Romanos 6.6 ♱ O velho homem crucificado com Cristo
Romanos 6.6
Paulo passa da união com Cristo para aquilo que essa união fez com nossa antiga existência. O “velho homem” não é uma parte misteriosa escondida dentro do cristão, como se duas pessoas completas habitassem nele. É o ser humano tal como existia sob o domínio do pecado, pertencente à velha ordem marcada por Adão. Em outros textos, Paulo contrapõe esse velho homem ao novo, criado segundo Deus (Ef 4.22-24), e descreve a conversão como despir-se de uma identidade antiga e revestir-se de outra (Cl 3.9-10). Rm 6.6 olha para essa antiga condição e declara que sua sentença foi pronunciada na cruz.
A expressão alcança mais que alguns hábitos ruins. O “velho homem” é nossa antiga existência considerada em sua totalidade: desejos, valores, lealdades e disposições organizados independentemente de Deus. Rm 5 havia colocado a humanidade sob duas cabeças, Adão e Cristo (Rm 5.18-19); agora Paulo mostra o que a união com o segundo Adão significa para a vida dominada pelo primeiro. A conversão não acrescenta apenas novas práticas religiosas ao antigo eu. Em Cristo, Deus trata com aquilo que éramos dentro da velha humanidade.
Paulo diz que esse velho homem “foi crucificado com ele”. O tempo da afirmação é importante para o argumento: o apóstolo não ordena aqui que o cristão consiga crucificar seu velho homem mediante disciplina suficiente. Ele anuncia algo que aconteceu em conexão com a morte de Cristo. A mesma convicção aparece quando Paulo confessa: “fui crucificado com Cristo”, antes de falar da vida que agora vive pela fé (Gl 2.20). A prática da santidade começa reconhecendo uma obra de Deus, não tentando fabricar por esforço pessoal a condição que torna a santidade possível.
Isso não significa que nossa crucificação tenha o mesmo valor da de Jesus. Somente Cristo morreu pelos pecadores e realizou a obra reconciliadora (Rm 5.8-10). Nossa crucificação com ele descreve a consequência de sermos unidos à sua morte: aquilo que éramos sob o governo do pecado recebe ali sua condenação. O Salvador não compartilha conosco a tarefa de realizar a expiação; nós é que somos incluídos nos efeitos de sua morte. Por isso a cruz pode ser simultaneamente o lugar onde recebemos perdão e o lugar onde aprendemos que a velha existência não deve continuar governando.
A imagem da crucificação também impede uma visão superficial da transformação. Deus não pretende apenas educar o velho homem para que se comporte um pouco melhor. Paulo escolhe uma imagem de morte. Há desejos que não precisam ser domesticados, mas recusados; práticas que não devem ser moderadas, mas abandonadas. Quando fala daqueles que pertencem a Cristo, ele pode dizer que crucificaram a carne com suas paixões e desejos (Gl 5.24), não porque a vida física seja má, mas porque os impulsos que reivindicam independência de Deus não podem determinar a direção da nova existência.
Em seguida aparece o “corpo do pecado”. Paulo não está declarando que o corpo humano seja pecaminoso por natureza. O próprio capítulo logo ordenará que os membros do corpo sejam apresentados a Deus como instrumentos de justiça (Rm 6.13), e mais adiante o corpo poderá ser oferecido a Deus como sacrifício vivo e santo (Rm 12.1). O problema não está na materialidade do corpo, mas no fato de o pecado tê-lo usado como território de expressão. Olhos, boca, mãos, sexualidade, força, inteligência e capacidades humanas podem tornar-se instrumentos de uma vontade rebelde; é nesse sentido que a existência corporal pode ser colocada a serviço do pecado.
Isso é importante porque o evangelho não salva a alma do corpo; salva a pessoa inteira para Deus. A esperança cristã inclui a redenção do corpo (Rm 8.23), assim como a ressurreição de Cristo foi corporal. O corpo não é inimigo a ser desprezado, mas criatura a ser recuperada para seu verdadeiro propósito. Paulo perguntará aos coríntios se não sabem que seu corpo pertence ao Senhor (1Co 6.13-20). Aquilo que antes estava disponível ao pecado deve agora tornar-se disponível ao Deus que nos deu vida.
Quando Paulo afirma que o “corpo do pecado” deveria ser destruído, seu sentido não exige o desaparecimento imediato de toda possibilidade de pecar. O desenvolvimento do próprio capítulo torna isso impossível, pois ele ainda precisará ordenar: “não reine, portanto, o pecado em seu corpo mortal” (Rm 6.12). A ideia é que o corpo dominado pelo pecado seja destituído de sua antiga função, privado de sua capacidade de servir inevitavelmente ao velho senhor. O pecado permanece como força adversária, mas sua tirania foi atingida.
Essa distinção evita dois extremos. De um lado, não podemos dizer que nada mudou e que o cristão continua tão escravizado ao pecado quanto antes. Paulo afirma precisamente o contrário: houve uma ruptura real. De outro, não podemos dizer que toda inclinação pecaminosa desapareceu, pois ainda somos chamados a mortificar aquilo que pertence à velha maneira de viver (Cl 3.5-8). O pecado foi destronado sem ter sido ainda eliminado de toda a experiência humana; perdeu o direito de governar, embora ainda tente recuperar espaço.
