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Eclesiastes 1.15 ♱ O que é torto não se endireita: os limites da sabedoria humana

Eclesiastes 1.15

O que é torto não se pode endireitar, e o que falta não se pode contar.

A declaração de Eclesiastes 1.15 expressa uma das descobertas mais inquietantes da experiência humana: compreender a existência não significa possuir o poder de transformá-la. O Pregador havia dedicado sua inteligência à investigação de tudo quanto acontece no mundo (Ec 1.13-14), procurando descobrir se a sabedoria seria capaz de conferir unidade e sentido às contradições da vida. Sua conclusão, porém, revela a distância entre conhecer um problema e conseguir resolvê-lo. A inteligência pode identificar uma injustiça sem dispor dos meios para eliminá-la; pode reconhecer uma perda sem conseguir recuperar aquilo que desapareceu; pode compreender as causas de um sofrimento sem possuir autoridade sobre suas consequências. O conhecimento amplia nossa percepção da realidade, mas não amplia indefinidamente nosso domínio sobre ela. Essa descoberta prepara a afirmação seguinte de que o aumento da sabedoria também pode aumentar a tristeza (Ec 1.18), pois nem toda verdade conhecida traz consigo a possibilidade de reparação.

A primeira imagem, “o que é torto não se pode endireitar”, descreve uma realidade que resiste aos esforços humanos de ajustá-la à ordem desejada. Sua abrangência ultrapassa a perversidade moral individual. Inclui acontecimentos adversos, decisões alheias, estruturas sociais injustas, circunstâncias irreversíveis e aspectos da existência cujo funcionamento permanece incompreensível. O ser humano pode organizar seus caminhos, mas não determinar todos os seus resultados (Pr 16.9; Jr 10.23). Uma família pode agir prudentemente e ainda enfrentar uma tragédia; uma pessoa justa pode sofrer consequências da maldade de outros; um esforço legítimo pode terminar em fracasso por circunstâncias que ninguém poderia antecipar. A incapacidade mencionada no versículo não significa que nenhuma situação possa melhorar, mas que existem limites reais além dos quais a vontade humana não consegue impor sua própria solução.

Essa percepção alcança particular profundidade quando se considera a relação entre justiça e experiência. O mundo apresenta situações nas quais os justos recebem tratamentos que parecem próprios dos perversos, enquanto os perversos desfrutam benefícios que parecem pertencer aos justos (Ec 8.14). A consciência reconhece a desproporção, mas nem sempre consegue desfazê-la. O próprio Pregador observa a opressão e as lágrimas daqueles que não encontram quem os console (Ec 4.1), demonstrando que a desordem não constitui apenas um problema intelectual: envolve pessoas concretas, atingidas por forças que ultrapassam sua capacidade de resistência. Saber que determinada realidade é injusta não significa conseguir restaurar imediatamente a justiça. O sofrimento torna-se ainda mais doloroso quando aquele que o presencia possui discernimento suficiente para reconhecer o mal, mas não autoridade para impedir sua continuidade.

I. A diferença entre a desordem humana e o governo de Deus

O caráter aparentemente irregular da existência suscita uma questão teológica: se Deus criou todas as coisas, como compreender aquilo que se apresenta tortuoso aos olhos humanos? A narrativa da criação descreve uma ordem originalmente considerada muito boa (Gn 1.31), enquanto a experiência posterior testemunha conflitos, sofrimento e frustração. Parte dessas deformações decorre das transgressões humanas, pois o homem foi criado reto, mas passou a buscar inúmeros caminhos contrários à sua condição original (Ec 7.29). Outras dificuldades pertencem às limitações próprias de criaturas que não dominam a totalidade dos acontecimentos. Essas duas dimensões não devem ser confundidas. Nem todo sofrimento pode ser atribuído a uma culpa pessoal, como Jesus esclareceu ao rejeitar a explicação de que a cegueira de determinado homem resultasse necessariamente do pecado dele ou de seus pais (Jo 9.1-3).

A soberania divina também exige distinguir aquilo que parece desordenado para nós daquilo que efetivamente representa uma transgressão moral. A pergunta sobre quem poderia endireitar o que Deus fez torto (Ec 7.13) confronta a pretensão humana de submeter a providência às próprias expectativas. Isso não significa que Deus seja o autor da maldade praticada pelos homens, mas que sua administração do mundo não pode ser reduzida ao julgamento imediato de criaturas incapazes de conhecer o princípio e o fim de todas as coisas. O mesmo livro reconhece que Deus fez tudo apropriado ao seu tempo, embora o homem não consiga compreender inteiramente sua obra (Ec 3.11). A aparente contradição entre esses textos desaparece quando distinguimos a imperfeição de nossa perspectiva da perfeição do conhecimento divino. O que não conseguimos integrar numa explicação satisfatória não está, por essa razão, fora do alcance de Deus.

