Espada — Enciclopédia Bíblica e Teológica

ESPADA

(Hb.: חֶרֶב [ḥereb], “espada, arma cortante”; Gr.: μάχαιρα [machaira], “espada curta”; ῥομφαία [rhomphaia], “espada longa ou larga”)

Espada é a designação portuguesa aplicada a diferentes armas brancas mencionadas nas Escrituras e, por extensão, a uma ampla variedade de imagens relacionadas a guerra, morte, juízo, autoridade, conflito e poder da palavra. O vocábulo português não corresponde, porém, a um único termo bíblico. No texto hebraico do AT (MT), a palavra predominante é חֶרֶב (ḥereb), enquanto o NT utiliza principalmente μάχαιρα (machaira) e, com menor frequência, ῥομφαία (rhomphaia). As distinções entre esses termos são relevantes, mas não devem ser transformadas numa tipologia rígida, pois o vocabulário antigo podia apresentar sobreposição semântica e a identificação material da arma depende do contexto.

A espada figura entre as armas mais frequentemente mencionadas na Bíblia. Seu emprego literal reflete as condições militares do antigo Oriente Próximo e do mundo greco-romano, mas a frequência da arma na experiência da guerra favoreceu também uma extensa elaboração metafórica. “Espada” pode representar a própria guerra ou morte violenta, a ação punitiva de Deus, o exercício da autoridade política, a divisão provocada por determinada mensagem ou a eficácia penetrante da palavra divina. O valor da imagem depende do contexto de cada passagem.

A amplitude lexical distingue חֶרֶב (ḥereb) como o principal termo veterotestamentário e μάχαιρα (machaira) como a principal palavra neotestamentária, sem limitar nenhum dos dois à identificação física de um único tipo de arma. ῥομφαία (rhomphaia) apresenta distribuição mais restrita e associa-se normalmente a uma espada maior ou mais larga (Longman III; Strauss, 2023: 797–798, The Baker Expository Dictionary of Biblical Words, ed. Baker Books; Verbrugge, 2000: 482, The NIV Theological Dictionary of New Testament Words, ed. Zondervan).

Da arma histórica ao símbolo religioso: guerra, autoridade, justiça, discernimento e poder espiritual

Índice

I. Terminologia bíblica e campo lexical

A tradução “espada” pode ocultar diferenças entre os termos originais. No MT, חֶרֶב (ḥereb) possui ampla extensão semântica; no NT grego, μάχαιρα (machaira) é muito mais frequente que ῥομφαία (rhomphaia). A distinção entre os vocábulos gregos é real, mas relativa e não permite identificar automaticamente dimensões, formato ou técnica de combate em cada ocorrência.

A. חֶרֶב (ḥereb) no AT

O substantivo חֶרֶב (ḥereb, “espada”) é o principal termo hebraico relacionado à espada e ocorre 413 vezes na contagem adotada por Mounce (Mounce, 2006: 699–700, Mounce’s Complete Expository Dictionary of Old and New Testament Words, ed. Zondervan). O vocábulo designa uma arma de lâmina, mas em alguns contextos pode corresponder a “faca” ou “punhal”; por si só, não identifica um único tipo material de arma (Mounce, 2006: 699–700).

A amplitude de חֶרֶב (ḥereb) exige, entretanto, que “espada” não seja considerada tradução mecanicamente exclusiva. O termo pode designar uma arma cortante de maneira mais geral e, em alguns contextos, é traduzido como “faca” ou “punhal”. Isso é particularmente evidente em passagens nas quais o objeto não corresponde necessariamente à imagem moderna de uma espada militar. A mesma extensão explica por que o vocábulo pode assumir valor coletivo e aproximar-se do sentido de “armamento” ou “violência armada”, especialmente em fórmulas de guerra e maldição.

O termo חֶרֶב (ḥereb) é também o termo mais frequente do AT para uma arma. Formas antigas de espada conhecidas no antigo Oriente Próximo podiam ser retas, de dois gumes e próximas, em dimensões, de grandes adagas, adequadas principalmente à perfuração (Hoffmeier, 1988: 4.1036, The International Standard Bible Encyclopedia, ed. Eerdmans). A projeção de modelos medievais ou modernos sobre o texto bíblico introduz, por isso, características de tamanho, construção e função que não pertencem necessariamente às armas antigas.

O uso de חֶרֶב (ḥereb) ultrapassa o objeto material. A palavra pode representar o resultado da guerra — “cair à espada”, por exemplo —, funcionar como metonímia da violência militar ou tornar-se agente poético de destruição. Nas maldições da aliança e nos profetas, a espada pode representar invasão e julgamento; em Ez 21, torna-se imagem dominante do instrumento pelo qual o julgamento divino alcança Jerusalém. Esses usos derivam da associação concreta da arma com guerra e morte. (cf. § III.C; §§ IV.AB)

  • Leia mais: Ḥereb; Armas; Punhal; Faca.

B. μάχαιρα (machaira) no NT

No NT, o substantivo predominante é μάχαιρα (machaira, “espada curta”), com 29 ocorrências (Longman III; Strauss, 2023: 797–798). Na grande maioria delas, a palavra indica uma espada ou outro instrumento dotado de lâmina. Entre os exemplos concretos estão as μάχαιραι (machairai, “espadas”) levadas pelo grupo que prende Jesus (Mt 26.47,55), a execução de Tiago “à espada” (At 12.2) e a arma que o carcereiro de Filipos pretende utilizar contra si mesmo (At 16.27) (Longman III; Strauss, 2023: 797–798).

A tradução “espada curta” descreve uma tendência de μάχαιρα (machaira), mas não deve ser convertida em definição arqueológica inflexível. O substantivo pode referir-se a diferentes armas de lâmina e, conforme o contexto, aproximar-se das noções de espada, adaga ou faca. Trata-se de uma categoria lexical relativamente ampla de arma cortante ou perfurante, cujo formato específico deve ser estabelecido, quando possível, a partir do contexto histórico.

O termo apresenta ainda numerosos usos figurativos. Em Rm 8.35, “espada” representa morte violenta; em Rm 13.4, aparece associada ao poder coercitivo da autoridade governamental; em Mt 10.34, a oposição entre paz e espada exprime conflito e divisão. Em Ef 6.17, por sua vez, a “espada do Espírito” é identificada com a palavra de Deus, enquanto Hb 4.12 compara a eficácia penetrante dessa palavra a uma μάχαιρα δίστομος (machaira distomos, “espada de dois gumes”) (Longman III; Strauss, 2023: 798).

A palavra μάχαιρα (machaira) é normalmente associada a uma espada curta em contraste relativo com ῥομφαία (rhomphaia), vinculada a uma espada maior e larga. O uso neotestamentário de μάχαιρα, entretanto, abrange contextos históricos e metafóricos distintos, de modo que o valor específico do termo depende da ocorrência em que aparece (Verbrugge, 2000: 482). (cf. §§ V.BE)

  • Leia mais: Machaira; Grego do Novo Testamento; Armas romanas; Léxico do Novo Testamento.

C. ῥομφαία (rhomphaia) no NT

O segundo substantivo grego relevante é ῥομφαία (rhomphaia). Diferentemente de μάχαιρα, a palavra é pouco frequente no NT, com sete ocorrências, seis delas no Apocalipse e uma em Lc 2.35 (Balz; Schneider, eds., 1993: 3.213, Exegetical Dictionary of the New Testament, ed. Eerdmans). Sua associação histórica com uma espada grande ou larga indica, em termos gerais, uma arma de maiores dimensões, sem estabelecer uma oposição técnica absoluta em relação a μάχαιρα.

A distinção lexical é relativa: μάχαιρα pode indicar uma espada curta, enquanto ῥομφαία se associa a uma espada grande ou larga (Verbrugge, 2000: 482). No NT, esta última aparece em Lc 2.35 e no Apocalipse. Na profecia dirigida a Maria, a ῥομφαία que atravessará sua própria alma funciona metaforicamente como imagem de profunda dor ou angústia; no Apocalipse, a palavra participa repetidamente das imagens de julgamento.

A concentração de ῥομφαία no Apocalipse é relevante para sua interpretação. A espada associada à boca de Cristo em Ap 1.16; 2.16 e 19.15,21 pertence à linguagem simbólica do livro: sua procedência da boca relaciona a imagem ao poder judicial da palavra pronunciada pelo Cristo exaltado (Balz; Schneider, eds., 1993: 3.213).

A distinção μάχαιρα/ῥομφαία é interpretativamente relevante, mas não autoriza uma oposição absoluta do tipo “adaga versus espada” em todas as passagens. O vocabulário grego apresenta sobreposições, e as construções metafóricas frequentemente tornam secundárias as medidas físicas da arma. A diferença lexical deve ser preservada quando sustentada pelo contexto, sem atribuir aos termos uma precisão técnica que o próprio texto não fornece. (cf. § V.F)

  • Leia mais: Rhomphaia; Apocalipse; Juízo escatológico; Cristo exaltado.

D. O problema da tradução portuguesa “espada”

A palavra portuguesa “espada” funciona como termo guarda-chuva para realidades lexicais distintas. Esse fenômeno não constitui necessariamente defeito de tradução: línguas diferentes raramente apresentam correspondência perfeita entre seus campos semânticos. Uma mesma palavra hebraica pode exigir traduções diferentes conforme o contexto, assim como palavras gregas diferentes podem legitimamente ser traduzidas pelo mesmo substantivo português.

