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Mateus 1.7 ♱ Roboão, Abias e Asa na genealogia de Jesus

Comentário Teológico do Evangelho de Mateus

Mateus 1.25

Salomão gerou Roboão; Roboão gerou Abias; e Abias gerou Asa.

Mateus 1.7

“Salomão gerou Roboão; Roboão gerou Abias; e Abias gerou Asa.” 

Com estes três reis, a genealogia entra numa fase diferente. Davi havia recebido a promessa de uma casa duradoura, Salomão havia conhecido o auge político do reino, mas Roboão herdaria uma nação prestes a se romper. A linhagem messiânica não seguirá apenas através de épocas de expansão e estabilidade; passará também pela divisão do povo, por guerras entre irmãos e por reis de caráter espiritual desigual. A promessa davídica terá de atravessar a própria fragilidade da monarquia que a carregava.

Roboão recebeu de Salomão um reino extraordinariamente poderoso, mas também problemas acumulados durante o final daquele reinado. Salomão havia se afastado do Senhor, permitindo que suas muitas alianças matrimoniais o conduzissem à idolatria (1Rs 11.1-10). Antes mesmo da morte do rei, Deus anunciou que o reino seria rasgado e que apenas uma parte permaneceria com sua casa, por causa da aliança estabelecida com Davi e da escolha de Jerusalém (1Rs 11.11-13). Mateus 1.7 começa, portanto, num momento em que a continuidade da dinastia existe ao lado do julgamento divino sobre seus pecados.

A crise explode com Roboão. Quando as tribos pedem redução das cargas impostas durante o reinado anterior, ele rejeita o conselho dos anciãos e prefere a orientação de homens de sua própria geração. Sua resposta promete tornar o jugo ainda mais pesado (1Rs 12.4-11). A arrogância política transforma insatisfação em ruptura. Dez tribos recusam a casa de Davi, enquanto Judá permanece sob Roboão (1Rs 12.16-20). O filho que herdara um reino unido termina governando apenas uma parte dele.

Essa divisão não pode ser explicada por uma única causa. Roboão é responsável por sua imprudência, mas a narrativa também a enquadra dentro do juízo anteriormente anunciado contra a infidelidade de Salomão (1Rs 11.29-39; 12.15). A soberania divina não converte a insensatez do rei em virtude, nem elimina a responsabilidade daqueles que participam da ruptura. A Escritura consegue manter simultaneamente juízo providencial e agência humana. Deus conduz a história sem precisar inocentar as escolhas ruins pelas quais essa história passa.

Aqui aparece algo fundamental para compreender a genealogia. A promessa feita a Davi não significava que todos os seus descendentes governariam sabiamente, nem que o reino permaneceria politicamente intacto. Deus havia prometido continuidade à casa davídica, mas também havia declarado que disciplinaria seus descendentes quando praticassem a iniquidade (2Sm 7.14-16). Roboão mostra que promessa e disciplina podem coexistir. A fidelidade divina não é permissividade diante do pecado; ela preserva seu propósito enquanto julga aqueles que o representam mal.

“Roboão gerou Abias.” Com Abias, a história se torna ainda mais complexa. O livro dos Reis avalia negativamente sua condição espiritual, afirmando que seu coração não foi inteiramente dedicado ao Senhor como o de Davi (1Rs 15.1-3). Ainda assim, o mesmo registro explica a permanência de sua casa pela fidelidade da promessa davídica: Deus manteve uma “lâmpada” em Jerusalém por causa de Davi (1Rs 15.4-5). A dinastia continua não porque cada rei corresponda moralmente à grandeza da promessa, mas porque Deus permanece fiel àquilo que havia estabelecido.

Crônicas acrescenta outra dimensão ao reinado de Abias. Em guerra contra Jeroboão, ele recorda que o reino ligado aos filhos de Davi havia sido estabelecido por Deus e contrapõe o culto do templo aos bezerros instituídos no reino do norte (2Cr 13.4-12). Quando Judá é cercado pelo exército adversário, seus homens clamam ao Senhor e recebem livramento (2Cr 13.13-18). Isso não contradiz a avaliação crítica de Reis. Um homem pode possuir uma vida espiritualmente inconsistente e, em determinado momento, confessar uma verdade real, defender uma instituição legítima e depender de Deus diante de uma crise.

