerá de maneira correspondente à realidade da adoção. A glória não será uma fantasia acrescentada à identidade cristã; será a manifestação externa daquilo que Deus estava formando silenciosamente.
A esperança cristã assume, assim, proporções cósmicas. É possível reduzir o evangelho à pergunta “como minha alma irá para o céu quando eu morrer?”, mas Romanos 8 pensa numa escala muito maior. O indivíduo importa profundamente, porém Deus está redimindo pessoas para inseri-las numa criação renovada sob o senhorio de Cristo. A ressurreição corporal já impedia que entendêssemos a salvação como fuga permanente da matéria (Rm 8.11); agora a expectativa da própria criação reforça essa verdade. O mundo material não é inimigo de Deus por ser material. O Filho assumiu corpo verdadeiro (Jo 1.14), ressuscitou corporalmente (Lc 24.39), os filhos de Deus receberão corpos glorificados (1Co 15.42-49), e a ordem criada participará da libertação que acompanhará essa consumação.
Essa visão também protege contra desprezar o mundo presente sob a desculpa de esperar o futuro. Se a criação pertence ao propósito de Deus e será libertada, ela não é simples cenário descartável para a história humana. A terra continua sendo de Yahweh (Sl 24.1), e a vocação de governar responsavelmente aquilo que ele fez não desapareceu porque a criação esteja sujeita à corrupção. Romanos 8.19 não oferece, isoladamente, um programa ambiental moderno, mas fornece uma razão teológica para rejeitar tanto a idolatria da natureza quanto seu tratamento irresponsável. Não adoramos a criação (Rm 1.25), porém também não desprezamos aquilo que o Criador considera digno de restauração. Esperar novos céus e nova terra não autoriza devastar indiferentemente aquilo que pertence a Deus.
Existe ainda um aspecto devocional na imagem da criação esperando. O mundo ao nosso redor recorda constantemente que alguma coisa ainda não chegou ao seu destino. O nascimento traz alegria, mas já acontece sob a sombra da mortalidade; colheitas alimentam, mas podem fracassar; corpos curam-se de algumas enfermidades enquanto continuam caminhando para o envelhecimento. A própria experiência da beleza possui frequentemente um elemento de saudade, como se aquilo que contemplamos despertasse desejo por algo ainda mais inteiro. Paulo oferece uma linguagem teológica para essa impressão: a criação ainda espera. Não devemos exigir do presente a perfeição que Deus reservou para a consumação. Parte de nossa frustração nasce de pedir a um mundo ainda sujeito à corrupção que se comporte como se Ap 21.4 já tivesse chegado.
Essa expectativa ensina também paciência. A criação não abandona seu lugar porque a libertação ainda não veio; continua esperando o momento definido por Deus. Os filhos também serão chamados a esperar nos versículos seguintes (Rm 8.23-25). Há um paralelo deliberado: criação espera, crentes gemem e esperam, e até o Espírito participa de nossos gemidos (Rm 8.22-26). A esperança bíblica não é impaciência disfarçada; é confiança perseverante entre promessa e cumprimento. Podemos desejar ardentemente o fim da corrupção sem tentar fabricar a consumação por nossas próprias forças.
A “revelação dos filhos de Deus” também coloca a identidade cristã sob outra perspectiva. Muito esforço humano é gasto tentando ser visto agora: reconhecimento, prestígio, reputação, influência. Paulo descreve filhos cuja verdadeira glória permanece escondida e que podem esperar que Deus mesmo a manifeste. Isso liberta de uma necessidade exaustiva de provar valor diante do mundo. Jesus advertiu contra transformar até a prática religiosa em espetáculo para receber recompensa humana (Mt 6.1-6). Quem sabe que haverá uma manifestação preparada por Deus pode aceitar permanecer desconhecido no presente. O Pai que vê em secreto não necessita da publicidade humana para saber quem lhe pertence.
Essa realidade também consola quem foi injustamente avaliado. Há pessoas fiéis que atravessam a vida sob interpretações falsas, acusações ou desprezo; outras jamais recebem reconhecimento por serviços realizados silenciosamente. O dia da revelação significa que nenhuma identidade verdadeira permanecerá para sempre encoberta. Deus não somente glorificará seus filhos; tornará manifesto aquilo que sua graça produziu neles. O julgamento final não pertence à opinião pública, e a avaliação do presente não possui autoridade para definir eternamente quem alguém é (1Co 4.3-5; Cl 3.3-4).
O próprio universo, na imagem paulina, está orientado para esse futuro. Isso confere peso extraordinário àquilo que Deus está fazendo em pessoas aparentemente comuns. Cada ato de santificação, cada oração filial, cada resistência ao pecado e cada perseverança na fé pertence a uma história maior que a biografia individual. Deus está formando os filhos cuja manifestação acompanha a libertação de uma criação inteira. A igreja pode parecer pequena dentro de um universo imenso, mas a narrativa bíblica coloca a glorificação dos redimidos no centro da consumação criada. Não porque os filhos substituam Cristo — tudo existe nele e para ele (Cl 1.16-20) —, mas porque o próprio Cristo decidiu compartilhar sua herança com eles (Rm 8.17).
A imagem termina mantendo nossos olhos adiante. A criação ainda espera porque os filhos ainda não foram revelados; os filhos ainda não foram revelados porque a glória ainda não chegou em sua plenitude. O atraso não é fracasso. Entre a cruz e a nova criação existe um período no qual Deus reúne, santifica e prepara seu povo, enquanto o mundo continua carregando as marcas da corrupção. O versículo seguinte explicará por que essa expectativa existe: a criação foi submetida à frustração, não como seu estado final, mas “em esperança” (Rm 8.20). Aquilo que agora parece uma longa história de desgaste encontra-se, desde já, colocado por Deus dentro de uma promessa de libertação.