Em חֶרֶב (ḥereb), a tradução uniforme por “espada” pode produzir uma imagem material inadequada quando o contexto admite um instrumento cortante menor. A diferenciação automática entre “faca”, “punhal”, “adaga” e “espada”, por outro lado, introduz falsa precisão quando não há fundamento lexical, contextual ou arqueológico suficiente. A tradução contextual deve refletir o campo semântico sem impor classificações modernas ao vocabulário antigo.

A mesma cautela aplica-se a μάχαιρα (machaira) e ῥομφαία (rhomphaia). A distinção entre arma menor e maior é lexicalmente útil, mas se torna secundária em contextos metafóricos. Em Hb 4.12, o ponto de comparação é a capacidade penetrante da μάχαιρα; em Lc 2.35, ῥομφαία funciona como metáfora de sofrimento. (cf. § II; §§ IIIV)

  • Leia mais: Tradução bíblica; Semântica bíblica; Lexicografia bíblica; Línguas bíblicas.

II. A espada como arma no mundo bíblico

A espada pertence à categoria das armas de curto alcance, empregadas sobretudo quando o combatente se encontrava suficientemente próximo do adversário para golpeá-lo diretamente. A expressão “espada bíblica”, porém, não corresponde a um único tipo de arma. Ao longo dos milênios abrangidos pela Bíblia, coexistiram lâminas curtas semelhantes a punhais, espadas retas destinadas à perfuração, armas de dois gumes capazes de cortar e perfurar e espadas recurvadas concebidas principalmente para golpes cortantes.

A arqueologia do antigo Oriente Próximo permite acompanhar essas transformações com maior precisão do que os próprios textos bíblicos, que normalmente pressupõem a familiaridade do leitor com as armas e raramente descrevem sua estrutura em detalhe (Mattingly, 1996: 1074, The HarperCollins Bible Dictionary, ed. HarperSanFrancisco; Hoffmeier, 1988: 1036–1037).

A história material da espada está estreitamente relacionada ao desenvolvimento da metalurgia. Melhorias na produção de cobre, bronze e ferro alteraram progressivamente a forma, o tamanho e a durabilidade das lâminas, sem produzir substituições imediatas ou uniformes entre uma tecnologia e outra. Objetos de ferro são conhecidos em escala limitada muito antes de sua difusão militar no final do segundo milênio a.C.; a data de cerca de 1200 a.C. funciona como referência convencional para a expansão da Idade do Ferro na Síria-Palestina, não como início absoluto do uso desse metal (Hoffmeier, 1988: 4.1036–1037).

Armas do Bronze Médio ao Novo Império egípcio

A. Forma, construção e função

Em sua estrutura elementar, a espada consistia em uma lâmina metálica associada a um punho. Materiais orgânicos como madeira e osso podiam integrar o cabo, enquanto a própria lâmina assumia formas diferentes segundo a função desejada. As lâminas podiam ser retas ou curvas, pontiagudas ou relativamente rombudas e possuir um ou dois gumes (Mattingly, 1996: 1074). Uma arma concebida principalmente para perfurar favorecia uma ponta eficiente e uma lâmina relativamente reta; uma espada destinada sobretudo a cortar podia explorar uma lâmina curva e um movimento de golpe mais amplo.

A distinção entre espada e punhal é mais simples nas classificações modernas do que no vocabulário antigo. Essa dificuldade aparece em Jz 3.16, no qual a arma de Eúde é chamada חֶרֶב (ḥereb) e sua extensão é indicada pela unidade rara גֹּמֶד (gōmed). O valor exato dessa medida é incerto: antigas versões e estudos divergem entre equivalentes próximos de palmo, côvado ou uma medida menor. O contexto requer sobretudo uma arma curta o bastante para ser ocultada sob as vestes; a descrição como espada curta ou grande punhal é, por isso, mais segura do que a atribuição de um comprimento exato.

O relato de Eúde oferece também uma rara indicação sobre o modo de portar a arma. Sendo canhoto, ele a ocultou sob as vestes junto à coxa direita, posição oposta àquela em que um observador poderia esperar encontrar a arma de um combatente destro (Jz 3.16,21). A posição incomum contribui para a lógica narrativa da ocultação e do ataque contra Eglom.

Espadas e punhais eram normalmente protegidos por bainhas, evitando danos à lâmina e ferimentos durante o transporte. O substantivo תַּעַר (taʿar, “bainha, estojo da espada”) ocorre em contextos como 1Sm 17.51 e Jr 47.6 e designa o invólucro no qual a arma era guardada (Hoffmeier, 1988: 4.1037). O ato de desembainhar convertia a arma transportada em instrumento imediatamente disponível para o combate.

  • Leia mais: Armas; Punhal; Bainha; Eúde.

B. Espadas de cobre e bronze

As primeiras fases da evolução da espada acompanharam a capacidade crescente de produzir e moldar metais. Lâminas de cobre são conhecidas desde o terceiro milênio a.C., enquanto ligas de cobre, especialmente o bronze, permitiram fabricar armas mais resistentes. Também há exemplares excepcionalmente antigos de ferro em contextos anteriores à generalização de seu uso militar (Hoffmeier, 1988: 4.1036). A sucessão arqueológica indica predominância tecnológica, não fronteiras rígidas entre os metais.

O bronze, termo aplicado a ligas de cobre — frequentemente com estanho —, tornou-se material fundamental para a produção de armas na Idade do Bronze. A metalurgia permitiu fabricar lâminas de formas e comprimentos variados, entre elas punhais, espadas retas e espadas-falciformes. No Bronze Médio, muitas lâminas ainda eram relativamente curtas; no Bronze Tardio, espadas mais longas tornaram-se progressivamente comuns em várias regiões do antigo Oriente Próximo (Gordon, 1982: 84, New Bible Dictionary, 2. ed., ed. Inter-Varsity Press; Hoffmeier, 1988: 1036–1037).

A chamada espada-falciforme possuía lâmina curva e um único gume, concebida principalmente para golpes de corte ou de talho, e não para a estocada frontal típica de muitas espadas retas. Exemplares desse tipo são atestados na Suméria desde o terceiro milênio a.C.; a forma difundiu-se pelo Crescente Fértil e aparece no Egito e em sítios cananeus durante a Idade do Bronze (Hoffmeier, 1988: 4.1037).

Achados de sítios cananeus confirmam a presença da espada-falciforme no Levante durante a Idade do Bronze. A fórmula bíblica tradicionalmente traduzida como “ferir ao fio da espada” já foi relacionada a esse tipo de arma, particularmente em passagens como Js 10.28,30,32,37. A associação permanece conjectural: a expressão hebraica não identifica, por si só, a forma material da lâmina empregada em cada episódio (Hoffmeier, 1988: 4.1037).

  • Leia mais: Bronze; Metalurgia; Khopesh; Canaã.

C. A expansão das espadas de ferro

O uso crescente do ferro modificou de modo importante a fabricação de armas no final do segundo milênio a.C. A data aproximada de 1200 a.C. para o início da Idade do Ferro na Síria-Palestina é convencional; objetos de ferro e mesmo lâminas mais antigas são conhecidos em escala limitada. O dado historicamente relevante é a expansão progressiva da produção e do emprego militar do metal nos séculos seguintes, e não uma ruptura tecnológica súbita (Hoffmeier, 1988: 4.1036–1037).

A difusão de técnicas mais avançadas de trabalho do ferro, inclusive formas de carburização, contribuiu para produzir lâminas mais duráveis e de maior comprimento. No início da Idade do Ferro, espadas longas, retas, pontiagudas e de dois gumes passaram a ocupar lugar mais importante, coexistindo com tipos anteriores. Exemplares dessa classe podiam alcançar cerca de setenta e cinco centímetros e servir tanto à estocada quanto ao corte (Mattingly, 1996: 1074).

Nesse contexto, destaca-se a presença dos Povos do Mar no Mediterrâneo oriental entre o final do século XIII e o início do XII a.C. Os relevos de Medinet Habu, produzidos no reinado de Ramsés III, representam filisteus e grupos relacionados em combate terrestre portando lanças, escudos redondos e espadas. As imagens confirmam a presença da espada em seu equipamento, mas não permitem identificar automaticamente a arma de Golias em 1Sm 17 com um tipo arqueológico específico.

A situação relatada em 1Sm 13.19–22 indica controle filisteu sobre o acesso israelita a ferreiros e serviços de metalurgia no contexto do início da monarquia. Esse dado não deve ser ampliado para a afirmação de que os filisteus introduziram o ferro na Síria-Palestina ou detiveram monopólio regional absoluto, pois há evidências de uso de ferro entre populações cananeias anteriores à chegada dos Povos do Mar (Hoffmeier, 1988: 4.1037). O quadro mais seguro é o de uma vantagem local e política filisteia sobre a produção e manutenção de ferramentas e armas de ferro em determinadas áreas e períodos.

  • Leia mais: Ferro; Povos do Mar; Filisteus; Golias.

D. A espada no mundo greco-romano

O armamento grego preservou a diversidade entre espadas curtas e outras formas de lâmina destinadas a diferentes técnicas de combate. Em muitos exércitos, a espada funcionava como arma de proximidade ao lado de lanças e outras armas ofensivas. As fontes bíblicas não fornecem informação suficiente para identificar automaticamente cada ocorrência de μάχαιρα (machaira) com uma tipologia grega específica; classificações arqueológicas particulares exigem evidência independente.

