Mateus 1.4 ♱ Naassom e Salmom na genealogia de Jesus
Mateus 1.4
“Arão gerou Aminadabe; Aminadabe gerou Naassom; Naassom gerou Salmom.”
Depois das circunstâncias dramáticas envolvendo Judá, Tamar e Perez, a genealogia entra em um trecho quase silencioso. Mateus menciona três gerações sem narrar acontecimentos particulares. O contraste é instrutivo: a história que chega a Cristo não avança apenas por episódios extraordinários. Há períodos em que a promessa permanece visível quase somente pela continuidade das gerações. Os nomes correspondem à sequência preservada no final de Rute (Rt 4.19-20) e na genealogia de Judá em Crônicas (1Cr 2.9-11), mostrando que Mateus recebe uma tradição genealógica já estabelecida nas Escrituras de Israel.
Entre esses nomes, Naassom é aquele que emerge com maior nitidez na narrativa bíblica. Quando Israel é contado no deserto do Sinai, ele aparece como filho de Aminadabe e representante da tribo de Judá (Nm 1.7). Na organização do acampamento, Judá ocupa a posição principal entre as tribos colocadas ao leste do tabernáculo, tendo Naassom como seu chefe (Nm 2.3). O descendente da tribo à qual havia sido prometido o cetro (Gn 49.8-10) surge, portanto, não numa corte real — que ainda nem existia —, mas entre um povo recém-libertado, acampado no deserto.
Esse contexto amplia o significado da genealogia. Entre Judá e Davi existe o êxodo. A linhagem messiânica não atravessa somente famílias; atravessa também escravidão, libertação, peregrinação e formação nacional. Israel entrou no Egito como uma casa relativamente pequena (Êx 1.1-5), mas saiu dele como um povo organizado em tribos. Quando Mateus coloca Naassom na ascendência de Jesus, a memória familiar do Messias encontra-se inserida nesse grande ato de libertação. O Cristo que posteriormente será apresentado como aquele que salva seu povo dos pecados (Mt 1.21) pertence à história de um povo cuja identidade nacional foi marcada pela experiência de ter sido resgatado da servidão.
Naassom aparece novamente quando os chefes das tribos apresentam suas ofertas para a dedicação do altar. O primeiro representante mencionado é precisamente o chefe de Judá (Nm 7.11-12). Quando Israel deixa o Sinai e começa sua marcha, a divisão de Judá parte à frente sob sua liderança (Nm 10.14). Mateus não desenvolve esses episódios, mas o nome bastava para ligar a genealogia a uma geração situada entre o Egito e a terra prometida. Antes de haver um trono em Jerusalém, a linhagem do futuro Rei caminhou com Israel pelo deserto.
Isso acrescenta uma dimensão importante à promessa feita a Judá. A palavra sobre o cetro não produziu imediatamente um rei (Gn 49.10). Entre a promessa pronunciada por Jacó e o aparecimento de Davi existiram gerações inteiras nas quais nenhuma monarquia davídica podia ser vista. Na época de Naassom, Israel ainda vivia em tendas. A promessa, porém, não precisava estar plenamente realizada para continuar sendo verdadeira. A história bíblica ensina a diferença entre uma palavra divina ainda não consumada e uma palavra divina fracassada. Aquilo que Deus promete pode atravessar longos intervalos antes de assumir a forma final que ele lhe destinou.
Aminadabe também ocupa uma posição relevante nessa continuidade, embora a Escritura preserve poucas informações sobre sua vida. Seu nome reaparece porque sua filha Elisabá se tornou esposa de Arão, enquanto seu filho Naassom liderava Judá (Êx 6.23). A mesma geração familiar tocava, portanto, dois importantes setores da vida de Israel: por casamento, a casa sacerdotal ligada a Levi; por descendência, a tribo de Judá. Não se deve construir sobre isso uma união antecipada entre sacerdócio e realeza que o texto não afirma, mas o dado mostra como a genealogia de Jesus está entranhada na estrutura histórica do povo da aliança.
A passagem de Naassom para Salmom conduz a genealogia em direção a outra etapa. O AT conserva essa mesma sucessão — “Naassom gerou Salmom” (Rt 4.20; 1Cr 2.11) — e Mateus a reproduz antes de introduzir, no versículo seguinte, Raabe e Boaz. Salmom encontra-se, assim, na fronteira literária entre a geração relacionada ao deserto e a história que se desenvolverá na terra. A genealogia começa a aproximar-se de Belém, de Rute e, finalmente, de Davi (Rt 4.21-22). Cada nome estreita um pouco mais o caminho iniciado com Abraão.
Essa sequência exige uma cautela cronológica. O intervalo entre Naassom, contemporâneo da geração do êxodo, e Davi é considerável, enquanto Rute 4.20–22 apresenta apenas Salmom, Boaz, Obede e Jessé entre eles. Genealogias bíblicas podem selecionar os nomes necessários para estabelecer uma linhagem sem pretender enumerar obrigatoriamente cada geração intermediária. O próprio Mateus demonstrará mais adiante que sua genealogia possui organização literária deliberada (Mt 1.17). Por isso, “gerou” pode funcionar genealogicamente no sentido de estabelecer descendência, sem exigir em todos os casos a relação imediata entre pai e filho.