Existe, portanto, uma diferença essencial entre reconhecer que não podemos corrigir determinada situação e concluir que ela não possui sentido algum. A dificuldade de discernir os caminhos divinos não autoriza afirmar que esses caminhos sejam arbitrários. Quando a aflição tornou difícil compreender a prosperidade dos perversos, a percepção do salmista também permaneceu incompleta até que ele reconsiderou a questão diante de Deus (Sl 73.16-17). A fé não exige negar a experiência nem fabricar explicações para todos os acontecimentos. Exige reconhecer que o juízo humano, embora indispensável para a vida moral, não constitui a medida definitiva da providência. Existem realidades diante das quais a sabedoria encontra seu limite, e esse limite não equivale a uma deficiência no governo divino.

II. Aquilo que falta não pode ser contado

A segunda afirmação, “o que falta não se pode contar”, acrescenta uma dimensão distinta à primeira. Enquanto a imagem do torto descreve algo existente que não conseguimos corrigir, a imagem da falta aponta para aquilo que está ausente e que, precisamente por sua ausência, não pode ser incluído como se estivesse presente. Trata-se de uma observação sobre a impossibilidade de transformar uma deficiência real em plenitude mediante simples avaliação intelectual. Um inventário não se completa pela enumeração de bens inexistentes; conhecer uma carência não equivale a supri-la. O Pregador reconhece, assim, que a sabedoria consegue identificar lacunas sem possuir os recursos necessários para preenchê-las. Sua investigação encontra tanto situações que resistem à correção quanto elementos indispensáveis que permanecem fora de seu alcance.

Essa insuficiência adquire especial significado na busca humana pela satisfação. O homem pode possuir conhecimentos, recursos, reconhecimento e oportunidades, sem encontrar neles uma resposta definitiva para suas inquietações. A abundância de realizações não elimina necessariamente a percepção de que algo essencial continua ausente (Ec 2.10-11). A consciência humana possui uma abertura para o que ultrapassa suas realizações temporais, mas não consegue compreender plenamente a obra divina do começo ao fim (Ec 3.11). Por isso, multiplicar conquistas não significa completar a existência. Certas necessidades não pertencem à mesma categoria dos bens que procuramos acumular. Nenhum acréscimo de riqueza pode devolver uma pessoa falecida; nenhum prestígio pode transformar uma consciência culpada em inocente; nenhuma experiência agradável pode, por sua própria natureza, garantir a permanência da vida.

O problema torna-se ainda mais profundo quando a falta é interior. A existência humana não apresenta somente circunstâncias incompletas; revela também disposições morais que o próprio indivíduo não consegue reformar por inteiro. A consciência pode reconhecer a perversidade de determinada inclinação e, apesar disso, experimentar sua persistência. A oração por um coração puro (Sl 51.10) nasce precisamente da percepção de que o homem necessita de uma transformação mais profunda do que a simples correção de comportamentos. O reconhecimento de uma falta moral representa um início necessário, mas não constitui sua cura. Conhecer o bem não equivale a possuí-lo em sua plenitude, assim como admitir uma enfermidade não significa ter adquirido os meios para vencê-la. A insuficiência da sabedoria manifesta-se, nesse ponto, dentro do próprio ser humano.

III. O limite da criatura não estabelece um limite para Deus

A sentença de Eclesiastes seria desesperadora se descrevesse não apenas a capacidade humana, mas também o alcance do poder divino. Seu horizonte, contudo, é o da investigação da vida realizada por uma criatura sujeita ao tempo, à ignorância e à morte. Aquilo que o homem não consegue restaurar não é necessariamente irrestaurável para Deus. A promessa de transformar caminhos tortuosos em caminhos retos (Is 42.16) apresenta uma possibilidade que ultrapassa os recursos da experiência ordinária. A imagem reaparece na proclamação da preparação do caminho do Senhor (Lc 3.4-6), adquirindo um significado de esperança diante das condições que impedem o homem de chegar, por suas próprias forças, à plenitude prometida. O impedimento humano não possui a última palavra sobre a ação divina.

Essa diferença encontra expressão particularmente profunda na obra de Cristo. O evangelho não apresenta a salvação como resultado de um aperfeiçoamento progressivo da inteligência humana, mas como uma iniciativa divina dirigida a uma condição que o homem não consegue remediar sozinho. A sabedoria do mundo não foi suficiente para conduzir a humanidade ao conhecimento salvador de Deus (1Co 1.20-25); por isso, a reconciliação não nasce da descoberta de uma técnica superior para administrar as imperfeições da existência. Em Cristo, a transformação alcança a própria relação do ser humano com Deus, inaugurando uma condição descrita como nova criação (2Co 5.17). O que faltava não é suprido pela multiplicação das realizações humanas, mas pela graça que oferece aquilo que nenhuma conquista poderia produzir: perdão, reconciliação e a renovação da vida interior.