A situação romana é especialmente relevante para o mundo do NT. Entre as espadas militares romanas encontrava-se o gladius, arma de combate próximo caracterizada por lâmina relativamente curta. Exemplares e tipologias variam, mas uma descrição de referência para o período neotestamentário situa sua lâmina em torno de sessenta centímetros, adequada tanto à estocada quanto ao corte (Mattingly, 1996: 1074).

A presença militar romana na Judeia e em outras regiões mencionadas no NT tornava a espada um objeto reconhecível na experiência cotidiana. O vocabulário grego, contudo, não corresponde rigidamente às classificações latinas de armamento. μάχαιρα (machaira) pode referir-se a uma arma relativamente menor, enquanto ῥομφαία (rhomphaia) é associada com maior frequência a uma espada grande ou larga; essa diferença é relativa e não constitui equivalência técnica invariável com tipos romanos específicos (Gordon, 1982: 84). (cf. §§ III.AB; § IV)

  • Leia mais: Exército romano; Gladius; Judeia romana; Armamento greco-romano.

III. A espada no AT

No AT, a espada aparece antes de tudo como arma real de guerra, homicídio e execução. A frequência de חֶרֶב (ḥereb) acompanha uma sociedade na qual conflitos entre cidades, tribos, reinos e impérios faziam da violência armada uma experiência recorrente. Essa familiaridade favoreceu usos metonímicos nos quais “espada” designa não apenas o objeto empunhado pelo combatente, mas também combate, derrota militar ou morte violenta; a recorrência da arma nas narrativas de batalha contribuiu para sua consolidação como imagem da guerra (Ryken; Wilhoit; Longman III (eds.), 1998: 834–835, Dictionary of Biblical Imagery, ed. IVP Academic).

A. Guerra e combate

O uso mais elementar de חֶרֶב (ḥereb) encontra-se nas narrativas militares. A espada integra o equipamento do guerreiro juntamente com lança, arco, escudo e outras armas, com função especialmente relevante no combate próximo. As formas antigas podiam servir tanto à perfuração quanto, conforme o tipo de lâmina, ao golpe cortante (Gordon, 1982: 84).

O confronto entre Davi e Golias ilustra o uso da espada em combate. Depois de derrubar o filisteu com a funda, Davi toma a espada do adversário, desembainha-a, mata Golias e o decapita (1Sm 17.51). A funda decide o confronto à distância, enquanto a espada consuma a morte em proximidade. Golias também portava lança e dardo, de modo que a espada integrava um conjunto mais amplo de armas.

Em outros episódios, a espada constitui a própria arma principal. Eúde fabrica uma חֶרֶב (ḥereb) de dois gumes, prende-a sob as vestes e a utiliza para matar Eglom, rei de Moabe (Jz 3.16–22). Um dos valentes de Davi, Eleazar, luta contra os filisteus até que sua mão fica aderida à espada pelo esforço prolongado (2Sm 23.9–10). A narrativa utiliza aqui a arma quase como extensão do corpo do combatente: o guerreiro continua golpeando até que a fadiga torna difícil separar a mão do punho.

Também são frequentes as ações descritas pelo verbo “desembainhar”. Sacar a espada transforma a arma transportada em instrumento imediatamente disponível para a violência. Davi, indignado com Nabal, ordena que cada homem prenda sua espada ao corpo, e cerca de quatrocentos homens o acompanham armados (1Sm 25.13). A preparação da arma já comunica mobilização e intenção de ataque antes de qualquer golpe.

O emprego coletivo aparece quando uma cidade ou população é atacada. A expressão traduzida como “ferir ao fio da espada” ocorre repetidamente nas narrativas de conquista e guerra (Js 6.21; 8.24; 10.28,30,32). O hebraico emprega פִּי־חֶרֶב (pî-ḥereb, “boca/fio da espada”), construção em que פֶּה (peh, “boca”) designa o gume da arma (Mounce, 2006: 458). O elemento físico da lâmina integra, nesse uso, uma fórmula idiomática para a destruição dos vencidos.

  • Leia mais: Guerra no Antigo Testamento; Davi e Golias; Eúde; Armas.

B. Morte e execução

Embora intimamente associada ao campo de batalha, a espada também aparece como instrumento de morte fora do combate convencional. O episódio de Saul oferece um exemplo particularmente claro. Gravemente ferido durante a batalha contra os filisteus, ele pede ao escudeiro que saque a espada e o atravesse, temendo cair vivo nas mãos dos inimigos. Diante da recusa, Saul toma sua própria espada e se lança sobre ela (1Sm 31.3–5). A arma do guerreiro torna-se instrumento de sua própria morte, e o escudeiro posteriormente imita o ato do rei. A amplitude desse uso ajuda a explicar por que חֶרֶב (ḥereb) pode designar “morte violenta” mesmo quando o tipo concreto de ataque deixa de ser o centro da narrativa.

O termo חֶרֶב (ḥereb) podia servir tanto para cortar quanto para perfurar: Davi utiliza uma espada para decapitar Golias, ao passo que Saul pretende ser atravessado pela própria arma (Mounce, 2006: 700). Essa variedade de ações confirma que o termo hebraico não deve ser ligado exclusivamente a um único movimento de combate.

A espada aparece igualmente em homicídios políticos e pessoais. Joabe mata Amasa depois que a espada que trazia cai de maneira aparentemente casual de sua bainha; em seguida, utiliza a arma para feri-lo mortalmente (2Sm 20.8–10). Saul ordena a execução dos sacerdotes de Nobe, e Doegue, o edomita, mata oitenta e cinco homens que vestiam o éfode de linho; a própria cidade é posteriormente “ferida ao fio da espada” (1Sm 22.18–19). O episódio une execução política e massacre coletivo sob o mesmo vocabulário militar.

A possibilidade de execução por espada aparece até mesmo na célebre sentença de Salomão sobre as duas mulheres que reivindicavam a mesma criança. O rei manda trazer uma חֶרֶב (ḥereb) e ordena, deliberadamente, que o menino seja dividido em duas partes (1Rs 3.24–25). O objetivo narrativo não é realizar a execução, mas revelar a verdadeira mãe pela reação à ameaça. Ainda assim, a eficácia da estratégia depende de a espada ser reconhecida imediatamente como instrumento plausível de morte por autoridade real.

  • Leia mais: Homicídio; Saul; Doegue.

C. “Cair” ou “perecer à espada”

Da experiência concreta da guerra surge uma das utilizações mais características do vocabulário veterotestamentário: “cair”, “morrer” ou “perecer à espada”. Nessas construções, o objeto deixa de ser o foco principal. A expressão não precisa indicar como cada vítima individual foi morta; “espada” resume a realidade mais ampla da morte causada por guerra, invasão ou violência armada.

A fórmula equivalente a “cair pela espada” aparece dezenas de vezes no AT. “Cair pela espada” tornou-se linguagem convencional para derrota, enquanto “passar uma cidade à espada” podia resumir a própria ação militar contra ela (Ryken; Wilhoit; Longman III (eds.), 1998: 834). A arma concreta funciona, nesses contextos, como metonímia da guerra e de seus resultados.

A fórmula torna-se especialmente frequente nos profetas. Jeremias descreve populações que morrerão “à espada, à fome e à peste” (Jr 14.12; 21.7,9; 24.10). A espada integra uma tríade de calamidades associadas a cerco e guerra: violência militar, escassez alimentar e doença. A expressão pode abranger a mortalidade produzida pela ação armada sem especificar o modo físico da morte de cada vítima.

O valor metonímico aparece também em pedidos de proteção contra “a espada”. No Sl 22.20, o suplicante pede que sua vida seja libertada da espada. Nesses contextos, חֶרֶב (ḥereb) pode representar violência e opressão, de modo que ser livrado da espada equivale a ser preservado da ação destrutiva do inimigo (Mounce, 2006: 700).

A expressão pode adquirir também valor coletivo e histórico. Quando os profetas anunciam que um povo “cairá à espada”, o interesse principal está no colapso militar e na mortalidade provocada pela derrota, não na classificação das armas utilizadas. É justamente essa capacidade de condensar toda uma situação de violência numa única imagem que fará da espada um dos símbolos mais produtivos da linguagem profética. (cf. § IV.B)

  • Leia mais: Guerra; Cerco; Violência; Profetas.

D. A espada e o poder político

No mundo do AT, a posse e o emprego da espada estavam intimamente relacionados ao poder político. Reis mantinham exércitos, organizavam campanhas, determinavam punições e podiam mobilizar a violência contra inimigos externos ou adversários internos. A espada, nesse contexto, não era somente uma arma individual, mas parte dos meios pelos quais autoridades exerciam poder sobre pessoas e territórios.

A narrativa de Saul e dos sacerdotes de Nobe demonstra de maneira dramática essa conexão. Convencido de que os sacerdotes haviam auxiliado Davi, Saul ordena aos guardas que os matem. Quando estes se recusam, Doegue executa a ordem e posteriormente Nobe é passada “ao fio da espada” (1Sm 22.16–19). A arma funciona aqui como instrumento da violência régia, mostrando como o poder militar do rei podia ser direcionado não apenas contra exércitos estrangeiros, mas contra seus próprios súditos.

O reinado de Davi apresenta uma formulação particularmente significativa. Depois do episódio com Bate-Seba e da morte de Urias, Natã anuncia que a espada jamais se afastará da casa de Davi (2Sm 12.10). A sequência narrativa associa essa sentença à morte de Amnom, à rebelião de Absalão e a conflitos posteriores pela sucessão. Nesse contexto, “espada” representa violência política e dinástica persistente.