A experiência cristã pode parecer contraditória justamente nesse ponto. Uma pessoa lê que o velho homem foi crucificado e depois percebe dentro de si desejos que parecem muito vivos. Paulo não pede que neguemos essa experiência, mas que a interpretemos à luz do que aconteceu em Cristo. A presença de uma tentação não prova que ela ainda seja nossa proprietária. Israel havia saído do Egito antes de perder completamente a mentalidade da escravidão; também o cristão pode ter sido libertado do domínio do pecado e ainda precisar aprender a viver como alguém livre.
A frase final esclarece o propósito: “para que não sirvamos mais ao pecado”. A linguagem muda da crucificação para a escravidão. O pecado aparece como senhor que exige serviço, e essa imagem dominará boa parte do restante do capítulo (Rm 6.16-20). Antes de Cristo, a questão não era apenas que praticávamos atos pecaminosos; havia uma servidão por trás deles. Jesus descreve a mesma realidade ao afirmar que quem pratica o pecado torna-se seu escravo, mas acrescenta que o Filho pode produzir verdadeira liberdade (Jo 8.34-36).
Ser liberto dessa escravidão não significa adquirir autonomia absoluta. O evangelho não nos retira do governo do pecado para que finalmente pertençamos apenas a nós mesmos. Paulo encaminhará sua argumentação para uma nova obediência: libertos do pecado, tornamo-nos servos da justiça e, em última análise, servos de Deus (Rm 6.18,22). A liberdade cristã não é ausência de senhorio; é mudança de senhor. O poder que antes era gasto na satisfação de desejos desordenados começa a ser empregado em amor, justiça, misericórdia e serviço.
Isso toca uma área muito concreta da vida devocional. Muitas vezes o cristão enfrenta determinado pecado dizendo apenas: “preciso me esforçar mais para não fazer isso”. Rm 6.6 acrescenta uma verdade anterior: “não sou mais obrigado a servir isso”. Há uma diferença enorme entre alguém que luta como escravo tentando agradar um senhor inevitável e alguém que resiste a um antigo senhor que perdeu seu direito sobre ele. Quando uma tentação exige obediência, o crente pode enfrentá-la à luz da cruz: aquela voz talvez ainda fale, mas não possui a autoridade que reivindica.
O “velho homem” crucificado também atinge nossa relação com o passado. Existem pessoas que continuam se apresentando a si mesmas pelos nomes que seus pecados lhes deram: fracassado, impuro, violento, escravo, irrecuperável. Paulo não minimiza aquilo que fomos — ele descreve antigas vidas cristãs com notável franqueza (1Co 6.9-11) —, mas acrescenta que algo aconteceu: “vocês foram lavados”. A cruz não apenas perdoa episódios do passado; ela rompe a pretensão de que o passado possua autoridade final para definir quem somos.
Essa realidade ainda precisa assumir forma concreta. O fato de o velho homem ter sido crucificado não torna inútil a vigilância; torna a vigilância coerente. Já que a antiga servidão foi atingida pela morte de Cristo, não faz sentido oferecer novamente nossos membros ao senhor do qual fomos libertados. Paulo começará a transformar essa verdade em imperativos alguns versículos adiante (Rm 6.11-13). Antes de ordenar, porém, ele quer que o cristão compreenda o que Deus fez: a obediência que virá depois nasce dessa nova condição.
A imagem da escravidão prepara o passo seguinte. Se o antigo senhor reivindicava domínio sobre nós e nossa união com Cristo envolve uma verdadeira morte, que direito o pecado ainda pode exercer sobre quem morreu? Paulo responde recorrendo a uma realidade conhecida: a morte encerra determinadas reivindicações e rompe vínculos de servidão. É essa relação entre morte e libertação que ele passa a formular em Rm 6.7.
Índice:
- Romanos 6.1 ♱ Salvos para uma Nova Vida: Combatendo a Distorção da Graça
- Romanos 6.2 ♱ Mortos para o pecado
- Romanos 6.3 ♱ Batizados na morte de Cristo
- Romanos 6.4 ♱ Sepultados com Cristo para uma nova vida
- Romanos 6.5 ♱ Unidos a Cristo na morte e na ressurreição
- Romanos 6.6 ♱ O velho homem crucificado com Cristo
- Romanos 6.7 ♱ Mortos com Cristo, viveremos com ele
- Romanos 6.8 ♱ Viveremos com Cristo
- Romanos 6.9 ♱ A Vitória Definitiva sobre a Morte
- Romanos 6.10 ♱ Morto para o pecado, vivo para Deus
- Romanos 6.11 ♱ Considerem-se mortos para o pecado e vivos para Deus
- Romanos 6.12 ♱ Não deixem o pecado reinar
- Romanos 6.13 ♱ Ofereçam-se a Deus como instrumentos de justiça
- Romanos 6.14 ♱ O pecado não terá domínio sobre vocês
- Romanos 6.15 ♱ A graça não é licença para pecar
- Romanos 6.16 ♱ Somos servos daquele a quem obedecemos
- Romanos 6.17 ♱ Da escravidão do pecado à obediência de coração
- Romanos 6.18 ♱ Da escravidão do pecado à obediência de coração
- Romanos 6.19 ♱ Da escravidão da impureza ao serviço da justiça
- Romanos 6.20 ♱ Quando éramos escravos do pecado
- Romanos 6.21 ♱ Que fruto vocês colheram daquela vida?
- Romanos 6.22 ♱ Libertos do pecado para servir a Deus
- Romanos 6.23 ♱ O salário do pecado e o dom da vida eterna