A promessa de um novo coração e de um novo espírito (Ez 36.26-27) ilumina o contraste entre a impotência humana e a possibilidade de restauração divina. O coração que resiste à verdade não é transformado apenas pelo acúmulo de informações; necessita de uma intervenção que alcance suas disposições fundamentais. Essa transformação, entretanto, não significa que todos os problemas exteriores desapareçam imediatamente. A criação continua sujeita à corrupção e aguarda sua libertação, enquanto os próprios redimidos permanecem na expectativa da consumação de sua redenção (Rm 8.20-23). A esperança cristã não contradiz a observação do Pregador, como se o mundo presente já houvesse perdido todas as suas contradições. Ela anuncia que tais contradições não constituem a realidade definitiva. Aquele que promete fazer novas todas as coisas (Ap 21.4-5) possui a autoridade que falta ao observador humano para levar a criação à plenitude de seu propósito.

IV. O dever permanece mesmo quando a solução não está em nossas mãos

O reconhecimento dessas limitações não deve produzir indiferença diante do sofrimento ou resignação perante a injustiça. Existem situações que podem e devem ser corrigidas pela ação responsável. A ordem de buscar a justiça e defender os oprimidos (Is 1.17) permanece válida mesmo quando sabemos que não conseguiremos eliminar toda a opressão do mundo. A incapacidade de transformar a totalidade da existência não nos dispensa de agir sobre aquilo que foi confiado à nossa responsabilidade. Quem conhece o bem que deve praticar e deixa de fazê-lo permanece moralmente responsável por sua omissão (Tg 4.17). A sabedoria reconhece a diferença entre aquilo que nos cabe realizar e aquilo que ultrapassa nossa autoridade, preservando tanto o dever de agir quanto a humildade diante dos resultados.

Essa distinção também liberta o coração de uma exigência impossível: a de garantir que todos os esforços produzam exatamente os efeitos desejados. O agricultor semeia sem dominar todas as condições que determinarão sua colheita; por isso, é aconselhado a perseverar no trabalho, mesmo sem saber qual iniciativa prosperará (Ec 11.6). A mesma disposição deve orientar a vida espiritual. Podemos oferecer reconciliação sem controlar a resposta de quem foi ofendido, aconselhar sem determinar a decisão daquele que ouve e trabalhar pela restauração de uma relação sem possuir poder sobre a vontade alheia. A responsabilidade humana consiste em proceder com fidelidade, não em reivindicar domínio absoluto sobre as consequências de cada ato.

A dimensão devocional do versículo encontra-se, finalmente, na disposição de reconhecer as próprias faltas sem transformar esse reconhecimento em desespero. Diante do que não conseguimos endireitar, somos convidados a abandonar a pretensão de autossuficiência; diante do que não podemos suprir, aprendemos a distinguir nossas necessidades mais profundas dos objetos passageiros que prometem satisfazê-las. A oração que pede a Deus sabedoria para contar os dias (Sl 90.12) não procura descobrir uma fórmula capaz de eliminar a fragilidade humana, mas formar um coração que saiba viver diante dela. O temor de Deus e a obediência aos seus mandamentos (Ec 12.13-14) oferecem o fundamento moral que a investigação isolada não consegue estabelecer por si mesma. A existência continua marcada por questões sem resposta e perdas irreversíveis, mas já não precisa ser governada pela ilusão de que a paz depende de conseguirmos corrigir tudo.

Eclesiastes 1.15 revela, assim, a insuficiência de uma sabedoria que pretende assumir o lugar da providência. Há deformações que podemos combater, mas não eliminar inteiramente; há ausências que podemos lamentar, mas não preencher por nossos próprios recursos. Essa consciência não diminui o valor do discernimento, do trabalho ou da justiça. Coloca cada um deles em seu devido lugar. O homem é chamado a reconhecer a verdade, praticar o bem e confiar a Deus aquilo que permanece além de sua capacidade. A esperança não repousa na promessa de que compreenderemos todas as contradições desta vida, mas na fidelidade daquele cuja obra permanece inteira mesmo quando nossos olhos conseguem perceber apenas seus fragmentos (1Co 13.12; Fp 1.6). A fé aprende a viver nessa diferença, sem negar as feridas do presente e sem considerar definitiva a incompletude que hoje nos acompanha.

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