Em 1Rs 19.15–17, a linguagem da espada é vinculada às mudanças de poder envolvendo Hazael, Jeú e Eliseu: quem escapar da espada de Hazael será morto por Jeú, e quem escapar da espada de Jeú será alcançado por Eliseu. A formulação reúne poder militar, transformação política e execução do juízo num mesmo campo semântico. Hazael e Jeú representam forças políticas concretas cuja ascensão produzirá violentas mudanças na história de Israel e de seus vizinhos.

A relação entre espada e império alcança particular intensidade na literatura profética. Babilônia pode aparecer como força cuja ação militar devasta Judá, e a espada do conquistador torna-se instrumento de domínio sobre povos submetidos. Ao mesmo tempo, os profetas interpretam teologicamente essa realidade: a capacidade política do império não é considerada independente da soberania de Deus. Essa dimensão será desenvolvida especialmente no uso da “espada de Yahweh”, em que uma arma histórica e humana passa a funcionar como imagem do julgamento divino. (cf. §§ IV.AD; § V.C)

  • Leia mais: Monarquia israelita; Poder político; Jeú; Hazael; Império babilônico.

IV. A espada como imagem no AT

A força simbólica da espada no AT nasce de sua realidade concreta. Por ser uma das armas mais associadas à guerra e à morte, חֶרֶב (ḥereb) podia designar muito mais que uma lâmina empunhada por um combatente. A análise lexical distingue usos literais, metonímicos e propriamente metafóricos e observa que as fronteiras entre os dois primeiros nem sempre são evidentes (Kaiser, 1986: 5.163–165, Theological Dictionary of the Old Testament, ed. Eerdmans). Quando “espada” significa guerra, invasão ou morte violenta, geralmente ocorre metonímia, na qual a arma representa a realidade maior da qual participa.

A. A espada do juízo divino

Uma das imagens teologicamente mais importantes é a “espada de Yahweh”. O AT pode retratar Deus não apenas permitindo uma guerra, mas empunhando figurativamente a própria espada contra indivíduos, Israel ou outras nações. A linguagem da arma de Yahweh se associa de maneira explícita à ideia de espada do juízo em textos como Dt 32.41–42; Is 34.5–6; Jr 12.12; 47.6–7 e Ez 21 (Kaiser, 1986: 5.161–163).

Em Dt 32.41, Yahweh declara que afiará sua espada reluzente e tomará em mãos o juízo. A proximidade entre espada e julgamento é explícita: a imagem militar exprime a decisão divina de responder aos adversários. A representação utiliza a capacidade da espada de ferir e matar para comunicar a eficácia da sentença divina.

A imagem alcança extraordinária intensidade em Ez 21, texto ligado à tradição da “espada do julgamento” (Kaiser, 1986: 5.161–162). A espada é afiada, polida e preparada para a matança; o profeta é chamado a gemer e bater as mãos, enquanto a arma parece adquirir quase vida própria. A personificação intensifica literariamente a ameaça do juízo.

A dimensão figurativa não elimina a referência histórica, pois o juízo se concretiza através da guerra. A espada divina e a invasão humana pertencem a dois níveis interpretativos do mesmo acontecimento: politicamente, há exércitos e conquista; teologicamente, Ezequiel interpreta a catástrofe como julgamento de Yahweh.

A linguagem profética pode articular ação divina e agente humano sem identificá-los. Um império empunha a espada em sentido literal e pode, no mesmo texto, funcionar como instrumento do julgamento divino. Essa leitura teológica do acontecimento não converte automaticamente a guerra humana em ação moralmente aprovada; a potência utilizada como agente pode posteriormente tornar-se objeto de juízo.

Em Is 34.5–6, a espada de Yahweh aparece associada ao julgamento de Edom; em Jr 46.10, o “dia de vingança” situa a espada no cenário da retribuição divina. Nesses textos, espada, matança e imagens sacrificiais pertencem ao mesmo campo retórico (Kaiser, 1986: 5.161–162). A analogia com o sacrifício intensifica a representação profética do julgamento e não equivale ao culto regular de Israel.

A imagem adquire dimensão escatológica em Is 27.1, onde Yahweh pune Leviatã com uma espada descrita como grande e forte. O texto reutiliza imagens antigas de combate contra o monstro do caos e as aplica à vitória de Yahweh sobre poderes hostis (Kaiser, 1986: 5.161). A espada representa, nesse contexto, a vitória soberana sobre forças de oposição e desordem. (cf. § V.F)

  • Leia mais: Juízo divino; Espada de Yahweh; Dia de Yahweh; Leviatã.

B. Espada, fome e peste

Uma das fórmulas mais características da literatura profética combina espada, fome e peste. Essa construção é descrita como uma “tríade das aflições” e ocorre especialmente em materiais deuteronomísticos de Jeremias, em desenvolvimentos de Ezequiel e em Crônicas (Kaiser, 1986: 5.164–165). Na sequência básica, a espada representa o desastre militar vindo de fora; a fome e a peste descrevem consequências que se multiplicam sobretudo em condições de cerco prolongado.

A sequência “espada, fome e peste” corresponde à dinâmica histórica de uma guerra de cerco. A invasão e o cerco interrompem agricultura, abastecimento e comércio; a escassez alimentar e a deterioração das condições sanitárias aumentam a mortalidade. Em Jr 14.12; 21.9; 24.10, חֶרֶב (ḥereb, “espada”), רָעָב (rāʿāb, “fome”) e דֶּבֶר (deber, “peste”) condensam esse conjunto de calamidades.

Na sequência primária da tríade, a espada aparece primeiro porque representa o ataque externo que desencadeia as demais calamidades (Kaiser, 1986: 5.164). Em Ez 14.21, a construção é ampliada para quatro julgamentos mediante a inclusão dos animais selvagens. Essa expansão confirma que a lista funciona como linguagem convencional para diferentes formas de destruição que ameaçam uma sociedade quando a ordem política e material é rompida.

Na tríade profética, “espada” não descreve necessariamente o modo físico pelo qual cada indivíduo morre. חֶרֶב (ḥereb) pode representar guerra e invasão armada e assumir valor metonímico inclusive em contraste com שָׁלוֹם (šālôm, “paz”) (Kaiser, 1986: 5.163). A arma individual passa a designar uma condição coletiva de guerra.

  • Leia mais: Fome; Peste; Cerco; Jeremias; Ezequiel.

C. Palavras como espada

Embora “espada” desenvolva numerosos usos metonímicos, seu emprego metafórico propriamente dito é relativamente restrito no AT (Kaiser, 1986: 5.164–165). A principal concentração encontra-se na literatura sapiencial e poética, sobretudo quando o poder destrutivo da lâmina é transferido para a fala humana. A relação já não é simplesmente “espada = guerra”; palavras, lábios, língua ou dentes são comparados à arma porque podem ferir alguém de maneira análoga a um golpe físico.

Pv 12.18 apresenta um exemplo transparente: palavras precipitadas são comparadas a estocadas de espada, enquanto a língua dos sábios é associada à cura. A antítese transfere para a fala duas funções opostas, ferir e restaurar. Em Pv 25.18, o falso testemunho contra o próximo é comparado sucessivamente a malho, espada e flecha aguda. A passagem constitui um dos exemplos mais claros de emprego metafórico de חֶרֶב (ḥereb) (Kaiser, 1986: 5.165). A sucessão das três armas intensifica o retrato da mentira judicial como agressão capaz de esmagar, cortar e perfurar a vida de outra pessoa.

Nos Salmos, violência e linguagem também são aproximadas. Sl 59.7 descreve os lábios dos inimigos por meio da imagem de espadas; Sl 64.3 compara a língua afiada à espada e palavras amargas a flechas. O paralelismo transforma a hostilidade verbal em cena poética de combate.

Pv 30.14 desloca ainda mais a imagem ao descrever uma geração cujos dentes são espadas e cujas mandíbulas são facas, destinadas a devorar os pobres e necessitados. A metáfora combina violência com voracidade: o oprimido não é apenas ferido, mas consumido. A passagem pertence ao conjunto sapiencial em que características físicas da espada são transferidas para ações sociais destrutivas (Kaiser, 1986: 5.165).

A imagética da espada ultrapassa o campo militar quando propriedades da lâmina são transferidas para a fala. Calúnia, falso testemunho e opressão podem ser descritos como formas de agressão porque suas consequências são comparadas ao corte, à perfuração e à destruição produzidos por uma arma. (cf. §§ V.DE)

  • Leia mais: Palavra; Língua; Metáfora bíblica; Literatura sapiencial.

D. A espada, a paz e a vulnerabilidade humana

A espada também se torna imagem poderosa da fragilidade da vida diante da violência. Orações por libertação frequentemente não pedem proteção contra uma arma abstrata, mas contra aquilo que ela representa: inimigos capazes de matar. No Sl 22.20, o suplicante pede que sua vida seja libertada da espada; no Sl 144.10–11, o rei pede resgate diante de inimigos estrangeiros. Em tais contextos, a espada concentra numa única imagem a ameaça de morte que cerca o indivíduo.

A expressão “sobreviventes da espada” ocorre em Jr 44.28 e Ez 6.8 e define pessoas pela catástrofe da qual escaparam (Kaiser, 1986: 5.159–160). Em Ez 38.8, a terra é descrita como restaurada da guerra; a formulação hebraica subjacente conserva חֶרֶב (ḥereb), de modo que a tradução explicita o valor metonímico da espada como guerra.

A espada pode representar uma condição prolongada de insegurança coletiva, não apenas o instante da morte. Povos fogem dela, sobreviventes são definidos por terem escapado dela e terras permanecem marcadas por seus efeitos. Is 21.15 descreve fugitivos diante da “espada desembainhada”, enquanto Jr 6.25 associa o inimigo ao terror difundido pelo território.

