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Romanos 6.7 ♱ Mortos com Cristo, viveremos com ele

Comentário Teológico da carta aos Romanos

Romanos 6.7

Paulo sustenta a afirmação do versículo anterior mediante um princípio simples: a morte encerra a antiga relação de servidão. Um escravo morto já não pode receber ordens de seu senhor; nenhuma exigência de trabalho pode ser imposta a quem saiu daquela esfera de domínio. É essa imagem que ilumina a morte com Cristo. Se o velho homem foi crucificado para que já não servíssemos ao pecado (Rm 6.6), a antiga autoridade do pecado sobre nossa existência sofreu uma ruptura que Paulo descreve em termos de libertação.

A morte mencionada aqui não é a morte física comum. Morrer biologicamente não transforma ninguém em justo nem apaga, por si só, a responsabilidade diante de Deus. A Escritura mantém o juízo depois da morte (Hb 9.27), e Jesus fala daqueles que ressuscitarão tanto para a vida quanto para o juízo (Jo 5.28-29). O contexto determina outra morte: aquela da qual Paulo vem falando desde o início do capítulo, nossa morte para o pecado mediante a união com Cristo (Rm 6.2-5). É porque morremos com ele que a reivindicação do antigo senhor foi quebrada.

A expressão traduzida como “libertado do pecado” possui também uma tonalidade jurídica: aquele que morreu está absolvido, declarado livre da acusação que sustentava aquela servidão. Isso une Rm 6 ao argumento anterior da carta. A justificação já havia sido apresentada como dom concedido aos que estão em Cristo (Rm 5.1,16-18); agora Paulo mostra uma de suas consequências para a relação com o pecado. A graça não apenas remove uma sentença futura. Ao colocar o pecador numa nova posição diante de Deus, retira também o fundamento sobre o qual o pecado exercia seu governo condenatório.

Não significa que o cristão tenha pago pessoalmente a dívida de seus pecados por meio de alguma morte espiritual própria. Essa dívida não é quitada por nossa experiência religiosa. Cristo morreu pelos ímpios e realizou a reconciliação quando ainda éramos inimigos (Rm 5.6-10). Nossa morte é participação nos efeitos da morte dele, não complemento de sua obra. O condenado não se salva executando sobre si mesmo a sentença; Deus une o crente àquele que recebeu a morte em seu favor e o introduz numa condição nova (2Co 5.14-15).

Isso ajuda a perceber por que libertação da culpa e libertação do domínio do pecado não precisam competir na interpretação do versículo. Paulo pode pensar juridicamente porque alguém que morreu já não está sujeito à antiga reivindicação; pode pensar também em termos de escravidão porque o assunto do versículo anterior é justamente não servir mais ao pecado (Rm 6.6). A absolvição e a emancipação se encontram. Aquele sobre quem já não repousa condenação em Cristo (Rm 8.1) também não é mais devedor da carne, como se fosse obrigado a obedecer às suas exigências (Rm 8.12-13).

O pecado exercia poder não apenas pela atração do prazer, mas também pela condição do pecador diante de Deus. Culpa, condenação, medo e alienação pertenciam ao mundo em que seu reinado prosperava. Quando Deus justifica o pecador em Cristo, essa estrutura começa a desmoronar. A pessoa que antes fugia de Deus pode aproximar-se dele em paz (Rm 5.1-2); já não precisa procurar no pecado aquilo que somente a reconciliação poderia oferecer. O senhorio do pecado perde parte essencial de sua força quando o condenado descobre que foi recebido pelo próprio Deus.

Essa verdade não deve ser confundida com impecabilidade. Paulo não afirma que aquele que morreu com Cristo se tornou incapaz de pecar. Poucos versículos depois ele ordenará que o pecado não reine no corpo mortal (Rm 6.12), o que pressupõe que sua presença ainda é sentida e sua voz ainda procura obediência. João também escreve a crentes quando reconhece a realidade do pecado e aponta para confissão e perdão (1Jo 1.8-2.2). Libertação do senhorio não significa ausência da batalha; significa que a batalha já não é travada por alguém pertencente legitimamente ao inimigo.

Pode-se perceber a diferença pensando em dívida e propriedade. Antes, o pecado aparecia como senhor e o ser humano como escravo; agora, a morte rompeu essa relação. É possível que um antigo senhor grite ordens para alguém que já foi libertado, mas seus gritos não recriam a antiga propriedade. A tentação funciona muitas vezes dessa maneira: apresenta uma exigência como se ainda possuísse autoridade. Rm 6.7 ensina o cristão a perguntar não apenas “será que consigo resistir?”, mas “por que deveria obedecer a quem já não tem direito sobre mim?”.

Romanos 6.1 ♱ Salvos para uma Nova Vida: Combatendo a Distorção da Graça

Essa perspectiva modifica também o modo de enfrentar a culpa após uma queda. O pecado procura primeiro seduzir e, depois de cometido, procura reassumir o papel de acusador: “você pertence a mim; nada mudou”. O evangelho não responde fingindo que a queda é insignificante. Há pecado a confessar e abandonar (Pv 28.13), mas a restauração ocorre dentro de uma relação que foi estabelecida por Cristo. Quem caiu não precisa retornar à escravidão para reconhecer que pecou; pode correr para o Deus que justifica e encontrar no sangue de Cristo purificação real (1Jo 1.7-9).

Há aqui uma diferença entre ser livre do pecado e ser livre para pecar. Paulo está construindo exatamente a primeira ideia. A liberdade cristã nunca transforma a vontade humana em território neutro, no qual podemos escolher indiferentemente qualquer senhor. Libertação do pecado significa disponibilidade para Deus. Quando Israel foi retirado da casa da escravidão, não foi libertado para retornar ao faraó quando desejasse; tornou-se povo pertencente ao Deus que o resgatou (Êx 6.6-7). O movimento de Romanos seguirá direção semelhante: livres do pecado, os crentes serão apresentados como servos da justiça e de Deus (Rm 6.18,22).

O versículo também impede que a santificação seja construída sobre permanente terror de condenação. Uma pessoa pode obedecer exteriormente por medo e ainda conservar interiormente o desejo pelo antigo senhor. Paulo oferece um fundamento mais profundo: você morreu com Cristo; o processo que sustentava sua escravidão foi interrompido. A obediência nasce da nova condição. Por isso as exortações práticas virão depois das afirmações sobre aquilo que Deus realizou (Rm 6.11-13). A graça estabelece primeiro uma realidade e depois chama o cristão a viver em correspondência com ela.

Essa libertação possui ainda uma dimensão de identidade. Se o pecado já não pode formular sua antiga reivindicação sobre aquele que morreu com Cristo, nossos fracassos não têm autoridade para fornecer a definição final de quem somos. Paulo conhecia um passado que poderia ter sido usado como identidade permanente contra ele, pois perseguira a igreja de Deus (1Co 15.9-10); contudo, passou a interpretar sua existência pela graça que o alcançou. Não se trata de apagar a memória moral, mas de impedir que aquilo de que fomos libertados reivindique o direito de nos nomear para sempre.

A morte rompe, então, o vínculo que parecia inevitável. O pecado continua presente no mundo e procura atuar no corpo mortal, mas já não pode apresentar sua antiga servidão como destino necessário. O crente foi colocado numa nova relação por meio da morte de Cristo, e essa morte não permanece isolada. Quem morreu com ele está ligado ao mesmo Cristo que atravessou a morte e agora vive. É essa conexão que permite a Paulo passar, no versículo seguinte, da libertação do antigo senhor para a esperança de viver com o Ressuscitado (Rm 6.8).

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