Essa observação não enfraquece a genealogia; esclarece sua finalidade. Mateus não pretende fornecer uma cronologia moderna com todos os indivíduos sucessivos, mas demonstrar uma linha histórica reconhecível que conecta Abraão, Judá, Davi e Jesus. A sequência de Mateus 1.4 coincide com os registros genealógicos já preservados em Rute e Crônicas. Seu argumento depende menos de contar cada elo biológico do que de mostrar que Jesus pertence à história identificável da descendência davídica.
Há também uma força espiritual peculiar na obscuridade de Arão, Aminadabe e Salmom. Naassom deixou marcas mais visíveis na narrativa bíblica; sobre os demais, sabemos muito pouco. Mesmo assim, todos ocupam a mesma cadeia que chegará ao Messias. A importância de uma geração dentro dos propósitos de Deus não pode ser medida apenas pela quantidade de acontecimentos que a Escritura registra sobre ela. Alguns recebem capítulos inteiros; outros, apenas um nome. A linha que conduz a Cristo necessita tanto dos períodos dramaticamente narrados quanto daqueles que parecem transcorrer em silêncio.
Mateus 1.4 ensina, por isso, a contemplar a fidelidade de Deus numa escala maior que a experiência individual. Uma geração viveu sob escravidão; outra viu a libertação; outra atravessou o deserto; gerações posteriores conheceriam a terra, os juízes e a monarquia. Nenhuma delas possuía sozinha a história completa. A promessa feita a Abraão e concentrada em Judá atravessava todas elas em direção a um futuro que ultrapassava sua própria existência (Gn 12.3; 49.10). Quando Jesus finalmente aparece, séculos de histórias fragmentárias revelam-se partes de uma mesma trajetória.
Nossa percepção costuma privilegiar os momentos em que conseguimos enxergar acontecimentos decisivos. Mateus 1.4 recorda que grande parte da obra divina acontece entre esses momentos. Uma vida pode não testemunhar a conclusão daquilo que recebeu, mas ainda assim participar de sua continuidade. Os antigos morreram sem receber em sua plenitude tudo quanto aguardavam, embora tivessem contemplado de longe as promessas (Hb 11.13,39-40). Na genealogia de Jesus, até três nomes sobre os quais sabemos pouco testemunham que o silêncio de uma geração não significa ausência da fidelidade de Deus.
Índice:
- Mateus 1.1 ♱ Jesus Cristo, Filho de Davi e Filho de Abraão
- Mateus 1.2 ♱ Abraão, Isaque, Jacó e Judá: a continuidade da promessa
- Mateus 1.3 ♱ Tamar na genealogia de Jesus: pecado, graça e redenção
- Mateus 1.4 ♱ Naassom e Salmom na genealogia de Jesus
- Mateus 1.5 ♱ Raabe e Rute na genealogia de Jesus
- Mateus 1.6 ♱ Davi, Bate-Seba e Urias na genealogia de Jesus
- Mateus 1.7 ♱ Roboão, Abias e Asa na genealogia de Jesus
- Mateus 1.8 ♱ Jorão e Uzias na genealogia de Jesus
- Mateus 1.9 ♱ Jotão, Acaz e Ezequias na genealogia de Jesus
- Mateus 1.10 ♱ Manassés, Amom e Josias na genealogia de Jesus
- Mateus 1.11 ♱ Jeconias e o exílio na Babilônia
- Mateus 1.12 ♱ Zorobabel e a esperança depois do exílio
- Mateus 1.13 ♱ Abiúde, Eliaquim e Azor na genealogia de Jesus
- Mateus 1.14 ♱ Gerações desconhecidas na genealogia de Jesus
- Mateus 1.15 ♱ Eliúde, Eleazar, Matã e Jacó na genealogia de Jesus
- Mateus 1.16 ♱ José, Maria e o nascimento de Jesus Cristo
- Mateus 1.17 ♱ Por que a genealogia de Jesus tem três grupos de quatorze gerações?
- Mateus 1.18 ♱ Maria ficou grávida pelo Espírito Santo
- Mateus 1.19 ♱ Por que José quis deixar Maria secretamente?
- Mateus 1.20 ♱ José, filho de Davi, e o sonho do anjo
- Mateus 1.21 ♱ Jesus salvará o seu povo dos pecados
- Mateus 1.22 ♱ O que significa “para que se cumprisse” a profecia?
- Mateus 1.23 ♱ Emanuel: o que significa “Deus conosco”?
- Mateus 1.24 ♱ A obediência de José ao receber Maria
- Mateus 1.25 ♱ José conheceu Maria depois do nascimento de Jesus?