O contraponto teológico é a confiança em Deus e não na arma. O Sl 44 nega que a conquista e a preservação de Israel dependam de sua própria força militar; o salmista declara que não confia em seu arco e que sua espada não pode salvá-lo (Sl 44.6; Kaiser, 1986: 159–160). A formulação não nega o uso histórico de armas, mas recusa fazer do poder militar a explicação última da vitória.

As profecias de paz exploram o movimento inverso. Se a espada representa guerra, sua eliminação representa o desaparecimento da violência militar. Os 2.18 anuncia o fim do “arco, da espada e da guerra”; Is 2.4 e Mq 4.3 descrevem espadas transformadas em instrumentos agrícolas. Esses textos associam o futuro esperado à interrupção do uso militar das armas (Kaiser, 1986: 5.160).

A transformação das espadas em relhas de arado não descreve apenas a destruição das armas. O metal permanece, mas sua finalidade muda: aquilo que servia à morte passa a servir à produção de alimento. A imagem tornou-se uma das formulações mais conhecidas da passagem da guerra para a paz, ao lado da promessa de Os 2.18 de eliminar arco, espada e guerra (Ryken; Wilhoit; Longman III (eds.), 1998: 834–835).

As promessas de julgamento e libertação empregam a imagem em direções opostas. A retirada da proteção divina deixa a comunidade exposta à espada; a preservação permite que sobreviventes escapem e sociedades devastadas sejam restauradas. O contraste reúne vulnerabilidade diante da violência e esperança de preservação. (cf. §§ V.DF)

  • Leia mais: Paz; Shalom; Escatologia; Espadas em relhas de arado.

V. A espada no NT

No NT, a linguagem da espada conserva tanto o sentido concreto de arma quanto a capacidade metafórica e metonímica herdada da tradição bíblica e judaica. O termo predominante é μάχαιρα (machaira, “espada, espada curta, punhal”), com 29 ocorrências; ῥομφαία (rhomphaia, “espada grande ou larga”) aparece sete vezes, seis delas no Apocalipse. Dois empregos especialmente importantes de μάχαιρα como imagem da palavra de Deus encontram-se em Ef 6.17 e Hb 4.12 (Beetham, 2021: 557, The Concise New International Dictionary of New Testament Theology and Exegesis, ed. Zondervan Academic). Os contextos neotestamentários abrangem prisão, execução, guerra, autoridade governamental, divisão, sofrimento, combate espiritual e juízo divino.

A distribuição dos termos também revela uma diferença significativa entre os gêneros neotestamentários. Nos Evangelhos, a espada aparece sobretudo em contextos narrativos relacionados à prisão de Jesus; nas cartas, pode representar morte, autoridade estatal ou a eficácia da palavra divina; no Apocalipse, torna-se parte de uma linguagem visionária de guerra e julgamento. Por isso, como ocorre no AT, não há um único “significado bíblico da espada”. O valor da imagem depende da construção literária em que a arma aparece.

Da μάχαιρα (machaira) à ῥομφαία (rhomphaia): usos literais e figurativos da espada no NT

A. Espadas nas narrativas dos Evangelhos

A maior concentração de μάχαιρα (machaira) nos Evangelhos encontra-se nos relatos da prisão de Jesus: com exceção de Mt 10.34 e Lc 21.24, todas as ocorrências do termo nos Evangelhos pertencem a esse conjunto narrativo (Beetham, 2021: 557). A multidão que chega para prender Jesus vem equipada “com espadas e porretes” (Mt 26.47; Mc 14.43), e o próprio Jesus chama atenção para o contraste entre aquela demonstração de força e sua atividade pública anterior no templo (Mt 26.55; Mc 14.48; Lc 22.52).

A presença das armas adquire particular relevância quando um dos seguidores de Jesus reage violentamente. Os Sinóticos narram que alguém desembainha a espada e fere o servo do sumo sacerdote; João identifica o agressor como Pedro e o servo como Malco (Jo 18.10). O vocabulário é concreto: Pedro possui uma μάχαιρα, saca-a e a utiliza para ferir. A expressão ἑλκύειν μάχαιραν (helkyein machairan, “sacar a espada”) pertence ao vocabulário empregado no contexto da prisão.

As quatro narrativas convergem em impedir que a violência armada se torne o meio pelo qual Jesus evita sua prisão. Em Lucas, os discípulos perguntam se devem golpear com a espada; um deles fere o servo do sumo sacerdote, Jesus interrompe a ação e cura a orelha ferida (Lc 22.49–51).

João registra a ordem para que Pedro recoloque a espada na bainha e associa a entrega de Jesus ao cálice recebido do Pai (Jo 18.11). Mateus acrescenta a advertência sobre morrer pela espada e a possibilidade de auxílio por mais de doze legiões de anjos (Mt 26.52–54). No contexto imediato, a resistência armada destinada a impedir a prisão é rejeitada.

Outra ocorrência literal aparece no discurso sobre a queda de Jerusalém. Em Lc 21.24, pessoas “cairão ao fio da espada”; στόμα (stoma, “boca”) assume aqui o valor de “fio” ou “gume”, em continuidade com a expressão hebraica “boca da espada” e com seu uso na LXX (Mounce, 2006: 458). A espada representa, nesse contexto, morte produzida pela guerra e pela conquista.

Há ainda uma ocorrência singular de ῥομφαία (rhomphaia) fora do Apocalipse. Em Lc 2.35, Simeão anuncia que uma espada atravessará a própria alma de Maria. O termo não descreve ferimento físico, mas funciona como metáfora de sofrimento profundo, transferindo para a experiência interior a capacidade penetrante e dolorosa de uma grande lâmina.

  • Leia mais: Prisão de Jesus; Pedro; Malco; Paixão de Cristo.

B. Jesus e a espada

As declarações de Jesus relacionadas à espada pertencem a contextos distintos e não constituem, por si mesmas, uma formulação única sobre violência ou armamento. Mt 10.34, Lc 22.35–38 e as palavras pronunciadas durante a prisão empregam a imagem com funções determinadas pelo desenvolvimento imediato de cada narrativa.

1. “Não vim trazer paz, mas espada” — Mt 10.34

Em Mt 10.34, Jesus declara: “não vim trazer paz, mas espada”. O contexto seguinte esclarece imediatamente a imagem: filho contra pai, filha contra mãe, nora contra sogra e inimigos dentro da própria casa (Mt 10.35–36). O paralelo de Lucas substitui “espada” por διαμερισμός (diamerismos, “divisão”) e descreve igualmente uma família dividida (Lc 12.51–53).

O desenvolvimento comum de Mateus e Lucas adapta Mq 7.6 e situa a consequência da missão de Jesus dentro das relações familiares, não numa convocação para guerra nacional (Black, 1984: 287–289, Jesus and the Politics of His Day, ed. Cambridge University Press). No plano literário dos Evangelhos, a μάχαιρα (machaira) representa a ruptura de lealdades produzida pela resposta à pessoa e à mensagem de Jesus.

A metáfora preserva a dureza do objeto escolhido. “Divisão” explicita a função da imagem, enquanto “espada” comunica a severidade e o custo do conflito. O caráter figurativo não elimina suas associações com violência (Black, 1984: 289–290). A declaração não constitui ordem para o uso de armas; descreve a possibilidade de que a missão de Jesus produza rupturas até nos vínculos familiares mais próximos.

  • Leia mais: Jesus e o conflito; Discipulado; Família no Novo Testamento; Miqueias 7.6.

2. “Compre uma espada” — Lc 22.35–38

Lc 22.35–38 constitui uma das passagens mais discutidas do vocabulário neotestamentário da espada. Jesus recorda o envio anterior dos discípulos sem bolsa, alforje ou sandálias e anuncia uma mudança de circunstâncias: bolsa e alforje devem agora ser levados, e aquele que não possui espada é instruído a vender a capa e comprar uma (Lc 22.35–36). A explicação seguinte cita Is 53.12 e declara que a passagem segundo a qual ele foi contado entre os sem lei deve cumprir-se em Jesus (Lc 22.37). Diante da informação de que há duas espadas, Jesus responde ἱκανόν ἐστιν (hikanon estin, “é suficiente”, “basta”) (Lc 22.38).

A passagem recebeu interpretações distintas ao longo da história. A leitura segundo a qual Jesus estaria armando um grupo revolucionário encontra dificuldades no próprio contexto lucano, que relaciona as palavras à mudança das circunstâncias enfrentadas pelos discípulos, ao cumprimento de Is 53.12 e, poucos versículos depois, ao emprego efetivo de uma espada durante a prisão (Lampe, 1984: 335–350, cf. Jesus e a Política de seu Tempo).

A leitura de Lc 22.35–38 como preparação para resistência militar encontra uma dificuldade narrativa imediata: duas espadas não constituiriam armamento significativo para o grupo, e Jesus interrompe o único ataque realizado com elas pouco depois (Lc 22.49–51; Lampe, 1984: 335–350). A expressão “é suficiente” admite interpretações como ironia ou encerramento daquela linha de compreensão dos discípulos; a ordem anterior também pode sinalizar a gravidade da situação que se aproxima e a condição de Jesus como alguém tratado entre transgressores.

A exegese da passagem permanece discutida, inclusive quanto à possibilidade de referência a perigos reais ou autoproteção. O conjunto narrativo, porém, não sustenta a transformação das duas espadas em programa de insurreição armada. Na cena seguinte, o emprego efetivo da espada para impedir a prisão de Jesus é interrompido pelo próprio Jesus.