Essa tensão impede leituras excessivamente simples das personagens bíblicas. Abias não precisa ser transformado nem em apóstata absoluto nem em modelo irrepreensível. Sua vida contém fidelidades e infidelidades. A Escritura preserva ambas. O fato de Deus conceder-lhe vitória numa circunstância particular não funciona como aprovação indiscriminada de toda a sua trajetória. A providência pode socorrer alguém numa situação específica sem declarar perfeita a totalidade de sua vida.

“Abias gerou Asa” introduz um contraste expressivo. Asa recebe uma avaliação muito mais favorável: fez o que era reto diante do Senhor e promoveu reformas contra práticas idólatras (1Rs 15.9-14). Crônicas amplia esse quadro, mostrando-o removendo altares estrangeiros e convocando Judá a buscar o Deus de seus pais (2Cr 14.2-5). O início de seu reinado associa busca por Deus e um período de descanso concedido ao reino (2Cr 14.6-7). Depois de duas gerações marcadas por profunda instabilidade, aparece um rei interessado em restaurar a fidelidade da comunidade.

Sua oração diante do poderoso exército de Zerá revela uma das expressões mais belas de dependência nessa sequência real. Asa reconhece que a diferença entre fortes e fracos não limita o auxílio divino e declara que Judá se apresenta para a batalha confiando no Senhor (2Cr 14.9-11). A vitória subsequente é atribuída à intervenção de Deus, e não simplesmente à capacidade militar de Judá (2Cr 14.12-13). Nesse momento, a dinastia davídica demonstra aquilo que deveria caracterizar um rei de Israel: governar reconhecendo que sua segurança não repousa primariamente no poder que controla.

O reinado de Asa, porém, não termina com a mesma luminosidade de seus primeiros anos. Quando Baasa ameaça Judá, Asa retira tesouros do templo para obter auxílio do rei da Síria, em vez de demonstrar a confiança anteriormente exibida (2Cr 16.1-3,7-9). Ao ser repreendido, reage prendendo o mensageiro que lhe transmitira a censura e oprimindo alguns do povo (2Cr 16.10). Nos últimos anos, acometido por enfermidade, o relato volta a destacar que sua procura se concentrou nos recursos humanos e não no Senhor (2Cr 16.12).

A inclusão de Asa na genealogia torna-se, assim, tão instrutiva quanto a de Roboão e Abias. Um homem pode começar com coragem espiritual e terminar revelando áreas nas quais essa confiança se enfraqueceu. Fidelidade passada não deve ser transformada em substituto da dependência presente. A vida com Deus não funciona como um patrimônio acumulado que elimina a necessidade de perseverança. A advertência feita muito depois aos discípulos continua a mesma: é necessário permanecer vigilante, porque confiança em si mesmo pode surgir justamente em quem já possui longa história de experiências espirituais (Mt 26.40-41; 1Co 10.12).

Mateus 1.7 reúne, portanto, três tipos de fragilidade dentro da casa real. Roboão mostra a destruição que pode nascer da arrogância; Abias revela uma vida espiritualmente dividida; Asa demonstra que um início promissor não garante automaticamente um final igualmente fiel. Nenhum desses reis consegue carregar em si mesmo toda a esperança contida na promessa davídica. A genealogia continua apontando para a necessidade de um Filho de Davi cuja sabedoria não provoque a divisão do povo, cujo coração não esteja dividido e cuja confiança no Pai não se deteriore com o tempo.

Jesus será apresentado precisamente nesse contraste. Onde os reis anteriores receberam autoridade e falharam em exercê-la plenamente segundo a vontade de Deus, ele governará em perfeita obediência. Não procura assegurar seu reino mediante força política, alianças oportunistas ou autopreservação; rejeita o caminho do domínio oferecido pela tentação e permanece subordinado ao Pai (Mt 4.8-10). Sua realeza não repete simplesmente a monarquia antiga. Ela realiza aquilo que essa longa sucessão de governantes jamais conseguiu produzir de maneira definitiva.

Mateus 1.7 também consola porque mostra que períodos de grave deterioração não anulam aquilo que Deus começou. Depois de Salomão houve ruptura; depois de Roboão, guerra; em Abias, ambiguidade; em Asa, reforma acompanhada posteriormente de declínio. Observada apenas de dentro de cada geração, a história poderia parecer instável demais para conduzir a algum cumprimento. Vista a partir de Cristo, percebemos que nenhuma dessas crises conseguiu extinguir a linhagem. A fidelidade de Deus atravessou reis bons e maus até chegar ao Rei para quem toda essa história apontava.

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