  • Leia mais: Jesus e a política de seu tempo; Zelotas; Violência e não violência; Isaías 53.

3. “Todos os que tomam a espada perecerão pela espada” — Mt 26.52

Em Mt 26.52, depois do golpe contra o servo do sumo sacerdote, Jesus ordena que a espada seja recolocada em seu lugar e declara que os que tomam a espada morrerão pela espada. O enunciado assume forma proverbial e associa o recurso à violência armada ao risco de ser destruído pelo mesmo mecanismo. O contexto acrescenta uma razão cristológica: Jesus afirma que poderia pedir auxílio ao Pai e receber mais de doze legiões de anjos, mas isso impediria o cumprimento das Escrituras (Mt 26.53–54). A recusa da espada não decorre de incapacidade de resistir; integra o modo pelo qual sua missão alcança a paixão. Jo 18.11 expressa a mesma orientação pela imagem do “cálice” recebido do Pai.

Jo 18.36 reforça esse aspecto. Diante de Pilatos, Jesus afirma que seu reino não pertence a este mundo e acrescenta que, se pertencesse, seus seguidores estariam combatendo para impedir sua entrega. O argumento contrasta a origem e os meios de seu reino com os mecanismos pelos quais poderes políticos ordinariamente se preservavam.

  • Leia mais: Jesus e a violência; Reino de Deus; Paixão de Cristo; Pedro.

C. A espada e a autoridade civil em Rm 13.4

Em Rm 13.4, Paulo emprega uma expressão característica: a autoridade “não porta a espada em vão” — τὴν μάχαιραν φορεῖ (tēn machairan phorei). Aqui a espada não descreve simplesmente uma arma que determinado funcionário eventualmente carregava; representa a capacidade coercitiva e punitiva da autoridade política. O verso continua chamando a autoridade de “servo de Deus” e “vingador para ira contra aquele que pratica o mal”.

O alcance exato da expressão é discutido. Uma interpretação tradicional relaciona a espada ao poder de aplicar a pena capital, enquanto documentação papirológica permite associar “portadores da espada” também a agentes policiais empregados em tarefas coercitivas (Plümacher, 1991: 2.398, Exegetical Dictionary of the New Testament, ed. Eerdmans). A expressão pode, por isso, referir-se de maneira mais ampla ao poder penal e policial do Estado, sem excluir que a pena de morte estivesse incluída entre suas possibilidades.

O verbo φορέω (phoreō, “portar, carregar habitualmente”) permite relacionar Rm 13.4 à autoridade romana em matéria de punição e atividade policial; documentação antiga apresenta paralelos para μαχαιροφόροι (machairophoroi, “portadores de espada”) em funções dessa natureza (Plümacher, 1991: 2.398). O frequente vínculo neotestamentário entre espada e morte violenta favorece também a inclusão da pena capital no horizonte da passagem, embora as duas leituras permaneçam discutidas (Kruse, 2012: 537–538, Paul’s Letter to the Romans, ed. Eerdmans).

Rm 13.4 descreve a autoridade em sua função de punir “o que pratica o mal” e promover o bem. A passagem não declara que todo ato de qualquer governo constitua, por definição, expressão da justiça divina. A “espada” funciona como imagem concentrada do poder coercitivo atribuído à autoridade pública, sem oferecer uma descrição completa da relação entre cristianismo e Estado. (cf. § III.D)

  • Leia mais: Estado; Autoridade civil; Pena capital; Roma.

D. A “espada do Espírito” em Ef 6.17

Na descrição da “armadura de Deus”, a “espada do Espírito” é identificada com “a palavra de Deus”: τὴν μάχαιραν τοῦ πνεύματος, ὅ ἐστιν ῥῆμα θεοῦ (tēn machairan tou pneumatos, ho estin rhēma theou). A identificação fornecida pelo próprio texto situa a imagem no âmbito do combate espiritual, já definido como luta “não contra sangue e carne”, mas contra poderes espirituais hostis (Ef 6.12,17).

A imagem integra a representação mais ampla da armadura divina, formada por linguagem militar com antecedentes veterotestamentários, especialmente em Isaías. Entre os elementos de Ef 6.10–17, a espada recebe identificação explícita com a palavra de Deus. O emprego de μάχαιρα (machaira) evoca uma arma de proximidade, mas a função da imagem é determinada por ῥῆμα θεοῦ (rhēma theou, “palavra de Deus”), não pelas dimensões físicas da lâmina.

O genitivo τοῦ πνεύματος (tou pneumatos, “do Espírito”) pode ser entendido principalmente em termos de origem, como referência à espada fornecida pelo Espírito (Thielman, 2010: 429, Ephesians, ed. Baker Academic). A “palavra de Deus” aparece, nesse contexto, como meio de resistência aos ataques que ameaçam a fidelidade da comunidade. O movimento de Ef 6.10–17 é predominantemente defensivo, orientado para permanecer firme diante das forças do mal.

Ef 6.17 e Hb 4.12 aproximam “palavra” e “espada”, mas atribuem funções distintas à imagem. Em Ef, a palavra é dada à comunidade no contexto da resistência espiritual; em Hb, a comparação enfatiza a capacidade da palavra divina de penetrar, discernir e julgar aqueles a quem é dirigida. (cf. § V.E)

  • Leia mais: Armadura de Deus; Espírito Santo; Palavra de Deus; Guerra espiritual.

E. A palavra de Deus e a espada em Hb 4.12

Hb 4.12 associa a palavra de Deus a uma μάχαιρα δίστομος (machaira distomos, “espada de dois gumes”), descrita como instrumento de grande capacidade de corte. O adjetivo δίστομος (distomos) significa literalmente “de duas bocas” e pode designar uma lâmina afiada dos dois lados; o qualificativo reforça a capacidade penetrante da imagem (Plümacher, 1991: 2.397–398).

O contexto de Hb 3–4 desenvolve a advertência do Sl 95 contra incredulidade e desobediência e a relaciona à entrada no descanso de Deus. Em Hb 4.12, a palavra divina não aparece primariamente como arma entregue ao fiel contra um inimigo externo, mas como realidade que alcança o ser humano e expõe o que nele permanece oculto. Seu caráter discriminador e judicial é expresso pelos verbos e imagens de penetração, separação e exposição (Plümacher, 1991: 2.397–398).

As expressões “alma e espírito”, “juntas e medulas” e “pensamentos e intenções do coração” acumulam imagens de profundidade. A comparação não exige uma descrição anatômica nem demonstra, por si mesma, que alma e espírito sejam componentes fisicamente separáveis. A ênfase recai sobre a capacidade da palavra divina de alcançar aquilo que permanece oculto à avaliação humana, em continuidade com Hb 4.13.

A associação entre palavra e espada possui paralelos bíblicos, judaicos e helenísticos, além de vínculos com a tradição apocalíptica da espada de julgamento (Plümacher, 1991: 2.397–398). Em Hb, a formulação adquire função própria: a palavra que anuncia o descanso também discerne a resposta de seus ouvintes diante da fé e da desobediência. (cf. § V.D)

  • Leia mais: Palavra de Deus; Hebreus; Discernimento; Antropologia bíblica.

F. A espada no Apocalipse

O Apocalipse constitui o principal ambiente neotestamentário de ῥομφαία (rhomphaia). O substantivo ocorre seis vezes no livro e aparece especialmente associado ao Cristo exaltado e às cenas de juízo. A palavra, historicamente relacionada a uma espada grande ou larga, podia funcionar no grego bíblico de modo mais amplo como “espada”; no Apocalipse, sua relevância depende sobretudo da configuração visionária em que aparece (Balz; Schneider, eds., 1993: 3.213).

O antecedente profético esclarece a função da imagem. Em Is 49.2, a boca do servo é comparada a uma espada afiada; em Is 11.4, o governante messiânico executa julgamento mediante aquilo que procede de sua boca. A combinação desses motivos em Ap 1.16 contribui para apresentar o Cristo exaltado como juiz escatológico: sua autoridade não é figurada por uma espada empunhada na mão, mas por uma arma que procede de sua boca e, por isso, representa a eficácia judicial de sua palavra (Beale, 1999: 212, The Book of Revelation, ed. Eerdmans).

A mensagem a Pérgamo desenvolve a mesma imagem. Cristo se identifica como aquele que possui “a espada afiada de dois gumes” e ameaça combater com “a espada da minha boca” contra os que não se arrependem (Ap 2.12,16). A metáfora adquire aqui uma dimensão judicial particularmente significativa. No contexto provincial romano, a espada podia simbolizar a autoridade dos magistrados para julgar e executar sentenças; o Apocalipse transfere a autoridade decisiva para Cristo, cuja palavra pronuncia o julgamento sobre a própria comunidade. Koester relaciona explicitamente a espada da boca tanto à palavra de Cristo quanto ao poder judicial, contrastando sua autoridade com o poder exercido pelos representantes de Roma (Koester, 2014: 286, Revelation, ed. Yale University Press). (cf. § VI; § IV.A)

Cristo exaltado: olhos como fogo, rosto resplandecente e espada que procede da boca — Ap 1.14–16

  • Leia mais: Apocalipse; Cristo exaltado; Pérgamo; Juízo escatológico; Simbolismo apocalíptico.

VI. Passagens bíblicas especialmente relevantes

As ocorrências abaixo reúnem usos representativos de חֶרֶב (ḥereb), μάχαιρα (machaira) e ῥομφαία (rhomphaia) como arma concreta e como designação ou imagem de guerra, morte, juízo, sofrimento, divisão, autoridade e palavra divina. A seleção não constitui concordância exaustiva.

TextoTermo originalUsoSignificado no contexto
Gn 3.24חֶרֶב (ḥereb)SimbólicoA espada flamejante que guarda o caminho da árvore da vida representa a inacessibilidade do espaço do qual o ser humano foi expulso.
Jz 3.16חֶרֶב (ḥereb)LiteralEspada curta ou grande punhal de dois gumes confeccionado por Eúde e ocultado sob suas vestes.
1Sm 17.51חֶרֶב (ḥereb)LiteralDavi retira a espada de Golias da bainha, mata o filisteu e o decapita com sua própria arma.
Sl 44.6חֶרֶב (ḥereb)TeológicoA espada representa poder militar humano, no qual o salmista declara não depositar sua confiança para obter salvação.
Sl 149.6חֶרֶב פִּיפִיּוֹת (ḥereb pîpiyyôt)PoéticoA “espada de dois gumes” integra a linguagem poética de julgamento contra as nações.
Pv 12.18חֶרֶב (ḥereb)MetafóricoPalavras precipitadas são comparadas a golpes de espada por sua capacidade de ferir.
Is 2.4חֶרֶב (ḥereb)Metonímico e escatológicoEspadas transformadas em relhas de arado simbolizam a conversão dos instrumentos de guerra em instrumentos de produção e paz.
Is 34.5–6חֶרֶב (ḥereb)Juízo divinoA espada de Yahweh representa a execução de seu julgamento contra Edom.
Ez 21.8–17חֶרֶב (ḥereb)Juízo divinoA espada afiada e polida domina o poema como instrumento imagético da destruição e do julgamento que se aproximam.
Jr 14.12חֶרֶב (ḥereb)MetonímicoIntegra a tríade “espada, fome e peste”, na qual a espada representa guerra e invasão.
Mt 10.34μάχαιρα (machaira)MetafóricoA espada representa a divisão que a resposta a Jesus pode produzir até mesmo dentro das relações familiares.
Mt 26.52μάχαιρα (machaira)Literal e proverbialJesus ordena que a espada seja guardada e associa o recurso à violência armada ao risco de perecer por ela.
Lc 2.35ῥομφαία (rhomphaia)MetafóricoA espada que atravessará a alma de Maria representa sofrimento profundo.
Lc 21.24μάχαιρα (machaira)Metonímico“Cair ao fio da espada” representa morte resultante de guerra, conquista e destruição.
Rm 8.35μάχαιρα (machaira)MetonímicoA espada representa a ameaça de morte violenta entre os sofrimentos enfrentados pelos cristãos.
Rm 13.4μάχαιρα (machaira)Político e metonímico“Portar a espada” representa o poder coercitivo e punitivo atribuído à autoridade governamental.
Ef 6.17μάχαιρα (machaira)MetafóricoA “espada do Espírito” é explicitamente identificada com a palavra de Deus no contexto da armadura espiritual.
Hb 4.12μάχαιρα δίστομος (machaira distomos)MetafóricoA espada de dois gumes representa a capacidade penetrante e discernidora da palavra de Deus.
Ap 1.16ῥομφαία δίστομος ὀξεῖα (rhomphaia distomos oxeia)Visionário e cristológicoA espada afiada que sai da boca de Cristo representa a eficácia de sua palavra judicial.
Ap 6.4μάχαιρα μεγάλη (machaira megalē)Metonímico e apocalípticoA grande espada do cavaleiro vermelho representa guerra, retirada da paz e matança.
Ap 19.15ῥομφαία ὀξεῖα (rhomphaia oxeia)Visionário, messiânico e judicialA espada que sai da boca do cavaleiro messiânico representa sua palavra soberana de julgamento sobre as nações.

A tabela reúne usos literais, metonímicos, metafóricos e visionários sem pressupor um simbolismo uniforme. Jz 3.16 e 1Sm 17.51 apresentam armas concretas; textos proféticos e apocalípticos utilizam a espada para guerra e juízo; Lc 2.35, Mt 10.34, Rm 13.4, Ef 6.17, Hb 4.12 e Ap 1.16 exemplificam outras extensões da imagem.

  • Leia mais: Armas na Bíblia; Guerra; Juízo divino; Palavra de Deus.

VII. A espada na simbologia extra-bíblica e nas tradições religiosas

A transformação da espada em símbolo não elimina sua realidade como arma. Sua capacidade de cortar, perfurar, separar e matar forneceu precisamente as propriedades a partir das quais diferentes culturas construíram significados religiosos, políticos e morais. Por isso, a espada pode representar poder e autoridade, mas também discernimento, purificação, proteção, justiça, vitória, sofrimento ou destruição. Não existe, porém, uma “simbologia universal da espada” capaz de substituir o exame histórico de cada tradição. A mesma forma material pode adquirir funções muito diferentes conforme o sistema religioso e iconográfico em que aparece (Cirlot, 1971: 324–325, A Dictionary of Symbols, ed. Routledge; Biedermann, 1992: 335–336, Dictionary of Symbolism, ed. Facts On File).

A. Poder sagrado, guerra e soberania no mundo antigo

A associação entre espada e autoridade é anterior às tradições religiosas posteriores. O objeto podia exceder sua função militar e tornar-se insígnia de poder régio ou manifestação da força atribuída aos deuses. Entre os símbolos de soberania do antigo Oriente Próximo, Hall registra uma espada de formato ogival entre as insígnias de reis assírios; o valor da arma, nesse contexto, não reside apenas em sua eficácia no combate, mas em sua capacidade de representar conquista e autoridade. A espada recebida ou exibida pelo governante torna visível o poder que este reivindica exercer (Hall, 1996: 88, Illustrated Dictionary of Symbols in Eastern and Western Art, ed. Westview Press).

A iconografia egípcia oferece configuração relacionada. Representações do período raméssida mostram o faraó recebendo de uma divindade uma espada recurvada do tipo khopesh. A cena integra a arma à legitimação religiosa do poder real: aquilo que materialmente serve para a guerra aparece também como objeto transmitido no encontro entre divindade e soberano. A espada pode, portanto, funcionar simultaneamente como arma, insígnia e sinal de uma autoridade concebida em relação com o mundo divino (Biedermann, 1992: 335).

Em outras sociedades antigas, a própria arma podia adquirir valor cultual. Cirlot registra a tradição segundo a qual os citas prestavam veneração à lâmina de uma espada associada ao deus da guerra e lhe ofereciam sacrifícios. O dado ilustra um estágio no qual a distância entre objeto militar e objeto religioso pode tornar-se muito pequena: a arma não apenas representa a potência guerreira, mas participa materialmente de sua expressão cultual (Cirlot, 1971: 324–325).

  • Leia mais: Realeza sagrada; Assíria; Egito antigo; Khopesh; Religião mesopotâmica.

B. Cristianismo pós-bíblico: autoridade, martírio e justiça

A tradição cristã posterior ampliou consideravelmente a iconografia bíblica da espada. Em representações do arcanjo Miguel, a arma tornou-se atributo de sua vitória sobre as forças demoníacas; com o apóstolo Paulo e numerosos mártires, pode funcionar como atributo identificador relacionado ao modo de sua morte. Na iconografia mariana, a profecia de Lc 2.35 foi desenvolvida na representação do coração ou peito de Maria atravessado por uma ou por sete espadas, estas últimas vinculadas às “Sete Dores” (Hall, 1996: 88; Biedermann, 1992: 335–336).

A espada também passou para a linguagem visual das virtudes e da autoridade. Na arte medieval e renascentista, aparece como atributo da Justiça e, em determinadas tradições iconográficas, da Temperança. Sua capacidade de separar fornece uma analogia particularmente adequada ao ato de julgar: distinguir inocência e culpa, verdadeiro e falso, direito e injustiça. A associação com a soberania aparece igualmente em cerimônias de coroação e investidura, nas quais a entrega da espada pode simbolizar a concessão de autoridade ao governante (Hall, 1996: 88).

A teologia política medieval desenvolveu ainda a conhecida linguagem das “duas espadas”, mediante a qual poder espiritual e poder temporal podiam ser representados sob a forma de duas autoridades distintas. Nesse caso, a espada já não funciona primordialmente como descrição de violência física, mas como metáfora institucional de jurisdição e governo. A longa história cristã da imagem mostra, portanto, que um mesmo objeto pode representar juízo divino, martírio, sofrimento, autoridade e justiça sem que esses sentidos sejam intercambiáveis em todos os contextos (Biedermann, 1992: 336).

  • Leia mais: Arcanjo Miguel; Paulo; Martírio; Sete Dores de Maria; Duas Espadas.
São Miguel Arcanjo e a espada: símbolo de vitória sobre o mal, proteção divina e juízo

C. Hinduísmo e budismo: poder divino e conhecimento que corta

Nas tradições indianas, a espada integra a iconografia de diversas divindades. Hall identifica o khaḍga, “espada”, entre as armas associadas a figuras como Shiva em sua dimensão heroica, Karttikeya e Durga; também aparece na iconografia de Kalkin, manifestação escatológica de Vishnu. Nesse conjunto, a arma participa da representação da potência divina contra forças hostis e da capacidade de restaurar uma ordem ameaçada (Hall, 1996: 88).

No budismo, a transformação simbólica é particularmente expressiva. A espada pode representar sabedoria e discernimento porque “corta” dúvida e ignorância. Sua propriedade física de separar é transposta para o campo do conhecimento: aquilo que a lâmina faz à matéria torna-se imagem da capacidade da sabedoria de romper ilusão e confusão. Por isso, a espada aparece como atributo de bodhisattvas como Mañjuśrī e de outras figuras budistas; em formas tântricas iradas, pode ser representada flamejante (Hall, 1996: 88).

A imagem permite perceber uma característica recorrente da simbologia religiosa da espada: o golpe não precisa significar destruição de uma pessoa. Ele pode representar a eliminação de um obstáculo espiritual. A linguagem de “cortar” torna-se, nesse contexto, metáfora de libertação do erro e de acesso ao conhecimento.

  • Leia mais: Hinduísmo; Budismo; Mañjuśrī; Durga; Kalkin.

D. Taoismo, tradição japonesa e siquismo

Na tradição taoista chinesa, a espada possui importante função apotropaica. Lü Dongbin, um dos Oito Imortais, é identificado por sua espada, utilizada nas narrativas e representações para subjugar demônios e poderes maléficos. Eberhard registra a espada como seu emblema pessoal e relaciona a arma à vitória sobre forças demoníacas; Hall interpreta de maneira semelhante seu emprego taoista como vitória sobre os poderes das trevas (Eberhard, 1986: 205–206, A Dictionary of Chinese Symbols, ed. Routledge; Hall, 1996: 88).

No Japão, a espada adquire outra configuração religiosa e política. O mito xintoísta de Susanoo associa a descoberta de uma espada divina à derrota da grande serpente, e a arma passa a integrar, juntamente com o espelho e as joias sagradas, as relíquias da regalia imperial. A espada reúne aqui mito, sacralidade e legitimidade dinástica: não se trata apenas de uma arma extraordinária, mas de um objeto cuja posse participa da representação religiosa da soberania imperial (Biedermann, 1992: 335; Hall, 1996: 88).

O siquismo oferece um caso em que a linguagem da espada permanece visível na própria emblemática religiosa. Bruce-Mitford observa que o emblema associado ao Nishan Sahib incorpora uma espada de dois gumes vinculada à verdade e à justiça, juntamente com armas cruzadas relacionadas ao poder espiritual. A arma assume, portanto, uma função que une coragem, justiça e compromisso religioso, em vez de constituir simples celebração da violência militar (Bruce-Mitford, 1996: 91, The Illustrated Book of Signs & Symbols, ed. DK).

Leia mais: Taoismo; Lü Dongbin; Xintoísmo; Regalia imperial japonesa; Siquismo.

E. Limites da comparação religiosa

A recorrência da espada em tradições tão diferentes não autoriza tratá-la como símbolo de significado invariável. Poder e força são associações frequentes; em outros contextos, entretanto, a mesma arma representa discernimento, verdade, justiça, proteção contra o mal, autoridade régia, martírio, dor ou conhecimento espiritual. O significado resulta da relação entre o objeto e o sistema narrativo, ritual ou iconográfico no qual ele é incorporado.

Essa cautela é especialmente importante quando uma tradição religiosa inteira é resumida por uma arma. Os levantamentos gerais de simbologia islâmica presentes nas fontes consultadas enfatizam sobretudo o Alcorão e sua caligrafia, a Caaba, a oração, a arquitetura e outros motivos religiosos; não apresentam a espada como emblema universal ou definidor do Islã (Bruce-Mitford, 1996: 24–25; Laing; Wire, 1993: 192–207, The Encyclopedia of Signs and Symbols, ed. Studio Editions). Por isso, embora armas possam aparecer em contextos históricos, políticos e iconográficos islâmicos específicos, não é metodologicamente adequado usar “a espada” como abreviação visual do Islã sem delimitar época, grupo, personagem ou tradição concreta.

A história simbólica da espada mostra, em sentido mais amplo, como um objeto de cultura material pode conservar sua identidade física e adquirir simultaneamente novas camadas de significado. A lâmina que corta pode tornar-se imagem de julgamento; a arma de guerra, sinal de soberania; o instrumento de morte, atributo do mártir; e a capacidade de separar, metáfora de discernimento e verdade. A comparação entre tradições é mais produtiva quando preserva essas diferenças em vez de reduzi-las a um simbolismo único.

  • Leia mais: Simbolismo religioso; Religião comparada; Islã; Iconografia religiosa.

VIII. Referências bíblicas e teológicas

  1. BALZ, Horst; SCHNEIDER, Gerhard (eds.). Exegetical Dictionary of the New Testament. v. 3. Grand Rapids, MI: William B. Eerdmans Publishing Company, 1993. Verbete “ῥομφαία”, p. 213.

  2. BEALE, G. K. The Book of Revelation: A Commentary on the Greek Text. New International Greek Testament Commentary. Grand Rapids, MI: William B. Eerdmans Publishing Company, 1999.

  3. BEETHAM, Christopher A. (ed.). The Concise New International Dictionary of New Testament Theology and Exegesis. Grand Rapids, MI: Zondervan Academic, 2021.

  4. BLACK, Matthew. “‘Not peace but a sword’: Matt. 10:34ff; Luke 12:51ff.” In: BAMMEL, E.; MOULE, C. F. D. (eds.). Jesus and the Politics of His Day. Cambridge: Cambridge University Press, 1984. p. 287–294.

  5. Dictionary of Biblical Imagery. RYKEN, Leland; WILHOIT, James C.; LONGMAN III, Tremper (eds.). Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 1998. Verbete “Sword”, p. 834–835.

  6. GORDON, R. P. “Armour and Weapons.” In: DOUGLAS, J. D. (organizing ed.); HILLYER, N. (revision ed.). New Bible Dictionary. 2nd ed. Leicester: Inter-Varsity Press; Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 1982. p. 83–85.

  7. HOFFMEIER, J. K. “Weapons of War.” In: BROMILEY, Geoffrey W. (general ed.). The International Standard Bible Encyclopedia. Fully Revised ed. v. 4: Q–Z. Grand Rapids, MI: William B. Eerdmans Publishing Company, 1988. p. 1033–1043.

  8. KAISER, Walter C., Jr. “חֶרֶב (ḥereb), sword, dagger.” In: BOTTERWECK, G. Johannes; RINGGREN, Helmer (eds.). Theological Dictionary of the Old Testament. v. 5. Grand Rapids, MI: William B. Eerdmans Publishing Company, 1986. p. 155–165.

  9. KOESTER, Craig R. Revelation: A New Translation with Introduction and Commentary. Anchor Yale Bible 38A. New Haven, CT: Yale University Press, 2014.

  10. KRUSE, Colin G. Paul’s Letter to the Romans. The Pillar New Testament Commentary. Grand Rapids, MI: William B. Eerdmans Publishing Company, 2012.

  11. LAMPE, G. W. H. “The Two Swords (Luke 22:35–38).” In: BAMMEL, E.; MOULE, C. F. D. (eds.). Jesus and the Politics of His Day. Cambridge: Cambridge University Press, 1984. p. 335–352.

  12. LONGMAN III, Tremper; STRAUSS, Mark L. (eds.). The Baker Expository Dictionary of Biblical Words. Grand Rapids, MI: Baker Books, 2023.

  13. MATTINGLY, Gerald L. “Sword.” In: ACHTEMEIER, Paul J. (general ed.). The HarperCollins Bible Dictionary. Revised ed. San Francisco: HarperSanFrancisco, 1996. p. 1073–1075.

  14. MOUNCE, William D. (ed.). Mounce’s Complete Expository Dictionary of Old and New Testament Words. Grand Rapids, MI: Zondervan, 2006.

  15. PLÜMACHER, Eckhard. “μάχαιρα.” In: BALZ, Horst; SCHNEIDER, Gerhard (eds.). Exegetical Dictionary of the New Testament. v. 2. Grand Rapids, MI: William B. Eerdmans Publishing Company, 1991. p. 397–398.

  16. THIELMAN, Frank. Ephesians. Baker Exegetical Commentary on the New Testament. Grand Rapids, MI: Baker Academic, 2010.

  17. VERBRUGGE, Verlyn D. (ed.). The NIV Theological Dictionary of New Testament Words: An Abridgment of New International Dictionary of New Testament Theology. Grand Rapids, MI: Zondervan, 2000.

IX. Referências seculares e de simbologia comparada

  1. BIEDERMANN, Hans. Dictionary of Symbolism. Trad. James Hulbert. New York; Oxford: Facts On File, 1992.

  2. BRUCE-MITFORD, Miranda. The Illustrated Book of Signs & Symbols. New York: DK Publishing, 1996.

  3. CIRLOT, J. E. A Dictionary of Symbols. 2. ed. Trad. Jack Sage. London: Routledge & Kegan Paul, 1971.

  4. EBERHARD, Wolfram. A Dictionary of Chinese Symbols: Hidden Symbols in Chinese Life and Thought. London; New York: Routledge & Kegan Paul, 1986.

  5. HALL, James. Illustrated Dictionary of Symbols in Eastern and Western Art. Boulder, CO: Westview Press, 1996.

  6. LAING, John; WIRE, David. The Encyclopedia of Signs and Symbols. London: Studio Editions, 1993.

Cite este artigo

GALVÃO, Eduardo. “Espada”. In: GALVÃO, Eduardo (ed.) et al. Enciclopédia Bíblica e Teológica. Biblioteca Bíblica. Publicado originalmente em 17 maio 2018; revisto e atualizado em 9 set. 2026. Disponível em: [inserir url do verbete].  Acesso em: [data].

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